A coleta de moluscos foi uma das atividades decisivas para subsistência dos seres humanos, bem como para sua ocupação na área costeira e inclusão dos recursos pesqueiros na sua dieta (Lima et al. 2003; Marean et al. 2007). Isso se deve ao fato dos moluscos fornecerem uma fonte confiável de proteínas para subsistência, visto que ocorrerem em locais e períodos “previsíveis”, não despendem tanta energia para serem encontrados e não necessitam de alta tecnologia para serem extraídos (Chapman, 1987). Além de sua importância alimentícia, esses invertebrados possuíram e possuem uma ampla gama de outras utilidades, como: moeda de troca, símbolo mágicos e religiosos, objetos ornamentais, medicamento, artesanato, pigmentos, instrumento musical, fabricação de ferramentas e artefatos (Wells, 1989; Costa-Neto, 2005, Dias et al. 2011; Vázquez-Silva et al. 2011; Haszprunar e Wanninger, 2012).
Atualmente, apesar de muitos de seus usos antrópicos terem diminuído em intensidade (medicamento, ferramenta ou símbolo religioso) (Gossling et al. 2004), é observado que os moluscos continuam a ser ou fazer parte da base alimentícia e econômica de diversas comunidades costeiras no mundo (Castilla e Defeo, 2001; Thomas, 2001; Gossling et al. 2004; Dias et al. 2007; Nishida et al. 2008; Silva-Cavalcanti e Costa, 2009; Macnaughton et al. 2010). Como afirma Nishida et al. (2004), a coleta de moluscos é uma das atividades de maior relevância econômica para comunidades tradicionais que residem próximo ao ecossistema manguezal.
Existem mais de 120.000 espécies de molusco descritas no mundo, compondo dessa forma o segundo maior filo do reino animal (Raven e Johnson, 2001; Haszprunar e Wanninger, 2012). Esse possui um papel ecológico fundamental tanto em habitats terrestres quanto marinhos e de água doce, contribuindo com elevadas quantidades de biomassa nos diversos níveis tróficos, servindo como bioindicadores de estresses ambientais, atuando na ciclagem de nutrientes, e fazendo parte dos ciclos biogeoquímicos através da captura e liberação de carbono das conchas (Oehlmann e Schulte-Oehlmann, 2003; NRC, 2010; Haszprunar e Wanninger, 2012).
10 Normas de formatação da revista: https://www.elsevier.com/journals/ocean-and-coastal-management/0964-
Devido à sua importância tanto socioeconômica quanto ecológica, os moluscos são tema central de diversos estudos acadêmicos (Oehlmann e Schulte-Oehlmann, 2003; Frangoudes et al. 2008; Szabó e Amesbury 2011; Dias et al. 2011; Saleuddin, 2013; Rocha e Pinkerton, 2015), no entanto, pesquisas sobre a caracterização da atividade extrativista desses indivíduos são geralmente deficientes e/ou superficiais (Nishida et al. 2004).
A falta de dados detalhados sobre como e quem realiza a atividade pesqueira é apontada como uma das causas do fracasso de muitos sistemas de gestão (Berkes et al. 2001; Pauly et al. 2001), visto que, para o estabelecimento de medidas de manejo adaptadas à realidade local, e dessa forma mais eficazes, é necessário um entendimento prévio das características e singularidades da atividade. De acordo com Jentoft e McCay (1995), para uma gestão pesqueira efetiva, todas as dimensões que permeiam a atividade (da pesca e do pescador) devem ser abordadas, pois ações prudentes em termos biológicos podem não ser adequadas quando se analisa os fatores sociais e econômicos. Conforme apresenta Johannes (1978, p.349, tradução nossa) “entender um sistema de conservação significa compreender não apenas a natureza do que está sendo conservado, mas também o ponto de vista do conservador”11. Desse modo, para se atingir a sustentabilidade na pesca é necessário que, além das variáveis do recurso explorado, também sejam englobados dados sobre a caracterização dos atores envolvidos na atividade e como esses utilizam determinado recurso (Rocha, 2013).
A etnoecologia é a disciplina acadêmica que aborda a inter-relação entre o indivíduo e o meio ambiente (Marques, 2001), subsidiando assim o preenchimento da lacuna de informações referente à compreensão dos atores envolvidos e do recurso explorado. De maneira mais específica, o ramo da etnoecologia que estuda a relação entre ser humano e moluscos é a etnomalacologia. O objeto de estudo dessas é o Conhecimento Ecológico Local (CEL), que de acordo com Berkes (2008), é definido como o conjunto de saberes, práticas e crenças formulado e transmitido por populações locais através de processos adaptativos na relação dos seres vivos (incluindo os humanos) entre si e com o ambiente, que são transmitidos de geração a geração através da cultura. O CEL abrange saberes acerca da ecologia (Gerhardinger et al. 2006; Batista e Lima 2010); técnicas e apetrechos utilizados (Anuchiracheeva et al. 2003); formas de uso de espécies ou habitats (Baptista et al. 2013); influência dos fatores abióticos (Nishida et al. 2006); sistema de classificação da natureza (Mourão e Nordi, 2002; 2006); mitos e rituais conservacionistas (Farias et al. 2010); tipos de hábitats existentes (Silvano e Begossi, 2012), e etc.
11 “Understanding a conservation system means understanding not only the nature of what is being conserved, but
Em diversos lugares no mundo esse conhecimento vem sendo utilizado ou apontado como importante ferramenta para a gestão pesqueira descentralizada, também conhecida como sistema de cogestão (Johannes, 1978; 1998; Huntington, 2000; Olsson e Folke, 2001; Baird e Flaherty, 2005; Gerhardinger et al. 2009; Kalikoski et al. 2009; Seixas e Kalikoski, 2009). Alguns dos benefícios gerados pela inclusão da população local nos sistemas de manejo são: maior legitimação e adesão das medidas construídas (Berkes, 2009); levantamento de informações que seriam inviáveis econômica e/ou logisticamente através de métodos convencionais (Johannes, 1998) partilha de direitos e responsabilidades (Sen e Nielsen, 1996; Carlsson e Berkes, 2005; Berkes, 2003; 2009); e reconhecimento da importância das práticas de manejo tradicionais (Kalikoski et al, 2009).
Visando coletar e atualizar informações úteis para gestão compartilhada da mariscagem, o presente capítulo objetivou caracterizar a atividade de coleta de moluscos realizada em uma comunidade pesqueira localizada no nordeste do Brasil a partir de uma abordagem etnoecológica. Para isso, foram delimitados os seguintes objetivos específicos: caracterizar o perfil socioeconômico das marisqueiras que participaram da pesquisa; identificar a malacofauna local utilizada pelas marisqueiras; identificar, mapear e caracterizar os locais de coleta de moluscos; levantar os principais problemas relacionados à mariscagem, bem como soluções para os mesmos.