III. BÖLÜM
4.3. Ġkinci Alt Probleme ĠliĢkin Bulgular
4.3.2. Deney Grubundan Elde Edilen Bulgular
Ao se referir aos conflitos políticos no Brasil, ela comparou a ação de Duque de Caxias, que no Maranhão massacrou revoltosos e no Sul os anistiou. O movimento no sertão
558
CARVALHO, Carlota. O sertão... 2000, p. 225.
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CARVALHO, Carlota. O sertão... 2000, p. 111.
560
PACHÊCO FILHO, Alan Kardec Gomes. Varando mundos... 2011, p. 66.
561
CARVALHO, Carlota. O sertão... 2000, p. 262.
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CARVALHO, Carlota. O sertão... 2000, p. 278.
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maranhense, posteriormente conhecido por Balaiada, em alusão aos integrantes fabricantes de balaios, se iniciou na Vila da Manga, com a soltura de presos da cadeia pelo vaqueiro Raimundo Gomes Vieira. Carlota nomeou um dos tópicos do seu livro sobre o assunto por “fase heroica”,564 o que claramente denota sua simpatia pelo movimento e pelo partido Bem- te-vi, que esteve à frente da rebelião, composta por vaqueiros, agricultores, escravos, entre outros. Nesse sentido, o vaqueiro é visto como uma espécie de herói libertador dos sertões, conforme trecho seguinte: “Na memória dos vindouros, perdurará o exemplo. E naquele sertão, nas noites levosas, nos ruídos das tempestades, ao clarão fugaz dos relâmpagos, supõem ouvir o tropel do cavalo do destemido vaqueiro”.565
Ainda que seu pai tenha sido proprietário de escravos e ela mesma também o tivesse, ao menos quando professora no Amapá,566 disse, com certa convicção, que todos os homens são iguais, independentemente da raça e da condição social e, com isso, sugere que deveria a humanidade viver em harmonia.567 Se nos aspectos geográficos, por exemplo, o elo entre Carlota e Paula Ribeiro é direto e evidente, no que se refere à política, há um claro distanciamento, pelo próprio momento histórico de cada um, mesmo que não haja perda completa da ligação. É com o liberalismo inglês, implantado nas colônias da América do Norte, que a autora mais se identifica. No decorrer de sua narrativa, as referências, em sua maior parte, são no sentido de mostrar que nos Estados Unidos há um modelo político e social justo, com base na ciência, o que fazia daquela sociedade um exemplo para o mundo. Bem diferente do que aconteceu na América do Sul, com o “fracassado” modelo português de colonização, conforme ainda será abordado neste trabalho.
Com essa visão liberal, um pouco socialista, republicana, Carlota escreveu sua obra e, diferentemente de Parsondas, que foi mais um ativista que um intelectual, ela preenche melhor esse requisito no sentido mais profundo do termo. Do ponto de vista intelectual, seu irmão se dedicou ao conhecimento do sertão e à denúncia de crimes ocorridos por perseguições políticas no fim do século XIX e início do XX, com isso mostrava a necessidade da presença de um poder público eficiente na região. Ela, além do conhecimento sobre o sertão, em seus múltiplos aspectos, se propôs a reescrever a história do Maranhão sertanejo e, em parte, do Brasil. Percebe-se um esforço para se distanciar da narrativa ribeiriana ao negar a colonização portuguesa e tudo que ela trouxe. Um de seus intentos parece ser a
564
CARVALHO, Carlota. O sertão... 2000, p. 132.
565
CARVALHO, Carlota. O sertão... 2000, p. 120.
566
CARVALHO, Carlota. O sertão... 2000, p. 237.
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originalidade, mesmo assim, não conseguiu fugir a alguns aspectos pautados pelo militar português, conforme se verá.
Um de seus objetivos é dar visibilidade a grupos que comumente eram suprimidos das páginas dos livros de história naquele momento. Um exemplo disso é a própria Balaiada, em que ela pretendia reverter o protagonismo dos agentes, com ênfase não nas tropas do governo, com especial atenção a Duque de Caxias, mas nas camadas populares, da mesma maneira com que fez com alguns personagens da independência brasileira. Em alguma medida, pode-se dizer que ela conseguiu seu desígnio.
Apesar da tentativa de Sálvio Dino em atribuir a obra O sertão a Parsondas de Carvalho, há uma clara diferença estilística entre esse livro e os textos do irmão, pois Carlota tem um refinamento mais evidente. Em favor de sua autoria, além dos detalhes no diário de viagem e das muitas peculiaridades na abordagem, sua empreitada intelectual é mais expressiva ao propor uma nova leitura historiográfica para o Brasil e para o Maranhão. A metodologia também se diferencia, o irmão faz uso de autores, alguns estrangeiros, apenas para dar autoridade ao seu próprio discurso, sem propriamente dialogar com suas ideias ou conceitos. Carlota, apesar de também não ter formação acadêmica, vai além nesse aspecto, e trabalha em maior sintonia com as ideias, pois mostra mais profundidade intelectual em todo processo de escrita. Ainda que O sertão não seja uma obra historiográfica, no sentido mais estrito do termo, e sim um trabalho memorialístico refinado, isso não tira em nada seu mérito, nem a importância para a compreensão histórica do sertão maranhense.
Assim como os escritos ribeirianos e parsondianos dão foco, em alguma medida, aos aspectos econômicos, políticos, culturais e geográficos, não foi diferente com Carlota Carvalho. Sua narrativa sobre o sertão não deixou de apreciar, em medida diferente, esses aspectos. A economia, mesmo um assunto tangencial, entrou em sua análise e, de maneira geral, as abordagens são idênticas às de Paula Ribeiro, pois tem como base a pecuária, a agricultura e o comércio. De forma até previsível, a autora exaltou as qualidades da geografia para seu aproveitamento econômico. Citou Boa Vista do Tocantins, às margens do rio de mesmo nome, do lado goiano, mas povoada por maranhenses que, segundo a autora, era um lugar privilegiado pela natureza. No que diz respeito às condições naturais de clima, vegetação e hidrografia, seria um bom lugar para desenvolver atividades econômicas ligadas à criação de gado. Para somar a essas qualidades, a autora destacou ainda seus campos naturais para a pecuária, pois a qualidade dos pastos daquela região era, de acordo com ela,
inigualável, pois fazia com que os animais rapidamente melhorassem seu porte físico e saúde.568
Outra região a que ela deu relevo, foi Grajaú, com a rápida prosperidade do lugar. Suas vantagens se davam tanto pelo aspecto da criação de gado quanto pelo comércio. Nessa região, por via fluvial, iniciou-se o comércio entre o norte e o sul da capitania. Além disso, ressaltou Carlota, houve uma interligação política, pois pessoas fugiram de perseguições, na capital ou em outras regiões do Brasil.569 Esse fluxo de pessoas contribuiu para o desenvolvimento de uma produção agrícola e pecuária, e fez dessa região, no decorrer do tempo, uma das mais importantes do interior do Maranhão. Mesmo a cidade de Imperatriz, pela qual Carlota não mostrava nenhuma simpatia, tinha a virtude de ter um bom comércio, porque está situada à beira do Rio Tocantins. Ela descreveu essa cidade de uma maneira pouco agradável, em decorrência da grande quantidade de lama e mato. Para aumentar o infortúnio, havia pragas como carrapatos e muriçocas ou pernilongos. Ela, apesar disso, lembrou que seus habitantes eram bons.570
Não por acaso, as condições naturais privilegiadas fizeram dos sertões, de modo geral, um bom local para a criação de animais, bem como de produtos agrícolas, que abasteciam parte da própria região e chegava a outras regiões pelo comércio.571 Contudo, tal como fez Paula Ribeiro, Carlota Carvalho não apresentaria essas vantagens ofertadas pela natureza sem também apresentar alguns gargalos que impediam a capitania de ser uma das mais prósperas do Brasil. Um deles, era a própria mentalidade, herdada dos primeiros colonizadores. Da mesma forma que o militar português reclamava de uma falta de mentalidade mais “empreendedora” dos criadores de gado, ela o fez em outra circunstância. Na ocasião, citou, mais uma vez, a cidade de Imperatriz, em um momento específico: “Se outra fosse a nossa educação colonial, outra seria a orientação do governo municipal: menos impostos, maior escrúpulo, menos vexame no povo, maiores benefícios [...] teria calçado as ruas e calçado de pedra os 19 quilômetros de lama nesse áureo período”.572
Tal como fez Ribeiro, ao reclamar da falta de organização e empenho daqueles que estavam a serviço do Reino, para melhorar a região, ela falou de coisas simples que poderiam ser facilmente evitadas, com um mínimo de boa vontade. É o caso de uma estrada de ferro
568
CARVALHO, Carlota. O sertão... 2000, p. 87.
569
CARVALHO, Carlota. O sertão... 2000, p. 101.
570
CARVALHO, Carlota. O sertão... 2000, p. 167.
571
CARVALHO, Carlota. O sertão... 2000, p. 207.
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construída à margem do Itapecuru. Apesar do conhecido ciclo de enchentes do rio, lá colocaram a ferrovia, e todas as vezes que chegava o período das cheias, a estrada era interrompida. Como este exemplo, citou outros em que se gastava muito dinheiro em obras desnecessárias ou sobrevalorizadas, pois o interesse dos políticos, segundo ela, estava mais em se aproveitar do dinheiro público que levar benefício às populações sertanejas.
Como exemplo a ser seguido, citou uma estrada aberta por seu pai, que cobrou metade do preço e, mesmo assim, ao fim do trabalho, obteve lucro, pois teria recebido 14 mil contos de réis, com uma despesa inferior a 10 mil com o serviço.573 Para Carlota, acostumou-se a gastar dinheiro de forma desnecessária, e isso dificultava bastante o desenvolvimento da região. Para ela, o processo colonizador no Brasil criou hábitos negativos e, como resultado direto disso, não se criou um povo consciente de seus direitos, capaz de reivindicar ações coletivas em benefício do conjunto da sociedade.574 Nesse sentido, o que havia, por todos os lados, eram obras inacabadas ou que não visavam ao interesse coletivo, mas, especialmente, daqueles que estavam envolvidos no processo, para proveito próprio.
Como um sintoma dessa falta de vontade política, a autora lembra o potencial do Rio Tocantins e sua falta de aproveitamento adequado. Para ela, talvez o mais belo rio do mundo, além de ser um dos maiores, era impedido de ser uma rota de intenso comércio “para importação de mercadorias manufaturadas fora do país e para a exportação das riquezas naturais do vasto sertão de Goiás, Mato Grosso e Maranhão, geograficamente uno”.575 Por falta desse aproveitamento, a maior parte do comércio ou mesmo transporte de pessoas se dava em lombo de animais, o que resultava numa locomoção mais lenta e menos eficiente, além de cara.576 Tal reinvindicação, conforme se viu neste texto, aparece algumas vezes em Ribeiro, pois para ele os rios eram vitais para o desenvolvimento da região.
O resultado dessa prática não poderia ser outro, mas a questão de fundo, para Carlota, era o próprio mal da colonização em si. Ela teria deixado no Brasil uma cultura de vícios, com diferentes consequências negativas. A produção de gado abasteceria o mundo, afirma, se os primeiros colonizadores conhecessem processos científicos capazes de aperfeiçoar os processos produtivos, além disso, se fossem capazes de conservar a vegetação natural, cultivar os pastos, as nascentes dos rios e aperfeiçoar o processo de criação de animais.577 Não houve,
573
CARVALHO, Carlota. O sertão... 2000, p. 209.
574
CARVALHO, Carlota. O sertão... 2000, p. 156.
575
CARVALHO, Carlota. O sertão... 2000, p. 155.
576
CARVALHO, Carlota. O sertão... 2000, p. 156.
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para ela, a junção entre ciência e economia, que deram grandes impulsos às colônias do Norte. Nossos avós, como se referia aos primeiros conquistadores portugueses, “não eram espíritos cultos como os colonizadores da nova Inglaterra: não tinham noções teóricas de fisiocracia”.578 Tal mentalidade negativa estava impregnada nos políticos e, por isso, a região de Pastos Bons não prosperou economicamente como deveria, apesar do sucesso da criação de gado e agricultura. O êxito dos sertões não seria possível, no sentido mais estrito do termo, sem os benefícios da ciência ou do saber formal; em resumo, de uma consciência ilustrada, que pudesse fazer a região prosperar, com seus empreendimentos socioeconômicos. Carlota citou alguns exemplos negativos, provenientes da cultura local e, com isso, como fez Paula Ribeiro, tentou justificar o baixo desempenho econômico da região.
A autora citou uma povoação em que havia uns moradores provenientes do Ceará, muito trabalhadores, mas que, por falta de conhecimento, destruíram as matas desnecessariamente e com isso faziam secar as nascentes. Carlota afirmou que não havia dolo nas ações daqueles moradores, pois seria fruto de “crassa ignorância”.579 Não era diferente em outras regiões do Grajaú e Mearim, com um grande potencial para a criação de gado e produção agrícola. Para ela, as causas de problemas que resultavam na falta de aproveitamento das terras provinham especialmente do seguinte motivo: “Faltas de instrução literária, sem noção de física, botânica, biologia e fisiologia vegetal, os colonizadores e população deles originada não conservam as boas e abundantes pastagens naturais”.580 Em síntese, reclamava, como fez o militar português, da falta de “luz” de uma parte desses habitantes, pois era preciso ter uma mentalidade “moderna”.
Nessa linha, Carlota citou exemplos que reforçavam sua afirmação, a de que o fazendeiro maranhense era indiferente às mudanças negativas no meio ambiente. Os pastos se perdiam, outras plantas não bem-vindas à criação tomavam seu lugar, e nenhuma providência significativa era tomada. Da mesma maneira se dava com o rebanho, pois não havia intenções de melhoramento sistemático das criações, tudo se dava ao capricho da natureza. Por sorte, apesar de todo descaso, pela falta de conhecimento, os sertões ainda conseguiam apresentar um bom desempenho no âmbito regional. O que ela tentou mostrar foi que se houvesse uma produção assistida por meios adequados, com trabalho técnico, empreendedor, a região seria mais que um destaque regional, certamente se alargaria por todo o país e, talvez, fora dele.581
578
CARVALHO, Carlota. O sertão... 2000, p. 208.
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CARVALHO, Carlota. O sertão... 2000, p. 112.
580
CARVALHO, Carlota. O sertão... 2000, p. 154.
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