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4. Kayyım
O Nossa Senhora da Conceição (HNSC) é o hospital que dá nome ao GHC sendo o principal de todo o grupo. O nome religioso provém da capela homônima, herança do período em que ainda era uma instituição privada.
O espaço religioso Nossa Senhora da Conceição está caracterizado explicitamente como uma capela católica. O GHC, porém, o considera oficialmente um espaço inter-religioso. A denominação tem origem na criação de uma comissão em 2001, que tinha como objetivo criar um espaço que contemplasse as diversas manifestações religiosas. Em 24 de maio de 2002, a realização de uma cerimônia religiosa com a presença de diversos líderes passou a considerar o espaço como ecumênico.202 Na época, o Fórum Inter-Religioso congregava apenas grupos cristãos. A mudança de espaço ecumênico para inter-religioso provavelmente ocorreu em concomitância à progressão à inter-religiosidade do Fórum.
O espaço inter-religioso do Conceição é o maior espaço religioso dentre os hospitais públicos de Porto Alegre.203 Localiza-se no térreo do HNSC com entrada por um dos saguões de seu edifício principal, onde há grande circulação de pessoas entre pacientes, funcionários e
201 As ações da CEPPIR receberam apoio e aprovação da ministra da igualdade racial, Luíza Barros, em visita ao Hospital Cristo Redentor na manhã do dia 29/03/2011. Disponível em:
http://www.ghc.com.br/default.asp?idMenu=4&idRegistro=5128. Acesso em: 20/04/2011.
202 Diovani Pires, em seu trabalho de especialização de 2009, afirma que nessa data a capela tornou-se ecumênica e não inter-religiosa.
visitadores. De formato retangular, o local possui acomodação para aproximadamente noventa pessoas sentadas e um altar elevado do nível do público. No altar, há o sacrário ao centro e uma grande imagem de Jesus crucificado ao fundo. Todas as paredes são brancas com quadros representando a via sacra. Os vitrais possuem representação de símbolos e rituais católicos, como a eucaristia e a consagração. Na entrada, à esquerda há uma grande imagem de Nossa Senhora da Conceição e uma caixa aos pés da santa para depósito de pedidos de oração, e à direita um quadro de Jesus de corpo inteiro. Próximo ao quadro há um mural que destaca o tabelamento dos horários e dias da semana de uso da capela por cada grupo religioso, além de convites diversos para eventos cívicos e religiosos.204
A membro da CEPPIR, Dorislaine Oliveira, explicou como é a relação entre as características católicas do espaço religioso do Conceição e sua denominação oficial de espaço inter-religioso. Quando me referi ao local como uma capela, Dorislaine me corrigiu:
Hoje, se tu disseres “capela”, está errado. Hoje tu tens que te dirigir àquele espaço como espaço inter-religioso. Um espaço que agrega qualquer denominação religiosa. (...) Ao longo da história do GHC, da religiosidade, algumas coisas aconteceram. Uma foi o espaço católico, conforme nasceu o hospital; se tornou ecumênico. O ecumênico, ele agrega, ele abrange, ele abraça as religiões que são cristãs. Bom, então contemplava algumas religiões que não se disseram cristãs. E aí, então, a denominação passou a ser inter-religiosa. É a integração religiosa, tipo... e por isso que nós, hoje, tu vistes que temos a capela (não falo em capela), o espaço inter-religioso do Conceição tem cara de capela, mas não é capela. Na prática, então, não é capela, mas...205
Não há perspectiva para uma mudança física do espaço religioso. Na situação hipotética de uma futura reforma no hospital poderiam ser aplicadas as mudanças observadas no Cristo Redentor. Ainda sobre as características católicas do espaço do Conceição, Dorislaine respondeu a minha indagação sobre um possível reforma futura:
Ela, na estética, é [católica]. Por quê? Porque tem toda uma história ali, né? Aqui é uma instituição pública. Ninguém pretende que se derrube a capela para se fazer um espaço que não tenha cara de católica. Lógico que não! (...) Não! Isto, se um dia entrar uma reforma para o Conceição e a reforma atingir aquele espaço, com certeza poderia levantar e alterar mais, e não mais estar católica.206
204 Um dos convites era para participar do coral da ASERGHC (Associação dos Servidores do Grupo Hospitalar Conceição).
205 Entrevista realizada em: 13/05/2011. 206 Idem.
A mudança de uma capela para um espaço inter-religioso no Cristo Redentor e a nomeação da capela do Conceição para um espaço ecumênico e depois inter-religioso tem como princípio básico a concepção de igualdade para com todas as crenças contempladas na laicidade estatal. O padre Claudio Damé mostrou-se contrário à necessidade de se retirar um espaço de culto já existente com base em uma isonomia laica. Segundo o padre, essa atitude é uma “violência” no seu aspecto simbólico,207 isto é, desconsidera a diferença fundamental entre as religiões e, no caso do Conceição, a identidade do hospital e sua histórica proximidade com a Igreja Católica:
...o fato de você dizer: “Ah, o Estado é laico.”, e etc e tal, “É um hospital público.” Parece que descaracteriza. Pode ser laico, mas ele não é um Estado ateu, por exemplo. E, depois, como trabalhar políticas, por exemplo... o nosso bispo [Dom Dadeus Grings] fala muito a questão entre o nu e o despido.208 (...) E aí vem toda a
questão do Hospital Conceição. Tem uma capela que a identidade era católica. Ainda permanece muitas... essas questões, você vai simplesmente tirar esse espaço? Vai abolir esse espaço em nome de algo igualitário? Não é uma violência fazendo em cima, também, de uma violência? Às vezes essa reflexão é que nos falta.209
A criação de um espaço desconfessional retiraria a sacralidade que um espaço de culto deve ter, esvaziando-o de sentido. Em última instância, deixaria de ser um espaço religioso cujos efeitos seriam a desconsideração do local pelos usuários, desvirtuando-o de sua finalidade original.210 Como colocou Damé:
Então acho que é fundamental esses espaços. E a boa convivência. Nossa questão, também, é o que já tem de construção. Às vezes é difícil de estabelecer o que é... nesse espaço, o que constaria? Uma sala totalmente vazia sem referência à nada? Como estamos ainda na construção, o que colocar dentro desse espaço? Que seja mais ou menos universal? Plantas... mas não fazer uma salinha, simplesmente, de bem-estar, senão daqui a pouco a pessoa vai estar fazendo um lanche. Ou seja: como preservar um espaço sagrado? Este é o desafio. Onde existe uma configuração, no caso católica, tem todo um procedimento como é, por exemplo, a capela do Hospital Nossa Senhora da Conceição. Por mais que ele seja um espaço
207 Damé aplica o termo de violência simbólica de Pierre Bordieu.
208 Sobre “o nu e o despido” de Dom Dadeus, ver o subcapítulo 2.2, nota 112. 209 Entrevista realizada em: 28/07/2011.
210 Nas visitas aos locais religiosos dos hospitais, pude observar a baixa freqüência ou mesmo ausência de público nos espaços desconfessionalizados, ao contrário dos espaços caracterizados, que possuíam a presença de pessoas circulando e em oração.
onde as diversas crenças participam, mas existe ainda muita identificação com a Igreja Católica. 211
No início da década de 2000 foi feita uma tentativa de descaracterizar o espaço do Conceição, o que suscitou forte reação dos funcionários. Eles teriam justificado a preservação da capela devido a sua representação da identidade do hospital. Descaracterizar o espaço seria apagar a memória do Conceição. Junto à defesa da identidade histórica do hospital também estava a defesa da religião católica. Damé afirmou que a tentativa de nivelar as crenças através da transformação física da capela católica foi vista com uma “violência” pelos funcionários. Ele explicou que a conjuntura histórica pela qual se manifestam as diferentes religiões, a exemplo da expressão do catolicismo no Conceição, não possibilita tratá-las de forma isonômica. Como explicou o padre:
Então eu acho que em 2001, por aí. E qual foi reação? A reação foi geral! “Não, mas esse hospital é nosso! Nossa Senhora da Conceição! Nós vamos ter uma imagem da Nossa Senhora da Conceição aqui, sim! É na capela.” E ficou. (...) Então é de novo aquela história: tu vais fazer, quer fazer uma questão igualitária, mas não é igual. Porque tem um histórico. É preciso respeitar cultura. É preciso respeitar histórico. Até porque eu quero ser respeitado. E essa reação, ela não partiu dos enfermos, ela partiu do conjunto ali dos funcionários, de pessoas que iam à capela. “Mas como vai tirar, justamente se o hospital é Nossa Senhora da Conceição? Se é um espaço...?” E aí se preservou. Então, quando você entra, você dá de cara com a imagem de Nossa Senhora [da Conceição]. É? E, claro, tem algumas e outras identificações...212
Com as características católicas originais preservadas, o espaço foi aberto para o uso de outros grupos religiosos por iniciativa de Fórum Inter-Religioso. Em 2011, uma tabela de horários organizava as atividades ao longo da semana abrindo o espaço para o uso de dez grupos religiosos diferentes e quatro grupos de atividades cívicas, ligados ou não a grupos religiosos, totalizando vinte e uma atividades distintas entre cultos, missas e encontros.213 O horários estavam divididos na tentativa de oferecer um tempo proporcional a cada grupo
211 Entrevista realizada em: 28/07/2011. Sobre a importância do simbolismo religioso, ver também citação de Damé no subcapítulo sobre o Hospital Cristo Redentor, na nota 187.
212 Mesma entrevista.
213A tabela colocada no mural junto à entrada chama o local de “capela ecumênica”, segundo foto feita em 18/11/2011. Ver apêndice H na página 250.
religioso.214 Predominavam os cultos evangélicos, com onze atividades por semana, seguidos por três missas católicas.215 Também ocorrem celebrações inter-religiosas no local.216
Ao contrário da posição da CEPPIR acerca da presença de símbolos cristãos em terreiros das religiões afro-descendentes ou em espaços inter-religiosos, padre Damé não vê problema no uso de um espaço religioso católico para cultos e rituais de outras religiões. Expondo sua posição pessoal, ele disse:
Eu, particularmente, não tenho dificuldade de saber que depois virá alguém fazer um culto, ou o pessoal de matriz africana vai dar um passe. Eu não tenho dificuldade. (...) Ali dentro. Eu não tenho dificuldade. Eu, não. Cláudio, não tem. Até porque eu acho que é o momento. Eu penso que (...) essa pergunta deveria ser feita a eles, porque as questões ainda da Igreja que estão lá presentes incomodam mais a eles do que a nós. Está entendendo? Então, assim, por exemplo, eu até fiz o questionamento com o pessoal de matriz africana: “Como é que vocês vão entrar num templo que tem uma identificação com aquilo que é contrário? Como é que vocês conseguem fazer essa conciliação?” Que eu acho que se eu fosse umbandista não conseguiria fazer. Mesmo o evangélico, com todas as imagens, com todas as questões que têm ali. Como é que eles fariam essa? Mas eu não vejo dificuldade nenhuma. Inclusive já participei, sentado, esperando a minha vez de abrir a sacristia, que tem uma pequena sacristia.217
A tendência é permanecer o espaço inter-religioso no Hospital Conceição com características plenamente católicas. Essa caracterização não impede o uso do local por outros grupos religiosos promovido pelo Fórum. Por um lado observa-se a existência de uma aceitação, por parte dos agentes da Igreja Católica, do uso do espaço por outros grupos religiosos, e por outro a atuação explícita dos agentes das religiões de matriz africana de subtrair o predomínio das atividades católicas no espaço de culto. A motivação dessa atitude
214 Possivelmente com base na proporção de adeptos. Por exemplo: a umbanda tinha disponibilidade de uso do local em apenas um dia (segunda-feira), mas por quatro horas. A Igreja Batista e a Igreja Nova Jerusalém possuíam apenas uma hora por semana cada. Destacam-se a Assembléia de Deus, totalizando cinco horários distintos, e a ausência de missas aos domingos.
215 Os grupos religiosos contemplados eram: Igreja Católica, Igreja do Evangelho Quadrangular, Assembléia de Deus, Igreja Evangélica de Confissão Luterana do Brasil, Igreja Batista, Igreja Nova Jerusalém, Igreja Universal do Reino de Deus, Sociedade Espírita Dom Thomé, Umbanda-Afro, Ministério Dunamys (Igreja Batista); filosofia do Seicho-No-Ie; grupos cívicos e religiosos como Associação de Serviço Cristão, Projeto Eliézer, Grupo de Apoio Cirurgia Bariátrica e Coral da ASERGHC.
216 Foi feito um ato inter-religioso no Hospital Conceição, em 08/12/2011, em comemoração aos seus 50 anos de fundação (há aqui uma divergência entre a data na reportagem e a documentação do livro Memórias do Hospital
Cristo Redentor – 50 anos). Disponível em: http://www.ghc.com.br/default.asp?idMenu=4&idRegistro=5810. Acesso em: 09/12/2011.
está, segundo os agentes presentes da CEPPIR e no Fórum Inter-Religioso, no histórico de discriminação para com os negros e suas respectivas crenças. A solução proposta para essa questão está no trato isonômico para com as religiões pelo poder público, abrindo espaço, simultaneamente, à presença de todas as crenças. O principal obstáculo para esses agentes que visam pluralizar a assistência e, por consequência, mudar o espaço físico de culto está na presença enraizada da Igreja Católica no Conceição. O valor histórico, sua presença desde a origem do hospital, o tamanho da “capela” e a pressão dos funcionários impedem que o espaço tenha suas características transformadas. O local é um símbolo não apenas do Conceição, mas de todo o GHC. Apesar do processo de secularização do Grupo e da parcial desconfessionalização de seus espaços de culto, não há qualquer perspectiva clara de retirada do espaço como hoje se encontra no Hospital Conceição.
Vizinho ao Conceição, o Hospital da Criança Conceição não possui um espaço religioso. Com mais de duzentos leitos voltados para o público infantil, o hospital está fisicamente unido ao Conceição, mas suas estruturas estão separadas. Seus usuários utilizam o espaço religioso do hospital vizinho. Não há acesso direto entre os dois hospitais e a passagem de um ao outro se dá pelo lado de fora.
A ausência de um espaço religioso no Hospital da Criança está relacionado à existência de um espaço Hospital Conceição. Por essa razão, dentre os hospitais analisados nesse trabalho o caso do Criança Conceição é o que menos se destaca por sua proximidade física com o hospital vizinho e pela ausência de um espaço de culto. Possivelmente a ausência de um espaço religioso no Hospital da Criança se deve a razões práticas, já que o espaço do Conceição supre as necessidades dos usuários.218 Outra razão possível é o destaque do Hospital Conceição como referência local para o atendimento hospitalar, absorvendo grande parte das pessoas que se dirigem à região. O Conceição é um hospital público de referência em Porto Alegre e está localizado numa das principais vias de acesso do bairro, enquanto o da Criança, voltado para um público específico, é visualmente discreto e está localizado numa via de acesso predominantemente residencial.219
218 Segundo informação dada na recepção do Hospital da Criança. Me apresentei com o interesse de usar a suposta capela do hospital, mas, como o esperado, fui informado de sua inexistência. Ao questionar o que o público fazia para buscar um local de culto, foi respondido que as pessoas do hospital buscam a capela do Hospital Conceição. Visita realizada em: 18/11/2011.
219 O Conceição está localizado no bairro Cristo Redentor, na Avenida Francisco Trein, que dá acesso entre a Avenida Assis Brasil e as proximidades dos shoppings Iguatemi, Bourbon Country e Bourbon Wallig. Em função da presença do hospital, de estabelecimentos comerciais e condomínios residenciais, a avenida possui
Diferentemente do Hospital Conceição, o Hospital Fêmina careceu historicamente de um local de culto. Isso facilitou a criação de um espaço inter-religioso no lugar de um espaço católico improvisado. É justamente o não enraizamento da Igreja Católica nos domínios do Fêmina que permitiu essa transformação, a mais simples dentre as observadas nesse trabalho.