3. BATI ANADOLU HELLENİSTİK DÖNEM KUTSAL ALANLARI
3.11. KNIDOS
Um olhar sobre as atividades das pessoas que fundaram o Idec e que viriam a dirigi-lo ao longo de sua trajetória fornece elementos muito relevantes para a compreensão da
entidade, de suas propostas e de suas estratégias de atuação. O mesmo se aplica ao contexto no qual isso ocorre, em seus aspectos sociais, políticos, econômicos e culturais. É o que faremos nesta seção, lembrando antes, porém, que está fora dos objetivos deste trabalho e da metodologia adotada um estudo focado nas histórias de vida dos personagens principais. Não nos propomos, de modo algum, a traçar biografias e muito menos a fazer um estudo historiográfico. Mas acreditamos ser aceitável e válida a análise de alguns aspectos que nos parecem de maior destaque e relevância para o nosso propósito.
Sob esse tipo de perspectiva, é impossível falar do Idec sem falar de Marilena Lazzarini, que além de liderar o processo de fundação da entidade, foi sua dirigente principal desde a fundação aos dias atuais. Por outro lado, há também vários outros colaboradores importantes que contribuíram para a constituição, configuração, consolidação e sucesso do Idec, tanto nos seus aspectos ideológicos e estratégicos como nos de gestão e de práticas e gerenciamento administrativo. Pelas limitações de pretensão e recursos do presente trabalho, focaremos aqui quase exclusivamente a pessoa de Marilena, tanto pelo seu papel singular ao longo da história da entidade quanto pela disponibilidade de fontes para pesquisa. Isso, porém, não deve ser tomado como indicação de baixa relevância dos demais colaboradores da entidade, cujas biografias podem também revelar interessantes conexões25.
Marilena Lazzarini ocupou diferentes cargos no Idec: inicialmente foi presidente do Conselho Diretor, passando a Coordenadora Executiva em 1996, quando a entidade se profissionaliza. Em 2004, mantendo-se como principal liderança, passa ela ao cargo de Coordenadora Institucional (ficando a Coordenação Executiva, desde então, a cargo de profissionais da equipe). Em julho de 2008, o cargo de Marilena muda para Assessora de Relações Institucionais. Esta última mudança representa o início do seu processo gradual de afastamento, após 21 anos na posição de executiva, líder e principal porta-voz da entidade. Esse processo, porém, somente será concluído muito recentemente, em novembro de 2009, quando Marilena assina seu último editorial da Revista do Idec, informando publicamente que se desliga da sua atividade cotidiana na entidade, devendo assumir doravante um cargo de simples conselheira. É sem dúvida um momento emblemático, pois essa revista – que começou a ser publicada em setembro de 1995, sucedendo um boletim iniciado em setembro de 1989 – é o veículo oficial do Idec, por meio do qual a entidade continuamente expressou,
explícita ou implicitamente, suas opiniões e propostas26. Ao longo de 20 anos, foram a foto e/ou o nome de Marilena que assinaram os editoriais da publicação. Em dezembro de 2009, esse espaço passa a ser ocupado por Lisa Gunn, funcionária do Idec desde 2002, e que já atuava como sua Coordenadora Executiva desde julho de 2008. É o marco de uma nova fase na vida da entidade.
Se a figura de Marilena Lazzarini se confunde com a do próprio Idec, ela também tem papel relevante na história recente do movimento de defesa do consumidor no Brasil, e tangencia outras lutas, como a da democratização e do combate à fome. Essa história nos leva ao período de 1967 a 1971, quando, em plena ditadura militar, em épocas de AI-5 e dos movimentos estudantis de maio de 1968 em Paris, Marilena começa sua vida política competindo nas chapas de esquerda pela direção do Centro Acadêmico da Faculdade de Agronomia da USP (ESALQ), em Piracicaba (SP)27. Não era pouco, considerando a violenta repressão política da época e o fato de tratar-se de uma liderança feminina num tempo em que isso ainda era pouco comum, principalmente numa escola do interior e cujos alunos, em geral conservadores, eram 90% do sexo masculino. Consta que, apesar de não vencer as eleições, ela marca sua posição, mostrando um perfil aguerrido e independente. É nessa época também que conhece seu futuro marido, Walter Lazzarini, que veio depois a se destacar como militante na Associação dos Engenheiros Agrônomos e outros órgãos da classe, tendo depois sido ainda deputado estadual, de 1983 a 1991 (pelo PMDB), presidente da Cetesb e Secretário da Agricultura do Estado de São Paulo. Além de atuar na oposição ao regime militar, Walter Lazzarini destacou-se desde os anos 70 por defender – além dos interesses de sua categoria profissional – uma plataforma ligada à produção e distribuição de alimentos, à reforma agrária e à defesa do pequeno produtor rural, e ainda à defesa do meio ambiente (JORNAL REALIDADE RURAL, agosto/1981 e JT 25/08/86).
Vale lembrar, aqui, o quanto este mesmo conjunto de temas é importante, como vimos na construção de nosso referencial teórico. Em torno deles, temos tanto a estruturação de correntes importantes dos MC quanto a constituição de organizações emblemáticas dos NMS no Brasil e no exterior.
Formada engenheira agrônoma, Marilena presta concurso público na Secretaria Estadual da Agricultura, onde é admitida em 1971, vindo a trabalhar na área de abastecimento
26 Ver mais sobre a história da publicação oficial do Idec e alguns trechos selecionados de seu conteúdo nos
anexos 2 e 3 deste trabalho.
e controle de qualidade. Nessa mesma época, ajudou a desenvolver o projeto “Cesta de Mercado”, para medição de elevação do custo de vida dos alimentos. Esta posição aparentemente técnica tinha, porém, fortes implicações políticas, ao lidar diretamente com o cotidiano do consumidor (que, no caso dos alimentos, equivale a toda a população), avaliando e comunicando dados sobre sua qualidade de vida e poder de compra. Um exemplo disso é o episódio relatado por Marilena em entrevista ao Jornal da Tarde (25/08/86, p.10). Segundo ela, nessa ocasião, o então ministro da Fazenda do regime militar, Delfim Neto, tentando evitar que más notícias na área da elevação de preços e qualidade da alimentação abalassem a popularidade do governo, “tentou manipular nosso índice: fomos pressionados, mas não permitimos”, diz ela na matéria. Outro exemplo dessas implicações políticas do trabalho técnico, e que irão ter flagrantes reflexos no posterior posicionamento do Idec, encontra-se no perfil de Marilena, publicado em 1990 pela Ashoka28, onde lê-se:
At that [first job with the state Secretary of Agriculture] and subsequent government jobs she became interested in reducing the distance between food producers and consumers. And like other young agronomists, she became increasingly concerned about the impact that new technologies and indiscriminate pesticide use would have on small producers, consumers, and the environment. (Ashoka, site e mimeo, 1990)
Por questões pessoais, Marilena deixa o cargo público por algum tempo, mas volta em 1975, contratada para o projeto “Abastecimento de Mercados Urbanos”. O governador do estado na época é Paulo Egydio Martins, e Ernesto Geisel o presidente da República. Vive-se o período da chamada distensão: o regime militar, premido pelos problemas na área econômica e política (após o crescimento acelerado nos anos do “milagre econômico de 1969 a 1973, o ritmo de crescimento diminuíra, a inflação subia e a pressão nacional e internacional pela redemocratização no Brasil e na América Latina aumentava) começava a preparar a “transição lenta, gradual e segura” para sua saída do poder, e isso incluía a abertura de espaços controlados para algum grau de debate e reivindicação pela sociedade, apesar da truculência ainda se manifestar em episódios como os assassinatos de Vladimir Herzog (em 1975) e Manuel Fiel Filho (1976), vítimas da chamada “linha dura” do regime militar, ainda forte e ativa.
Dentre os espaços que iam se abrindo para a manifestação da sociedade, vários se encontravam no interior de órgãos técnicos do poder público, criados pelo regime militar como medida de modernização da gestão, que reuniam jovens profissionais liberais
portadores de boa formação profissional (mas também de informações e ideais), criando, assim, grupos e ambientes propícios para o debate e, até certo ponto, também para a ação democrática. Foi nesse contexto que surgiu a ideia de se criar um sistema estadual de proteção ao consumidor. Em 1975 foi apresentada a proposta de criação de um grupo de trabalho para estudar questões relacionadas ao consumo. Composto por técnicos das secretarias de Negócios Metropolitanos e de Economia e Planejamento do Estado de São Paulo, o grupo é logo apelidado de “Grupo de defesa do consumidor”. Marilena Lazzarini é uma das integrantes desse grupo (JT, 25/08/86 e IDEC, 2007), cujas conclusões e propostas darão base ao decreto do governador Paulo Egydio Martins que, em 6 de maio de 1976, criou o Sistema Estadual de Proteção ao Consumidor. Este sistema previa em sua estrutura, como órgãos centrais, o Conselho Estadual de Proteção ao Consumidor e o Grupo Executivo de Proteção ao Consumidor, subordinado à Secretaria de Economia e Planejamento, “cujo secretário, Jorge Wilheim, além de prestar o apoio necessário, passou a denominar o órgão de Procon” (site Procon, 2010 – consulta ao website).
Cabe aqui um parêntese, mostrando que o processo pelo qual, no interior de um regime autoritário, emergem movimentos como esse que viria a dar na criação do Idec ocorre também a outras área de ação da sociedade civil, e a outras áreas do Estado.
Por exemplo, Ruth Cardoso, referindo-se às áreas das políticas sociais, diz: [...] apesar do funcionamento tradicionalmente autoritário do Estado brasileiro, a implementação de políticas sociais atualmente, obriga a algum tipo de inter-relação com a população. Apesar de que os nossos planejadores contam com instrumentos muito eficientes para impor suas razoes técnicas, não podem deixar de lado as condições de demanda por seus serviços. Não podem, quer porque pagariam um alto custo político, quer porque a própria ideologia da intervenção estatal na área social pressupõe o diálogo e convém não minimizar este ultimo fator, porque é ele que abre espaço para organismos e funcionários pouco ortodoxos... ao mesmo tempo, que garante para os movimentos populares o apoio de agentes externos... (CARDOSO, 1983, p.230, apud TASCHNER, 2009, p.175)
A mesma autora, conforme citado por Taschner, explica:
A partir de meados dos anos de 1970, nos estertores do “Milagre Econômico” iniciou-se lentamente o projeto de distensão do regime (governo Geisel). Teve marchas e contramarchas, nas quais os limites entre o permitido e o proibido se borravam com frequência, abrindo espaço à arbitrariedades de todo o tipo. Apesar disso, vários movimentos e associações nasceram ou renasceram nesta época, ligados a
reivindicações de moradia, água, luz e em luta pela redemocratização do pais. Havia várias faces do estado neste período: de um lado, um regime
repressivo, que eliminava canais institucionais de encaminhamento de reivindicações. Daí o caráter antiautoritário de alguns dos movimentos então surgidos. De outro lado, o Estado, recém modernizado, às vezes agia como indutor de demandas na sociedade civil. (CARDOSO, 1983, apud TASCHNER, 2009, p.171)
Especificamente em relação ao caso do Procon-SP, são muito ilustrativos alguns trechos de entrevista com Maria Inês Fornazaro, uma das pessoas que já trabalhavam naquele órgão, na ocasião. Referindo-se à necessidade de uma equipe maior para atender à grande demanda gerada pela criação do órgão em São Paulo, diz ela:
Aí passou a precisar de mais gente, vieram os estagiários. Vinha gente das mais variadas áreas: direito, engenharia, ciências sociais... Era uma coisa muito dinâmica que propiciou uma discussão de defesa do consumidor dentro do próprio órgão. Havia alguns técnicos, e a maior parte eram estudantes de graduação... Criou um grupo muito unido, muito coeso, uma dicotomia sobre o nosso papel e foi muito produtivo. Esse grupo transformou o Procon em um órgão atípico dentro da estrutura do Estado. O Estado era e ainda é extremamente burocratizado... Foi funcionando de uma maneira completamente nova, bastante caseira, às vezes pouco profissional, porque a equipe que estava lá era muito jovem, ou de funcionários que nunca tinham tido tanta autonomia, ou de estudantes [...] o pessoal discutia, por exemplo, tem cabimento defesa do consumidor dentro de um Estado autoritário? As discussões giravam muito em torno disso, do aspecto ideológico; mas a gente está trabalhando para o capitalismo? Defendendo o consumo? Todas estas coisas a gente acabava discutindo, o nosso papel... (FORNAZARO apud TASCHNER, 2009, p.174 e 176)
Com o precedente do Procon de São Paulo, nos anos seguintes vários outros estados e municípios criariam seus órgãos de defesa do consumidor. Mesmo com as dificuldades impostas pelo regime ainda ditatorial, a rearticulação da sociedade civil prossegue, incluindo também a do movimento de consumidores, com a criação de várias entidades: em 1975, a Andec (Associação Nacional de Defesa do Consumidor, com sedes no Rio de Janeiro e Brasília). Em 1976, a Adoc (Associação de Defesa do Consumidor, de Curitiba) e a APC (Associação de Proteção ao Consumidor, de Porto Alegre). Em 1978, a 12 de março, uma assembleia com sete mil pessoas, em São Paulo, cria o Movimento do Custo de Vida (mais tarde denominado Movimento Contra a Carestia). Este movimento, apoiado pela Igreja Católica, realizaria em 27 de agosto do mesmo ano uma grande manifestação na Praça da Sé, em São Paulo, duramente reprimida.
É também nessa época que algumas empresas – especialmente grandes multinacionais – começam a criar seus “serviços de atendimento ao consumidor”,
prenunciando o que se tornaria algo quase obrigatório anos depois. A primeira é a Nestlé, em 1977 (Revista do Idec, abril-maio/1990, p.9). Outro fato sintomático é a realização, em 1978, do 3º Congresso Brasileiro de Propaganda, que cria e aprova o seu “Código de auto- regulamentação publicitária”, num processo que, dois anos depois, resultaria na criação do Conar - Conselho Nacional de Auto-Regulamentação Publicitária. São embriões do que viria a se tornar nos anos 1990 e 2000 um foco de grande atenção do movimento de consumidores em suas discussões sobre a responsabilidade social empresarial e a mídia. É nesse clima de efervescência que, em outubro de 1979, é realizado em Curitiba (PR), o 1º Encontro Nacional de Entidades de Defesa do Consumidor, envolvendo tanto órgãos do poder público, como o Procon de São Paulo e seus congêneres de outros estados e municípios, como organizações de cidadãos, donas de casa e consumidores.
É nesse mesmo ano que identificamos outro episódio emblemático do perfil da futura articuladora do Idec e de seu envolvimento com a política, o qual, inclusive, determina seu novo afastamento dos cargos públicos. Conforme relata matéria do jornal O Estado de São Paulo29, Marilena Lazzarini, então alta funcionária da Secretaria de Estado da Agricultura e nos meses finais de gravidez, foi exonerada por ordem direta do governador Paulo Maluf, como represália contra seu marido – Walter Lazzarini, então presidente da Associação dos Agrônomos do Estado de São Paulo –, que liderara meses antes o “movimento de ecologistas” (como então eram chamados os ambientalistas) que impediu a construção de um aeroporto internacional em Caucaia do Alto (SP)30. Walter havia também sido um dos líderes da campanha salarial dos funcionários públicos do estado naquele ano, que redundou numa greve do setor.
Mas Marilena não se apresenta passiva nesse episódio, pois a ira de Maluf não era apenas contra seu marido: numa outra matéria de jornal, em retrospectiva, (JT, 1986) consta que ela impediu medidas repressivas aos grevistas quando estes se concentraram em instalações do departamento que ela dirigia, ou mesmo que teria se juntado a eles. A repercussão negativa do caso e a ingerência do governador levaram inclusive à renúncia do então Secretário da Agricultura, em desagravo ao ato de Maluf, ampliando seu desgaste
29 TJ pode reconduzir funcionária afastada. O Estado de São Paulo, São Paulo, 5 out. 1979.
30 A luta contra a construção de um aeroporto internacional em Caucaia do Alto, na região metropolitana de São
Paulo, foi um marco no movimento ambientalista brasileiro, e também no processo de democratização. Não se questionava apenas a localização da obra (em área de mata nativa e de mananciais), mas também a corrupção e a especulação imobiliária em torno dela, além do próprio modelo de desenvolvimento do país, que levava ao inchaço das metrópoles e à concentração urbana.
político. Marilena recorreu judicialmente do ato, requerendo a reintegração. A demanda chegou até o Tribunal de Justiça do Estado, mas ela não teve ganho de causa.
Para compreendermos a relevância desses fatos, que em tempos de normalidade democrática podem parecer simples episódios administrativos, é importante trazermos mais alguns dados de contexto, que nos permitem ver o seu significado como parte do processo de construção da democracia no Brasil. No final do governo Geisel, em 1978, as eleições em todo o país haviam consagrado a vitória do partido de oposição ao regime militar, o MDB. Mesmo não havendo eleições livres para presidente, governadores, prefeitos de capitais e de municípios classificados como “de segurança nacional”, havia espaço para a oposição nas eleições para deputados federais e estaduais, e também para o Senado e para muitas prefeituras. Em 1978 ainda, temos a retomada do movimento sindical, com a primeira greve (metalúrgicos da Scania, em São Bernardo do Campo – SP) desde o AI-5, em 1968. No ano seguinte, temos o restabelecimento do pluripartidarismo e a aprovação da Lei da Anistia, com o início da volta dos líderes exilados ao país. A imprensa respira mais liberdade; com o relaxamento da censura, começam a ser publicados livros e revistas até então proibidos. O mesmo ocorre no cinema, na música, na literatura. Mas o presidente ainda é um general não eleito pelo povo, e o governador, Paulo Maluf, político notoriamente autoritário e envolvido em rumorosos casos de corrupção. A “linha dura” do regime militar ainda não está totalmente conformada, como atestam os muitos incidentes do período 1979-1981, como os atentados contra a sede da OAB (agosto/1980), a bomba no Riocentro (abril/1981) e a repressão violenta a manifestantes na Freguesia do Ó (junho/1980) por comandados do próprio governo Maluf.
Como já mencionado, os nichos criados no aparelho estatal são de grande importância nesse processo de rearticulação democrática do Brasil, e isso se revela fortemente no sistema de proteção ao consumidor de São Paulo. O próprio site do Procon-SP, que inclui uma sessão com a memória da instituição31, traz alguns trechos muito ilustrativos sobre a orientação da entidade:
A ideologia é uma marca registrada incorporada no pensar e no agir dos que iniciaram e contribuíram para a construção da defesa do consumidor e, consequentemente, passou a nortear a visão e, porque não dizer a missão, que se revelou na própria trajetória do Procon. (PROCON, 2010, website)
No Sistema Estadual de Proteção ao Consumidor coube ao Grupo Executivo – Procon, atuar de forma coletiva, visando informar e orientar o consumidor, por meio de programas específicos que incluíam pesquisas e estudos relacionados à conjuntura econômica brasileira. Também receberia e encaminharia reclamações e sugestões apresentadas por entidades de classe e representativas da população. [mas] A atuação, prevista para ser somente coletiva, não foi passível de implementação. Os consumidores individualmente, ao tomarem conhecimento da existência do órgão, passaram a buscar orientação e auxílio na solução de seus problemas. Estava aberto, em setembro de 1976, um canal de cidadania e de comunicação entre a população e o governo estadual. (PROCON, 2010, website)
Outro ponto que merece destaque na atuação do Procon-SP é a publicação, em 1981, de uma série de folhetos educativos, estruturada em torno dos direitos básicos do consumidor, delineados na famosa mensagem do presidente americano John F Kennedy, de 1962, e atualizados em linha com o que vinha sendo mais recentemente defendido pelo movimento de consumidores nos Estados Unidos e em países da Europa. Intitulada Você é um
consumidor, a série trouxe folhetos incluindo sete temas: Você Tem Direito à Orientação; de
Ser Ouvido; à Segurança; de Escolher; de Ser Informado; à Educação Para o Consumo e a Um Ambiente limpo e Saudável. É muito relevante lembrarmos que isso ocorre quatro anos antes de a ONU publicar suas “Diretrizes para a proteção do consumidor” e nove anos antes da vigência do Código de Defesa do Consumidor no Brasil. Ambos os instrumentos incorporarão em seus textos, como direitos básicos, aqueles apontados na série de folhetos do Procon-SP.
Em 1982, o Procon-SP filia-se à Iocu (International Organization of Consumer Unions, hoje denominada Consumers International). Este já seria um fato notável, por ser a primeira vez que um órgão governamental se filiava àquela entidade internacional de articulação da sociedade civil, do movimento internacional de consumidores. Mas é notável também por revelar uma postura do Procon-SP, bastante inesperada para um órgão oficial, e – poderíamos dizer – um tanto fora de seu escopo institucional. Pelo quanto vimos até aqui, tal iniciativa se configura muito mais como um reflexo do ativismo de seus integrantes – da “ideologia” reconhecida pelo próprio órgão e também por seus integrantes, conforme as