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mı konuşmayalım. Sen bu evde altı ay hapis kalmak cezasına çarpılmış-

Neste ponto do trabalho, apresentaremos mais um exemplo de discurso de um líder religioso, espírita, acerca das religiões afro-brasileiras. A entrevista foi concebida em seu ambiente de trabalho, numa sala que ficou exclusiva para a entrevista. A mesma teve duração de cerca de 13 minutos. A população espírita, apesar de ser pequena, apenas 1,3% da população brasileira, tem a maior escolaridade do país, na relação religião x escolaridade (9,6 anos), bem como tem a maior faixa salarial do país, com média acima dos R$ 3.790,00 (IBGE, 2007), ou seja, está situada numa faixa de grande influência na sociedade brasileira.

As perguntas giravam em torno das mesmas para os demais entrevistados, não havendo nenhuma referência à questão racial. O primeiro exemplo mostra a construção da diferenciação religiosa, que serve de fundamento para um discurso racista.

ENT – Você acha que, neste sentido que você está falando, alguma religião exerce

um papel melhor que outra, do que outra religião?

ESP – Conforme, né, acredito que as pessoas são diferentes, os níveis direito de

conhecimento, de educação, a história de cada um, a história cultural, a história

4 Essa notícia foi veiculada em diversos jornais no Brasil. Pode ser visto em: http://jbonline.terra.com.br/pextra/2009/10/26/e261017893.asp; também em:

http://odia.terra.com.br/portal/rio/html/2009/10/livro_sobre_exu_causa_guerra_santa_em_escola_municipal _42866.html

educacional de cada um é diferente e as religiões ela tendem a, exatamente a atingir esses níveis de, de, de compreensão.

Não existe assim, por enquanto, na nossa é... evolução humana, uma religião que possa dizer: essa aqui é ideal para todos.

Acho que não tem, por enquanto não tem essa possibilidade, mas todas, eu acredito que tenham a, uma importância vital.

No fundo todas fazem parte de uma só, de uma só idéia, uma idéia mãe, né, embora regionalizada, né. Adequada aos níveis culturais, espirituais de cada, de cada região, de cada país, de cada civilização, né, de cada... enfim, de cada grupo social, né.

A partir de um discurso mais rebuscado, no sentido de utilizar palavras e termos de ordem espiritista, ainda sim, constrói o mesmo discurso de diferenciação. No entanto, apresenta uma unidade analítica que, nas palavras do entrevistado, não existe religião perfeita, há clara hierarquização “de cada região, de cada país, de cada civilização, né, de cada... enfim, de cada grupo social”. Ademais, essa hierarquização de cunho religioso e teológico, com argumentos e usos de termos como social, cultura, região fica, no entanto, ao nível individual. Um discurso que usa esses termos para a religiosidade da população, é embasado na forma de que cada pessoa tem sua religião de acordo com sua evolução espiritual. Não somente individualiza no meio de tantos argumentos linguísticos coletivos, como preconiza esta condição e induzindo que a religião espírita esteja no topo desta hierarquia.

Todavia, a construção contraditória do discurso teológico e de escolha individual suplanta a perspectiva acerca da cultura negra, a partir de suas expressões religiosas.

ENT – Então, neste sentido, por que você acha que há tanto preconceito em relação

ESP – Eu acredito que, primeiramente é a falta de conhecimento, né, do, da essência,

dessas religiões, dessa, dessa, digamos assim, dessa cultura, né.

A África sempre, principalmente nesses, na, na nossa educação brasileira, só agora está sendo resgatado né, a cultura afro está sendo respeitada, resgatada.

Está nos currículos. Graças a Deus que hoje a gente tem essa idéia mais clara de conhecer.

Mas sempre foi ligada com a história da pobreza, do negro, do, do, da coisa, é muito preconceito em relação à condição social.

Por ser de uma raça inferior, né, inferior, então tudo que vem de cultura, de costume, de tradição, realmente tem essa, essa dimensão, em detrimento exatamente a essa idéia dominante na nossa cultura que teve como principal influência a cultura européia, que teve realmente uma influência vital.

A cultura é, é que particularmente no Brasil a católica que predominou durante esse tempo todo, mas eu acho que é falta de conhecimento, Matheus, acho que quando a gente conhece, a gente vai entender que são tradições naturais, tradições originais, tradições que representam exatamente a história deles, do povo deles, da cultura(...)

O recorrente argumento da falta de conhecimento é relacionado como causa do preconceito em relação às religiões afro-brasileiras, é utilizado de forma repetida, mas que sempre coloca a cultura negra como desconhecida e a cultura européia conhecida e tendo uma verdadeira influência. Na verdade, o que há é o não reconhecimento da influência da cultura africana no Brasil. Reconhece-se como parte integrante da cultura européia, mas não da cultura negra. O termo conhecimento é esse elemento que intenciona justificar o racismo.

Da mesma forma, o entrevistado endossa que, se o grupo minoritário se deixasse assimilar ou se tornasse mais semelhante ao majoritário, culturalmente, diminuiria o

preconceito. No entanto, a história das religiões afro-brasileiras é de sincretismo, como não poderia deixar de ser, uma vez que foram obrigados a se relacionar de forma mais estreita com as tradições sociais e religiosas do branco europeu (Pierre Sanchis, 1995). O referido contato não fez diminuir o racismo, ao contrário, serviu também como forma de branquear os negros e construir toda a ideologia de valorização do mestiço, do moreno em detrimento do negro, sem colocá-las no mesmo nível que os brancos (Camino et al., 2001; Camino, da Silva & Machado, 2004).

A lógica discursiva é contraditória. Essa contradição faz parte da construção das relações, as quais estão entrelaçadas com a ideologia e o poder. A relação pobreza e negros está presente como mais uma forma de justificar o racismo. Essa justificativa é utilizada para dizer que no Brasil há mais preconceito em relação aos pobres, independentemente da cor e que as ações afirmativas não tem sentido de serem para negros (Camino et al., 2009; Lima Nunes, 2009).

O discurso explícito da inferioridade da raça negra ainda ecoa na sociedade atual. Mesmo diante de uma legislação que coíbe, punindo, ele ainda é presente. A cultura e a sociedade também são utilizadas como forma justificadora.

A construção discursiva, em que as diferenças teológicas parecem ser as únicas, se desenvolve para uma forma de discurso que tenta essencializar a inferioridade dos negros, utilizando a cultura como meio para isto. O uso de termos como naturais e originais, remontam ao primitivo, como se a cultura negra precisasse assimilar mais a cultura branca, para se desenvolver. Essa essencialização faz parte de um discurso histórico nos meandros intelectuais e científicos do Brasil (Motta, 2000 ; Camino, 2004).

Benzer Belgeler