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A mudança do espaço religioso do Hospital Fêmina, pertencente ao Grupo Hospitalar Conceição, ocorreu de maneira simples e tranquila. Até 2010, ocorriam celebrações católicas realizadas num espaço religioso improvisado dentro da unidade de internação. O local situava- se no saguão do quarto andar do edifício, compartimentado com tapumes como forma de organizar o espaço. Outros grupos religiosos, como os evangélicos, também utilizavam o local, mas o culto católico era predominante. Um padre do Colégio Bom Conselho realizava celebrações por iniciativa própria uma vez por semana com data e horário agendados, mas sem manter qualquer relação formal com a instituição. De acordo com a direção, a relação com o padre era apenas de cooperação, e os contatos eram feitos junto aos funcionários com os quais se estabelecia uma agenda regular de visitas. Com os demais grupos religiosos o procedimento era o mesmo, mas suas atividades eram temporalmente irregulares.220 O padre, porém, parou de frequentar o hospital em razão de sua transferência para outra localidade. Portanto, o fim do espaço católico e a criação do espaço inter-religioso não têm qualquer relação com o encerramento dessas visitas.

Em 2010, alegando respeitar as diretrizes do GHC221 a respeito do tratamento igualitário dado pela assistência religiosa e preocupada com a circulação de pessoas e o barulho gerado pelos cânticos, a direção do Fêmina desmontou as divisórias do espaço onde se

grande movimento de pedestres. O Hospital da Criança está localizada na mesma quadra do Conceição, do lado oposto. Possui acesso pela Rua Álvares Cabral, de perfil predominantemente residencial, com casas e edifícios baixos.

220 Entrevista realizada com o gerente de administração do Hospital Fêmina, Daniel Schostack, em: 31/03/2011. A secretária da direção, Clélia Machado, colaborou com alguns trechos da entrevista enquanto circulava no escritório de Nataniel. Ela era responsável por manter contato com o padre do Colégio Bom Conselho. As visitas ocorriam na última quinta-feira de cada mês.

realizavam as celebrações católicas. O espaço inter-religioso foi estabelecido num local diminuto localizado no segundo andar, junto à escadaria e aos elevadores, dando vista para o saguão de entrada.222 O espaço exíguo se justifica pela falta de um local apropriado para atividades religiosas, dando prioridade às necessidades hospitalares. Sem qualquer caracterização específica, há no local apenas três bancos estofados, um púlpito e uma armário onde guardam-se o objetos de culto. A chave fica com a secretaria da direção, que é responsável por sua administração. Há um plano para organizar a agenda de visitas dos grupos religiosos interessados.223 De forma genérica, a mudança do espaço está contemplada dentro do princípio de humanização concebido pela Política Nacional de Humanização do SUS. Os membros das religiões de matriz africana foram os principais incentivadores da criação do espaço inter-religioso. A partir de 2010, já como membros do Fórum Inter- Religioso, os afros passaram a realizar cultos religiosos e dar assistência religiosa regulares no Hospital Fêmina uma vez por semana.224 O ato inaugural de suas atividades foi promovido pelo Centro de Participação Cidadã, da qual faz parte a CEPPIR, destacando a importância e o uso do espaço inter-religioso nos domínios do GHC.225 Devido ao diminuto espaço, as celebrações afro ocorrem no galpão crioulo, localizado nos fundos do terreno do hospital. Como no Hospital Cristo Redentor, a assistência religiosa realizada pelos membros do Fórum Inter-Religioso observa as diretrizes de silêncio, higiene e respeito individual aos internados. O fim do antigo local de culto e a criação do novo espaço inter-religioso foram muito tranquilas. Nataniel Schostack, diretor administrativo do Hospital Fêmina, afirmou que não houve qualquer resistência por parte de grupos religiosos, particularmente católicos, contra o desmonte do antigo espaço improvisado. Ele alegou duas razões para essa não reação: primeiro porque há um histórico de não existência de um local de culto fixo; segundo porque o serviço religioso católico era iniciativa individual de um padre e não da Igreja Católica como

222 O local é muito pequeno, de dimensões aproximadamente 2 X 3 m. Para Dorislaine Oliveira, o espaço não cumpre com suas funções: “Por enquanto, o espaço inter-religioso do Fêmina não é na verdade um espaço, né?” Entrevista realizada em: 13/05/2011. Ver apêndice I na página 251.

223 Segundo a responsável pela ouvidoria do Fêmina, Juliana, cuja sala fica em frente ao espaço, grupos religiosos utilizavam o local alternadamente, mas sem especificar o tipo de atividade. Afirmou nunca ter visto católicos ali. Conversa informal realizada em: 11/11/2010.

224 Semanalmente às terças-feiras.

225 O evento de inauguração ocorreu em 11/05/2010 em comemoração ao Dia das Mães e também aos Pretos Velhos, contando com a presença do coordenador do Centro da Participação Cidadã, Alberto Terres, e o diretor

administrativo do Fêmina, Nataniel Schostack. Disponível em:

instituição. Mesmo com a insistência em saber se houve alguma reação contrária ao fim do antigo local de culto, a resposta foi negativa. Como explicou Schostack:

Nós tínhamos um espaço assim com um histórico já. “Isso aqui é uma capela?” Não. Nós tínhamos um espaço. Então, na verdade, a gente só mudou o espaço. Então, não chegou a gerar uma questão. E como tu ouviste da secretária [Clélia], aquele era um espaço que era aproveitado pela religião católica só, na época, para missas eventualmente...

Não tivemos nenhum tipo de reação dos católicos ou da Igreja Católica exatamente por isso que tu acabaste de ver aqui. Não era uma coisa da Igreja Católica. Era uma coisa de um padre que vinha aqui e tal, e que não está vindo hoje porque ele mudou. (...) A Igreja não tem o mesmo compromisso. Quer dizer: ou nós saímos atrás e procuramos a Igreja Católica (“Ó, escuta, vocês não querem ocupar um espaço aqui?”), mas pode continuar. Também é nosso papel a gente deixar a coisa ser espontânea. 226

A expectativa é de que essa mudança ainda gere debates. A direção do GHC227 tem a intenção de ampliar o espaço físico do hospital com da construção de um edifício anexo. Isso pode trazer implicações futuras para a atividade religiosa. De acordo com Schostack, pretende- se construir o novo edifício nos fundos do hospital, onde será contemplado um novo espaço religioso.228 Nesse terreno encontra-se atualmente um galpão crioulo e um casarão, que era de propriedade do antigo dono do terreno antes de sua compra pelo Fêmina.229 A intenção, se for colocada em prática, estará contemplada dentro do Plano de Investimentos (PI). Se aprovado, o PI será financiado pela verba do Ministério da Saúde. Para aplicar o dinheiro recebido, um grupo de funcionários do hospital deverá ser eleito e decidir como gastá-lo.230 Eleito anualmente, esse grupo faz parte de um processo coletivo de decisão que os administradores do GHC chamam “orçamento participativo”.231

Assim como nos Hospitais Cristo Redentor e Conceição, o Fêmina segue a mesma política religiosa do GHC. Novamente a atuação dos membros da religião de matriz africana

226 Entrevista realizada em: 31/03/2011.

227 A iniciativa é da direção geral do GHC, e não do Hospital Fêmina, conforme me informou Nataniel numa conversa informal por telefone em: 10/06/2011.

228 Informação de Nataniel Schostack em conversa informal ao telefone em: 10/06/2011.

229 De acordo com Schostack, o casarão não está tombado pelo patrimônio histórico. Entrevista realizada em: 31/03/2011.

230 Processo idêntico ao do Hospital Cristo Redentor. Faz parte da política financeiro-administrativa do GHC. 231 Nomenclatura repetida por Nataniel Schostack, Waldir José Bohn Gass e Silvia Vasques, os três ocupando altos cargos dentro do GHC.

foi determinante para a pluralização do serviço e da assistência religiosa, até então realizado espontaneamente por evangélicos e sobretudo por católicos. O histórico de pouca relevância da assistência religiosa e a ausência de um local de culto fixo no Fêmina não geraram atritos quanto à desativação do antigo local de culto improvisado e à criação de um diminuto espaço inter-religioso. Por conta dos planos administrativos do GHC e do progressivo amadurecimento do Fórum Inter-Religioso, é possível que a questão religiosa torne-se mais relevante para esse hospital.

Diferentemente dos hospitais públicos federais, o Hospital Militar de Porto Alegre mantém-se tradicionalmente relacionado com a religiosidade, particularmente com a presença de membros da Igreja Católica, sua assistência religiosa e as capelas. É o único hospital federal da cidade que não está subordinado ao Ministério da Saúde e que não atende pelo SUS. O vínculo do hospital com as Forças Armadas e o histórico de relacionamento com a Igreja dão aspecto único da relação desta instituição com a religiosidade e os espaços religiosos.