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1. Kıraâtleri İşleyiş Tarzı

1.3. Kaynağın Zikredilmemesi

MARCIO TADEU GUIMARÃES NUNES, em obra que traz robusta crítica à utilização acriteriosa da desconsideração da personalidade jurídica, chegando, inclusive, a questionar a sua própria manutenção no sistema jurídico pátrio, alerta que:

Sendo assim, o que de fato se vê na aplicação do instituto é uma distorção patológica, a qual não permite que a desconsideração da personalidade jurídica seja realmente aplicada como um mecanismo satisfatório de realização de Justiça, capaz de trazer, a um só tempo, segurança e previsibilidade para as relações sociais162.

De fato, considerando a importância econômica e o valor histórico que a limitação de responsabilidade dos sócios possui em nosso país e em todo o mundo, é mesmo preocupante assistir a aplicação de uma teoria que chega, em muitos casos, a colocar em risco a própria eficácia da limitação de responsabilidade.

Atenta a essa problemática, SUZY ELIZABETH CAVALCANTE KOURY, observou, ainda em uma época em que a desconsideração podia ser considerada uma “novidade” em nosso ordenamento jurídico, em 1990, que havia, ao lado da disregard própria, a disregard imprópria, que seria a aplicação de figuras e institutos jurídicos já existentes, buscando-se o mesmo resultado, e ficando a salvo de “distintas subjetividades, sem desconsiderar-se a personalidade jurídica”163.

Assim, essa chamada disregard imprópria nada mais seria do que a anulação ou a declaração da nulidade de atos fraudulentos ou simulados, sem qualquer desgaste à figura institucional da pessoa jurídica.

Nesse sentido, SUZY KOURY chegou a apontar a necessidade de “separar bem as duas hipóteses, dado que há casos que são plenamente remediáveis pelo recurso às soluções clássicas, especialmente aquelas disponibilizadas pelo Direito Civil, e outros, em que há necessidade de aplicação do Disregard Doctrine”164.

162 Desconstruindo a desconsideração... op. cit. p. 35. 163 A desconsideração da personalidade... op. cit. p. 81. 164 A desconsideração da personalidade... op. cit. p. 82.

Ao indagar, entretanto, se “o fato de a fraude ser realizada por meio da pessoa jurídica faria com que a hipótese deixasse de ser de fraude e passasse a ser de desconsideração”, a autora, apesar de reconhecer, inicialmente, que a resposta deveria ser negativa, concluiu que:

Pode ser possível afirmar que, apesar de, a rigor, não ser hipótese de aplicação da Disregard Doctrine, há necessidade de empregar-se a desconsideração em casos de simulação e fraude à lei, por exemplo, alcançados através do uso do esquema da pessoa jurídica, para que se possa a chegar a situações mais justas165.

Foi exatamente esse raciocínio, a nosso ver, que, posteriormente, veio a servir de justificativa para a aplicação exagerada e sem critérios da desconsideração da personalidade jurídica.

Posteriormente, outros autores, como EDMAR OLIVEIRA ANDRADE FILHO, afirmaram que a “desconsideração da personalidade jurídica pode ser invocada em casos concretos em que qualquer uma delas esteja em questão” 166.

ROLF MADALENO, um dos mais importantes estudiosos da aplicação da desconsideração da personalidade jurídica nas relações familiares, também entende que a teoria da desconsideração pode ser aplicada nas hipóteses de “abuso de direito”, “abuso do poder de controle”, “fraude contra credores”, “fraude à execução”, “simulação” e “fraude por interposta pessoa”167.

Como se percebe, não se trata, exclusivamente, de mera aplicação atécnica ou episódica da teoria da desconsideração em hipóteses em que o

165 A desconsideração da personalidade... op. cit. p. 84.

166 Desconsideração da personalidade jurídica no novo código civil. São Paulo: MP Editora, 2005, p. 94. –

Quando o autor afirma que a desconsideração poderá ser invocada “nos casos concretos em que qualquer uma delas esteja em questão”, ele se refere especificamente as hipóteses de fraude (fraude à lei, fraude contra credores e fraude à execução), simulação, dolo, ou atos ultra vires.

ordenamento jurídico pátrio já dispunha de seculares e eficazes remédios de direito processual e material para se opor aos eventuais danos impostos aos credores das pessoas jurídicas.

Ao contrário, é possível notar que há verdadeira corrente doutrinária, composta por respeitados juristas, que admitem a aplicação da regra do artigo 50 do Código Civil para hipóteses não previstas nos pressupostos delineados pelo legislador e que já eram tuteladas pelo ordenamento.

Segundo a referida corrente, o credor lesado pode optar por um ou por outro caminho (a desconsideração ou a anulação do ato, por exemplo), conforme a sua conveniência. Ou seja, o entendimento seria no sentido de que a “possibilidade de desconsideração existe para facilitar a vida do lesado e não para dar guarida as negaças ou esquivanças do devedor de má-fé”168, ainda que tal caminho, em

último caso, possa levar ao comprometimento da própria limitação de responsabilidade, como já tratado em capítulos anteriores.

JOSÉ ROBERTO DOS SANTOS BEDAQUE, comentando acerca de uma hipótese concreta colocada sob sua análise, ponderou que:

A possível má-fé alegada nos autos decorreria exclusivamente da ciência, por parte do consulente, da existência de processo, cujo polo passivo era ocupado pela alienante dos bens adquiridos por empresas de que ela era sócia. Esse fato, se verdadeiro e desde que demonstrada a insolvência da devedora, tornaria possível tão somente o reconhecimento de fraude à execução. Essa situação jamais daria ensejo à desconsideração da personalidade jurídica, mormente para

atingir o patrimônio de terceiro que, embora sócio das adquirentes dos bens pertencentes à executada, não exercia função de direção169.

Por fim, conclui o autor que é “inexorável a conclusão: a suposta fraude então descrita pelo exequente está regulada pelo disposto no artigo 592, inciso V, do Código de Processo Civil” (fraude à execução).

Assim, pela mesma razão que ensejou o desenvolvimento da figura da pessoa jurídica em si, bem como da limitação de responsabilidade dos sócios, qual seja, o desenvolvimento econômico com a contenção de riscos, faz-se imperiosa a aplicação técnica e ponderada da disregard sob pena de se negar a própria existência da limitação de responsabilidade170, como já ocorre, por exemplo, nas

relações consumeristas.

169 Sucessão de empresas e desconsideração da personalidade jurídica, in Processo Societário, YARSHELL,

Flávio Luiz, PEREIRA, Guilherme Setogui. J (coords.), São Paulo: Quartier Latin, 2012, p, 449 e 453. 170 ÁLVARO VILLAÇA DE AZEVEDO afirma que “Não se pode ampliar o instituto da desconsideração da

personalidade jurídica, que por sua natureza é excepcional. Proteger as pessoas físicas que compõem a jurídica significa – a médio e longo prazo – tutelar toda a coletividade a quem interessa assistir a criação e o desenvolvimento de novas pessoas jurídicas, aumentando o capital com lastro na sociedade, a arrecadação de tributos, a concorrência e as vagas de empregos oferecidas. Pretender a desconsideração em qualquer hipótese (como pretendia o § 5º do art. 28) significa obstaculizar todos esses saudáveis efeitos”. (Código Civil Comentado, v. I, coord. Álvaro Villaça Azevedo, São Paulo: Atlas, 2007, p. 134).