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Recolhendo a herança gramsciana e, ao mesmo tempo, superando seu pensamento, Poulantzas, em suas últimas obras, completa a problemática da relação de forças.

Em sua análise sobre o Estado capitalista, Poulantzas afirma que ele é “[…] uma relação, mas exatamente como a condensação material de uma relação de forças entre classes e frações de classes, tal como se expressa, de maneira sempre específica, no seio do Estado”.96 Entendendo-se dessa forma, a política do Estado é resultante das contradições do próprio grupo que está no poder, e essas contradições estão inseridas na estrutura do Estado. Como bem resumido: “[…] significa que o Estado é constituído de lado a lado pelas contradições de classe”.97 O que elimina a afirmativa de que o Estado representa os interesses de uma única classe.

O Estado não pode ser visto como algo monolítico, sem contradições internas. As frações do bloco no poder (grandes proprietários, capital monopolista, capital não monopolista, entre outras) estão presentes no Estado, nos seus aparelhos e órgãos e na definição de políticas, como, por exemplo, as propostas para estudo nesta pesquisa: as políticas públicas para a educação. As contradições que os acompanham também se apresentam no Estado.

96

POULANTZAS, 2000, p. 130.

97

São essas contradições que organizam, de forma paradoxal, o Estado nas seguintes ações: nas tomadas de decisões em determinados aparelhos ou órgãos; nas não-tomadas de decisões; no estabelecimento de prioridades e contra-prioridades; na filtragem das propostas a serem feitas por outros.98

Além das contradições nas relações do próprio grupo no poder, o Estado também se baliza na relação de forças entre classes dominantes e classes dominadas. Na verdade, as lutas populares também estão presentes no Estado.99

Para concluir o raciocínio de Poulantzas:

Entender o Estado como condensação material de uma relação de forças significa entendê-lo como um campo e um processo estratégicos, onde se entrecruzam núcleos e redes de poder que ao mesmo tempo se articulam e apresentam contradições e decalagens uns em relação aos outros.100

1 4.2 Transposição para o Cenário da Câmara

Tanto Gramsci quanto Poulantzas trabalharam com a problemática das correlações de forças, discorrendo sobre a ordem mundial (disputas bélicas e políticas entre nações, hegemonia de uma nação sobre as outras) e as relações internas de um Estado-Nação (constituição do Estado contemporâneo, disputa de poder dentro do grupo dominante e entre este e os subalternos).

98 POULANTZAS, 2000, p. 136-137. 99 Ibid., 2000, p. 143. 100 POULANTZAS, 2000, p. 138.

Nosso objetivo é fazer a transposição conceitual para um nível mais micro da análise política: o governo municipal e, particularmente, o cenário da câmara de vereadores.101 Entendemos ser este, também, um espaço onde está presente uma determinada correlação de forças, pois também aí ocorrem as disputas pelo poder entre grupos de interesses que atuam no município.

Por isso, entendemos a atuação dos vereadores segundo a lógica da defesa de interesses presentes na sociedade local. Nesse sentido, o governo local – Prefeitura e Câmara – é a reprodução dos conflitos políticos do Estado. A Câmara, espaço de reunião dos vereadores, é mais um local onde se verificam correlações de forças sociais com identidades políticas e econômicas heterogêneas.102 Essas correlações atenuam, em parte, as peculiaridades relativas à identificação político-ideológica, em decorrência de alianças e/ou de coligações e/ou coalizões. Ou seja, as correlações de forças políticas acontecem entre grupos de interesses e frações dos próprios grupos. Esse conceito considera a existência de conflitos assim como as distintas opções de combinação.103

Com a Constituição de 1988, o município ganhou uma importância considerável, marcada pela descentralização das políticas públicas e pela possibilidade de cada um criar sua própria Lei Orgânica.104 Com isso, o prefeito, os vereadores e os agentes que atuam no município passaram a ter mais poder de ação e influência.

101

Gramsci faz a distinção metodológica entre a grande política e a pequena política. Para ele, a pequena política é aquela do dia-a-dia, da política parlamentar, de corredor, das questões parciais e cotidianas. A grande política corresponde à fundação de novos Estados, à luta pela manutenção e transformação de determinadas estruturas.

102

Por exemplo, podemos ter correlações de forças com as seguintes combinações, entre outras: situação/oposição, esquerda/direita, prefeitura/sindicato, empresários/trabalhadores.

103

Bem diferente do que pensa o jurista Fábio Lemos no livro O poder do vereador. Assim diz: “[…] que as Câmaras nada mais são que uma organização humana com finalidade programada para a realização de objetivo explícito, que é a PROSPERIDADE PÚBLICA […]”. De forma ingênua, o autor encobre os conflitos existentes na sociedade, que dão eco no plenário da Câmara de Vereadores.

104

LEMOS, Fábio. Poder do vereador. São Paulo: RG, 1997. p. 9.

1. 5 O LEGISLADOR

Em nosso foco de análise cabe perguntar: O que é o vereador? Em sentido mais amplo, o que é ser legislador municipal?

Tomaremos como base a mesma referência até então utilizada, o pensamento de Gramsci, que, por dois anos, foi um parlamentar cujo mandato foi interrompido, quando teve a sua prisão decretada. Para ele, todos somos legisladores, porque todos somos políticos. Mas há uma diferença: o legislador “com significado jurídico-estatal preciso”, ou seja, o “legislador profissional” (vereador, deputado, senador) é aquele “habilitado pelas leis para legislar”. Um outro legislador, em sentido mais amplo, é “[...] todo homem ativo, isto é, que contribui para modificar o ambiente social em que se desenvolve […], isto é, tende a estabelecer ‘normas’, regras de vida e de conduta”.105 Nesse caso, um pai pode ser um legislador. A diferença entre os dois tipos de legisladores consiste no fato de que o primeiro

[…] não só elabora diretrizes que devem se tornar normas de conduta para os outros, mas, ao mesmo tempo, elabora os instrumentos pelos quais as próprias diretrizes serão ‘impostas’, e com as quais será controlada a sua aplicação.106

Segundo a aplicação gramsciana, um legislador nunca pode elaborar uma lei anti-histórica, pois esta não terá efetividade de fato e dificultará o cálculo das conseqüências que poderá assumir, e é sobre essas conseqüências que devemos avaliar um ato legislativo. Por outro lado, nenhum legislador poderá ser visto como indivíduo, porque, na verdade, expressa uma determinada vontade coletiva já socialmente exposta.107

105 GRAMSCI, 2003, v. 3, p. 302. 106 Ibid., p. 302. 107 GRAMSCI, 2003, v. 3, p. 298.

Avaliando essas palavras em termos da realidade legislativa, concordamos quanto ao primeiro aspecto, mas discordamos quanto ao segundo, pois entendemos que o legislador pode ser visto como ente “coletivo”, que responderá, por meio dos projetos de lei e de ações fiscalizadoras, a uma determinada vontade coletiva.

Mas, em primeiro lugar, pelo próprio processo legislativo, é ele, o vereador, que deve tomar a iniciativa da lei. No processo do projeto de lei, o espaço reservado ao interessado deve estar protocolado em nome de um vereador. Em segundo lugar, a maioria dos projetos de lei de iniciativa dos vereadores analisados versa sobre temas de entendimento intrínseco do vereador ou de seus assessores mais próximos.

Poucos são os projetos de lei de área exógena ao entendimento do vereador. O que quer dizer que, na elaboração de um projeto de lei, são poucos aqueles assuntos de debate que recebem contribuições dos movimentos populares ou dos próprios pares do partido que nele militam, ainda que, no caso do PT, os projetos apareçam assinados pela bancada. Em suma, entendemos o legislador, ao mesmo tempo, como sujeito individual e coletivo.

Não podemos esquecer que a história e, também, a política são realizadas por homens; portanto, a sua atividade individual não pode deixar de cobrar sua importância. Também não podemos menosprezar os condicionantes estruturais, como o contexto histórico, político, social e econômico. Os agentes individuais e coletivos agem concomitantemente em vias de mão dupla.

Essa tese já fora levantada desde o início do século passado por Giorgi Plekhânov, em seu texto

O Papel do Indivíduo na História. Na polêmica levantada na época entre os “subjetivistas” e os

“coletivistas”, Plekhânov assim se posiciona:

Assim, pois, os indivíduos, graças a determinadas particularidades de seu caráter, podem influir nos destinos da sociedade. Por vezes a sua influência pode ser considerável, mas tanto a própria possibilidade desta influência como suas proporções são determinadas pela organização da sociedade, pela correlação de forças que nela atuam. O caráter do indivíduo constitui “fator” do

desenvolvimento social, somente onde, exclusivamente na época, e unicamente no grau em que o permitem as relações sociais”.108

Trazendo esse posicionamento para a nossa proposta, entendemos que um projeto do PT não é igual a um projeto do PFL ou do PSDB e vice-versa, porque, como disse Arlete Pereira, quando questionada sobre a possibilidade de o PT apresentar algum projeto através de outro vereador por dificuldade de aprovação: “...as nossas propostas eram muito marcadas pelo PT”.109 Existem idéias que estão no inconsciente coletivo dos militantes do Partido como questões de princípio, sejam elas discutidas ou não, sistematizadas ou não. Esses princípios seguem, evidentemente, os determinantes de uma sociedade em um período histórico.

Porém, mesmo com essa “bagagem” coletiva, os vereadores não conseguem atuar com grande êxito em uma área fora do seu alcance. Exemplificando: um dos princípios petistas é a criação dos Conselhos. Tanto é que, na legislatura de 1989 a 1993, em Vila Velha, foi de iniciativa da bancada petista a criação dos Conselhos do Transporte, da Moradia e dos Direitos Humanos, mas não aconteceu o mesmo com o Conselho da Educação. Uma explicação possível para tal omissão seria que nenhum dos três vereadores do PT pertencia à área educacional.

1. 5.1 Legislador como Intelectual Orgânico

Um dos principais pontos que compõem o pensamento gramsciano, polêmicas à parte, é a idéia de intelectual orgânico,110 que, para Gramsci, não são somente aqueles intelectuais que exercem

108

PLEKHÂNOV, Guiorgui. O papel do indivíduo na história. In: ______. A concepção materialista da história. 5. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1980. p. 97.

109 PEREIRA, Arlete. O papel do vereador na definição de políticas publicas.2006. Entrevista concedida a Douglas

Ferrari, Vitória, 2 dez. 2006.

110 NOSELLA, Paolo. A escola de Gramsci. 3. ed. rev. São Paulo: Cortês, 2004.p. 165

“Orgânico é um adjetivo que qualifica as pessoas pertencentes aos quadros de uma administração ou de uma empresa, responsáveis pelo aspecto organizativo. Como já falamos, é sinônimo de ‘quadro’ em Português, isto é, trata-se do subalterno necessário para o funcionamento de uma administração ou de uma empresa. Orgânico também diz respeito à estrutura interna do ser vivo, animal ou vegetal. Portanto, refere-se a uma função importante, vital e funcional”

uma profissão (literatas, cientistas). Todos são intelectuais orgânicos, desde que possuam uma capacidade técnica específica (por exemplo, o professor primário, o advogado, o padre, o farmacêutico); que sejam o elemento pensante e organizador de uma classe social rumo à construção de sua hegemonia. Portanto, eles devem ser entendidos como “[...] ‘funcionários’ da sociedade civil e articuladores da direção cultural (hegemonia)”.111

Com base nisso, Gramsci entendia que todos os membros de um partido deveriam ser considerados como intelectuais orgânicos, muito pelas funções diretiva e organizativa, educativa e intelectual que exercem, mesmo as mais modestas.112 O vereador é um intelectual orgânico, pois é um representante nato do partido, e tem, por excelência, uma função dirigente, além de ser muito importante no direcionamento das posições partidárias.

Podemos verificar, ao longo desta dissertação, que os vereadores estão na liderança de definição de opiniões, na proposição dos projetos, na relação com os movimentos sociais. Eles são um dos veículos responsáveis por transmitir as posições partidárias para toda a sociedade.

111

NOSELLA, 2004, p. 141.

112

CAPÍTULO 2

POLÍTICAS PÚBLICAS DE CORTE SOCIAL: A EDUCAÇÃO