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Esta categoria engloba as percepções dos trabalhadores a respeito das interações entre as condicionantes e circunstâncias do trabalho em grandes escritórios de advocacia e a vida privada, que engloba os tempos de não-trabalho (PERISTA, MAXIMIANO e FREITAS, 2000) e a vida pessoal relacionada à realização de atividades de lazer e a convivência com familiares, amigos etc.

Como já foi discutido na seção 5.2.2, para esses profissionais é intenso o impacto do trabalho na vida privada, seja pelas longas jornadas de trabalho que podem alcançar médias de 11 horas diárias, inclusive fins-de-semana e feriados, nas épocas de grandes projetos e trabalhos importantes, (muitas vezes virando noites) o que faz com que a convivência com familiares e amigos em eventos sociais seja altamente prejudicada. Além disso, a obrigação de estar sempre á disposição do escritório e/ou do cliente, inclusive em seus períodos de descanso seja em jantares pós-expediente, viagens e em seu próprio ambiente doméstico.

Em que pesem as tentativas ou os desejos de colocar limites e horários (dentro das possibilidades) para realização de atividades pessoais tais como atividades físicas, estudos e questões pessoais, os advogados de grandes sociedades têm a necessidade de trabalhar muito tempo pós-expediente.

[...] é inevitável que invada (a vida pessoal). Por exemplo, final de semana passada, domingo de madrugada, eu estava trabalhando em casa. Invariavelmente [...] o trabalho vai invadindo o seu tempo livre. E eu sou uma pessoa que, quando o trabalho estoura, eu tendo sim a levar trabalho para casa. Hoje em dia eu evito, mas às vezes você tem que levar. A vida pessoal dos advogados, hoje em dia, já concebe a possibilidade de ter que trabalhar um tempo extra no final de semana ou no feriado. E3

Que vida pessoal?!! É como eu estava falando... Você tem seu sábado e domingo, teoricamente. Durante a semana é mais complicado. Dependendo do que você está fazendo é bem difícil, mas você tenta. E5

Em termos profissionais o que me assusta hoje é o tempo que, você hoje, independente da hora que você esteja na sua casa o seu telefone vai tocar, o seu e-mail vai disparar e você tem que largar o que está fazendo para poder atender o cliente. Eu acho que isso é minha maior preocupação que eu tenho [...] mas eu acho que as pessoas precisam entender que você precisa ter um pouco de tempo livre também para aproveitar, porque senão não adianta você almejar cargos, salários e não ter tempo para poder usar isso. [...] eu acho que isso um pouco por culpa da tecnologia, mas um pouco de culpa da cabeça das pessoas que não conseguem verificar um pouco do que é o tempo livre do que um tempo de trabalho. E13

Por exemplo, eu já fiquei quatorze dia sem ver minha mulher. [...] já trabalhei inúmeras vezes quarenta e três, quarenta e oito horas seguidas sem ir para casa,[...] difícil sair do escritório antes da meia noite ou uma, duas da manhã isso é normal. [...] já cheguei a trabalhar três meses e ter dois finais de semana pra descansar, uma média assim. [...] trabalhar trezentas, trezentas e vinte horas no mês, que da uma média de dez, onze horas por dia, contando sábado e domingo. E1

a. Armadilhas tecnológicas e o excesso de disponibilidade

A invasão da vida privada e do tempo do não-trabalho desses profissionais é catalisada pelos dispositivos tecnológicos de comunicação, tipo Blackberry, que, ao permitir rápida localização e interação do profissional cumpre a função de deixá-los á disposição quase 24 horas por dia dos clientes que, além de impor-lhes uma obrigação de retorno e/ou providências em curto espaço de tempo.

A posse e uso destes aparelhos que já liberava as atividades profissionais das limitações de espaço dificultam que fronteiras ou limites sejam estabelecidos entre os tempos de trabalho e não-trabalho, a ponto de demandar-lhes atenção em situações de não-trabalho e comprometendo assim sua própria privacidade.

[...] só que por um lado você perdeu um pouco a sua liberdade, porque você está 24 horas a disposição do cliente, porque você tem e-mail, você tem (...), você tem telefone celular; aqui e é complicado você conseguir impor limites no sentido de, “não, não vou deixar o meu celular com o cliente. Não vou deixar o meu celular no meu escritório. Não quero ter e-mail”. E13

Hoje com BlackBerry então, a pessoa está muito ligada; passa o final de semana a trabalho, [...] domingo ás 08 da manhã, eu estou respondendo. [...] o advogado tem pouco tempo pra se desligar, porque é uma reunião que fica no almoço ou no jantar. E15

[...] então você acaba estando conectado ao escritório 24 horas você pega o celular ai você entra eles já te dão o BlackBerry, ai você fica super feliz de ganhar um. Aí de repente você vê que aquilo é uma ferramenta que te deixa conectado, então um dia você pode sair às nove horas da noite que é cedo, oito e meia de repente você chega a casa onze horas você esta respondendo email. E18

Para a vida pessoal da pessoa pirou, porque na minha área pelo menos, o cara manda (o e-mail), ele sabe que você tem o BlackBerry e sabe que você tem o acesso ao e-mail, ele já quer a resposta logo: bateu no e-mail já tem que responder. E o fato de você estar sempre disponível para ele. Ontem mesmo 11 horas da noite, eu liguei para o cara do banco, e comecei a discutir como se fosse assim 6 horas da tarde, e ele atendeu normalmente e a gente estava lá discutindo e eu desliguei e meu marido disse assim: “são 11:30 da noite. Você sabe o que você esta fazendo?” Eu falei: “Nossa, é verdade”. E21

Os advogados admitem o incômodo com a ampla disponibilidade e a obrigação de rápido retorno, entretanto admitem sua necessidade em função das responsabilidades e dos portes dos trabalhos, ao mesmo tempo em que reconhecem sua utilidade na agilização de seu trabalho e seus contatos.

[...] as pessoas que querem te achar, te acham de qualquer forma. Antes do BlackBerry me achavam das formas mais absurdas por ligação. Então, com o BlackBerry só ajuda, porque fica num canal só, e fácil, eu abro e não tem problema. Eu só não abro assim, sábado a noite, sábado de tarde, quando eu quero descansar, e também nada vai ser urgente nesses momentos. E19

“Armadilhas tecnológicas” é a forma pela qual Tanure, Carvalho Neto e Andrade (2007) referem-se às tecnologias e os equipamentos eletrônicos de comunicação (celular, e-mail, BlackBerry, notebooks etc) que invadem e seqüestram o tempo de não-trabalho dos

trabalhadores nas empresas contemporâneas reduzindo o limite entre os tempos e espaços pessoal, social e de trabalho (com disparada vantagem para este último). Este fato propicia, ainda de acordo com os autores, o aparecimento do paradoxo de uma “ausência presente”, ou seja, a facilidade de localização e de contato proporcionada faz com que o trabalhador mesmo estando fora de seu espaço de trabalho (a organização) esteja, na prática, sempre presente e disponível. Ou seja, é experiência do chamado “tempo real” tal como definido por Gleick (2000) e similarmente como “tempo simultâneo” por Tonelli (2000). Como acima discutido, este efeito abate diretamente os advogados de grandes sociedades de advocacia.

b. O dilema do equilíbrio

A invasão mas também a interferência do trabalho nos espaços e tempos de não-trabalho dos advogados empresariais atuantes nas Grandes Sociedades de Advocacia, quando confrontadas com as compensações financeiras e de realização atuais e futuras da carreira (bem como as grandes incertezas a elas associadas) geram nos profissionais a vivências de dilemas relacionados à possibilidade ou não da busca de um equilíbrio possível entre as exigências, as cobranças e as potenciais recompensas sociais e financeiras da carreira em um grande escritório e a vivência de uma convivência social e familiar saudável. A este conflito manifestado de diversas formas, daremos aqui o nome de “dilema do equilíbrio”.

O “dilema do equilibro” aparece quando são confrontadas a grande dedicação ao trabalho exigida tanto pelas demandas dos clientes como pelo escritório, que geram as situações anteriormente descritas de longas jornadas de trabalho e invasão do tempo de não-trabalho e a sensação de que algo pode estar se perdendo em outro aspectos da vida, por exemplo, a vida familiar, seja pela convivência com filhos de pouca idade, com os cônjuges e mesmo com pais em processo de envelhecimento. Neste momento dúvidas sobre a continuidade de seu projeto profissional surgem nas mentes dos advogados quando aventam a hipótese de atuar em firmas menores, onde o ritmo não seja tão rigoroso e o tempo de trabalho potencialmente melhor controlado.

O questionamento se fortalece quando do reconhecimento da incerteza em direção ao alcance dos objetivos futuros seja tornando-se sócios e/ou o estabelecimento em posição financeira estável e confortável que permitiria a tão esperada redução do ritmo de trabalho e a fruição das conquistas.

Constantemente eu vivo esse conflito, de tentar trabalhar um pouco menos e ficar com as minhas filhas. Quando tenho que virar a noite eu viro, mas eu tento botar limite no cliente. Mas eu tenho essa consciência [...] dá muita angústia quando eu estou com saudade das minhas filhas e eu vejo que eu tenho que ficar aqui virando a noite. Se uma está doente em casa e você tem que ficar aqui.” E6

Eu acho que dilema é você abdicar de um tempo pessoal grande em prol de uma carreira, e o dilema é: você está fazendo um trabalho incrível para o seu cliente. Será que isso vai dar tanta satisfação quanto você passar um domingo com o seu filho? Será que eu não estou abdicando da minha vida pessoal em prol de uma vida profissional mais importante? E7

Ah, eu me sinto muito triste. Eu fico louco porque eu perdi o final de semana com os meus amigos, com a minha família [...]. Eu, pelo menos fico desmotivado; fico pensativo: “poxa, será que eu vou querer sempre isso para a minha vida? Será que isso não vai mudar? [...] Preciso ter o meu momento com as pessoas de fora do escritório, de poder viver a minha vida”. Isso é uma coisa que pesa bastante e o que deixa a gente bastante pensativo em relação a carreira. [....]“Poxa, será que vale a pena me entregar tanto assim para, não viver? Estar em um grande escritório, ter o sonho de ser um grande advogado [...]”. Mas as vezes você pensa, “será que vale a pena?”. [...] gosto do que faço, mas quando você tem algo que faz com que você perca uma madrugada e você sabe que isso não era necessário, faz você repensar se vale a pena se dedicar tanto sem saber o que isso vai dar lá na frente; se vão ser só frutos ou se vão ser só decepções de amigos, de família, decepção amorosa. E13 Agora pra quem é mulher eu acho que é mais pesado, por que quando você começa a pensar a ter filhos e tal, você fica um pouco angustiado, você não sabe como que vai ser. Eu particularmente me questiono muito:, “será que eu fico, será que não” . E eu casei ontem, então eu fico “ah! meu Deus e daqui cinco anos?”, aí as vezes eu me pego pensando se fico ou se saio[...],para quando eu tiver filhos [...], eu não sei se vou agüentar. Mas é assim que eu gosto de trabalhar, não gostaria de abrir mão completamente. E14

Eu sei que eu posso ta perdendo alguma [...] a oportunidade de estreitar relacionamentos de estar mais presente e tal; mas eu procuro administrar e procuro não perder estes momentos quando aparecem, mas é claro que por mais que tome esta atitude , é aquele negocio: é o medo de estar perdendo a vida por algo que é incerto. E18 O grande dilema é saber até que ponto isso vale a pena realmente. se vale pena você continuar num escritório como esse, que é muito sacrificante ou se é melhor você às vezes escutar o que algumas pessoas saem e falam para você. “Ah, agora eu sexta-feira à tarde eu vou para o meu sítio.” Então o dilema, e acho que é um dilema que afeta a todos. “Eu continuo no escritório que é um escritório de ponta, que dá um prestígio enorme, que dá uma satisfação profissional enorme ou eu largo esse mundo tão corrido e vou fazer uma coisa mais tranqüila?” [...] eu hoje poderia não estar com essa angústia de e-mail’s. Provavelmente hoje poderia não estar com a gastrite crônica que eu tenho que é de nervosismo. E20

c. Acomodação

No entanto, apesar do reconhecimento dos prejuízos reais e potenciais do ritmo de vida dedicada prioritariamente ao aspecto profissional e em vários casos não encontrarem conscientemente respostas satisfatórias sobre os dilemas vividos, os advogados apresentam variados graus de conformismo com a situação, ao aceitar como inerentes e necessários tais sacrifícios no caminho do alcance dos objetivos de vida e de carreira.

É horrível, fico “p”. Tem que se concentrar para não pensar no que está acontecendo lá, mas são ossos do oficio. E11

Quando você está em um projeto importante não existe sábado, domingo nem feriado. Eu mesmo já perdi vários feriados. Tem que trabalhar. Às vezes um cliente vem de fora para um fechamento e não há o que fazer. Faz parte da nossa profissão. E18

Agora, em contrapartida, eu não sei se eu saberia viver sem o prestígio, sem o alcance que eu tenho hoje sendo sócio do escritório. Isso e a minha conta bancária também que é muito confortável. E20

5.6.1 Considerações sobre a categoria

Os advogados militantes em grandes sociedades de advocacia empresarial percebem que as exigências e os compromissos inadiáveis e urgentes de seu trabalho impactam de forma intensa o tempo de não-trabalho e de sua vida pessoal. Os principais fatores apontados foram as longas jornadas de trabalho, a exigência de quase total disponibilidade por parte dos grandes clientes (que, aliás, freqüentemente ignoram quaisquer limites seja de tempo ou de espaço, o quê é potencializado pelo uso de ferramentas tecnológicas de comunicação quase instantânea e com as quais tem percepções contraditórias) acabam por prender os advogados ao trabalho quando e onde quer que eles estejam. Tal situação gera naqueles profissionais sentimentos conflitantes em relação a sua carreira, principalmente quando confrontados com a realidade da grande incerteza sobre o alcance do ápice, ou seja, tornar-se sócio com todo o prestígio e as vantagens financeiras e sociais pelos quais fazem tantos sacrifícios.

Surgem, assim, questionamentos sobre a validade e intensidade de seus esforços e sua dedicação, principalmente pelo fato de reconhecerem que podem estar incorrendo em prejuízos potencialmente irreparáveis na vida pessoal. Tem-se assim configurado o “dilema do equilibro” entre trabalho/carreira e a vida privada, uma tentativa de alcançar um balanço mais favorável entre os dois. É nesse momento de fragilidade e dúvida que surgem comparações quase fantasiosas entre sua vida em um grande escritório e as possíveis vantagens pessoais em organizações de menor porte, onde as solicitações não sejam tão intensas e os horários mais controláveis, permitindo uma melhor repartição do tempo entre as esferas de sua vida. No entanto e geralmente, a maioria desses profissionais acaba se conformando à ausência de soluções fáceis para seu dilema do equilíbrio bem como às recompensas atuais e potenciais de sua atual condição. Assim, as pressões da vida em grandes escritórios acabam quase sendo naturalizadas na busca do sucesso profissional.