O lugar que a cultura conquistou nos últimos anos, sob o âmbito da sua importância como instrumento de inclusão social, se deve ao fato desta ser analisada pela visão antropológica. Foi na Constituição Federal de 1988 que o Estado toma para si a responsabilidade de assumir a cultura nas políticas públicas, estimulando a necessidade de se conceituar, olhar, planejar e realizar políticas culturais com uma visão mais democrática, responsável e ampliada. Pensando sempre que um povo como o brasileiro, com diversidades culturais enormes, precisa de projetos e ações especificamente voltadas para esses grupos que compõem nossa sociedade.
Esses diferentes grupos que compõem nossa sociedade requerem tratamentos específicos, o que fez com que diversos gestores, intelectuais e artistas criassem modelos diferentes dos habitualmente usados durante décadas pelo Estado e que não mais atendem as necessidades dos cidadãos brasileiros.
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Marilena de Souza Chauí. Uma opção e moderna: Democracia Cultural. In FARIA, Hamilton José Barreto de, org. E SOUZA,Valmir de, org. Experiências de Gestão Cultural Democrática. São Paulo: PÓLIS, 1993. 120 p. (Publicações Pólis, 12):13.
Cada vez mais os gestores culturais buscam fazer uso de políticas culturais que permitam maior participação popular. Passa a ser pensada e praticada com uma perspectiva antropológica e praticada de forma inclusiva, como diz Hamilton Faria21:
Estes acontecimentos denotam o nascimento de uma Cultura da Cultura, isto é, uma cultura que revaloriza os aspectos culturais da realidade social.
Muitos municípios brasileiros vivem hoje a experiência da gestão democrática e, com isso, há uma preocupação em democratizar a Cultura, trazê-la à presença do grande público, ampliar os direitos culturais pelo conjunto dos cidadãos. Fomentam-se as artes, difundem-se conhecimentos, circula uma pluralidade de discursos. A expressão-chave é o direito do cidadão à Cultura. São definidas políticas que estimulam o acesso dos cidadãos aos espaços e equipamentos culturais. Outros vão além: combinam o processo de democratização da Cultura com uma Política Cultural que aponta no sentido da construção da Cidadania Cultural.
Agora já não basta o cidadão de ter acesso à Cultura, mas há necessidade de promover processos de participação para que o cidadão seja agente da sua cultura, deflagrando um ato permanente de criação.
Neste caso a Política Cultural não se limita a estimular o acesso a uma Cultura estabelecida, mas caminha no sentido de uma construção nova e original que cria arte, gera reflexões, questiona modos de vida, resgata tradições, instiga o fazer político, pergunta-se sobre o ethos urbano, instaura redes de sociabilidade, desestabiliza o estabelecido, reconquista a vida cotidiana como espaço do humano.
Esta visão de Política Cultural propõe a realização da Cultura pelo conjunto dos cidadãos, grupos, comunidades, pessoas, a partir das suas referências, identidades e diferenças. O Estado impulsiona mas não se limita, propõe mas não define pautas culturais da sociedade: estimula, a todo momento, a participação nos processos criativos, respeitando o pluralismo, a diversidade, a autonomia; sem se abster do debate, inclui-se enquanto ator dos processos culturais (FARIA e SOUZA , 1993:04-05).
As reflexões geradas sobre a cultura da cultura e do direito do cidadão ao acesso à cultura, a inclusão social que a cultura possibilita, a diversidade cultural e a ampliação do conceito da cultura são conseqüências de um Brasil que passava por um processo de redemocratização.
21
HAMILTON FARIA. Os sentidos da cultura nas cidades. In FARIA, H.J.B. de e SOUZA, V. de (orgs).
Experiências de gestão cultural democrática. São Paulo, Pólis, 1993. Ver também: II Seminário de Políticas Culturais- diálogos e tendências – Fundação Casa Rui Barbosa, dias 04 e 05/10/2007. Participação da
Hamilton Faria na mesa III Direito e Cidadania Cultural, sendo o seu tema: Direitos e conceitos que formam
Com a abertura política pós-ditadura e os cidadãos redescobrindo seus direitos surgem novas demandas de um país que cresce.
Antecedendo a este processo de redemocratização que se inicia com a abertura política ainda no final da ditadura militar na década de 70, o desenvolvimento do país pede novas formas de estruturar a cultura. Esses modelos de políticas culturais foram sendo construídos de acordo com cada conjuntura que se colocava. Para Renato Ortiz, a “problemática da cultura brasileira tem sido e permanece até hoje uma questão política”22 (2005:8). Para o autor, é preciso compreender como a questão cultural se estrutura atualmente no interior de uma sociedade que se organiza de forma radicalmente distinta do passado, pois, na medida em que o capitalismo atinge novas formas de desenvolvimento, novos tipos de organização da cultura são implantados, em particular a partir de meados dos anos 60.
Por se tratar de uma visão nova sobre a cultura (cultura cidadã), iniciada entre o final da década de 80 e início da década de 90, a discussão continua em aberto. Aumenta o número de trabalhos acadêmicos ligados ao assunto. A pesquisa no setor ganha dimensões especializadas. A gestão na cultura se profissionaliza a cada dia. O MINC reforça e apóia constantemente essas iniciativas. O IBGE realiza mapeamentos sobre o setor cultural, relacionando dados sobre cultura, economia e mercado (consumo e inclusão social). A revista Observatório Itaú Cultural23, do Instituto Itaú Cultural, assim como a Fundação Casa Rui Barbosa realizam junto a diversos pesquisadores, professores e especialistas em Políticas Culturais, mapeamentos sobre o setor, tendências e promovem diversas ações e debates, para que cada vez mais a cultura ganhe espaço de prioridade dentro das políticas públicas. O setor se estrutura, cresce, se profissionaliza. Criam-se gestores para atender a demanda do Estado de incluir cada vez mais a cultura como prioridade nas políticas públicas. Ela tem que ser planejada, precisa, definida, e para que isso aconteça a cultura necessita de uma estrutura. É o momento de dar a cultura o espaço que ela precisa, pensá-la como um modelo a ser definido, planejado dentro de uma visão política. É preciso pensar e fazer cultura como uma política definida.
22
Ortiz, Renato. Cultura brasileira e identidade nacional. São Paulo: Brasiliense, 2005, 5ª reimpr. da 5ª ed. de 1994.
23
Nessa discussão em aberto nota-se que ainda existem muitas dificuldades na gestão administrativa dos setores culturais das esferas estaduais e municipais. Dificuldade na definição conceitual, pragmática e em sua formulação. Dificuldades em diferenciar o uso de mecanismos de incentivo fiscal, de abertura e utilização de espaços culturais e como utilizá- los como apenas um mecanismo de ação e não uma política em si. De se criar formas de promover, fazer e dar acesso à cultura a todos os cidadãos.