Y. Ö.K DÖKÜMANTASYON MERKEZĠ TEZ VERĠ FORMU
2.3. KĠTSCH‟ĠN ETĠMOLOJĠK KULLANIM ĠÇERĠĞĠ
2.3.4. Kitsch ve Propaganda ĠliĢkisi
Para entender como o desconforto dionisíaco-líquido pode “impregnar” o imaginário do indivíduo contemporâneo, vamos nos apoiar em algumas noções do imaginário propostas por Gilbert Durand, assim como em sua tese sobre a “arquitetura” e a “movimentação” deste mesmo imaginário nas sociedades.
Não é nosso objetivo, no entanto, nos aprofundarmos no extenso estudo desenvolvido por esse pensador francês a respeito das estruturas da imagem. Seria trabalhoso e desnecessário para as razões desta pesquisa. Basta-nos, neste momento, tangenciar o seu pensamento, aproveitando algumas de suas ideias principais, embora correndo o risco de praticar um reducionismo. Mas acreditarmos ser o suficiente para enquadrar o desconforto dionisíaco-líquido, de maneira a ficar mais clara a sua relação com este conceito fugaz e de difícil precisão científica que é o imaginário.
Para Durand, o imaginário é um “museu” de “todas as imagens passadas, possíveis, produzidas e a serem produzidas” (DURAND, 2011, p. 6) pela espécie humana, existindo uma estrutura responsável pela criação, movimentação e recepção dessas imagens pelos indivíduos15. O imaginário possui uma natureza baseada não na lógica binária clássica, mas em uma “’dualidade’ onde cada termo antagonista precisa do outro para existir e para se definir” (DURAND, 2011, p. 83), uma coerência plural, uma ambiguidade alógica. Ou seja, enquanto na lógica binária o sujeito/objeto é definido por suas características próprias e exclusivas, na
ambiguidade alógica a definição surge por meio de um raciocínio compreensivo do que há em comum com outro sujeito/objeto. Poderíamos dizer que se trata de uma lógica outra, que enxerga um denominador comum na diferença e o inclui na definição de ambas as partes.
É como a sensação que paira antes de um jogo de futebol entre duas equipes rivais. Um sentimento compartilhado pelos torcedores de ambos os lados. Embora seja possível definir cada uma das torcidas por uma lógica simples, ou seja, definir uma a partir da exclusão da outra (torcer pela equipe A significa não torcer pela equipe B, e vice-versa), a excitação presente no encontro das duas equipes, o que poderíamos chamar de “o sentimento do clássico”, só surge a partir da compreensão da existência da equipe A pela equipe B e vice-versa, o mesmo raciocínio valendo para suas respectivas torcidas. A partir daí podemos ver o jogo como mais do que uma simples partida. Este é o “terceiro dado” (DURAND, 2011, p. 84) de Durand, algo não definível, não quantificável, não descritível, mas que é parte fundamental na constituição do sujeito/objeto – no exemplo dado, no ser de uma das equipes.
Essa lógica do imaginário está localizada entre os arquétipos presentes no inconsciente coletivo e os fluxos de imagens oriundos do ambiente social, sendo aquela alimentada por estes. Ela se fortalece pela repetição obsessiva das qualidades que surgem desses dois âmbitos, em um processo compreensivo alógico que se identifica com a estrutura do mito16. A essa dinâmica redundante Durand dá o nome de “trajeto antropológico”, que é definido por ele como a “incessante troca que existe ao nível do imaginário entre as pulsões subjetivas e assimiladoras e as intimações objetivas que emanam do meio cósmico e social” (DURAND, 2012, p. 41). Em uma definição mais esclarecedora, Durand diz que
o imaginário não é mais que esse trajeto no qual a representação do objeto se deixa assimilar e modelar pelos imperativos pulsionais do sujeito, e no
16 Também não é nosso objetivo adentrar nas estruturas das narrativas mitológicas. Por ora, basta- nos uma definição de Durand para fortalecer a nossa argumentação. “O mito não raciocina nem descreve: ele tenta convencer pela repetição de uma relação ao longo de todas as nuanças (as ‘derivações’, como diria um sociólogo) possíveis. A contrapartida desta particularidade é que cada mitema – ou cada ato ritual – é o portador de uma mesma verdade relativa à totalidade do mito ou do rito” (DURAND, 2011, p. 86). Entendendo-se mitema como uma narrativa puramente ficcional, poderíamos pensar, a título de exemplo, na pregnância de significados do mito da caverna. A condição alcançada por essa narrativa clássica é construída a partir da repetição das suas nuances sem que o espaço e o tempo (na sua concepção histórica e simétrica) sejam fundamentais para que ela adquira sentido. Também poderíamos voltar ao exemplo do clássico de futebol: a sensação que paira sobre um clássico é capaz de dizer tudo sobre ele, e é a repetição desta sensação que fortalece o clássico em si, embora seja impossível partir daí para descrevê-lo logicamente.
qual, reciprocamente, como magistralmente Piaget mostrou, as representações subjetivas se explicam “pelas acomodações anteriores do sujeito” ao meio objetivo. (DURAND, 2012, p. 41)
É como se nossas ideias sobre alguma coisa (representações) fossem, no caminho que as leva à razão, impregnadas por uma substância invisível originária das profundezas da psique, sendo essa substância o resultado do contato entre a subjetividade pessoal (os imperativos pulsionais), imagens oriundas do inconsciente coletivo e informações advindas do meio social. O que surge disso é uma racionalidade “envolvida” por essa substância, um “halo imaginário” (DURAND, 2012, p. 61), um fantasma que paira sobre o pensamento pragmático com um ar misterioso alheio à lógica tradicional. Algo irreal, mas que contém “materialmente, de algum modo, o seu sentido” (DURAND, 2012, p. 59), inundando o real com “o sonho, o onírico, o rito, o mito, a narrativa da imaginação” (DURAND, 2011, p. 87).
Considerando o imaginário como uma atmosfera, um “halo imaginário” que envolve as representações racionais, ele também pode estar presente nas ideologias17 , como sugere Maffesoli (2001). É como uma parcela de não- racionalidade pairando sobre sistemas de ideias (conceitos) cujo objetivo é obter uma interpretação racional da realidade. Poderíamos dizer, portanto, que o desconforto dionisíaco-líquido também pode ser encarado como a porção imaginária (ver Esquema 1) – ao menos parte dela – de uma visão de mundo composta pela sociologia de Zygmunt Bauman e Michel Maffesoli.
Levantamos essa hipótese partindo do pressuposto de que o desconforto dionisíaco-líquido também está na irrealidade – o que não acontece com as teorias sociológicas de Bauman e Maffesoli. Essa porção imaginária não possui características bem definidas, sua natureza é virtual. Não é algo que a lógica racional possa dar conta baseando-se em uma explicação linear do que seriam suas causas e efeitos. É evidente que ele possui traços, “sintomas” que auxiliam a apontar um contorno para delimitá-lo minimamente como conceito – foi o que fizemos no decorrer deste capítulo por meio da explicação do que seria o movimento pendular entre a modernidade líquida de Bauman e a pós-modernidade de Maffesoli. Mas qualquer esforço nesse sentido não parece ser capaz de dar conta da sua totalidade envolvente e multidimensional. Não basta compreender as ideias de
17
Considerada aqui como um conjunto de ideias (Destutt de Tracy. Disponível em <http://educacao.uol.com.br/disciplinas/sociologia/ideologia-termo-tem-varios-significados-em- ciencias-sociais.htm>. Acesso em: 15 fev. 2013).
Bauman e Maffesoli e o contexto no qual elas coexistem. Há um “halo imaginário” que transcende a definição racional da realidade contemporânea vista a partir da sociologia de ambos os pensadores e cuja expressão ganha corpo ao passar pelo “trajeto antropológico” de Durand.
Esquema 1 – Desconforto dionisíaco-líquido
O diagrama mostra como imaginamos o desconforto dionisíaco-líquido como conceito, bem como sua porção imaginária - uma "atmosfera" que paira sobre o movimento pendular entre a modernidade líquida de Bauman e a pós-modernidade de Maffesoli