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1.4. Zamana Dayalı Faaliyet Tabanlı Maliyetleme Sistemi

1.4.3. FTM ile ZDFTM Arasındaki Farklar

Para Herschmann (2009), ainda que exista um interesse cada vez maior de

estudos acadêmicos pelos jovens, também é acentuada a sua “condição” de proscritos, pois ainda a imagem do jovem como “delinqüente”, “vulnerável”, “perigoso”, “violento” está fortemente ancorada no imaginário social da America Latina. Porém,

para ele há uma literatura comprometida em questionar criticamente tais representações, reconhecendo as problemáticas sociais, os estereótipos e preconceitos construídos sobre os jovens.

Em 1998 é publicado o livro Viviendo a toda: jóvenes, territórios culturales y nuevas sensibilidades, resultado do investimento que vários autores (Margulis & Urresti; Rosana Reguillo; Alonso Salazar, entre outros) fizeram ao adentrar nos mundos habitados pelos jovens para compreendê-los a partir do âmbito cultural, ou seja, aquele que traz questões sobre o conjunto de práticas, linguagens, formas de estar juntos pelas quais se fortalecem os laços coletivos, produzem sentidos, comportamentos, recriam estilos e estéticas, (des)ordenam seu espaço-tempo, reconstroem simbolicamente referentes e lugares diversos para enfrentar o desencanto de um mundo cada vez mais instrumentalizado em função do mercado global.

Margulis & Urresti (1998) distinguem as noções de jovem e juvenil. Para eles o juvenil corresponde a uma construção da mídia, do mercado e das indústrias culturais por meio dos quais se projetam imagens do que significa ser jovem. Desta maneira, o juvenil se torna uma figura que representa múltiplos símbolos que se referem ao desportivo, à alegria e ao hedonismo. No entanto, tais representações não correspondem à realidade de jovens de classe popular, pois a moratória social24 que as aciona não é um

24 Esse termo faz referência ao tempo de prolongação que experimentam os indivíduos na modernidade para assumir o rol de atividades e convenções da vida adulta estabelecido pela sociedade, como o matrimônio e o trabalho.

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tempo para curtir, pelo contrario, é vivido como tempo de culpa e angústia, de impotência, uma circunstancia desditosa que empurra para a marginalidade, a delinqüência ou o desespero (Margulis & Urresti, 1998, p.6).

É determinante para estes autores localizar os jovens contemporâneos em um contexto social secularizado, mediado pela publicidade, midiatizado e estetizado, gerador de diferentes representações de ser jovem e que seduzem as distintas classes sociais. Ainda assim, eles consideram que esses conjuntos de mediações modelam discursos que produzem um jovem mítico, afastado da realidade em que muitos setores estão mergulhados: uma narrativa que os situa nas gratificações oferecidas pelos circuitos de consumo dotando-os de valor simbólico ao representar um indivíduo empreendedor, dinâmico, produtivo e líder.

Segundo os autores, no entanto, o fenômeno das tribos urbanas constitui um cenário vital que promove nos jovens formas de resistência à figura mítica produzida pelas instâncias e pelas dinâmicas de uma sociedade mergulhada em processos de redução da experiência à representação na mídia. Nas tribos, os jovens encontram um

refúgio para escapar do estabelecimento cotidiano e hegemônico da figura do “jovem oficial”: eles constroem, nas suas interações e no seu estar juntos, enclaves simbólicos e

referentes de identidades.

Dayrell (2005) também toma em conta as transformações da sociedade contemporânea no seu estudo sobre jovens, assinalando a crise que perpassa as instituições tradicionais de socialização. A escola e o mundo do trabalho já não são um referente de valores, nem definem um horizonte onde se materializam as expectativas dos jovens. É impossível compreender sua experiência sem considerar a complexidade e heterogeneidade crescentes na sociedade:

O que queremos enfatizar é a complexidade e a heterogeneidade cada vez maiores da sociedade com rápidas transformações em todos os setores sociais, desde a organização da produção e do consumo até as formas de sociabilidade. Neste processo contraditório, antigas formas permanecem como estrutura social desigual e excludente; outras, porém, avançam... O que vem ocorrendo no país é um reflexo das mutações sociais mais amplas da sociedade ocidental, que tem, na informação, no campo simbólico, o novo campo de poder. Este cenário cria novos patamares e modelos de cidadania (Dayrell, 2005, p. 24-25).

Assim, a esfera do consumo cultural se torna um âmbito importante para as trocas sociais, ampliando o leque de possibilidades dos jovens. No entanto, segundo Dayrell (2005, p.26), no caso do Brasil (situação que muito provavelmente é similar a

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de outros países latinoamericanos) existe também uma restrição ao seu acesso, evidenciando-se uma das faces perversas da nova desigualdade: uma modernização cultural sem modernização social.

De acordo com Dayrell (2005), apoiado nos argumentos de Charlot, os jovens são concebidos como sujeitos sociais, no sentido de considerar todos os indivíduos com a capacidade suficiente de agir dentro do contexto social no qual estão inseridos. Como seres particulares, todos os sujeitos possuem uma historicidade, correspondem a um espaço-tempo específico que oferece repertórios para poderem conferir sentido ao mundo, compartilham significados e afetos que os mobilizam na sua construção como seres humanos, seja para reforçar o lugar que ocupam dentro da sociedade ou para questioná-lo.

O sujeito é, segundo Dayrell, um processo em construção e não algo já dado; sendo o ser humano o único ser impelido ante o questionamento do que ele é, sobre sua condição de não ser nada. Mas o desenvolvimento de suas potencialidades não é um processo inato, pelo contrário está ligado a processos de relacionamento social com o outro, mediação que o introduz no mundo do qual vai ser parte.

Contudo, esse autor também considera que existem muitas formas de se constituir (ou não) como sujeito dependendo das qualidades dos contextos e das relações sociais que promovem vínculos de pertencimento do indivíduo na sociedade. De acordo com ele, uma das formas que impedem a constituição das pessoas como sujeitos corresponde aos contextos de desumanização, em que o individuo é proibido de ser, suas potencialidades são limitadas ao não existir e todos os recursos que garantem

seu “desenvolvimento” são negados. Não deixa de ser significativo para Dayrell, como

os jovens por ele pesquisados constroem modos próprios de viver para se sobrepor aos obstáculos da sua realidade imediata.

Assim, a importância das culturas juvenis ligadas à música, a conformação de grupos e estilos, são uma esfera na qual os jovens expressam práticas e geram formas de vida específicas para significar sua cotidianidade. As culturas juvenis deixam entrever um conjunto de significados compartilhados, um conjunto de símbolos específicos que

“expressam a pertença a um determinado grupo, uma linguagem, com seus usos singulares, rituais particulares e eventos por meio dos quais a vida adquire um sentido”

(Dayrell, 2005, p.36).

A reflexão sobre os jovens salienta a questão do lugar que eles ocupam dentro de uma cultura mundializada e as tensões com seus modos cotidianos de vida e instituições

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sociais e burocráticas. Enquanto atores sociais se constroem, portanto, na negociação, conflito e cumplicidade com os repertórios que circulam e fluem nas telas da televisão, nos anúncios publicitários, nos centros comerciais e nas ruas da cidade. Eles são, hoje, como nunca antes, os sujeitos mais sensíveis ao desordenamento cultural que perpassa a sociedade desde a década de 1960.

Esta mudança provocada pela implosão do “sistema-mundo da vida” colocando em crise os relatos dominantes que o norteiam, trouxe consigo uma multiplicidade de sentidos, ao saturar e esfumar os rumos que garantiam a coesão social. Mesmo assim, as incertezas, produto desta defasagem, se tornam, paradoxalmente, a possibilidade de definir e imaginar outros horizontes além dos instituídos. Portanto, os jovens vistos

como “sujeito empírico” não são um todo homogêneo fácil de rotular. Pelo contrário,

são uma heterogeneidade de atores sociais que se constituem nas suas próprias práticas e ações. E, sobretudo quando a vida social deixa de ter para eles uma continuidade espaço-temporal, uns se fazem visíveis nas suas atitudes frente ao poder, enquanto outros preferem o anonimato, ou se diluir nas redes do hedonismo mercantil. Outros

ainda, sem ter opção nenhuma, passam a ser denominados “descartáveis” (Reguillo,

2000, p.58-59).

Fugindo de discursos ligados à psicologia, que reduzem as atitudes e comportamentos dos jovens a questões morais como a perda de valores sociais, ou a quadros de sentido totalizadores que figuram como base de toda socialização, Reguillo (2000) busca compreender a dimensão expressiva dos jovens a partir do lugar da mudança cultural que compõe a paisagem para representar sua experiência. Este fato é considerado inédito por Mead no seu livro Cultura e Compromisso, e ela o denomina

“cultura pré-figurativa”, para caracterizar o âmbito em que os jovens adquirem e

assumem autoridade sobre os processos, instituições e transformações que redimensionam o futuro do planeta. Os jovens possuem a capacidade de dar conta dos deslocamentos de uma suposta ordem quando a sociedade está perpassada por elementos como a mundialização e o desenvolvimento tecnológico (Reguillo, 2000, p. 63).

Este tipo de reflexão requer considerar, neste momento de mudança, o nível de complexidade do mundo, sendo um processo caracterizado pela quebra dos modos de transmissão de conhecimentos e valores de uma sociedade, expresso na capacidade de processamento da informação que circula velozmente pelo planeta, e se enuncia

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mediado pela própria experiência que seus habitantes fazem da realidade que os cerca (Reguillo, 2000; Martín Barbero, 1998).

O que há de novo hoje na juventude, e que se faz já presente na sensibilidade do adolescente, é a percepção obscura e desconcertada de uma reorganização profunda nos modelos de socialização: nem os pais constituem o padrão-eixo das condutas, nem a escola é o único lugar legitimado do saber, nem o livro é o centro que articula a cultura. A lucidez de M. Mead apontou ao coração de nossos medos: tanto mais que nas palavras do intelectual ou nas obras de arte, é no desassossego dos sentidos da juventude no qual se expressa hoje esse estremecimento de nossa mudança de época (Martín-Barbero, 1998, p.29).

Pode-se conceber a configuração da identidade nas interações dos jovens como em um palimpsesto, onde um passado aparece tenuemente nas entrelinhas que definem os tempos fragmentados atuais. A produção de um novo sensorium, o do fluxo e da fragmentação, em que a destruição da memória e a obsolescência das coisas fazem da identidade um lugar descontínuo, feito da amálgama de retalhos, pedaços e resíduos com que os jovens instituem outros regimes de ver, ouvir e sentir, são os elementos de determinação da sua experiência. Sensorium que opera tanto na atividade do zapping, nos formatos televisivos, como na instrumentalização contida nos planejamentos que desenham as cidades contemporâneas.

Acrescentaríamos hoje em dia os âmbitos das redes sociais e a profusão de meios de comunicar, informar e produzir que provê a internet. Esses âmbitos são incorporados à cotidianidade dos jovens para articular diversos usos e organizar seu tempo, sendo manifesta essa empatia tecnológica aproveitada por eles para acionar sua sensibilidade, a capacidade de se apropriar dos aparelhos e sua facilidade para dominar os idiomas da tecnologia, tal como nos mostram pesquisas de usos da internet na periferia (Batista, 2011) ou dos celulares e sua centralidade na vida cotidiana, nas performances do corpo, na constituição de identidades, agenciando formas de socialidade (Da Silva, 2008)

Por sua vez, Reguillo prefere compreender esse processo de configuração da experiência e os modos de pertença dos jovens para se encontrar e se identificar, através da metáfora do vídeoclip, aludindo aos modos condensados de representação e ação das culturas juvenis. Assim, mais que a figura do palimpsesto, para essa autora é a figura do hipertexto que melhor ajuda na compreensão destas realidades em que os jovens são

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reintroduzem permanentemente uma mudança de sentido tanto na sua acepção de

direção como de significação” Reguillo, 2000, 68).

Dentro de um contexto de hegemonia do discurso neoliberal, de processos de mundialização da cultura, corrosão e deslegitimação dos dispositivos institucionais de representação e participação, de empobrecimento da população latino-americana, Reguillo enuncia pelo menos três elementos em que o contexto anterior afeta os jovens: sua percepção da política, sua percepção do espaço e sua percepção do futuro. Como aponta García Canclini, existe um conjunto de condições objetivas que obriga a considerar as situações de desigualdade e exclusão de amplos setores da sociedade, sendo o dos jovens aquele que traz a questão pelo futuro, pois os jovens só teriam a

possibilidade de se “globalizarem” como trabalhadores ou como consumidores, âmbitos

a partir dos quais hoje não é seguro e confiável ancorar um projeto estável de vida. Segundo este autor:

Como trabalhadores, oferece-se a elas (novas gerações) que se integrem a um mercado liberal mais exigente em qualificação técnica, flexível e, por tanto, instável, cada vez menos protegido por direitos trabalhistas e de saúde, sem negociações coletivas, nem sindicatos, no qual devem buscar mais educação para, no fim, achar menos oportunidades. No consumo, as promessas do cosmopolitismo são impossíveis de cumprir, dado que ao mesmo tempo se encarecem os espetáculo de qualidade e se empobrecem – devido a crescente evasão escolar - os recursos materiais e simbólicos da maioria (García Canclini, 2007, p. 211)

Contudo, uma reflexão atenta às formas pré-figurativas coloca a atenção no valor que adquire cada experiência nova de se deslocar constantemente de espaços para ocupar outros, carregando-os de diversos sentidos (característica das culturas juvenis), salientando seus ritmos e trajetórias desde as quais traçam seu mapa das suas percepções do mundo e o imaginam como outro mundo possível. Assim, faz sentido

compreender as culturas juvenis como “lugares de novas sínteses socio-políticas que

estão construindo referentes simbólicos distintos aos do mundo do adulto, ou bem, usando-os de maneira diferente” (Reguillo, 2000, p.65).

Refletindo acerca de observações realizadas junto a três grupalidades de jovens no México (Punks, taggers25 e Ravers), a autora dá conta das percepções que compõem suas práticas, que estão ligadas a uma consciência global de suas ações coletivas, inspiradas pela mobilização do movimento zapatista em Chiapas, México. Outros, como os ravers, levantam a bandeira de defesa pelo meio ambiente ao mesmo tempo em que

25 Pixadores.

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suas noites são êxtases de comunhão, do estar aí, em um transe produzido pelos beats da música techno e pelas drogas sintéticas. A forma expressiva que caracteriza principalmente os taggers envolve o deslocamento ágil para marcar, pichar com aerossol as cidades, com frases e dizeres a favor do movimento zapatista ou contra o governo de turno, mas também para expressar em poucas palavras situações cotidianas ou instantâneas do seus consumos.

Todos esses modos não estão ancorados em concepções formais de projetos políticos, mas que nas suas formas expressivas - que incluem discursos, rituais, trajetórias urbanas, estilos e estéticas - se encontram percepções do mundo que “dão conta de uma política com letras minúsculas, que faça do mundo, do país, da localidade, do futuro um melhor lugar para se viver” (Reguillo, 1998, p.81).

A seguir, traremos uma reflexão acerca de um dos conceitos chave para caracterizar as práticas juvenis, o estilo26. Tematizaremos o estilo em relação com o âmbito da música e ambos serão articulados a uma discussão sobre sua importância nas dinâmicas de constituição da cultura negra. Depois, colocamos algumas questões a partir da perspectiva do entrelaçamento entre a estética e a política, com a intenção de contribuir para a abordagem sobre os modos de subjetivação nas pesquisas sobre jovens, animados pelo percurso dos Estudos Culturais até aqui desenvolvido.