2.1. Koçluk Kavramının Açıklanması
2.1.9. Koçluğa Yönelik Bilimsel Araştırmalar
Diante dos fatos, uma série de medidas foram tomadas como reuniões com os catadores, parcerias com escolas, empresas e organização de grupo de pesquisa através de projetos da UNESP - Presidente Prudente, para que este grupo de trabalhadores fossem organizados em grupos cooperados e que pudessem sair do lixão alcançando
melhorias na qualidade de vida. Não só estes, mas em outros municípios medidas de retirada de catadores começaram a ocorrer9.
Neste processo de retirada do local de identidade desses trabalhadores, o lixão de Presidente Prudente, inúmeras características em relação ao grupo foram sendo detectadas, como por exemplo, o sentimento de pertencimento ao local, aos laços de
amizades criados, a “liberdade” de horário para começarem a trabalhar, e o fato de não
terem confiança nas propostas feitas pelo grupo de pesquisadores da UNESP- Presidente Prudente para que saíssem do lixão e se organizassem em cooperativa.
O processo de exclusão vivido pelos trabalhadores do lixão, não se dá apenas no econômico, mas também nos aspectos subjetivos. Está contido a exclusão simbólica, a pobreza e o desemprego são partes do processo, ou seja, há uma degradação das representações sociais, estas pessoas perdem o sentimento de pertencimento.
Enfim, a exclusão não se desenvolve de maneira visível ou materializável por uma ruptura do laço social, isto é, por atitudes e comportamentos de evitamento, de desconfiança, de rejeição ou de ódio. Porque a exclusão assume também a forma mais dissimulada de uma ruptura do laço simbólico: isto é, do vínculo de adesão que liga os actores sociais a valores ou, a mais simplesmente, uma ruptura que procede a quebra de sentido (XIBERRAS, 1993, p33).
Neste cenário, inúmeros desafios foram surgindo e em um processo de ensino e aprendizagem se concretizou a organização de um grupo em cooperativa enquanto outro grupo ficou trabalhando no lixão.
Esta ruptura do grupo se deu exatamente pela forma que entendiam o lixão, ou seja, este lugar era o local de trabalho, era o local de pertencimento destes trabalhadores, era ali que construíram o seu território, o seu modo de “ganhar a vida”, de sustento da família; deixar este local trazia desconfiança já que o ganho econômico por mais degradante que fosse era garantido, ao contrário da proposta da organização em trabalho cooperativo.
Neste momento surge a dicotomia entre o grupo que saia do lixão e entendia que haveria melhorias fora daquele território construído através de anos de convívio, com o outro grupo que entendia que pertencia àquele lugar, que a saída não traria bons resultados, permanecendo no lixão.
Nesta trama, foram surgindo perguntas sobre o porquê um grupo se propôs a tentar o novo e sair do lixão, enquanto outro continuava nas mesmas condições. Será
9 Destas ações é criado o Movimento Nacional dos Catadores (as) de Materiais Recicláveis (MNCR) que
que realmente a proposta de uma organização cooperativa era a melhor maneira de melhorias na qualidade de vida desses trabalhadores?
No desenrolar dos fatos percebeu-se que o valor simbólico do lixão, e o processo de territorialização dos trabalhadores criaram laços de poder, de status, de reconhecimento entre o grupo, pois, saindo de lá estes homens e mulheres eram apenas rotulados como pobres, lixeiros. Sair do lixão significava perder tudo o que fora construído, e começar uma nova forma de organização, o que poderia ser incerto.
No lixão, estes mesmos homens e mulheres tinham nome, valor, estavam no meio de iguais, mesmo com suas diferenças. O processo de exclusão é dialético neste ponto já que por serem excluídos, criam locais alternativos nos quais se incluem mesmo que de maneira marginal.
Neste processo de mudanças para os trabalhadores, há uma ruptura com o modo de trabalho que tinham no lixão, é por isso que a constituição de uma Cooperativa é complexa, contraditória e emblemática.
Nesse momento, aqueles que saem do lixão, se propõem a adentrar em um processo de outros valores, na construção de uma identidade ainda não conhecida por eles, já que não partiu do grupo de catadores a iniciativa de saída do lixão e criação de uma cooperativa, essa ideia saiu de outro grupo externo a eles. Essa mudança aconteceu de maneira rápida10, o que causou os sentimentos de insegurança e medo em deixar este
“território” já conhecido.
Essa característica apontada, é um ponto importante na caracterização das ações gestionárias autônomas da cooperativa. É necessário que os catadores através de reuniões, cursos de formação tenham sempre a ideia de que são eles que deverão organizar o trabalho na cooperativa, e que os grupos externos deverão realizar o papel de mediadores e não de gerentes.
Nesse processo de transformações do grupo, segundo Castells (1999, p.24), há distinções na construção de identidades, das quais se acredita que possam elucidar as fases de mudança deste grupo social, podendo ser classificada como “identidade de
resistência” ao grupo do lixão, e “identidade de projeto” ao grupo que se propõe a
organizar a cooperativa, podendo ser assim definidas,
Identidade de resistência: criadas por atores que se encontram em posições/condições desvalorizadas e/ou estigmatizadas pela lógica da dominação, construindo, assim, trincheiras de resistência e sobrevivência
10
com base em princípios diferentes dos que permeiam as instituições da sociedade, ou mesmo opostos a estes últimos (CALHON, 1994, p.17). Identidade de projeto: quando os atores sociais, utilizando-se de qualquer tipo de material cultural ao seu alcance, constroem uma nova identidade capaz de redefinir sua posição na sociedade e, ao fazê-lo, de buscar a transformação de toda a estrutura social [...] (CASTELLS 1999, p.24).
Tendo em vista as peculiaridades do grupo analisado, estes trabalhadores nesta perspectiva de mudança fazem com que antes o que era negativo do ponto de vista social seja visto agora como ponto positivo e primordial dentro de uma estrutura governamental ambientalista que é a organização dos municípios para programas de coleta seletiva, o trabalho cooperativo de ex-catadores de lixões, e o incentivo a coleta seletiva e reciclagem.
Antes, esses mesmos homens e mulheres eram tidos como uma “ameaça” à sociedade pelo estigma já discutido, agora, há uma mudança nos “valores” agregados, são considerados parte fundamental na cadeia ambiental, pois são eles, que através da coleta seletiva recolhem e devolvem para o circuito de produção os materiais que antes seriam jogados sem nenhum valor pelos cidadãos. Além desse aspecto, há a mudança na
cultura do “estragou, jogou fora” (Rodrigues, 1998), agora, através de ações educativas
em escolas, associações de bairro, esses trabalhadores são exemplo de transformação e superação.
Essa identidade ainda em processo de criação pelos catadores de materiais recicláveis gerou impactos em toda a análise e organização da cooperativa.Deste modo, em um esforço teórico-metodológico, e numa tentativa de um olhar científico sobre as representações vivenciadas através dos trabalhos de campo no lixão, e no acompanhamento de reuniões com os catadores percebeu-se que as dificuldades na organização e compreensão destes trabalhadores no que confere o trabalho cooperativo se dão pela falta de conhecimento destes nos princípios que se baseiam essa modalidade, e que podem ser autogestionários, ou seja, não precisam ter um patrão, e que como grupos devem tomar decisões que beneficiarão a todos. Estes exemplos são resultados de anos de exploração no qual eram empregados, além de viverem sob a égide assistencialista, e pela exclusão dentro do mercado de trabalho formal.
A pobreza é um comparativo, e sua qualidade relativa aos outros gira em torno da desigualdade social. Esta não é uma consequência de sua cultura, mas o resultado de políticas públicas que provocam uma real privação material e uma real exclusão dos pobres nos campos ocupacional, educacional e político (ZALUAR, 2000, p. 41).
Dessa forma, este processo de debate e entendimento do grupo através da proposta de saída do lixão de Presidente Prudente gerou conflitos e estes não cessariam pela imposição e sim pela compreensão das melhorias desta mudança. É na construção da ideia de cooperativismo entre este grupo e não de assistencialismo que se deu as primeiras compreensões sobre as dificuldades de organização. Acredita-se que esta análise responda a questão da baixa adesão ao processo de saída do lixão11.
Neste percurso, devido a fatores econômicos, e de cunho científico na proposta da criação da cooperativa o grupo que propôs se organizar em cooperativa teve maior apoio do poder municipal, e de outras parcerias. Os outros trabalhadores ficaram no lixão, vivendo nas mesmas condições de insalubridade e de precarização do trabalho.
O poder público municipal, assim como em tantos outros municípios brasileiros sempre tratou os catadores do lixão como um grande e penoso problema. Em 2010 o poder público local retirou os trabalhadores catadores do lixão devido a inúmeras autuações que recebeu da Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (CETESB) em função da gestão inadequada e da presença desses trabalhadores em local impróprio.
Através de relatos dos catadores e de funcionários da Prefeitura Municipal que trabalhavam no lixão, a polícia foi chamada, e os catadores que se recusavam a sair do lixão foram reprimidos. A promessa dada pelo poder municipal foi que através de um cadastro feito pela secretaria de assistência social receberiam um salário mínimo (R$540,00) durante seis meses além de frequentarem cursos profissionalizantes, casos
contrários perderiam a “Bolsa Lixão”, nome dado por eles ao recurso assistencialista da
prefeitura Os cursos foram escolhidos sem nenhuma consulta junto aos trabalhadores, gerando um quadro de total domínio do Estado sobre estes.
Colocada fora da trama das relações sociais e esvaziada de sentido moral, a pobreza escapa ao espaço, da ação política, sendo relegada ao universo assistencialista da caridade – que protege os que estarão fora da cidadania, mas cidadania de fato não lhes confere [...] De indício de um atraso a ser superado, algum dia, pelas forças do progresso, a pobreza passa a ser uma cifra de nossa própria modernidade, incompleta, defeituosa e, mais recentemente, atrelada às transformações violentas da globalização (TELLES, 2001, p.33).
Em contraponto, o grupo analisado que se propôs a se organizar em cooperativa passou por inúmeros processos, desde as reuniões para discussão de assuntos sobre empreendimentos solidários, propostas de locais de inserção de coleta seletiva, entendimento sobre o novo trabalho de coleta, separação do material e sua venda,
11 O número de catadores que saíram no ano de 2000 do lixão de Presidente Prudente foram 45, enquanto
trabalhos de campo para conhecerem cooperativas em outros municípios, aulas de empreendedorismo solidário, dentre outros. Depois de dois anos de luta a Cooperativa foi fundada no ano de 2002, composta por 45 cooperados. A mesma existe até hoje, com o nome de Cooperativa de Trabalhadores de Materiais Recicláveis de Presidente Prudente - Cooperlix, e será analisada no capítulo IV12.