A teoria da dupla-linguagem do vocabulário científico define alguns dos elementos da teoria carnapiana necessários para entendermos como a denominada protoversão da incomensurabilidade em Feyerabend decorre da rejeição da epistemologia neopositivista. O cerne dessa contestação, esquematizada no artigo de 1958, consiste na recusa da estabilidade e fixidez do significado dos termos observacionais e sua função de suporte dos conceitos teóricos. Vimos, em 1.2.1 que o “método de Carnap” dispõe a linguagem científica em um modelo segundo o qual as “regras de correspondência” conectam os termos teóricos com o nível observacional do vocabulário científico. A implicação contida nessa visão concerne à “completude interpretativa” do nível observacional do vocabulário científico. “[S]egue-se que a descrição mais sofisticada de Carnap”, Feyerabend abrevia, “baseia-se em uma linguagem observacional cuja interpretação foi introduzida independentemente do estado da ‘super- estrutura’ teórica” (PKF/PP1, p. 20, n. 7). Isto é, a estabilidade do significado dos enunciados observacionais é um pressuposto da visão empirista da teoria da dupla-linguagem. Nessa concepção, o nível observacional do vocabulário científico, sempre estável e assente com
relação às mudanças de teorias, funcionaria como plataforma segura e fiável para a comparação do apoio empírico de teorias sucessivas concorrentes.
Na ótica de Feyerabend, a dicotomia neopositivista entre enunciados observacionais e teóricos está comprometida com a tese da estabilidade. A admissão de que “as interpretações [dos termos observacionais] não dependem do estado de nosso conhecimento teórico” (PKF/PP1, p. 20). No entanto, conforme diz Silva (1996, p. 162), o austríaco rejeitou a opinião empirista assentada na existência de proposições cujo significado deriva da experiência imediata, sendo, então, alheios aos contextos teóricos nos quais ocorrem. A
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rejeição feyerabendiana mais interessante da dicotomia observacional/teórico se vale das diferentes maneiras teóricas de entender as frequências sonoras. Se, sob uma interpretação (I1), os predicados descritivos de efeitos sonoros em uma linguagem L são considerados como
propriedades intrínsecas da fonte, então tais predicados são teoricamente invariáveis. Contudo, se admitirmos uma teoria que distingue entre a “frequência percebida” e a “frequência real” das ondas sonoras – como o efeito Doppler leva a considerar –, logo surge uma outra interpretação (I2) dos ruídos. Os predicados se convertem em designadores
relacionais entre o objeto e o observador. “Ora, isso significa”, Feyerabend conclui, “que
adotar a teoria precedente [I2] conduz a uma interpretação [da linguagem observacional] de L
que é diferente daquela inicialmente assumida [I1]”. Ou seja, “esta nova [interpretação dos
predicados observacionais] não é nem completa nem definida” (PKF/PP1, p. 29-30). Portanto, as proposições protocolares alteram quando as teorias utilizadas para explicar os fenômenos estabelecem novos modos de organização destes. O vocabulário observacional não possui qualquer “completude interpretativa” que o habilite a trabalhar como base de significação dos conceitos teóricos. Afinal, os termos observacionais também são termos teóricos.
A protoversão da incomensurabilidade em Feyerabend deriva do reconhecimento do primado das teorias em relação à descrição da experiência. Em 1958, o austríaco formulou sua rejeição à dicotomia observacional/teórico sublinhando, através da Tese I, que “a
interpretação de uma linguagem observacional é determinada pelas teorias que usamos para explicar o que observamos e muda tão logo aquelas teorias mudam” (PKF/PP1, p. 31). Assim, é improcedente considerar as proposições protocolares o fundamento da medição do sucesso empírico das teorias sucessivas porque também as sentenças de observação refletem situações teóricas. Não há uma linguagem fenomênica a qual seja estável ao longo do avanço teórico e que atue como plataforma comparativa dos diferentes sistemas científicos. Diante disso, Oberheim (2005, p. 375) reforçou que a proposição da teórico-impregnação do
vocabulário observacional encenada na Tese I de 1958 preludia a proposta da incomensurabilidade teórica. “Com efeito”, o estudioso frisou, “a Tese I é, inequivocamente, uma versão prematura da tese da incomensurabilidade”.
A Tese I combate a dicotomia empirista presente na teoria da linguagem-dual do vocabulário científico. Porém, parece-nos inadvertido e precipitado concluir que teorias cujas sentenças observacionais foram reinterpretadas ao longo do desenvolvimento científico são incomensuráveis entre si.17 Há ao menos três motivos, espalhados pela obra do filósofo, para
17Esse movimento aparece em Oberheim (2005, p. 375), que escreve: “Em seu [artigo de 1958] Feyerabend
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desconfiar dessa explicação – a qual, como vimos em 1.1, foi promovida pelo próprio autor do Contra o Método (PKF/CM3, p. 278). Inicialmente, Feyerabend não menciona as mudanças históricas dentre os elementos que derivam da Tese I. Em 1958, ele pretende superar a distinção entre as duas camadas da linguagem da ciência, não discutir a incompatibilidade semântica dos vocabulários de teorias sucessivas: “[A] Tese I”, o anarquista escreve, “implica que os termos de uma teoria e os termos de uma linguagem observacional usada para testá-la originam exatamente os mesmos problemas lógicos (ontológicos)”. E conclui, enfatizando: “Não existe um ‘problema especial das entidades
teóricas’” (PKF/PP1, p. 32). Em segundo plano, no ensaio que abre o primeiro volume de seus Escritos Filosóficos, lançado em 1981, Feyerabend reconheceu que a Tese I poderia estar “equivocada” à luz da prática científica. “Claro, argumentos filosóficos [como a Tese I] não podem ser evitados; entretanto, eles precisam passar pelo teste da prática científica”. “Eles são bem-vindos se auxiliam na prática”, prossegue a reflexão, “[mas] devem ser despejados caso se distanciem dela ou a desvirtuem para direções indesejadas” (PKF/PP1, p. 15-16). Enfim, na década de 1990, o austríaco considerou “ingênua” sua posição inicial que negava completamente a significação dos dados sensoriais. No Matando o Tempo ele acenou para uma posição mais moderada, embora não a tenha elaborado. “[O] significado”, o autor redigiu, “emerge no curso [de nossas ações, pensamentos, observações] e pode estabilizar-se a um ponto em que a suposição de uma localização começa a fazer sentido” (PKF/MT, p. 126). Portanto, tais dificuldades complicam o acesso à tese da incomensurabilidade em Feyerabend através da via aberta pela protoversão da ideia. Com efeito, preferimos não assentir à citada reivindicação de paternidade feita por Feyerabend, o que, assim como ocorreu em 1.1.3, obriga- nos a ter cautela com alguns dos argumentos de Oberheim (2005).
1.3 A IDEIA DE “TEÓRICO-IMPREGNAÇÃO” DAS SENTENÇAS DE OBSERVAÇÃO E