Em outubro de 1827, Agassiz partira para estudos em Munique. A cidade possuía um ambiente acolhedor para jovens aspirantes a um futuro como homens de ciência, de letras ou artistas. Os longos invernos eram aquecidos com a agitada vida intelectual imersa em arte, literatura, filosofia e ciência. Munique ficaria conhecida como um dos mais dinâmicos centros europeus do século XIX, recebendo estudantes de todo o mundo. Nessa atmosfera de trocas culturais e em companhia dos grandes mestres alemães – naturalistas e filósofos da natureza – , Agassiz descobriria sua vocação para a história natural.28
Provida de suas correspondências, Elizabeth Cary Agassiz escreveu a biografia Louis Agassiz: his life and correspondence, na qual narrou muito sobre o mundo intelectual perfeitamente adequado para receber o naturalista que havia despertado ainda na infância uma predisposição para ser um homem de ciência, leitor do livro da natureza: “O amor de Louis pela história natural mostrou-se quase já na infância. Quando ainda pequenino, teve, além de uma coleção de peixes, diferentes tipos de animais de estimação: pássaros, ratos de campo, lebres, porquinhos da índia […] cujas famílias ele criou com bastante cuidado.”i29 Segundo a biógrafa e esposa do naturalista, uma vida muito estimulante esperava por ele na Alemanha.
Na posição romântica da esposa, a iniciação científica na Alemanha despertava e preparava o naturalista que já existia em Agassiz. Ela interpretou sua trajetória como um trem em movimento. Não importaria onde ele embarcasse, cedo ou tarde estava fadado a chegar ao seu destino de naturalista. O fato é que, em Munique, ele estava cercado de alguns dos homens mais originais daqueles dias, nomes que influenciaram uma geração inteira de sábios europeus e ainda hoje são referências nos estudos da natureza. Lorenz Oken entusiasmava os estudantes com aulas espetaculares sobre história natural, com experimentos fisiológicos ou lições animadas de metafísica e filosofia da natureza. Carl Friedrich Philipp von Martius !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
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Agassiz esteve também em outras cidades alemãs como Heidelberg e Erlangen para estudos, mas sua passagem mais marcante foi por Munique. Cf. LURIE, Edward. Louis Agassiz: A life in science. Baltimore: The John Hopkins University Press, 1988, p.33. A cidade alemã foi muito apreciada pelos estrangeiros por suas academias de arte durante os oitocentos. Na década de 1890, o Brasil enviou artistas, custeados pela Escola Nacional de Belas Artes do Rio de Janeiro, para temporada de estudos em Munique. Cf. VALLE, Arthur. Bolsistas da Escola Nacional de Belas Artes do Rio de Janeiro em Munique, na década de 1890. Revista de Arte, Ciência e Comunicação. v.7, n. 15, p.1-16, 2012.
Disponível em: <http://www.artciencia.com/index.php/artciencia/article/view/54/180>. Acesso em: 4 de junho de 2015. Os Estados Unidos também se destacaram, enviando número considerável de estudantes de arte para Munique no século XIX. Esses dados são importantes para realçar o caráter cosmopolita da cidade formadora do naturalista Agassiz. Para um estudo mais completo sobre artistas americanos nas academias de arte de Munique ver: FURHMEISTER, Christian; KOHLE, Hubertus; THIELEMANS, Veerle (Ed.). American artists in Munich: artistic migration and cultural exchange processes. Berlim/München: Deutscher Kunstverlag, 2009.
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Ver capítulo I da biografia de Agassiz por Elizabeth Cary Agassiz, onde a autora fala sobre o tema em “Early Love of Natural History”. AGASSIZ, E. Louis Agassiz: his life and correspondence. 1v.!
ensinava botânica, a experiência na arte de viajar e suas coleções seduziam os estudantes da região. Era a Munique sedutora de filósofos como Friedrich Wilhelm Joseph von Schelling com suas lições sobre o idealismo romântico. Segundo relatos do próprio Agassiz, os cursos de Schelling iam desde a “Introdução à Filosofia”, a “Filosofia da Mitologia” até a “Filosofia da Revelação”.30
Talvez não exista um caminho mais excitante para aprender e tornar-se um profissional do que aquele em que sabedoria e amizade são vivenciadas lado a lado na relação de aprendizado. Ao enriquecer-se intelectualmente com o conhecimento oriundo dos filósofos da natureza e exímios da história natural, o jovem Agassiz cultivou duas grandes amizades: Alexander Braun e Karl Schimper, assim como ele, ambos estudantes se tornaram naturalistas. Os três amigos reuniam-se nas noites frias da Baviera e ministravam a eles próprios aulas sobre seus interesses e conversavam sobre o conhecimento entusiasmado da natureza, pelo do olhar da ciência. Agassiz e os amigos recebiam outros estudantes e, às vezes, algum membro da universidade participava dos encontros noturnos. Ficariam conhecidos como a “Pequena Academia”.31 Transformavam seus quartos de dormir na extensão de suas salas de aulas. Nesse pequeno mundo paralelo, ensinavam uns aos outros suas matérias científicas favoritas: “Comecei por um curso de história natural ao invés de pura zoologia”, dizia Agassiz, apontando sua preferência no amplo campo disciplinar da história natural, o amigo Braun, geralmente, ensinava botânica e Schimper, filosofia. Agassiz previu o significado desses encontros da seguinte forma:
Assim formaremos uma pequena academia, instruindo uns aos outros e, ao mesmo tempo, aprendendo, mais profundamente, o que nós ensinamos, porque seremos obrigados a demonstrá-lo. Cada sessão dura duas ou três horas, durante a qual o professor responsável faz sua apresentação sem auxílio de notas ou livro. Você pode imaginar o quão útil isto será preparando-nos para falar em público e com coerência; a experiência é o mais importante, uma vez que todos nós desejamos, na verdade, nada mais !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
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Lorenz Oken (1779-1851) naturalista alemão, um dos mais importantes filósofos da natureza no século XIX. Cf. GILLISPIE, Coulston Charles (Ed.). Dictionary of scientific biography. New York: Scribner’s, 1970-1990, p.194-196. 16 v.; Friedrich Philipp von Martius (1794-1868), a biografia de Martius pode ser consultada no Flora brasiliensis, ver nota 58. Confira a tradução do trecho biográfico em: KALTNER, Leonardo F. Anotações sobre a biografia do naturalista Carl Friedrich Philipp von Martius. Revista Brasil-Europa: Correspondência Euro-Brasileira. n.139/18, 2012. Disponível em:
<http://www.revista.brasil-europa.eu/139/Kaltner-Carl-Friedrich- Philipp-von-Martius.html>. Acesso em: 3 de maio de 2016.; Friedrich Wilhelm Joseph von Schelling (1775-1854) considerado a maior figura do idealismo alemão. Cf. GONÇALVES, Márcia Cristina Ferreira. Filosofia da natureza. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2006. Oken, Martius e Schelling foram professores de Agassiz e participaram diretamente de sua formação, como evidenciam suas cartas e suas biografias, ver exemplo em: AGASSIZ, E. Louis Agassiz: his life and correspondence, p.53. 1v.
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Os biógrafos e memorialistas de Agassiz chamaram tais reuniões de Little Academy. Cf. MARCOU, Jules. Life, letters, and works of Louis Agassiz. New York, London: Macmillan & Co, 1895, p.33, 1v. ; LURIE. Louis Agassiz: A life in science, p.50.
do que, mais cedo ou mais tarde, tornarmo-nos professores […].ii32 [grifos desta autora].
Episódios de otium cum dignitate experimentados pelos estudantes em Munique ganharam espaço especial nas cartas ao lar. Agassiz escreveu sobre os colegas e sobre como trocavam seus diferentes saberes através do convívio nos cursos, lições, viagens e momentos de lazer. Na carta de vinte de novembro de 1827, Agassiz comentou com a irmã Cécile acerca de um encontro sucedido com Martius, em que os jovens aprenderam sobre a viagem ao Brasil e apreciaram as coleções do naturalista:
[...] às vezes, Braun e eu passamos uma noite com algum professor, discutindo com todo nosso entusiasmo temas centrais, sobre os quais muitas vezes não sabemos nada; isto não significa, no entanto, que a conversa não seja animada [...] estes senhores nos contam sobre suas viagens, etc. Eu aproveito especialmente nossas visitas ao Senhor Martius, porque ele nos fala de sua viagem ao Brasil, de onde voltou há alguns anos, trazendo magníficas coleções, as quais nos mostra sempre que o pedimos.iii33
Além das aulas, Agassiz e os colegas desfrutavam de momentos sociais com os professores que enriqueciam ainda mais seus conhecimentos. Desconfio que essa relação próxima com os mestres influenciava os jovens espíritos a prosseguirem nas missões científicas. Entre um passeio e outro, uma aula e outra surgiam momentos de sociabilidade. Agassiz, Braun e Schimper teceram uma vida social na convivência estudantil e intelectual. A educação científica não se limitou às formalidades acadêmicas. Em Munique, esses jovens aspirantes a naturalistas tinham interessantes estímulos: tomavam chá na casa de seus professores, bem como alugavam quartos em suas residências e eram sempre presenteados com livros e objetos de história natural. Esse relacionamento intimista mais tarde poderia ser mantido e fortalecido por meio das correspondências. Foi o próprio caso de Agassiz, que se tornou um colega de profissão respeitado ao longo do tempo por mestres como Martius, compartilhando com ele de uma mesma comunidade e rede epistolar.
Nas cartas ao lar, Agassiz narrou seus primeiros aprendizados teóricos sobre a natureza iniciados na tradição alemã da Naturphilosophie34. A filosofia da natureza ocupou os !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
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Carta de Louis Agassiz ao pai Louis Rudolphe Benjamin Agassiz, Munique, 3 de março de 1828. In: AGASSIZ, E. Louis Agassiz: his life and correspondence, p.67-68. 1v. Transcrição inglesa: Elizabeth Cary Agassiz. Tradução desta autora.
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Carta de Louis Agassiz à irmã Cécile Agassiz, Munique, 20 de novembro de 1827. In: AGASSIZ, E. Louis Agassiz: his life and correspondence, p.56-57. 1v. Transcrição inglesa: Elizabeth Cary Agassiz. Tradução desta autora.
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Pilar ideológico fundamental do ideário romântico, a Naturphilosophie enfatizou o conceito de totalidade – a mais abrangente de suas dimensões constitutivas – e delineou uma nova perspectiva na apreensão dos fenômenos naturais e sociais. Ao contrário das ciências positivas, a Naturphilosophie propunha o conhecimento do universo em sua totalidade buscando recuperar um horizonte humano. O ideário romântico forneceu subsídios essenciais! para uma reconfiguração dos museus de história natural durante o século XIX. Privilegiou inúmeros aspectos
tópicos das longas lições de história natural. A aproximação com o círculo intelectual de alguns dos homens de ciência mais originais da época: Goethe, Schelling, Martius, Döllinger e Oken na estimulante e filosófica Alemanha influenciaria para sempre o conteúdo idealista da obra do naturalista, definindo sua interpretação da natureza como obra divina. Prestes a concluir seu doutoramento, o naturalista descreveu com detalhes os tópicos que precisaria dominar. Haveria de desenvolver uma tese original que incluísse um sistema natural zoológico, para mostrar a relação entre a história humana e a história natural, assim determinaria as bases e os verdadeiros limites da filosofia da natureza, a partir do domínio de uma disciplina experimental.35
Esses anos em Munique foram intensos para Agassiz. Ali, ele foi instruído com saberes fundamentais, instrumentos materiais e intelectuais da história natural de seu tempo. A experiência foi compartilhada numa convivência íntima e intensa entre mestres e amigos, todos aprendizes e desejosos de se aventurar no universo da ciência. A profundidade desse momento também foi dividida com os familiares, nas cartas ao lar compostas de inteligentes jogos de linguagem, que presentificavam os correspondentes. Nelas, Agassiz traduziu sua relação familiar e o aprendizado científico. A escrita epistolar foi espaço revelador de vários episódios, sensações, experiências e lições da estadia em Munique, momento decisivo para a sua aproximação com a história natural. Os anos de formação do jovem naturalista foram narrados no esforço em manter a relação com a família. As cartas ao lar são, portanto, uma composição íntima dos laços de família renovados a partir da passagem que conduziu o aprendiz à natureza sob o olhar da ciência.