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Batı Anadolu Arkaik ve Klasik Dönem Kutsal Alanları

2. KUTSAL ALAN: GENEL BAKIŞ

2.4. Batı Anadolu Arkaik ve Klasik Dönem Kutsal Alanları

Como vimos na citação apresentada na introdução do presente trabalho24, o texto com o qual o Idec abre sua “autobiografia” nos dá uma indicação de resposta à pergunta que intitula esta seção: o Idec nasce como forma de superação de limites com os quais não se conformava um grupo de profissionais que trabalhavam com temas da defesa do consumidor, na administração pública brasileira dos anos 1980. Mas essa é apenas uma parte da resposta, como veremos nas próximas páginas.

Logo no início da apresentação do livro, Marilena Lazzarini, uma das fundadoras do Idec e sua representante mais visível, afirma que o principal objetivo desse grupo “era contribuir para a retomada do processo democrático, após 20 anos de autoritarismo, para a

construção da cidadania e, muito importante, para a conquista de direitos” (IDEC, 2007, p.6,

grifos nossos). Ou seja, ao posicionar-se e apresentar-se para a posteridade, o Idec quer deixar totalmente claro um propósito político, e não utilitário. Quer enfatizar que seu principal objetivo seria a busca da democracia, da cidadania e dos direitos. O direito do consumidor, nesse sentido, coloca-se antes como um meio do que como um fim em si mesmo. O consumo surge como um elemento de contexto, e não como a razão de ser da organização. É no campo do consumo que o Idec se propõe a lutar, tendo os direitos do consumidor como instrumento e o binômio cidadania-democracia como objetivo.

A ausência das palavras “consumo” ou “consumidor” na frase citada é ainda mais notável (e por isso mais reveladora da forte intencionalidade de seus autores ao utilizá-la) quando lembramos que, coerentemente com seu próprio nome, o Idec é conhecido como uma entidade de promoção e defesa dos direitos do consumidor, atividade na qual tem concentrado a grande maioria de seus recursos e graças à qual “tornou seu nome praticamente um sinônimo da defesa do consumidor no Brasil, a ponto de ser muitas vezes confundido pelo público com uma autoridade governamental para esse fim”, como declaram os autores do

livro, repetindo uma expressão que pode soar exagerada, mas que é frequente no meio consumerista brasileiro.

Na mesma apresentação do livro, porém, logo adiante, surgem as figuras do consumidor e do consumo, quando o Idec expressa estratégias centrais em seu trabalho voltado às questões concretas do consumo: a articulação com entidades internacionais de defesa do consumidor e a busca, produção e disseminação de conhecimentos úteis ao consumidor, frequentemente por meio de testes comparativos e pesquisas.

Em seguida, Lazzarini faz um breve comentário sobre os bons resultados da entidade nessa área, afirmando que a partir dela conseguiram muitos progressos na qualidade de produtos e serviços.

Ao falar dessas melhorias em produtos e serviços, porém, Marilena sintomaticamente faz uma ressalva, claramente antecipando a possível crítica de que, ao realizar suas atividades de testes, o Idec estaria chamando a atenção do consumidor para os produtos testados, pondo em foco as qualidades e benesses deles esperadas e, mesmo não as encontrando exatamente como desejado, estimulando de certo modo o desejo dos leitores para a compra. “Falem bem ou falem mal, mas falem de mim”, diz o ditado. É inegável que a atividade de testes de produtos – que tem como foco a mercadoria e como finalidade seu pleno desfrute – contribui na interminável tarefa em torno da qual se organiza a sociedade contemporânea: comprar, acessar, possuir, ter, usar, desfrutar. Consumir, enfim.

Mas é também inegável que a realidade vigente impõe que somente por meio do mercado (intermediado ou não pelo Estado) alguém pode satisfazer suas necessidades materiais (e também muitas das emocionais, assumindo por um momento que podemos dividi-las assim). Logo, melhor ter um bom conhecimento do produto ou serviço do que ficar à mercê de impulsos e estímulos pouco ponderados e mal informados. A escolha do Idec – fazer e publicar testes de produtos – já estaria, portanto, justificada e coberta pela lógica que o próprio instituto expressa sobejamente em suas publicações, de variadas formas. Mesmo assim, sua fundadora faz a tal ressalva, após falar do sucesso nos testes. Diz ela:

Aprendemos com as experiências de outros países, baseadas no modelo “consumidor bem informado pode se defender, economizando e comprando melhor”.

Adaptamos o aprendizado à nossa realidade, fizemos testes de produtos e serviços, alguns deles mostrados neste livro. Conseguimos muitos progressos na qualidade de ambos, mas a cultura do consumismo não foi estimulada pelo nosso trabalho. Ao contrário, sempre soubemos que os atuais padrões de consumo são insustentáveis.

A experiência vivenciada permite apresentar uma instituição com legitimidade e credibilidade. Embora sabendo que muitas vezes contrariamos interesses e incomodamos determinados segmentos, todos nós que participamos deste projeto nos orgulhamos dele.

Nossas batalhas sempre visaram o interesse coletivo. Enfrentamos dificuldades, mas não arredamos pé. Nunca praticamos nenhum tipo de marketing agressivo ou enganoso para atrair associados. Eles vieram até o Idec só por confiar em nossos propósitos.

Construir a cidadania pode ser uma expressão usada muito frequentemente de modo oportunista. Pretendemos, ao usá-la, recuperar seu verdadeiro sentido. (IDEC, 2007, p.6-7)

O discurso que vimos até aqui também nos remete muito diretamente a pontos que elencamos em nosso referencial teórico. Pensando nas “ondas” da história dos MC propostas por Lang e Gabriel (2005), o Idec apresenta uma mescla de elementos que, por um lado, falam da corrente dominante nesses movimentos (a VFM) e, por outro, embute (ou pelo menos reconhece) as críticas ao consumismo feitas pela onda alternativa mais recente. Há ainda uma clara referência ao naderismo, representada pelas “batalhas pelo interesse coletivo” e pela articulação entre as questões do consumo e a luta pela democracia e pelos direitos de cidadania, dentre os quais se incluem os do consumidor.

Outro elemento que de saída nos chama atenção é a indicação de que, desde seu nascimento, o Idec é fruto da ação de um grupo que transita na intersecção entre o Estado e a sociedade civil, exatamente onde Habermas (1981) localiza o território por excelência dos NMS. Isso nos lembra também que o mesmo autor e seus comentaristas, como Costa (1999), fazem alertas severos sobre os riscos da interação entre as organizações da sociedade civil e o sistema político.

Pelo quanto vimos até aqui, a mera análise da apresentação do livro comemorativo dos 20 anos do Idec já nos sugere um conjunto de pontos pelos quais o instituto deseja ser reconhecido, e que certamente nos ajudarão a compreender seu nascimento e sua “razão de ser”:

• Fundado em 1987, como uma associação civil, sob forte influência de pessoas ligadas aos órgãos estatais de defesa do consumidor.

• Objetiva a construção da democracia e da cidadania “em seu verdadeiro sentido”, por meio da conquista de direitos.

• Foca nos direitos do consumidor, exercidos cotidianamente nas atividades de consumo (compras e economia), que deve ser apoiado por informação adequada.

• Luta por questões de interesse coletivo.

• Repudia a cultura do consumismo; preconiza padrões de consumo sustentáveis. • Obtém associados (apoio público e recursos) com base na confiança e na

identidade de propósitos.

Antes de desenvolvermos nossa análise sobre essas afirmações, e sua confrontação com os registros produzidos ao longo da história do Idec, vamos prosseguir com a análise do mesmo livro, cujas seções introdutórias trazem ainda vários aspectos relevantes para os nossos objetivos, como uma série de diretrizes e princípios, exemplos do tipo de estratégia concretamente adotado, e ainda a declaração da missão do instituto, apresentada como sendo “promover a educação, a conscientização, a defesa dos direitos do consumidor e a ética nas relações de consumo, com total independência política e econômica” (IDEC, 2007, p.10).

O confronto entre esta missão declarada do IDEC e a mensagem efetivamente contida na apresentação do livro, que analisamos anteriormente revela, contudo, uma certa dualidade: enquanto a missão aponta para o consumidor – com seus direitos, atividades e relações de consumo – a razão de ser (o “principal objetivo dos fundadores”) aponta para a democracia e a cidadania. É notável, também, que nem a missão do Idec fale em cidadania e democracia, nem a sua razão de ser fale de consumo ou consumidor. Neste livro não encontramos nenhum tipo de discussão sobre este fato, ou mesmo algum sinal de desconforto dos autores com tal dualidade. Podemos supor três razões para tal omissão: a) a dualidade que apontamos não foi percebida; b) os autores não consideram que tal situação seja incongruente ou configure uma dualidade ou, ainda, c) que consideram não ser necessário explicá-la, pressupondo que tal explicação é evidente, ou que se explica pela narrativa contida no próprio livro.

Para fins da nossa discussão, não interessa esmiuçar qual das hipóteses é a verdadeira, pois ambas trazem a mesma ideia para o que nos é relevante agora, qual seja, o fato de que o Idec opera como se houvesse uma identidade automática entre “promover a educação, a conscientização, a defesa dos direitos do consumidor e a ética nas relações de

consumo” e “contribuir para a retomada do processo democrático (...) para a construção da cidadania e (...) para a conquista de direitos” (IDEC, 2007, p.6 e 10, itálicos nossos).

Como demonstram as palavras destacadas, o caminho para tal identidade parece passar pelos direitos, indicando que, para o Idec, a democracia e a cidadania estão fundadas em direitos e dependem de seu efetivo exercício, que deve ser defendido e promovido por meio da educação e da conscientização de seus sujeitos, ou seja, no caso, dos consumidores .

Com efeito, o próprio Idec diz algo nesse sentido quando destaca, na introdução da publicação comemorativa, algumas das diretrizes que norteariam sua atuação:

• Ser uma organização independente e sem fins lucrativos, capaz de utilizar-se da Justiça e da pressão popular tanto contra o poder público quanto contra empresas privadas sempre que fosse necessário para cumprir sua missão.

• Exercer a defesa do consumidor em prol da coletividade, começando por participar ativamente na formulação da legislação específica e das políticas públicas capazes de levá-la a efeito.

• Ser interlocutor não só dos que já integram o mercado, por seu poder de compra, mas também dos excluídos, dos privados de acesso a alimentos e saúde de qualidade, a serviços públicos essenciais e à Justiça.

• Utilizar ações (judiciais) coletivas e civis públicas como ferramentas para gerar mobilização social e assim garantir a consolidação da democracia, o desenvolvimento social, o consumo sustentável e a saúde do planeta.

• Informar e orientar o consumidor, e propiciar a educação para o consumo responsável.

• Repassar sua experiência para outras organizações, praticando a solidariedade recíproca entre associações consumeristas independentes e eticamente afinadas (IDEC, 2007, p.10-11).

O cumprimento dessas diretrizes seria, assim, a origem e a explicação das atividades realizadas pelo Idec ao longo de sua existência. Seria também a concretização da ponte entre a sua missão e a sua razão de ser, o modo pelo qual, na ação real, se estabeleceria a relação entre a defesa do consumidor e a consolidação da democracia e da cidadania. O

que, ao existir e atuar, instrumentaliza o consumidor e certas práticas do consumo em prol da defesa de direitos e da construção de uma sociedade democrática e do exercício de uma cidadania ativa e efetiva.

Ao longo deste capítulo trataremos de verificar em que medida tais expectativas de ação (e suas razões) surgem nos registros da história do Idec e quanto de apoio encontram as suas expectativas de contribuição para a democracia e a cidadania em face do referencial teórico que adotamos.

Concluindo esta seção inicial, devemos ainda mapear mais um aparente paradoxo que transparece no texto em tela, que também envolve o conflito entre um discurso voltado ao bem coletivo e às questões amplas versus uma prática voltada ao benefício particular e às questões especificas, ou ainda sobre o peso que adquiriram na prática do Idec as demandas administrativas ou judiciais envolvendo certos produtos e serviços.

Pela própria natureza, e também pelo modo como se organiza o direito brasileiro, muitas demandas judiciais acabam, necessariamente, tratando de especificidades e particularidades. É o que acontece, por exemplo, quando o comprador de um produto reclama de um defeito ou prejuízo: temos um caso específico (o produto “x”) e um interesse particular (o do comprador lesado).

Isso é bem diferente do que postulam as diretrizes de caráter mais amplo e coletivista declaradas pelo Idec, mas, não obstante, muitas vezes é desse modo que se coloca a defesa do consumidor, e em muitos desses casos o Idec se colocou e se coloca simplesmente como advogado de uma pessoa contra uma empresa para ressarcimento de um prejuízo. Em alguns casos, como nas ações judiciais em grupo, o caráter da intervenção pode ser tornar não tão individualmente particular (pois se trata de um grupo de consumidores), mas ainda assim são questões específicas no que tange ao produto ou serviço, e particulares, mesmo que do grupo.

Em tese, quanto maior o grupo e quanto mais inespecífica a questão, mais a demanda se aproximaria de uma ação realmente voltada a toda a sociedade e às implicações amplas do consumo. Mas só em tese, pois o exercício do direito, e mesmo as campanhas de opinião pública, exige um certo grau de especificidade para que sejam tangíveis. Não sendo assim, a discussão se travaria apenas no campo da ideologia, da filosofia e da teoria do direito, da legislação geral e da política genérica. São campos necessários e válidos para os temas em

pauta, mas não são mais parte da prática concreta, do exercício de direitos e da vida real na sociedade.

O Idec, então, situa-se nesse paradoxo: realizar sua razão de ser (ampla e genérica) por meio do cumprimento de uma missão que é, necessariamente, específica e particular. A solução encontra-se na extrapolação das experiências particulares para o campo geral e, na via inversa, na concretização das disposições gerais por meio de experiências particulares. Isso acontece, na prática, por meio da contribuição e participação do Idec nos processos de formulação de políticas públicas, munido dos subsídios que sua atuação prática lhe dá, e também por meio da verificação do cumprimento da legislação e de outras expressões das políticas públicas – por intermédio de testes e pesquisas, ou do acionamento do Poder Judiciário, para citar os dois modos mais comuns.

O paradoxo que estamos discutindo é abordado no livro do Idec por meio de três exemplos, relacionando questões específicas, citadas como “causas”, com questões de políticas públicas, citadas como “efeitos”. Consideramos válido reproduzi-los, como forma de registrar o formato e a lógica adotados pelo Instituto na resolução desse paradoxo, que também examinaremos em mais detalhes em nossa análise crítica das colocações mostradas pela entidade em seu autorretrato:

As causas acumuladas só poderiam ter as consequências que tiveram. Exemplos? A eles.

Um: as causas que levaram a entidade a defender os direitos de seus associados contra os abusos dos planos e seguros de saúde, antes e mesmo depois da lei específica, teriam como inevitável consequência uma ação mais ampla, a da defesa do direito de todos à saúde pública de qualidade.

Outro: as ações para reaver as perdas das cadernetas de poupança causadas pelos sucessivos planos econômicos acabariam por levar o Idec a discutir todas as relações das instituições financeiras com os clientes: consumidores ou não. A discussão sobre essa questão durou anos, até o STF reconhecer, como defendiam o Idec e outras entidades, que as relações entre bancos e clientes estão, sim, sujeitas aos dispositivos do Código de Defesa do Consumidor.

Apenas mais um: a necessária e exemplar discussão acerca do fato de que as contas de luz, água ou telefone eram incompletas e difíceis de compreender só poderia desembocar numa ampla ação de monitoramento de todos os serviços públicos, iniciada pelo instituto em 1999. Ainda sobre o assunto, organizaria em 2006 o seminário “O Consumidor e as Agências Reguladoras”, para apresentar a terceira edição do ranking que preparou das principais agências e órgãos federais responsáveis por regular e fiscalizar a atuação de empresas privadas que prestam serviços de natureza pública. (IDEC, 2007, p.9-10)

O livro prossegue com uma série de exemplos concretos de atuação do Idec, detalhando aspectos como um breve histórico da entidade, suas atividades de teste e avaliações, suas campanhas de mobilização e esclarecimento, suas publicações, seus conselheiros, parceiros e apoiadores e, finalmente, uma série de casos envolvendo temas de especial significado ou exemplaridade em variados campos. São cobertos temas como: alimentos, saúde e medicamentos; bancos e sistema financeiro; segurança; serviços públicos; consumo sustentável, transgênicos e, ainda, questões de participação nas interfaces entre Estado e sociedade civil, como comissões legislativas, agências reguladoras e órgãos normalizadores, entre outras. .

Consumo, cidadania e democracia: focos de atenção no caso do Idec

Concluindo, sintetizamos e consolidamos nos pontos abaixo a pauta que exploramos no desenvolvimento desta pesquisa, tendo em conta a compreensão de como, no caso do Idec, se dá a relação entre o consumo (por meio da defesa do direito do consumidor, das práticas de consumo e da ação associativa) e o binômio cidadania-democracia.

• As pessoas e ideias decisivas na constituição e condução da entidade.

• O modelo organizacional escolhido, seus temas prioritários e sua aplicação (formas e focos da organização e atuação do Idec).

• A garantia da independência e a cooperação/articulação institucional.

• A conquista e defesa dos direitos do consumidor (e o paradoxo de dedicar-se a casos particulares para reforçar/embasar políticas públicas).

• A informação e as práticas cotidianas como forma de ação política (e o paradoxo entre focar mercadorias e combater o consumismo).

• O cuidado com o desenvolvimento e a inclusão social, com o consumo sustentável e com a saúde do planeta (sendo educação, publicações e campanhas alguns dos meios para isso).

Benzer Belgeler