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Exemplo 9 de A4 (p. 87)

Tendo em vista que a decisão do produtor de texto quanto à escolha dos tipos de discurso está relacionada com a representação que ele tem da situação comunicativa em que o texto é produzido, faz-se necessário descrever o contexto de produção dos relatos em estudo [...] [grifo nosso].

No exemplo 9, constatamos a presença da terceira pessoa do singular + “se” (faz-se), verbo na forma impessoal. Verificamos que o locutor narrador afirmou o PdV, mas não assumiu o conteúdo. Ou seja, o PdV anônimo materializou linguisticamente a não assunção da Responsabilidade Enunciativa.

Exemplo 10 A4 (p. 87)

[...], admite-se ainda um tipo de discurso intermediário, o discurso interativo-teórico

misto, que combina características tanto do discurso interativo quanto do discurso teórico. Além disso, há ainda uma outra subdivisão desses tipos de discurso: os discursos

teóricos, os relatos e as narrações apresentam um caráter monológico ou monogerado e os discursos interativos podem apresentar-se tanto como monológicos, dialógicos ou poligerados, de acordo com o número de agentes envolvidos na produção do texto [grifo nosso].

No exemplo 10, coloca-se em evidência a não assunção da Responsabilidade Enunciativa: observamos a presença da forma verbal na terceira pessoa do singular seguida do pronome “se”, configurando um PdV anônimo, conforme visto por meio da forma verbal “admite-se”.

Apesar do verbo “admitir” ter uma carga semântica de comprometimento com o dito, por meio do qual se reconhece como verdadeiro a asserção do dito, neste fragmento não identificamos a presença de objetos do discurso que nos possibilitem identificar o enunciador do PdV. No fragmento 10, o locutor afirma um PdV, todavia, não assume a responsabilidade pelo conteúdo.

Exemplo 11 de A8 (p. 4)

Em consequência, a idéia de homogeneidade que subjaz aos conceitos de texto e sujeito da linguística estrutural se reflete também nos estudos literários. Procura-se, até certo

ponto, vislumbrar na estrutura da obra certos procedimentos homogêneos de composi- ção, bem como marcas de um único sujeito-autor concebido como o criador. Já quando se

trata de verificar as fontes de um determinado texto, costuma-se analisar a

influência predominante de um autor na obra do outro, ou seja, não se leva em conta ainda a multiplicidade de fontes, nem se trabalha com a idéia de constituição

heterogênea da obra

literária. É o que pode ser constatado, por exemplo, na obra de Harold Bloom, A angústia da

influência (1973), na qual se enfoca a relação basicamente bilateral e cheia de conflitos entre poetas fortes

[grifo nosso].

No fragmento 11, acima destacado, evidenciamos o distanciamento entre o locutor e o PdV. Constatamos o uso das formas verbais na terceira pessoa do singular seguidas do pronome “se” : “procura-se” e “costuma-se”.

Não são claras a quem pertencem as afirmações que constituem a proposição- enunciado e o conteúdo relatado, nos quais essas formas verbais encontram-se presentes. Podemos questionar: Quem é a fonte do PdV? Nessa direção, constatar o enunciador requer averiguar sua presença nos objetos do discurso, todavia, o fragmento em evidencia não mostra objetos de discurso que materializem e facilitem o reconhecimento e a identificação de um enunciador

.

Exemplo 12 A2 (p. 146)

Voltando à nossa pergunta, podemos então dizer que é absurdo falar em uma cultura que “copia” outra. Se qualquer palavra que passa de uma língua para outra tem que ser, necessariamente, interpretada – e isso já a torna outra palavra – imagine- se então as “idéias”

de um povo, de uma cultura, quantas alterações não sofrem, ao serem traduzidas [grifo

nosso].

O fragmento destacado em negrito no exemplo 12 mostra que o autor do artigo não assume a responsabilidade pelo conteúdo enunciado. O exemplo grifado no fragmento apresenta a ocorrência de PdV anônimo e da mediação perceptiva, ou seja, o fragmento caracteriza-se pela percepção do locutor que repousa numa focalização cognitiva, que no caso é exemplificado por “imagine-se”. Levamos em consideração o valor semântico do verbo imaginar, o qual se encontra na terceira pessoa do singular seguida do “se”, resultando, assim, em um PdV de mediação perceptiva.

Exemplo 13 de A10 (p. 43)

Assim, pode‐se dizer que o romance possui um alto grau de hibridização. No híbrido romanesco não é apenas um estilo que é misturado ao outro, mas visões de mundo que se cho- cam e disputam a primazia da perspectiva. Note-se que os pontos de vista não se fundem, mas se justapõem dialogicamente [grifo nosso].

O trecho destacado em negrito no exemplo 13 mostra que o autor do artigo não assume a responsabilidade pelo conteúdo enunciado, havendo, assim, a ocorrência do Pdv anônimo. Verificamos a presença da forma verbal na terceira pessoa do singular, seguida do pronome “se”, configurando um PdV anônimo, conforme visto por meio da forma verbal “pode-se”.

Exemplo 14 de A10 (p. 45)

[...] percebe‐se que o itálico é usado em expressões coloquiais, quase lugares comuns da época atribuídos a uma voz popular ou indefinida. Trata‐se de uma expressão cristalizada da qual o autor não quer se apropriar. Araújo Nabuco optou por encobrir

a plurivocalidade que essas

palavras possuíam, transformando o DIL em narração planificada, unívoca e, por conseguinte, superficial. Fúlvia Moretto manteve a bivocalidade também nesse caso, pois o itálico traduz esses múltiplos acentos, acima de uma tradução apegada só ao léxico ou ao sentido imediato.

Encontra-se aqui um procedimento padrão em Araújo Nabuco: as vozes entendidas como indefinidas foram transformadas em

narrativa, isto é, a voz do narrador, suprimindo-se a outra voz [grifo nosso].

O exemplo 14 mostra que o autor do artigo não assume a responsabilidade pelo conteúdo enunciado, ou seja, ele apaga sua voz. O exemplo apresenta a ocorrência do Pdv anônimo, ou seja, verificamos a presença de formas verbais na terceira pessoa do singular seguida do pronome “se”. Conforme as expressões verbais, no fragmento, em negrito: “percebe-se”, “trata-se” e “encontra-se”.

Trata-se, também, da materialização da mediação perceptiva, ao mesmo tempo em que ocorre o Pdv anônimo, pois a expressão verbal “percebe-se” é um verbo que carrega em sua semântica um gesto perceptivo. Ratificamos, com esse fragmento, a concepção de Rodrigues (2010, p. 146-147), para quem o PdV anônimo materializado na terceira pessoa do singular pode ser um tipo de mediação perceptiva, dependendo do valor semântico da forma verbal que esteja na terceira pessoa do singular. Além disso, subsidiamo-nos pelos estudos de Guentchéva (1994) para dizer que o locutor não assume nenhuma garantia pelo conteúdo reportado.

3.2 A ASSUNÇÃO DA RESPONSABILIDADE ENUNCIATIVA: 1) QUADRO