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2.3. KAZAKİSTAN TURİZMİNİN MEVCUT DURUMU

2.3.2. Kazakistan’ın Turizm Arzı

A medicina incorpora-se ao grande sistema moderno de higiene pública, acrescentando às suas práticas dois grandes esquemas de vigilância e controle vigentes ao longo dos séculos XVIII e XIX:

- o modelo religioso da lepra: neste modelo, “[...] o mecanismo da exclusão era o mecanismo do exílio, da purificação do espaço urbano. Medicalizar alguém era mandá- lo para fora e, por conseguinte, purificar os outros. A medicina era uma medicina de exclusão” (Foucault, 1979, p. 88). Ao longo de praticamente toda a Idade Média na Europa, segundo Foucault (2001a), os identificados como leprosos, além de rejeitados para um mundo exterior, confuso e fora das cidades (muitas vezes internados em hospitais gerais), eram desqualificados, exilados e mortificados tanto jurídica quanto politicamente, no intuito de “purificar a comunidade” (p. 55).

Eram de fato práticas de exclusão, práticas de rejeição, práticas de “marginalização”, como diríamos hoje. Ora, é sob essa forma que se descreve, e a meu ver ainda hoje, a maneira como o poder se exerce sobre os loucos, sobre os doentes, sobre os criminosos, sobre os desviantes, sobre as crianças, sobre os pobres (ibidem, p. 54).

Desse modo, a exclusão pela lepra acarretou a produção de práticas divisórias e um rigoroso distanciamento entre grupos e populações de indivíduos;

- o modelo militar da peste, ou da quarentena: esta técnica mostrou-se mais eficaz no controle exercido sobre os “anormais”, sendo reativada em meados do século XVIII especificamente sobre o problema da peste e do policiamento das cidades. Ao contrário do modelo da exclusão do leproso, o modelo da inclusão do pestífero determina uma divisão da cidade em territórios que são objetos de análises criteriosas, sutis e

detalhadas, através de um policiamento minucioso e de uma vigilância sem qualquer interrupção. Neste modelo, todos deveriam ser registrados, e o controle sobre o estado de saúde da cada indivíduo deveria ser diário, pois, se alguém apresentasse qualquer tipo de sintomas, diferenças ou comportamentos, mesmo que sutis, que levassem à suspeita de doença, a administração central deveria intervir. Porém, o foco deste modelo não estava na intervenção, mas na observação próxima, meticulosa, insistente, onipresente e onipotente, a fim de, não como a lepra, com seu grande rito de purificação, “[...] maximizar a saúde, a vida, a longevidade, a força dos indivíduos. Trata-se, no fundo, de produzir uma população sadia” (ibidem, p. 58) por meio de um “[...] exame perpétuo de um campo de regularidade, no interior do qual vai se avaliar sem cessar cada indivíduo, para saber se está conforme a regra, a norma de saúde que é definida” (ibidem, p.58). A medicina, neste caso,

[...] não exclui, não expulsa em uma região negra e confusa. O poder político da medicina consiste em distribuir os indivíduos uns ao lado dos outros, isolá-los, individualizá-los, vigiá-los um a um, constatar o estado de saúde de cada um, ver se está vivo ou morto e fixar, assim, a sociedade em um espaço esquadrinhado, dividido, inspecionado, percorrido por um olhar permanente e controlado por um registro, tanto quanto possível completo de todos os fenômenos (Foucault, 1979, p. 88 – 89)

sendo a cidade pestilenta utopicamente considerada uma cidade perfeitamente governada (Foucault, 2001b).

Assim, a peste, que, pela sua associação com a depravação e a morte, passa por cima das leis e é uma ameaça à regularidade e à ordem social, justifica que o poder político do controle sobre a população se exerça de forma mais absoluta.

A peste traz consigo, talvez, o sonho literário ou teatral do grande momento orgiástico; a peste traz consigo também o sonho político de um poder exaustivo, de um poder sem obstáculos, de um poder inteiramente transparente ao seu objeto, de um poder que se exerce plenamente (ibidem, p.59).

Esse ponto máximo de esquadrinhamento e policiamento de uma população estende-se ao longo da história através da eleição/produção de tipos e/ou monstruosidades que justificam a reinvenção deste modelo de controle absoluto dos corpos e das almas. Tal forma de poder denota uma invenção das tecnologias positivas de poder, já que substitui uma reação anterior negativa, de rejeição, exclusão, abandono e separação de grandes massas confusas para uma tecnologia de inclusão, observação,

constituição, formação, acumulação e crescimento de saberes, de preferência, estatísticos, matemáticos e exatos, acerca de determinada população com vistas a multiplicar os efeitos do poder sobre ela.

Passou-se de uma tecnologia de poder que expulsa, que exclui, que bane, que marginaliza, que reprime, a um poder que é enfim um poder positivo, um poder que fabrica, um poder que observa, um poder que sabe e um poder que multiplica a partir de seus próprios efeitos (ibidem, p. 60).

Ao contrário da exclusão das masmorras e do suplício espetáculo, o poder disciplinar projeta luz sobre a vida de cada indivíduo, baseando-se na visibilidade geral e economia máxima. Esta nova modalidade de poder sobre a vida das populações, articulada ao discurso racista (poder sobre a morte), Foucault vai chamar de “biopoder”. Para se entender este conceito, faz-se necessário uma análise do conceito de vida, especialmente do modo como, a partir da modernidade, ocorre o processo de “[...] estatização da vida biologicamente considerada, isto é, do homem como ser vivente” (Castro, 2009, p. 57). Vida aqui considerada tanto como corpo-máquina individual, quanto como corpo-espécie biológica, que precisa ser esquadrinhada e mapeada a fim de se poder fazer viver o máximo e o melhor possível. A substituição da História Natural de uma época clássica pela biologia moderna ocorre a partir de uma inclusão do estudo da capacidade de viver e das suscetibilidades de morrer, que até então não eram consideradas existentes dentro das reflexões sobre a vida. Numa lógica natural, viver era um processo que independia da ação e reflexão humana e das questões modernas sobre viver melhor ou pior e que estava incluído numa taxonomia natural que deveria seguir seu curso sem grandes interferências de qualquer ordem15. Com o capitalismo e a modernidade, surge a necessidade de se questionar sobre o processo de viver, sua organização, função e possibilidades. Surge a biologia como ciência referência que faz com que a vida entre “no campo do controle do saber e das intervenções do poder” (ibidem, p. 58). Com a biologia, a questão da norma supera a lei, pois a norma aplica-se tanto a um corpo individual que se quer disciplinar (poder individualizante) quanto a uma população que se quer regularizar (poder totalizante). Esta tecnologia de norma disciplinar e regulatória sobre a vida possibilita a existência da sociedade normalizadora, sendo esta central para o biopoder moderno. Com a emergência da

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Sobre um olhar da vida e da morte na atualidade, o curta documentário “A invenção da infância” (2000), de Liliana Sulzbach, é muito interessante. Recuperado em 15 de janeiro de 2011, de

industrialização e da explosão demográfica, especialmente nas grandes cidades, o poder tradicional centrado na figura do soberano mostra-se impotente para gerenciar grandes massas populacionais, o que faz com que se inventem espaços institucionais de controle, disciplina e regulação, tais como escolas, fábricas, quartéis e prisões. Além disso, as ciências, tal como a biologia e a medicina, cumprem um papel fundamental para manter as ordenações e regulações sociais a partir desta época.

Para isso, relacionado aos mecanismos disciplinares, o dispositivo de segurança surge com seus controles regulatórios, que se encarregam da saúde e da vida das populações. Foucault (2008a) refere que, assim como o mecanismo disciplinar sempre esteve presente desde códigos jurídico-penais arcaicos, o dispositivo da segurança também sempre se apresentou como fortemente influente nas decisões sobre a vida das populações. Entretanto, segundo o autor, este dispositivo mostra-se cada vez mais atuante e onipresente principalmente quando se refere à esfera da criminalidade contemporânea ou das questões envolvendo a ordem social: “[...] o conjunto das medidas legislativas, dos decretos, dos regulamentos, das circulares que permitem implantar os mecanismos de segurança, esse conjunto é cada vez mais gigantesco” (p.11). E, para efetivar este mecanismo, não basta a verdadeira inflação legal que temos na atualidade, mas apelar

[...] para toda uma série de técnicas de vigilância, de vigilância dos indivíduos, de diagnóstico do que eles são, de classificação da sua estrutura mental, da sua patologia própria, etc., todo um conjunto disciplinar que viceja sob os mecanismos de segurança para fazê-los funcionar (ibidem, p. 11).

Contemporaneamente, o dispositivo de segurança faz funcionar não apenas os próprios mecanismos de segurança, mas potencializa as velhas estruturas da lei e da disciplina através

[...] da emergência de tecnologias de segurança no interior, seja de mecanismos que são propriamente mecanismos de controle social, como no caso da penalidade, seja dos mecanismos que têm por função modificar em algo o destino biológico da espécie (p.15).