• Sonuç bulunamadı

Também a partir dos professores emerge outro caminho de explicação das situações de bullying na escola: o tipo de vínculo que crianças e adolescentes estabelecem na contemporaneidade. Não só nas oficinas, mas nos momentos em que conversávamos informalmente na escola e em que estivemos presentes em reuniões pedagógicas, esses profissionais relatavam-nos que vêm percebendo que os vínculos entre as crianças e os adolescentes na escola estariam configurados de um modo diferente do que supostamente se via em tempos atrás. “As amizades de hoje entre eles não são mais aquela amizade que a gente tinha quanto tava na escola. É mais descartável, é mais pelo oportunismo e pelo medo”, disse uma docente, em conversa na sala dos professores, depois de uma tarde de aula, enquanto comentava um entrevero entre duas estudantes de sua sala, naquele dia. “Hoje em dia, as amizades deles são só com aquele grupinho ali deles. É mais frágil. Se não for daquele grupinho ali parecido, não é amigo. É inimigo”, complementou a outra professora que participava da conversa, enquanto se arrumava para ir embora.

Ao longo de nossa pesquisa-intervenção, especialmente no acompanhamento das interações escolares nas salas, nos intervalos, nas entradas e saídas da escola, chamou-nos atenção também que, por vezes, naquele cotidiano, determinadas configurações dos vínculos entre os estudantes refletiam relações de dominação e rivalização entre pares, funcionando,

assim, como sustentáculo para práticas violentas designadas, hodiernamente, como bullying. Pensamos ser importante problematizar esses vínculos em termos da ética dessas relações e das políticas de identidade e diferença aí implicadas.

Dentre os casos que pudemos entrar em contato, destacamos o seguinte trecho de um diálogo que tivemos com dois alunos (que aqui serão chamados de Raul e Mariano), ambos de 12 anos, no horário da saída da escola. Nesse diálogo, podemos ter sinalizações de como determinados vínculos entre os segmentos infantojuvenis na escola refletem acordos tácitos pautados por relações de dominação e objetificação do outro na relação entre pares e pelo medo de fazer frente a essas relações, configuração essa que sustenta, de algum modo, práticas violentas no cotidiano escolar:

Raul: Não vejo, assim, coisa de bullying acontecendo entre a gente, não. Aqui tem muita brincadeira, piada normal. Só isso mesmo...

Pesquisador: E o que tu tá chamando assim de brincadeira normal?

Raul: Ah, tipo, pegar um pra cristo na sala... ficar de marcação com ela no recreio pra ver ela doida até pedir pra parar... Coisa normal da gente. Aquela implicância, né?

(Risos)

Pesquisador: E você, Mariano? Quando fala em bullying, o que vem na tua cabeça? Mariano: Eu até vejo que é bullying, mas às vezes acho que é mais pra brincar. Os meninos fazem as brincadeiras pra ver se a pessoa se irrita, assim. Comigo sempre acontece, tipo, ficam intimando, me chamando de nome direto, mas aí diz: “ah, tava brincando só. Tu é que fica com raiva por besteira”.

Pesquisador: E o que você geralmente faz nessas horas?

Mariano: Aí fica aquela coisa, né, de você tem que relevar porque os meninos são meus amigos, né. A pessoa faz para parecer engraçada, sabe? Porque é amigo. Eu desculpo.

Pesquisador: Tipo, como as pessoas que fazem isso são tuas amigas você acaba cedendo e deixando pra lá, é isso?

Mariano: É. Por que, assim, aí eu fico naquela... Não gosto daquelas chacota, daquelas brincadeirinhas, porque é meio irritante, mas também fico, tipo, com receio de a pessoa deixar de ser minha amiga, entendeu?

Pesquisador: Mas e se a pessoa que fizesse esse tipo de coisa com você não fosse sua amiga?

Mariano: Ah, sei lá, é diferente. Ai eu entregaria ele para direção. Aqui tem muito disso, não é só comigo, não. Na minha sala, muita gente faz que nem eu. Pra não perder o amigo e ser chamada de estressada, deixa pra lá.

Questão semelhante veio à tona na terceira oficina com os estudantes, a partir do relato de Laura, estudante de 13 anos, que diz não reagir diante de situações que ela identifica

como bullying, como xingamentos sistemáticos por conta de sua orientação sexual. Laura relata-nos certa desilusão em relação às transformações das amizades para que os comportamentos homofóbicos sessem.

Pesquisador: Assim, eu vendo você colocar essa questão de como é difícil conviver com essas coisas, com essas “brincadeiras”, e ao mesmo tempo manter a amizade. Mas num teria como tentar acabar com essas coisas que te fazem mal e ao mesmo tempo continuar a amizade? Tipo, conversar com o colega pra não fazer mais isso? Porque, assim, quando eu, pelo menos, penso, sei lá, numa relação com amigo... eu acho que tem aquilo de que com ele você sente confiança, sente que ali você tá protegido... Ou não?

Laura: Ah, num sei, acho que não. Tem vezes que num é nem que a pessoa escolhe deixar pra lá. É que às vezes acontece tanto essas agressões que você pensa que não dá pra combater, que não dá pra conseguir.

No que diz respeito à problematização ética das relações entre pares na escola, outro ponto importante que o acompanhamento dos fluxos na escola nos fez atinar foi que a aproximação entre iguais é a tónica da formação de muitas grupalidades naquele território escolar, sendo muitas vezes encarada como “normal” pelos estudantes a postura de só se relacionar com quem se parece. “Claro que eu não vou ficar conversando com aquela pessoa que eu não gosto. Eu vou conversar com aquela pessoa que se parece comigo”, disse Iago, um dos alunos do quarto ano da manhã, com quem tivemos a oportunidade de conversar sobre bullying, antes de começar uma das manhãs de aula.

Isso pode ser visto de maneira mais escancarada na frequente rivalização entre alunos de turmas diferentes. Tais rivalizações são reconhecidas por alguns estudantes e profissionais como um aspecto que desencadeia situações de intimidação, perseguição e exclusão que eles próprios reconhecem como bullying.

Ora, tanto as conversas com os professores quanto os momentos com os estudantes foram produzindo intervenção em nós, instigando-nos a pensar em aspectos para os quais até então não havíamos atinado no tocante ao bullying, dentre os quais o seguinte: os vínculos entre pares naquele território escolar que figuravam como sustentáculos às práticas violentas se estabeleciam a partir de que política de identidade e diferença?

Como apontam Menezes, Arcoverde e Libardi (2008, p. 206),

Se por um lado as relações de amizade revelam-se como fonte de apoio instrumental para resolução de problemas práticos [...], por ocorrerem entre iguais desencadeia uma restrição das possibilidades de experimentar diferentes formas de convivência e alterização

A esse respeito, na quarta oficina com estudantes, alguns relataram que as situações de bullying aconteciam mais nos intervalos, e não na sala, envolvendo estudantes de turmas diferentes, por conta das rivalidades entre alguns estudantes.

Pesquisador: O que vocês tão chamando aí de bullying acontece mais aonde? Na sala ou em outro lugar?

Maurício: Os meninos agridem mais assim o pessoal da outra turma. Pesquisador: Por que rola isso com outra turma?

Maurício: Ah, porque o povo da outra turma é muito diferente. Em tudo, sabe? Pesquisador: Diferente como assim?

Mauro: Ah, tipo: muito criança, nas piadas nada a ver, sei lá, que num têm graça pra gente. Só eles é que acham graça das coisas deles.

Valdiney: É porque, assim, a gente acha melhor ficar só os meninos da nossa turma. Aí quando eles vêm a gente num se entende... num combina, entende? Então, rola muito essas coisas de marcar o povo de lá. Eles botam uns apelido que num têm nada a ver na gente... aí fica só martelando naquilo. Aí a gente se defende.

Pesquisador: Você falou aí que vocês se defendem... Mas se defendem de que jeito? Mauro: A gente bota apelido neles também... Tipo a gente desconta na mesma moeda.

Maria: Aí fica tudo do mesmo jeito. Eles botam apelido nos menino daqui. Os daqui bota nos menino de lá... Aí ninguém se entende. Aí fica aquela tensão nos quintos ano. Aí os meninos daqui fica só entre eles. Num se misturam com ninguém. Pesquisador: Vocês concordam, meninos?

Valdiney: É... tipo a gente não se sente mesmo muito legal com os meninos das outras turmas, não. Vou nem mentir. Eles têm o grupo deles lá também e num se dão bem com a gente também, ora mais... A quinta B tem a turma dela... A quinta C tem a turma dela... A quinta A tem a dela... A quinta D tem a dela...

Pesquisador: Mas vocês acham que pode ser de outro jeito aqui na escola?

Maurício: Ah, num sei. É que nem na rua... Lá na rua a gente também tem um jeito... E num se dá muito bem com os meninos da outra rua... Outro dia teve briga também lá por causa dessa inimizade...

Em um dos diálogos que tivemos ao longo desse percurso de nossas observações na escola, um dos adolescentes, Acrísio, de 13 anos, relatou-nos que as relações entre os pares na escola têm sido cada vez mais competitivas. “Ser violento com o outro, fazer bullying com ele, é pra mostrar que a gente tá por cima daquela pessoa”, disse-nos ele.

Certamente é necessário discutir em qual sociedade e em qual escola o bullying vem sendo produzido, bem como que infância e que adolescência é essa que têm protagonizado esse tipo de situação.

A produção de subjetividades configuradas cada vez mais narcisicamente é um dos efeitos dos processos contemporâneos, cujo ethos homogeneizante pode ser exemplificado pelos estilos de vida ligados ao signo do consumo. Daí decorre que a vinculação com a alteridade fragiliza-se, sendo constante a evitação do contato com os outros. Como aponta Antunes (2010, p. 199), ao discutir narcisismo e a sociedade do consumo, “a

questão presente na atualidade é que as imagens, vinculadas às mercadorias, hierarquizam e diferenciam os indivíduos, baseando-se na sua destruição”.

Não soa exagero, então, pensarmos que episódios de violência entre pares codificados como bullying hoje sejam uma das possíveis expressões narcísicas de nossa sociedade contemporânea. Assim, as atitudes aparentemente sem fundamento de fazer mal ao outro, por meio de intimidações, xingamentos, zoações e exclusões, expressam a preferência por relações de espelhismo (MENEZES, ARCOVERDE, LIBARDI, 2008) e um mal-estar no encontro com outro.

Algumas formas de violência comumente associadas ao bullying, como xingamentos, intimidação e apelidação sistemáticas, sem motivos aparentes, para fins de divertimento nos que lançam mão desse tipo de comportamento, são considerados, nessa perspectiva defendida por Antunes (2010), como forma de diminuir a permeabilidade ao outro, caricaturando-o. Dialogando com Ortega (2002), essas formas de relacionamento entre os pares expressam justamente um modelo de relações de amizade que ganhou corpo na Modernidade e se notabiliza ainda mais a partir do século XX, como uma expressão de um processo de intimização das relações, cujo efeito é a decomposição do espaço público como locus de diferença e pluralidade, à proporção que maximiza o estabelecimento de relações entre idênticos.

À medida que essas situações apareciam nas oficinas, procurávamos suscitar problematizações a respeito das formas de inclusão e exclusão imanentes a esse estilo de sociabilidade caracterizado pela lógica do afastamento de quem corporeifica o estranho ou o desconhecido. Pensamos que esses momentos foram produzindo desnaturalizações e bifurcações nos participantes, levando-os a reconhecer situações em que experimentaram outros modos de relação com seus pares na escola. Redundou daí que um dos estudantes, naquela oficina, relatou que vinha procurando fazer amizades fora dos grupos de sua sala.

Pesquisador: Acontece esse lance com todos vocês, pessoal, de ter problema assim com o povo de outra turma? Vocês recordam de já terem experimentado conviver com outras pessoas que não são aqueles amigos que vocês convivem mais?

Alisson: Eu agora tô lembrando que eu tô tentando fazer amizade com o povo de outra sala, que eu ainda não conheço direito.

Pesquisador: E tá sendo bom, assim, tentar conhecer outro pessoal?

Alisson: Tá, sim. Comigo não acontece, não... de ficar com problema com outra turma. Acho que não... Não tem nenhuma coisa contra o pessoal do outro quinto ou do quarto... Teve até um ensaio lá de um grupo aqui do colégio que eu tava e que tava muita gente lá que num era da minha turma. E foi legal. Claro que o povo do quinto tem um grupo já formado lá... É normal. Mas isso num quer... isso não quer dizer que seja assim... “Ah, não falo com ele”. “Ah, foi marcar ele alí porque ele não

é da minha turma”. Às vezes é tipo como se muitas vezes a gente fosse meio fechado...Tipo: “ah, a gente se basta”. Nesse ensaio aí eu me cheguei pra perto de um menino lá da outra turma e ele mora lá perto da minha rua... E a gente se dá bem... É um amigo que eu fiz aqui na escola esse ano. Um dia desses a gente até brincou de bola lá na rua depois disso.

Pesquisador: Ele é da tua rua, mas tu fez amizade com ele aqui na escola?

Alisson: É. E ele num é nem da minha turma. Fui eu que fui lá. Aí depois foi que a gente virou amigo da rua.

Esses aspectos produziram em nós a ideia de que, se se quer fazer frente às situações de violência entre pares hoje reconhecidas como bullying, talvez isso passe por enfrentar o desafio de fomentar vínculos que se aproximam de uma “amizade ético-política” (MENEZES, 2005). Estes vínculos se pautariam na hospitalidade mais do que na identificação, uma vez que requereriam exercícios de descentramento em relação ao outro.

Ortega (1999), dialogando com Foucault (1994), dá-nos mais elementos para entendermos melhor em que consistiria uma “ética da amizade” em nossos tempos. A problemática da amizade comparece nas reflexões foucaultianas quando este autor investiga genealogicamente as antigas estéticas da existência. A amizade, tal como considera este pensador francês, seria uma possibilidade de reabilitação de uma estética da existência.

Discutindo especificamente os modos de existência homossexuais, Foucault (1994, p. 164), em Ditos e Escritos, chega a definir a amizade como “a soma de todas as coisas mediante as quais se pode obter um prazer mútuo”.A genealogia foucaultiana realça que as estruturas sociopolíticas gestadas a partir da Modernidade colaboraram para mudanças nas relações de amizade, quando comparadas com as vivenciadas na Antiguidade, por exemplo, despotencializando-as. “O exército, a burocracia, a administração, o ensino (no sentido moderno da palavra) não podem funcionar com relações intensas. Creio que se pode observar em todas estas instituições um certo esforço por reduzir ou limitar estas relações afetivas” (FOUCAULT, 1994, p. 744). Como sublinha Ortega (1999), a regulação e desativação do potencial transgressor das relações de amizade decorrente dessas transformações sociopolíticas fizeram com que essa questão passasse a ficar cada vez mais subsumida ao âmbito privado e individual, sem significado político, aparentemente.

Sob o prisma das reflexões foucaultinas, por seu turno, a amizade teria um sentido ético-político, delineando-se pela multiplicidade, intensidade e experimentação, sendo capaz de:

[...] oferecer ferramentas para a criação de relações variáveis, multiformes, e concebidas de forma individual. [...] A ética da amizade prepara o caminho para a criação de formas de vida, sem prescrever um modo de existência como correto. [...] Para Foucault, a amizade representa uma relação com o outro que não tem a função de unanimidade consensual nem de violência direta. Trata-se de uma relação

agonística. [...] Relações agonísticas são relações livres que apontam para o desafio e para a incitação recíproca e não para a submissão ao outro (ORTEGA, 1999, p. 168).

Isso posto, inspirando-nos na discussão sobre estética da existência e relações de amizade em Foucault, pensamos que oferecer respostas efetivas ao suposto recrudescimento das conflitualidades entre pares na escola, muitas das quais significadas como bullying na atualidade, passa por erigir o que Ortega (1999, p. 170) chama de “novo direito relacional”. Isso implica ampliar possibilidades de relações de amizade ético-política, de formas de vida produtoras de intensidade e de planos comuns, ao invés de obstruí-las, como vem ocorrendo desde a Modernidade, para fins de melhor controle social.

O projeto foucaultiano de uma ética da amizade no contexto de uma possível atualização da estética da existência permite transcender o marco da auto-elaboração individual para se colocar numa dimensão coletiva. A amizade supera a tensão entre o indivíduo e a sociedade mediante a criação de um espaço intersticial (uma subjetivação coletiva) suscetível de considerar tanto necessidades individuais quanto objetivos coletivos e de sublinhar sua interação (ORTEGA, 1999, p. 171).

Buscar combater o que se tem chamado de bullying demanda, por assim dizer, além de recusá-lo como evidência, a recusa também do que temos sido. Ao invés da criação de “monstros” e “inimigos” a toda parte, cujo efeito é a sensação de que estamos sempre em risco e precisamos nos proteger, urge apostarmos na invenção e prática de

Políticas minoritárias que valorizem éticas dos amigos (e não dos inimigos!) [...] Trabalho a ser feito, inclusive recusando certas políticas de vida assujeitada e mesquinha, como a que se investe do bullying e investe mais nas capturas que na reinvenção de nossos modos de vivermos juntos e nos relacionarmos (MARAFON, 2013b, p. 146).

5.5.3 “O que causa o bullying é a falta de valores na sociedade e a desestruturação familiar”

Vemos que alguns profissionais reconhecem haver aspectos sociais que causariam o bullying. Contudo, esses aspectos por vezes são discutidos sob um viés que moraliza o debate sobre a violência, ao entenderem que a questão reside na “falta de amor”, de “religiosidade”, de “famílias verdadeiramente estruturadas”, o que traduziria a falência na transmissão de “valores humanitários” por parte de instituições tradicionais, como destaca Antunes (2010).

Isso aparece particularmente nas discussões entre os professores ao longo da primeira parte da oficina que tivemos com eles. Para esses profissionais, a transmissão de

valores como tolerância e disciplina das famílias às crianças e adolescentes estaria fragilizada atualmente, sendo isso um elemento determinante para explicar os casos de bullying:

Pesquisador: Vocês falam de valores... que valores, então, faltariam, assim, aqui alguns valores que não seriam trabalhados pela família, né? Que valores, então, vocês acham que deveriam ser trabalhados para que isso pudesse ser minimizado, digamos assim?

Valeria: Tolerância. É o basico, né? Quando a pessoa respeita o outro, ele aprende a respeitar na família, na escola não seria esse ambiente de violência. O que choca mais no bullying é o local onde ele se expande mais que é na escola. E o que tá faltando é justamente esse valor chamado tolerância. Porque quando você tolerar o jeito do outro, né, o bullying não existiria, né? Eu trabalho com adolescentes e lá eu percebo a presença do bullying muito frequente. E em todas as minhas aulas eu tento ajeitar a situação usando apenas a palavra tolerância. E, com isso, eu percebo que eu consigo fazer um respeitar o outro, mudar as atitudes, mas isso tá faltando no ser humano.

Marcos: Na minha sala de aula, eu foco muito a questão da disciplina, eu foco muito. Então, meus alunos são sempre disciplinados. A questão, por exemplo, do recreio, eu foco muito no recreio, não machucar, não brincar como colega, porque qualquer reclamaçãozinha já vem logo pra mim. Até mesmo eles mesmo já reconhecem isso. Quando eles estão brigando, eles vão lá “Ó. Professor, fulano de tal tá brigando”. Então, eu já foco muito nisso, na disciplina.

Marta: Eu acho, também, que tentar ver, assim, além dessa dinâmica ter mudado, a questão do próprio limite, como é transferido esse limite pra criança. Porque ou é muito permissivo, né, ou é muito autoritário, né?

Nos posicionamentos de alguns professores, caso de Valéria, Marcos e Marta, vemos operar uma das hipóteses mais corriqueiras ligadas ao dispositivo-bullying: atos violentos dessa natureza seriam gerados pela ausência/perda de valores, ideais, regras, leis e autoridade na sociedade atual. Em outro momento da oficina com os professores, ainda no tocante à discussão sobre o que estaria produzindo violências como o bullying, outra professora, Maria, acrescenta que a crise de valores e a negligência quanto à espiritualidade também contribuiriam para esse fenômeno:

Maria: Um dia desses eu tava conversando com uma mãe e ela me relatando que tinha medo das situações de bullying que o filho pode tá vivenciando e ele pode