Existem várias discussões entre os sociólogos sobre a influência social no tocante à constituição de identidades e as diferenças de gênero. É preciso ressaltar também a importância da distinção entre gênero e sexo. A palavra sexo é utilizada para designar as diferenças da anatomia e fisiologia do corpo humano; gênero é um vocábulo utilizado para distinguir o ser humano nos aspectos psicológicos, culturais e sociais.
Giddens (2005) aponta três premissas essenciais para o estudo das diversas interpretações sociológicas no tocante às desigualdades de gênero: 1) a fundamentação de base biológica (consistente na diferença de comportamentos entre homens e mulheres); 2) a fundamentação voltada para a socialização e aprendizagem das funções do gênero; 3) a fundamentação que se baseia nas ideias de sociólogos que consideram gênero e sexo como produtos construídos socialmente.
Alguns sociólogos entendem que a diferença de gênero está consubstanciada nos fatores biológicos, ínsitos à natureza humana, e que se encontram na maioria das sociedades. Todavia, por se basearem no comportamento animal, muitos pesquisadores não concordam com essa teoria que não teve êxito por não levar em consideração o aspecto antropológico, social e histórico na conduta humana.
A socialização do gênero é mais um veículo para estudar as distinções entre homens e mulheres, em que se faz uma diferenciação entre sexo biológico e gênero social.
Assim, através do contato com diversas entidades sociais as pessoas, ao longo do tempo, vão interiorizando regras sociais vinculadas ao seu sexo. Para essa teoria, há desigualdade de gênero porque são impostos aos homens e mulheres papéis diferentes produzidos culturalmente ao longo da história, pois gênero é um produto criado no campo social.
Giddens (2005) entende que essa teoria é criticada por vários autores sob o fundamento de que há divergências entre diversas entidades sociais, e por ser indiferente a forma pela qual os indivíduos repugnam ou não as expectativas sociais em face do seu posicionamento sexual.
Para a teoria da construção social do gênero, o sexo e o gênero devem ser considerados como produtos socialmente construídos, pois tanto o corpo como o gênero é influenciado por forças sociais e repugnam a diferença de gênero e sexo pelo aspecto biológico visto que as diferenças de gênero são identificadas pela própria sociedade.
Os sociólogos têm feito muitos estudos sobre a desigualdade de gênero e as teorias adotadas em nossa sociedade. Assim, entender o gênero somente como divergência sexual existente entre homens e mulheres seria limitá-lo a apenas uma de suas expressões.
Todavia, é possível conhecer o modelo de gênero vigente, sob o argumento das diferenças notadas entre os sexos e o meio pelo qual estas são apoderadas e transformadas em
desigualdade e, tendo como resultado uma ordem sucessiva de noções, como as de “escrita feminina”, “feminilidade”, restringir, portanto, a perspectiva de modificação das relações de
gênero.
A teoria funcionalista explica que para se ter estabilidade e a integração social é necessária a existência de diferença de gênero, pois esta enfatiza que a divisão de trabalho, presente em toda cultura, tem como pressuposto uma base biológica, em que os homens são predispostos a trabalhar fora do âmbito familiar e as mulheres a realizarem trabalhos domésticos, assegurando, por conseguinte, a solidariedade familiar, pois a mãe tem um papel fundamental de socializar as crianças.
Tal tese é combatida pelo movimento feminista por entender que as mulheres podem seguir o seu ofício ou profissão independentemente de seu aspecto biológico, pois esta é uma ideia imposta pela dominação masculina. Campos e Corrêa (2007, p. 212) enfatizam que:
O gênero é concebido como uma forma de dar significado às relações de dominação e de poder que terminam por ensejar as desigualdades de gênero, que concederam ao longo do tempo aos homens funções nobres e valorizadas pela sociedade, restando às mulheres papéis menos apreciados social e culturalmente.
O movimento feminista instituiu um sistema teórico que explica as desigualdades de gêneros e políticas que amenizem as diferenças através de três panoramas: o feminismo liberal, o feminismo radical e o feminismo negro, tentando explicar que tais desigualdades se dão através de vários segmentos sociais estabelecidos no sexismo, capitalismo, patriarcalismo e no racismo.
Para Giddens (2005), o feminismo liberal tenta explicar que as desigualdades de gênero têm como pressuposto as atitudes sociais e culturais e que a subordinação não pode ser vista como uma parte do sistema, pois existem outros aspectos que auxiliam para a desigualdade de gênero como o sexismo, as entidades de educação, a mídia e a discriminação no trabalho, cuja proteção pode ser encontrada na própria legislação e na democracia. Todavia, há várias críticas a esse sistema em face dele não reconhecer as causas que deram origem à desigualdade, e não reconhecer também a natureza da opressão. Como lembra Giddens (2005, p. 108):
As vantagens legais, tais como o Equal Pay Act e o Sex Discrimination Act foram ativamente sustentados por feministas liberais, as quais afirmavam que sacralizar a igualdade na lei é importante para eliminar a discriminação contra as mulheres. As feministas liberais buscam trabalhar dentro do sistema existente para gradativamente alcançar reformas. [...] Concentrando- se nas privações específicas sofridas pelas mulheres – o sexismo, a discriminação, a barreira do preconceito, os salários desiguais – as feministas liberais compõem apenas um retrato parcial da desigualdade de gêneros.
Ao analisar o feminismo radical, Giddens (2005) afirma que para esta corrente a família e os homens têm um papel opressor e explorador sobre as mulheres através dos serviços domésticos e do controle na reprodução e criação dos filhos.
O que mais perturba as feministas radicais é o poder de dominação dos homens perante as mulheres através da apropriação do corpo e da sexualidade, da violência e exigência de uma beleza externa, transformando-a em objeto sexual.
Estes são considerados os principais fatores que contribuem para a desigualdade de gênero, e para que ocorra a sua emancipação é necessário suprimir a família e as suas relações de poder. Giddens (2005, p. 108) diz que:
O Patriarcado é visto como um fenômeno universal que existiu em todos os tempos e em todas as culturas. [...] Argumentam que os homens exploram as mulheres ao contar com os serviços domésticos gratuitos fornecidos pelas mulheres em casa. [...] Por serem as mulheres biologicamente capazes de dar à luz, tornam-se materialmente dependentes dos homens em proteção e sustento. [...] a violência doméstica, o estupro e o molestamento sexual fazem parte da sistemática opressão às mulheres. [...] Até mesmo interações na vida cotidiana – tais como comunicação verbal, padrões de escuta e interrupção, a sensação de conforto sentido pelas mulheres em público – contribuem para a desigualdade de gênero. [...] normas sociais e culturais que enfatizam um corpo esbelto e uma atitude carinhosa e maternal para com os homens ajudam a perpetuar a subordinação da mulher.
No entanto, existem várias oposições ao feminismo radical no tocante ao significado de patriarcado como fenômeno universal; o feminismo radical não reconhece a influência da raça, etnia e da classe sobre a dominação masculina, pois muitas feministas negras entendem que as teorias feministas não podem ser aplicadas a elas da mesma maneira que são aplicadas às mulheres brancas, levando ao surgimento de um feminismo negro.
Atualmente, existe uma tendência nas sociedades modernas: a crise de gênero que rompe os padrões de relação de poder do homem sobre a mulher através das leis que enfraquecem a legitimação da força masculina, interferindo nas instituições familiares e no próprio Estado, e os interesses sociais que se contrapõem à diferença de gênero.
Na família, existe ainda a desigualdade nas relações de poder, como nos casos de violência doméstica denunciadas pelas feministas e ignoradas pela sociedade; assim a família é considerada como um local de opressão entre os gêneros.
Wood (2003) constata que nas sociedades pré-capitalista a unidade de produção e de exploração era constituída pela família, reprodutora de relações hierárquicas, e que a autoridade masculina foi reforçada pela “ideologia dominante da classe governante” e o
“poder e o prestígio atribuído ao papel masculino”. Em outra passagem, Wood (2003, p. 237)
afirma que:
[...] sempre que houver exploração há de haver disciplina hierárquica e coercitiva, e que nesse caso as duas se concentram na família e se tornam inseparáveis das suas relações diárias. [...] Uma consequência dessa unidade contraditória parece ser que a família reproduz as relações hierárquicas e coercitivas entre o explorador e o explorado. Na qualidade de organizador da produção, o chefe de família age em certo sentido como agente de seu próprio explorador. [...] Se no âmbito da família o chefe é o agente do senhor e do Estado, fora dele também é seu representante político, no enfrentamento dos poderes extra-econômicos masculinos dos senhores e do Estado.
As relações de gênero na sociedade capitalista são arroladas diretamente e não através de homens ou mulheres, pois como lembra Wood (2003, p. 239) os indivíduos adquirem identidades abstratas do trabalho: “Homens interessados na manutenção de antigos padrões de dominação masculina foram forçados a defendê-los dos efeitos dissolventes do capitalismo – por exemplo, dos efeitos do crescente número de mulheres que deixam o lar
para se incorporar à força de trabalho.”
No entanto, as mulheres que deixam os seus lares em busca do mercado de trabalho assalariado, produto da sociedade capitalista. A conquista do mercado de trabalho representa para as mulheres a independência econômica em relação aos homens, mas não garante a igualdade de gênero, pois é incapaz de impulsionar e garantir a emancipação feminina.
O que se depreende do debate estabelecido é que o capitalismo não tem interesse no tocante às identidades sociais dos indivíduos que explora porque não existe diferença extraeconômica, jurídica ou política entre os trabalhadores – homens ou mulheres – que são tratados formalmente da mesma maneira. Ao abordar a opressão de gênero na estrutura capitalista, Wood (2003, p. 232) afirma que:
Embora o capitalismo possa usar e faça uso ideológico e econômico da opressão de gênero, essa opressão não tem status privilegiado na estrutura do capitalismo. Ele poderia sobreviver à erradicação de todas as opressões específicas das mulheres, na condição de mulheres – embora não pudesse, por definição, sobreviver à erradicação da exploração de classe.
2.2.3 A posição das mulheres e os reflexos no campo político e econômico frente à