A fim de completar uma tríade a respeito da discussão sobre o pensamento galdosiano empetrado por María Zambrano, pareceu-nos interessante mencionar o poeta e crítico literário espanhol Luis Cernuda (Sevilla – 1902 / México – 1963), integrante da Geração de 27, pois possui um poema intitulado “Díptico español” que trata da nação espanhola, de suas tradições e mitos, entre eles, Benito Pérez Galdós. Como grande parte dos escritores literários, Cernuda lê as obras clássicas espanholas, francesas e inglesas e, como María Zambrano, publica seus primeiros trabalhos na Revista de Occidente, em 1925. Mais tarde, em 1937, também começa a colaborar com a revista Hora de España. O poeta e crítico T. S. Eliot lhe desperta interesse especial. Cernuda valoriza a tradição literária universal e a conjuga à originalidade de sua poesia, que se relaciona à sua experiência de vida. Como assevera T.S. Eliot:
Os poetas têm outros interesses além da poesia – caso contrário, a sua poesia seria bastante vazia; eles são poetas porque o seu interesse dominante foi converter a sua experiência e o seu pensamento (experimentar e pensar é possuir interesses fora da literatura) – converter a sua experiência e o seu pensamento em poesia. (Eliot, T. S., 1997, p.143)
Podemos observar outros pontos de contato importantes entre María Zambrano e Luis Cernuda, como o longo exílio republicano vivenciado por ambos, onde o México foi um dos países que os recebeu com hospitalidade. María Zambrano e Luis Cernuda conheceram-se.
“Díptico español” constitui o poemário de Desolación de la Quimera, que Cernuda começou a redigir em 1956 e conseguiu publicá-lo em 1962. Entre os onze livros de poemas que publicou, Desolación de la Quimera aparece como o último livro de Cernuda. Segundo estudos de Octavio Paz, a poesia cernudiana caracteriza-se pela meditação e estabelece quatro fases de produção: aprendizagem, juventude, maturidade e início da velhice. Desolación de la Quimera compõe a última etapa do poeta, que privilegia a austeridade e o conceito na enunciação. Como uma maneira de entender o mundo, o título da obra remete-se a uma expressão encontrada em um dos versos de Quatro quartetos de
T. S. Eliot. É o vigésimo primeiro verso da quinta parte do poema Burn Norton: “The loud lament of the disconsolate chimera”. (ELIOT, T. S., 2004, p.89)
Segundo entendimento comum, os dípticos são formados por pinturas com motivos religiosos sobre madeira geralmente organizada por tábuas retangulares que, por meio de dobradiças, integram-se e simbolizam momentos de um cenário em tempos distintos que se refletem e comunicam. A pintura, que serve como imagem ou cenário, pode ser fechada ou aberta sobre um altar. Por isso, ao pensarmos na transposição dessa técnica de pintura para o texto poético, e, mais especificamente, para o poema “Díptico español” de Luis Cernuda, inferimos o conceito de uma Espanha dividida situada em dois momentos de clímax compostos por “I ES LÁSTIMA QUE FUERA MI TIERRA e II BIEN QUE ESTÁ QUE FUERA TU TIERRA, primeira e segunda parte do poema, que envolvem diferentes perspectivas, individual, coletiva e uma hibridez de ambas no momento presente da enunciação. Como “Díptico español” apresenta um ponto de vista histórico, Fornerón (2010, pp.116, 117) explica que todo juízo histórico é precisamente ‘narrado’ através de uma perspectiva triangular, interpretada como três histórias constituintes de nossa personalidade: uma pessoal, outra coletiva e outra ainda pessoal e coletiva dentro da sua contemporaneidade. Isso credencia não somente a maneira dupla, mas a forma tripla ou até múltipla de leitura do texto. Se a primeira parte dirige-nos a uma compreensão de um diatribe da nação espanhola presente, a segunda parte enfoca um hino de louvor a um passado de glória. Em outras palavras, pelo ‘discurso díptico’, por uma parte, vituperam-se as ações viciosas que desafiam a concretização, na existência concreta, de uma felicidade onírica possível e, por outra, exaltam-se os atos nobres de um passado que não deve ser esquecido.
É fato comum compreender que a obra cernudiana oscila antiteticamente entre o mundo da realidade e o mundo do desejo, dado que o próprio poeta, a partir de 1936, denomina assim o conjunto de sua produção. Essa oposição nasce, de um lado, das vicissitudes marginais de sua própria vida, mas, de outro, é o resultado de uma forte influência de escritores românticos e simbolistas, que se debatiam entre a vontade com relação à liberdade individual e as imposições morais de uma sociedade burguesa, o que irá representar um tema bastante recorrente na poética
do século XX, sendo possível detectar-se essa peculiaridade em outros autores espanhóis de sua geração, como Antonio Machado, García Lorca, Rafael Alberti e a própria María Zambrano. Os motivos que levam Cernuda a antagonizar realidade e desejo são variados e repetem-se ao longo da sua obra. Vamos mencionar previamente algumas das razões mais importantes, que servirão de suporte à análise do poema “Díptico español”. Agruparemos tais fatores em cinco grandes esferas de interpretação, cuja primeira se refere ao sentimento de solidão e de uma existência à margem provocada pela sensação da diferença. A segunda inclui o anseio de descubrir um mundo que respeite a individualidade do homem, com todas as suas particularidades. Para alcançar esse objetivo, por vezes, o poeta recorre ao passado, à infância em uma busca pelo paraíso perdido. A terceira requer o encontro com uma beleza de perfeição, não contaminada pela realidade ou materialidade. A quarta aborda um dos maiores temas da poesia de Luis Cernuda: o amor, discutido de distintas maneiras. O amor pode ser aquele não vivido, mas sentido, canalizado em uma experiência literária. Pode ser aquele vivenciado, porém frustrado, ferido pela insatisfação, pelo sofrimento, pela incompreensão e pelo fracasso. Pode ser aquele momento de felicidade breve. Pode ser aquele juvenil, de desejo e esperança eterna, em que o tempo e o seu transcorrer detêm-se na jovialidade, que permite a pujança de espírito para combater o mundo que reprime. Aqui, também encontramos o tema da nostalgia da infância, cuja inocência, a felicidade e a percepção de ser eterno se harmonizam com o universo e a natureza, que assinala a quinta esfera de interpretação da obra do poeta sevilhano. O entendimento dessa esfera não se diferencia muito do que já discutimos anteriormente. A natureza, entendida como desejo, isto é, um estado edênico, onde o homem vive em harmonia com o cosmos, funciona de contraponto ao mundo burguês real e caótico, que o poeta critica duramente, assim como o fazem outros escritores da Geração de 27. Sendo fiéis aos pilares que sustentam essa pesquisa, isso realmente leva-nos a pensar que a arte ficcional perpassa de uma forma analógica e irônica a realidade para assim constatar a existência factual trágica do homem.
Como pudemos ver, a poética de Luis Cernuda caracteriza-se por uma forte presença intertextual, que colabora com a criação de uma escritura muito particular
e original. Citamos a concepção de leitura e apropriação de Manuel Ulacia, com respeito à interferência da tradição clássica na obra cernudiana.
Desde el primer libro de Cernuda la reminiscencia, que yo prefiero llamar presencia, es una constante en la escritura. Esta presencia es precisamente la labor crítica del poeta que incide en su creación [...] si utilizo el término ‹intertextualidad› en vez del ya tradicional ‹influencia›, es porque este último término propiamente dicho implica una actitud pasiva por parte del escritor, en tanto que ‹intertextualidad› implica la actitud opuesta. Es decir, al leer la obra de otro autor, la transforma, la hace suya. O en otras palabras, se podría decir, que Cernuda ‹cernudiza› sus lecturas. [...] Cernuda metafóricamente ‹canibaliza› la tradición poética europea en sus diferentes expresiones desde el romanticismo hasta dos diferentes movimientos de vanguardia. (ULACIA, M., 1986, pp.11, 12)
É evidente que o caráter intertextual não é um privilégio da obra de Luis Cernuda, mas é também de outros tantos escritores, entre eles, María Zambrano. Entretanto, é importante afirmar o óbvio devido à sua relevância na abordagem do poema “Díptico español”, que possui ‘reminiscências’ da obra galdosiana. Para tal, também é necessário vislumbrar o exílio de Luis Cernuda para melhor compreender a sua escritura, tendo em vista que a sua extensa permanência fora da Espanha favoreceu a produção da parte mais significativa da sua obra. Como a sua poesia contém muito da sua (auto)biografia, a grande quantidade de exílios – Fornerón chama-no de poliexilado (2010, p.80)– da sua vida, familiar, amoroso, político, social, artístico propiciou o caráter de toda a sua produção literária. O exílio é uma forma de resistência e de existência consciente, que demonstra quão impossível é a vida na terra pátria. A desilusão do homem com a realidade circundante expressa que o futuro é sempre um anseio utópico que tem por fim o malogro. O exílio pretende denunciar que é preciso haver uma aceitação das diferenças individuais; os exilados desejam pontuar a sua existência no mundo por meio da vontade particular e da inteligência que rompe as fronteiras da própria nação. O exílio, assim, testemunha os acontecimentos do homem e da sua época e promove discursos relativizadores fundamentais ao crescimento intelectual do ser humano com respeito à sua realidade.
A disposição estrutural de “Díptico español” como a de outros poemas encontrados em Desolación de la Quimera caracteriza-se por ser de grande extensão –está dividido em duas partes– e por tratar, de certa maneira, de temas como a morte, a solidão, a memória, a história, a guerra e a infância, que se
duplicam em determinadas imagens, vozes e personalidades míticas do passado, que o poeta precisa reconstruir para sobreviver a uma contingência presente insatisfatória e procurar explicar a história do povo espanhol por meio de sua ascendência ocidental literária e cultural.
Na primeira parte do poema “Díptico español” de Cernuda, podemos observar uma Espanha da qual o poeta não se orgulha e critica severamente, pontuando o seu desgosto de ser espanhol e de haver nascido dentro das fronteiras de um país que não respeita as diferenças individuais e os direitos alheios.
I
ES LÁSTIMA QUE FUERA MI TIERRA Cuando allá dicen unos
Que mis versos nacieron De la separación y la nostalgia Por la que fue mi tierra,
¿Sólo la más remota oyen entre mis voces? Hablan en el poeta voces varias:
Escuchemos su coro concertado, Adonde la creída dominante Es tan sólo una voz entre las otras.
Na verdade, a capacidade de se voltar ao passado com admiração e veia crítica que demonstram Cernuda por meio de um eu poético, Galdós no romance e María Zambrano no ensaio assinala uma forma de não sucumbir à truculência e à necedade de uma Espanha moderna contaminada por seus próprios sonhos de poder e submissão do outro, que, em muito, correspondem a um pensamento racionalista totalitário e a um sentir do homem trágico no mundo, colocado, por si mesmo, em segundo plano frente à força de um ‘desenvolvimento’ econômico e tecnológico. A atitude ética de reconstituir e preservar o passado aparece como uma resistência à uma não ruptura com a tradição no presente, podendo assim garantir uma via de saída e de esperança às gerações vindouras.
Lo que el espíritu del hombre Ganó para el espíritu del hombre A través de los siglos,
Es patrimonio nuestro y herencia De los hombres futuros.
Esses primeiros versos do poema já contribuem para que possamos entender melhor o sentido do título do livro. Se compreendermos que ‘quimera’
significa ‘fantasia’, ‘sonho’ ou ‘utopia’, ‘desolación de la quimera’ corresponde, portanto, a um desejo frustrado. A quimera, a nosso ver, para Cernuda, possuía um sentido amplificado da aspiração mítica impossível de uma grandeza do ser humano e da sua civilização, já que tal magnanimidade não se encontra em um tempo presente, mas em um tempo ido inalcançável. Assimilando-se a seres irracionais, o homem, padecendo o seu próprio fracasso, intolerância e desentendimento, aniquila a quimera da existência idealizada e reforça a imortalidade do mito utópico da felicidade, como se o verdadeiro viver fosse somente viável na ilusão.
Al tolerar que nos lo nieguen
Y secuestren, el hombre entonces baja, ¿Y cuánto?, en esa escala dura
Que desde el animal llega hasta el hombre.
Nos próximos versos, o poeta repete uma série de vezes o vocábulo ‘muerto’, conferindo-nos novamente por essa ideia e por outras similares a imagem de destruição e ruína. A referência a um mundo ‘nadificado’, sem expressão, sem voz, sem esperança patentiza o espírito desolado do poeta, que insiste no fato de que tomar uma atitude é uma ação totalmente vã e impraticável, pois tudo ‘nasce e morre morto’.
Así ocurre en su tierra, la tierra de los muertos, Adonde ahora todo nace muerto,
Vive muerto y muere muerto,
Pertinaz pesadilla: procesión ponderosa Con restaurados restos y reliquias, A la que dan escolta hábitos y uniformes, En medio del silencio: todos mudos, Desolados del desorden endémico Que el temor, sin domarlo, así doblega.
García Montero escreveu um ensaio com o sugestivo título de Los dueños del vacío, onde exprime que, na visão do solitário poeta, a não aceitação do outro não deveria equivaler à natureza e aos valores fundamentais do ser humano. A dificuldade do existir humano está no conflito trágico oscilante entre o ser individual e o ser dialogante dentro do mundo. A expressão linguística, assim, cumpre a missão de canalizar o fluxo de uma consciência, que erige a identidade do homem e lhe permite ser em relação ao próximo.
Distancia, rechazo, extrañeza, ante unas maneras de vida que no se corresponden con “el oficio de ser hombre” aprendido duramente por el poeta. La ética sustituye así a la biología a la hora de sugerir unas señas de identidad, es decir, se aleja de las expresiones originales para acercarse a la conciencia, entendida como un oficio de palabras, que se aprende en soledad y por el camino de las dificultades. La única seña de identidad humana será la conciencia, que es individualidad y diálogo, oficio y comunidad. La lengua pasa a convertirse en el vínculo estricto que reconoce el poeta, porque es la única heredad que permite el entendimiento y la discrepancia. (GARCÍA MONTERO, L., 2006, p.229)
O eu lírico afirma que o que fazemos hoje se reflete nas gerações posteriores e marca a nossa história. Critica os equívocos cometidos em sua terra espanhola e compara o viver ali com a barbárie e a pungente festa de toros.
La vida siempre obtiene
Revancha contra quienes la negaron: La historia de mi tierra fue actuada Por enemigos enconados de la vida.
El daño no es de ayer, ni tampoco de ahora, Sino de siempre. Por eso es hoy
La existencia española, llegada al paroxismo, Estúpida y cruel como su fiesta de los toros.
O povo e a inteligência vilipendiados pela repressão e o encarceramento não possuem felicidade e não são livres para pensar e exercer os seus direitos de escolha. A única escapatória para os que resistem é o exílio, que reivindica a sua possibilidade de ser para si mesmo e para o mundo, usando a voz, a linguagem, a arte como ferramenta de luta e protesto.
Un pueblo sin razón, adoctrinado desde antiguo En creer que la razón de soberbia adolece Y ante el cual se grita impune:
Muera la inteligencia, predestinado estaba A acabar adorando las cadenas
Y que ese culto obsceno le trajese Adonde hoy le vemos: en cadenas, Sin alegría, libertad ni pensamiento.
A língua é um veículo de expressão que oferece possibilidades diversas e acaba rompendo o pensamento totalitário. No movimento linguístico, o homem pode obrar a favor de si mesmo e defender a sua natureza independente. O poema escrito pelo poeta assume a responsabilidade de conscientizar o leitor, que é o povo e que é o homem naturalmente em seu sentido amplificado, cuja finalidade é fazer que a morte da inteligência e da livre opinião seja duramente negada e
combatida. Esse resistir bravamente é, sem dúvida, uma atitude difícil e, portanto, heróica, mas que alerta sobre a importância da aceitação da individualidade e do coletivo dentro de suas prerrogativas fundamentais de existência digna dentro do seu mundo real: “un poeta, dicen, es un soñador. Quizá... En todo caso no es soñador quien persigue un sueño, sino quien persigue la realidad.” (CERNUDA, L., 1975b, p.117) O eu lírico reconhece, com pesar e tristeza, a sua nacionalidade e língua espanhola e isso não é tão fácil de mudar como pode parecer para alguns, pois faz parte de nosso ser mais íntimo, de nosso espírito, de tudo que vivemos geralmente nos primeiros anos de nossa vida.
Si yo soy español, lo soy
A la manera de aquellos que no pueden Ser otra cosa: y entre todas las cargas Que, al nacer yo, el destino pusiera Sobre mí, ha sido ésa la más dura. No he cambiado de tierra,
Porque no es posible a quien su lengua une, Hasta la muerte, al menester de poesía.
Tanto Cernuda, como Galdós e Zambrano buscavam uma realidade mais justa, igualitária e decente às necessidades do homem moderno, que pudessem se equilibrar com sua evolução técnica e o pensamento racionalista. Tanto em “Díptico español” como no conjunto da obra poética de Cernuda, constatamos que o desejo é um sentimento frequentemente frustrado pelas adversidades contingenciais, porém, é justamente em virtude dessa sensação de fracasso e perda que o que se deseja incorpora uma força expressiva poética tão avassaladora. A língua aparece como o meio que pode gerar comportamentos transformadores que diminuam as distâncias entre realidade e desejo, entre passado e presente, que, decerto, constrõem o futuro.
La poesía habla en nosotros
La misma lengua con que hablaron antes, Y mucho antes de nacer nosotros,
Las gentes en que hallara raíz nuestra existencia; No es el poeta sólo el que ahí habla,
Sino las bocas mudas de los suyos A quienes él da voz y les libera.
É essencial chamar a atenção para o fato de que também em Luis Cernuda a escritura desenha uma pintura trágica de decadência e fracasso tanto individual, como também coletivo e cultural de um país. O procedimento discursivo que pretende recuperar o passado por meio de uma relevante tradição literária denota a frustração da vivência do presente. Sem dúvida, escrever pressupõe percorrer tempos e mundos distintos. O exílio torna-se uma experiência fulcral de reconhecimento do lugar do outro, que nos faz identificar o nosso próprio lugar.
¿Puede cambiarse eso? Poeta alguno Su tradición escoge, ni su tierra, Ni tampoco su lengua; él las sirve, Fielmente si es posible.
Mas la fidelidad más alta
Es para su conciencia; y yo a ésa sirvo Pues, sirviéndola, así a la poesía Al mismo tiempo sirvo.
Os próximos versos parecem-nos demasiado contundentes e continuam demonstrando um poeta extremamente decepcionado com a sua origem, com o tema da Espanha, apesar de se sentir irremediavelmente unido ao seu país por fatores linguísticos e culturais. O sentimento crítico de repulsa em relação a Espanha caracteriza o que o poeta idealiza e deseja e o que vê, com desengano, na realidade. A visão negativa que o eu lírico possui da Espanha denuncia o seu esforço de romper os vínculos que o conectam ao seu país, com o qual não se identifica, e a vontade de permanecer no exílio.
Soy español sin ganas
Que vive como puede bien lejos de su tierra Sin pesar ni nostalgia. He aprendido El oficio de hombre duramente,
Por eso en él puse mi fe. Tanto que prefiero
No volver a una tierra cuya fe, si una tiene, dejó de ser la mía, Cuyas maneras rara vez me fueron propias,
Cuyo recuerdo tan hostil se me ha vuelto Y de la cual ausencia y tiempo me extrañaron.
O exílio do poeta, como María Zambrano, iniciou-se com a guerra civil espanhola. O êxodo da terra natal propiciou tanto em um como em outro um processo mais apurado de idealização da pátria nos primeiros anos sustentada por uma nostalgia do país e sonhos de revolução que pudessem modificar e melhorar a
história da nação. No entanto, esses anseios foram deteriorando-se e cederam espaço à desilusão.
Al principio de la guerra, mi convicción antigua de que las injusticias sociales que había conocido en España pedían reparación, y de que ésta estaba próxima, me hizo ver en el conflicto no tanto sus errores, que aún no conocía, como