Assim, no que toca a afirmação de certo relativismo na concepção marxista, não há diferença substancial entre a defesa desse ponto de vista em outros autores (cite-se especialmente MacIntyre235, o mais representativo) e o conjunto da formulação de Singer, inclusive quando este, para justificar sua versão utilitarista, conceitua a conduta ética apenas por sua possibilidade de ser justificada através de argumentos razoáveis236, sem levar em conta que ao não definir o que é razoável se incorre numa petição de princípios.
Todos os que não enfrentam adequadamente o problema das raízes da vida moral se equivocam por não responder previamente ao seguinte problema: se a moral está posta a serviço da vontade de alguém, se vai dar conta da justificação de determinados interesses, se vai legitimar a visão de mundo de determinados setores, perguntar quem é o dono dessa
234 KAMENKA, E. Marxism and ethics. London: MacMillan, 1969, p. 22.
235 MACINTYRE, Alasdair. Depois da virtude. São Paulo: EDUSC, 2001, p. 149-150, 190-191, 361- 362, 423 e, especialmente, 437-438.
vontade, do interesse ou da visão de mundo a ser justificada, tem importância tanto política quanto, inclusive, moral, como percebe um dos críticos contemporâneos de Marx. 237
Ressalve-se, no entanto, que o texto de Peter Singer não é um estudo da moral marxista. Sua pretensão e seu objeto são outros. Mas ao fazer um apanhado acerca das teorias éticas, ele nos remete a um exame das idéias do marxismo acerca da moral, a partir não só do Anti-Dühring, mas de outras obras marxistas que, ainda que perfunctoriamente, incidem sobre tal problemática.
O seu desacordo não é estranho e nem inédito: ele diz respeito ao choque com a idéia pela qual os juízos morais nada mais são do que reflexos dos costumes das sociedades nos quais são criados e difundidos.
Para ele, o campo marxista nada mais fez senão adaptar, como se disse mais atrás, essa forma de relativismo às suas concepções238, visto que como assinalam seus fundadores, na Ideologia Alemã, as idéias dominantes de cada época são as idéias das classes dominantes. 239
Portanto, também assim seria – para os fundadores do socialismo científico – o que ocorreria no âmbito moral que, junto com a religião, a metafísica e todo o restante da ideologia e as formas de consciência a elas correspondentes, perdem logo toda aparência de autonomia.
Ora, o que isso tem a ver com um relativismo ético pelo qual em assuntos de moral todos estão certos porque cada um tem os seus próprios valores?
O que se pode deduzir dos textos que servem de base para a crítica ao relativismo é exatamente o oposto: o reconhecimento de que a moral de uma dada sociedade sofre
237 MACINTYRE, Alasdair. Depois da virtude. São Paulo: EDUSC, 2001, p. 423. 238 SINGER, Peter. Ética prática. São Paulo: Martins Fontes, 2002, p. 13
influência fundamental de quem nela exerce a hegemonia no campo da formação das idéias, mostrando o caráter relativo da moral.
Mas, apesar da acirrada polêmica que mantém em face do que chama de relativismo ético do marxismo, Singer não consegue sustentar seu ponto de vista e faz uma concessão ao campo que critica, quando lembra que a abordagem de Engels foge de qualquer esquematismo.
E isso ocorre na medida em que ele reconhece que Engels se opõe à rigidez relativista em favor de uma afirmação mais restrita no sentido de que a moralidade de uma sociedade dividida será sempre referenciada na moral dominante (que é também a da classe dominante) e tal afirmação só pode ser plenamente compreendida se acrescentada àquela outra, supramencionada, no sentido de que só a moralidade de uma sociedade destituída de antagonismos seria, de fato, uma moralidade humana. 240
A afirmação por alguns autores acerca do reconhecimento de um relativismo moral na teoria marxista, adicionado de uma estratégia discursiva utilitarista não é algo que se pode se perceber só na concepção do próprio Singer.
E embora ele admita isso, deve ser ressaltado que esse modo de ver o problema é solo comum da imensa maioria dos que, em filosofia, buscam examinar as motivações do agir humano e descobrem que o centro motor, na imensa maioria dos casos, é o frio interesse. 241
Não é acidental que um leitor atento de Marx – e também um duro crítico dentre os contemporâneos – lembra que nossa sociedade não pode almejar alcançar consensos morais
240 ENGELS, Friedrich. Anti-Dühring. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1979, p. 79.
241 Marx e Engels, em “A sagrada família”, historiando as raízes do materialismo Francês lembram que, para Helvetius, “as qualidades sensíveis e o amor próprio, o gozo e o interesse pessoal são o fundamento de toda a moral” naquilo que concerne a relação do materialismo com a vida social. Ver: Marx, Karl; ENGELS, Friedrich. A sagrada família. São Paulo: Boitempo, 2005, p. 148-149.
e que por isso, entre outras razões, o pensador de Trièr estava certo ao afirmar que ao se pugnar pela justiça em geral sempre se comete erros na medida em que existem concepções rivais acerca da mesma e que o conflito – e não o consenso – constitui o vértice da vida social moderna e contemporânea. 242
O que, como aqui se posiciona a tese, limita a crítica de Singer ao suposto relativismo moral de Marx (que ele critica a partir de uma posição relativista, o que o põe em uma antinomia razoável) é o não levar em conta que em Marx – como em Hegel – o sujeito é histórico, não é centralmente um sujeito moral como o foi para Kant.
E foi essa visão de moral afastada da história que leva a razão prática em Kant a uma série de paradoxos, primeiramente porque afasta a moralidade de qualquer contextualização, o que implicaria em reconhecer seu caráter relativo, dificultando o lidar com as mudanças de valores, bem como o conduziu a uma rigidez de forma tal que a realização de determinados imperativos conduziria a resultados absurdos. 243
Marx, herdeiro da tradição da filosofia clássica alemã, se desvencilha de boa parte de tais paradoxos.
E o faz como? Pela inserção da história e da luta de classes como centro de suas análises.
242 MACINTYRE, Asladair. Depois da virtude. São Paulo: EDUSC, 2001, p. 423.
243 Ele definia, por exemplo, na “Metafísica dos costumes”, na parte concernente a doutrina do direito, que “o casamento se constitui na união de duas pessoas de sexos diferentes com a finalidade de posse recíproca de suas qualidades sexuais” e no opúsculo “Acerca do suposto direito de mentir por amor a humanidade” ele defende que mesmo para salvar a vida de alguém vitima de perseguição, não seria licito, ainda assim, mentir. Ver: KANT, Immanuel. Doutrina do direito. São Paulo: Ícone, 2007, p. 105-107; KANT, Immanuel. Teoria y practica. Madrid: Tecnos, 1993, p. 37.
Por isso que, para ele, se há que se falar num imperativo moral só pode ser o de fazer mudar o estado de coisas vigente na medida em que se o ser humano é aquele formado pelas condições, o que se faz necessário, pois, é tornar tais condições humanas. 244
Não é gratuito que em sua tese doutoral Marx se apoiou numa sentença de um dos filósofos que deu título ao trabalho ao lembrar que infelicidade é viver na necessidade, mas que não se faz necessário nela viver. 245
Assim, o que ele visa é não discutir moral como um dado ontológico prefixado e rígido e sim a situando – e aos interesses humanos – como algo na história e não fora dela.
Para ele, portanto, o problema não é louvar ou condenar este ou aquele interesse, esta ou aquela motivação que move o indivíduo. Se o interesse é o princípio basilar de qualquer moral, passa a importar então, como aspecto fundamental, que o interesse privado de cada um coincida com os interesses gerais da humanidade. 246
Assim, focado no problema do interesse é que se passa a abordar os elementos da justificação das escolhas morais e seu uso no discurso prático.