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III. BÖLÜM

4.3. Ġkinci Alt Probleme ĠliĢkin Bulgular

4.3.1. Kontrol Grubundan Elde Edilen Bulgular

Chega a ser surpreendente a falta de informações sobre a vida de Carlota Carvalho. Assim como seu irmão, praticamente ela não falou sobre sua vida pessoal e, talvez, por ser mulher, em um tempo e espaço dominados por homens, também não se encontram muitas referências à autora por outros intelectuais. Seu destino é semelhante ao de sua própria obra, O sertão, que enfrentou muitas dificuldades para ser publicada no ano de 1924. Para isso, ela teve que deixar as terras maranhenses para materializar suas pretensões e, quando o fez, poucos em sua própria terra a celebraram. Apesar dos esforços e do êxito, a autora não conseguiu uma segunda edição, de modo que o livro caiu no esquecimento dos leitores maranhenses. Mas um dia, por acaso, foi encontrado um exemplar em um sebo no estado do Pará.551 Com isso, foi possível o lançamento da desejada segunda edição, ainda que 76 anos depois da primeira.

Desde então, a obra tornou-se bastante conhecida, não apenas no Maranhão, como também por pesquisadores do tema em diferentes regiões do país e até do exterior. Aos poucos, surgem pessoas interessadas na biografia da autora, mas a falta de fontes dificulta sobremaneira um trabalho com profundidade. Talvez ainda surja um conjunto de documentos que expresse, de maneira mais clara, o perfil desta importante letrada maranhense. Por enquanto, o que se tem são apenas indícios de uma vida recatada, mas não pouco produtiva, intelectualmente.

550

CARVALHO, Parsondas. A Silvio Romero... 2007, p. 120.

551

CARVALHO, Carlota. O sertão: subsídios para a história e a geografia do Brasil. 2 ed. Imperatriz, MA: Ética, 2000, p. 299.

Até mesmo informações básicas como local de nascimento e data não são palpáveis. Seu pai se tornou conhecido, pois tanto ela, quanto seu irmão Parsondas revelaram, em determinados momentos, sua existência. Contrariamente se dá com sua mãe, que, aparentemente, foi deliberadamente ocultada por motivos ainda não conhecidos. Por outro lado, na obra O sertão, Carlota relatou sua descendência mais distante, afirmou ser bisneta de uma francesa chamada Paula de Rochambeau, que teria vindo à Bahia em uma fuga da França, no início da década de 1790.552 A nobre francesa teria conhecido um português de nome José Marques de Carvalho, com o qual, mesmo sem um casamento religioso, tiveram três filhos. O matrimônio não teria ocorrido pela falta de nobreza do português e, em determinado momento, a francesa, “imbuída de preconceitos da nobreza”, abandonou o pai de seus filhos para se dedicar à vida de professora. José Marques, a conselho da própria ex- esposa que o abandonara, procurou outra companheira, então se casou com uma indígena de nome Messias, criada por uma família branca e rica. Esse é o resultado da descendência de Carlota Carvalho, abreviado por ela própria da seguinte maneira: “É assim que descendo de uma francesa inteligentíssima, possuidora de cultura intelectual [...]; de um português ignorante, mas dotado de boa índole, trabalhador e econômico, e de uma autóctone nervosa e quase intolerável”.553

Sobre a mãe, não há comentário, mas pode-se deduzir sua origem. De acordo com Pachêco Filho, a autora teria nascido na mesma cidade do irmão Parsondas, Riachão, por volta de 1866.554 Em determinado momento, ela afirma que seu pai teria trazido para casa uma menina da tribo Guajajara, de nome Sabina para servir de “aia” e esta teria sido, em suas palavras, fiel e dedicada.555 Isso pode indicar que a mãe de Carlota não esteve presente desde muito cedo na vida dos irmãos Carvalho, como o próprio Parsondas já teria afirmado. Sabe-se que seu pai trabalhou na abertura de uma estrada na região do Pindaré, o preço e a qualidade da estrada tiveram destaque no Dicionário Histórico-Geográfico do Maranhão, de César Marques.556 Carlota afirmou que o trabalho foi realizado em três meses e o caminho, de 60 léguas, que estava pronto no fim de agosto de 1866, foi entregue. Conta a autora que o serviço foi desempenhado apenas com a mão de obra dos indígenas Guajajara.557 Nesse contexto, não seria absurdo pensar que Carlota, assim como seus irmãos, fossem filhos de uma nativa dessa

552

CARVALHO, Carlota. O sertão... 2000, p. 271.

553

CARVALHO, Carlota. O sertão... 2000, p. 272.

554

PACHÊCO FILHO, Alan Kardec Gomes. Varando mundos... 2011, p. 65.

555

CARVALHO, Carlota. O sertão... 2000, p. 212.

556

MARQUES, César Augusto. Dicionário histórico-geográfico... 1870. 3 vol, p. 135.

557

nação. O pai deles mostrava ter boas relações com aqueles povos e talvez, por isso, nunca tenham mencionado a mãe em seus escritos. Não se tem nenhuma informação sobre o irmão Emídio de Carvalho, mas os traços físicos de Parsondas e de Carlota, com base em duas fotos disponíveis, indicam esse parentesco, que pode ser da bisavó, mas também da própria mãe, com a qual nunca teriam convivido.

Em relação à morte da sertaneja Carlota, diferentemente do irmão, que fazia parte de diversos grupos, de caráter político, literário e científico, não se conhece, até o momento, nenhuma menção a seu falecimento e, como resultado, o ano em que sua vida teve fim é desconhecido, assim como o próprio local. O professor João Renôr tem um palpite, que ela pode ter sido enterrada em alguma comunidade de negros, na região de Montes Altos, em que pertencia sua ex-escrava, depois fiel acompanhante. Para ele os laços entre as duas perdurou por toda a vida da autora e na aurora de seus dias, sem nenhum parente, teria ido para o convívio dos parentes de sua companheira. Porém, tudo permanece por descobrir sobre a vida desta mulher. Talvez não tenha vivido muito, após a perda do irmão, já que se encontram poucas evidências sobre ela na memória local. Só uma pesquisa mais profícua e sem preconceitos poderia revelar informações valiosas a esse respeito.

No que se refere à sua trajetória intelectual, podem ser elencados alguns elementos, para traçar um perfil condizente com sua própria obra. Em termos de formação acadêmica, parece claro que foi autodidata como o irmão, mas diferentemente dele, teve um caminho mais solitário. Ao que parece, não escrevia em jornais, nem participava de partidos políticos ou mesmo de grupos literários. Pelo menos ainda não há registros de que tenha participado. De acordo com alguns depoimentos colhidos por Dino, Carlota era uma mulher reservada, de pouca conversa com os vizinhos, mas talvez o principal motivo de sua falta de participação nos grupos fosse a própria ausência de espaço, praticamente inexistente para mulheres. Mesmo os intelectuais mais esclarecidos não fugiam muito à visão convencional de que o lugar das mulheres não era nas academias, jornais ou escolas. Como resultado disso, não se encontra atuação feminina nessas instituições maranhenses, dirigidas por homens.

Apesar disso, ainda muito jovem, a autora foi agraciada com uma das cadeiras de professora primária na comarca de Macapá, no ano de 1887, a outra ficou para seu irmão Emídio de Carvalho. Ela disse, com orgulho: “fomos os primeiros professores que o Brasil enviou à terra em que só tinham terçado armas, guerreiros portugueses, holandeses e ingleses

no século XVII”.558 Não se sabe o tempo que eles permaneceram nesse trabalho, mas durante sua estada, ela fez algumas descrições diversas sobre a região, as quais agregaria à sua futura obra.

Carlota vem de uma descendência de intelectuais autodidatas, poetas e agentes políticos de orientação liberal. Seu avô teria chegado à região de Pastos Bons em fuga das perseguições resultantes da Confederação do Equador. Ao chegar aos sertões maranhenses, conforme já dito aqui anteriormente, fundou uma escola para as crianças da região.559 Do famoso grupo “Rodas de Amigos”, que reunia os maiores intelectuais da Chapada, seu pai foi participante e, de acordo com Kardec, esse mesmo grupo teria, posteriormente, fundado o partido liberal do Maranhão, denominado Bem-te-vi.560

Sabe-se que em 1907 Carlota esteve no Rio de Janeiro,561 pode ter sido lá que teve acesso à maioria das obras que a influenciaram, inclusive as de caráter liberal republicanas. Ela tinha conhecimento de francês, como mostra em seu livro, com o uso de citação nessa língua e também em inglês.562 Demonstrava conhecer ainda diversos assuntos, diretamente abordados no O sertão - geografia, economia, política, entre outros temas - tão comuns entre os intelectuais de sua geração, que buscavam uma formação enciclopédica. O próprio estilo de sua obra, que busca uma síntese histórica da região sertaneja, vai ao encontro disso. Em outra viagem à capital federal, em 1919, já para a publicação do livro, fez um diário em que destacou algumas pessoas e acontecimentos. Entre os viajantes em relevo, estava um agricultor de influência socialista, Manoel Ribeiro da Cruz, que portava alguns livros a bordo. Seriam essas obras, de acordo com Carlota, A próxima revolução e O sindicalismo. Assim a autora se referiu ao colega de viagem: “abraçando essas ideias, ele é o primeiro a pôr em prática, no Maranhão, a socialização no trabalho, substituindo o salário, que humilha o trabalhador, pelo interesse no lucro, o que equipara os indivíduos”.563

Ir ao encontro de significa ir a favor, ir de encontro a

Benzer Belgeler