Por sua vez, as entrevistas narrativas se constituem como uma ferramenta relevante, já que salientam o valor da experiência humana de se expressar por meio da narrativa. O ato de contar histórias como forma de comunicação humana está ligado a um exercício de memória em que as pessoas colocam suas experiências ancoradas num tempo e um espaço, pois nela aparecem acontecimentos que expressam as ações dos sujeitos num contexto social específico.
Diferentemente do típico esquema pergunta-resposta, a entrevista narrativa é considerada uma forma de interlocução não estruturada e de profundidade. A influência do entrevistador deve ser mínima, garantindo que “a perspectiva do entrevistado se revele melhor nas histórias nas quais o informante está usando sua própria linguagem
espontânea na narração dos acontecimentos” (Jovchelovitch, 2002, p.95). Assim, a
escolha desta ferramenta permite nesta pesquisa uma maior aproximação da realidade destes jovens no que se refere às relações que estabelecem, aos modos de se perceberem como jovens migrantes negros e às representações que os constituem como sujeitos, obtendo detalhes e aprofundando em questões que ficaram pouco desenvolvidas no grupo de discussão.
Para o desenvolvimento das entrevistas narrativas foi utilizado um critério de seleção do entrevistado considerando seu papel e participação dentro da dinâmica que gerou o grupo de discussão, pela apropriação e nível de envolvimento com as temáticas abordadas. Foi entrevistado um jovem de cada banda, com trajetórias diferentes no âmbito musical: por um lado, El kapy por estar mais engajado às “músicas urbanas”, e por outro, Yeiner, vinculado ao âmbito das músicas tradicionais.36
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Mesmo as entrevistas narrativas sendo desenvolvidas apoiadas nos critérios de realização sugeridos pelos autores aqui trabalhados, as duas entrevistas apresentaram dificuldades. No caso da entrevista com
Yeiner, foi um encontro corrido para ele, pois foi marcado duas horas antes do seu trabalho; o ambiente
de encontro foi um lugar público, com condições mínimas de acústica impedindo, por vários momentos, a escuta e o desenvolvimento da narração do entrevistado. A entrevista teve uma duração de 1 hora 30 minutos. No caso de El Kapy, cuja atitude é de uma expressividade mais tímida, fez-se necessária a formulação de perguntas como forma de priorizar o diálogo e de aprofundar em questões que gerassem narrações. A entrevista teve uma duração de 1 hora e 10 minutos. Por outro lado, se conseguiu uma entrevista com “El Rede” com o intuito específico de conhecer mais sua trajetória musical no seu município Guapi até na atualidade em Bogotá. A entrevista teve uma duração de 1 hora 14 minutos. Apoiamo-nos também em conversações informais, obtidas com El Kapy e seu irmão Luis em 2011, ano em que foram realizados os primeiros contatos com Rap Folklord para a apresentação do plano de
81 3.2.3 Observação participante
Além dos grupos de discussão e das entrevistas narrativas, utilizamos para a coleta de dados, como uma ferramenta de comparação e verificabilidade dos dados obtidos, a observação participante das atividades dos grupos, como também o material musical que produzem e que são veiculados em ambientes/plataformas virtuais como Jimdo, myspace, youtube e facebook.
Acreditamos que suas músicas compõem um insumo que dá conta das representações coletivas e formas expressivas que mobilizam e dão sentido ao agir do grupo. Mesmo ainda quando concebemos suas músicas como pertencentes ao contexto do qual os jovens fazem parte, as letras e os ritmos expressam sua cotidianidade, tanto para narrar suas experiências, como para definir seu espaço-tempo na produção musical, não se revelando como uma forma separada da sociedade. Esse espaço-tempo ligado à produção musical configura uma cena na qual os jovens podem se expressar, comunicar e falar de seu mundo de uma forma que em nenhum outro lugar conseguem.
Nas observações participantes foi possível avaliar o valor do cotidiano que se torna fonte para a escrita das letras e que faz parte da sua produção musical. Nesse sentido, o lugar das músicas tem tanto valor como seus depoimentos, sendo também usadas para explicitar as situações desenvolvidas nas temáticas principais que estruturam nossa pesquisa: a socialidade e os modos de subjetivação, segundo os argumentos apresentados no capítulo 2. Dentro dessas categorias, ganha destaque sua música como modo criativo de se expressar como jovens negros, portanto de se situar dentro da sociedade ao privilegiar situações, práticas, acontecimentos e historias importantes para cada um deles.
As observações participantes foram uma ferramenta de apoio significativa, pois foi assim que conseguimos ganhar a confiança dos grupos investigados, principalmente de Rap Folklord, pois é a banda com trajetória mais sólida na cidade e com a qual se teve mais proximidade e familiaridade desde 2011. Por sua vez, dada a mesma dinâmica de Chonta Urbana, relativa a seu pouco tempo na cidade e às situações particulares de cada um dos integrantes, se teve uma proximidade e nível de engajamento mais difusos, motivo pelo qual foi mais difícil acompanhar as experiências que só com confiança
trabalho inicial. Contamos também com o uso de um diverso material audiovisual, obtido desde 2011 (ensaios ao vivo e eventos). Isto nos auxiliou para comparar, conferir e esclarecer situações e completar detalhes na estruturação do corpus descritivo e nas análises.
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adquirida através do tempo são possíveis de compartilhar. Mesmo assim, o nível de amizade com os integrantes de Rap Folklord ajudaram na aproximação com aquela banda.
A experiência coletiva de Chonta Urbana no município de Guapi e suas reflexões sobre o contexto social e cultural particular como jovens envolvidos no campo musical foram vitais no momento de construir nosso objeto e re-avaliar nossas hipóteses de pesquisa, assim como dialogar com outras investigações. O exercício de observação participante teve uma duração de quatro meses desde minha chegada a Cali no final de dezembro de 2012 até abril de 2013.
Mesmo que nosso objeto seja caracterizado por grupos ainda em gestação, que apresentam trajetórias mais transitórias e difusas (o que tem a ver com a própria transitoriedade das formações de grupos musicais e a mudança de ritmos que acompanha o momento histórico), diferentemente dos grupos de jovens pesquisados por Weller, que eram engajados ao movimento hip-hop, pensamos, igualmente, que os grupos de discussão e as entrevistas narrativas constituem além de técnicas, métodos (Weller, 2006, p.245) que ajudarão nas análises do problema aqui proposto. Esses dois métodos articulados, além da observação participante, iluminam o exercício analítico ao dialogarem com categorias que envolvem a compreensão das orientações coletivas ou mundos de vida destes sujeitos, dos sentidos que produzem quando se expressam coletivamente por meio das músicas da diáspora.
Essas são as dimensões que põem em diálogo e tensão as técnicas de coleta de dados e os referenciais teóricos, para compreender as formas de socialidade presentes em suas interações comunicativas e formas expressivas.
3.3 Pesquisa de campo e realização dos grupos de discussão