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Há uma distinção fundamental no campo das escolhas alimentares entre o querer e o dever. Existe uma inclinação natural para buscar alimentos e saciar a fome, bem como para buscar prazer e bem-estar imediatos com os alimentos ingeridos, mas nisso não pode haver nenhum imperativo moral que ordene a vontade como um mandamento da razão. Na verdade, se já temos forte e íntima inclinação para a felicidade, algo que se quer por si mesmo, inevitavelmente, seria tolice um mandamento que ordenasse a todos buscá-la.616

Por outro lado, como apresentada, nossa experiência alimentar atual é altamente reprovável, mesmo do ponto de vista pragmático; dominados por apetites e inclinações na hora de escolher o que comer, podemos afirmar que não há determinação moral nas nossas escolhas, nem mesmo por razões utilitaristas, se considerarmos as consequências negativas a longo prazo dos nossos atuais hábitos alimentares.

Esta situação exige de nós, Nutricionistas, uma atitude crítica para estabelecer os limites

615 Antr., 144, p. 43. 616 FMC, BA 12, p. 13.

da sensibilidade e da razão no campo das escolhas alimentares. Tal atitude é fundamental se se quer defender e promover a escolha da alimentação saudável, visto que não se pode, ao mesmo tempo, afirmar uma total incompatibilidade entre as inclinações e o dever quanto àquela escolha, sobretudo porque no caso da alimentação, a ausência de contentamento levaria facilmente à transgressão.617 Assim sendo, tendo em vista a perspectiva pedagógica que adoto na seção seguinte, trato aqui dos tipos de imperativos (não morais) que também podem determinar a alimentação saudável como necessária.

O que Kant chama de imperativo é a fórmula de um mandamento da razão, que nada mais é do que a representação de um princípio objetivo que obriga a vontade, por isso, os imperativos se exprimem com o verbo dever.618 Na conhecida categorização dos imperativos, descrita na segunda seção da FMC, temos dois tipos de imperativos que se exprimem pelo verbo dever (sollen), segundo o modo de ordenar e o tipo de obrigação imposta: são categóricos os imperativos que ordenam a ação como objetivamente necessária por si mesma, sem relação com qualquer outra finalidade; e hipotéticos, os que ordenam a ação como meio em vista de qualquer outra coisa (possível ou real) que é desejada.619 Em ambos os casos, a ação determinada pelo imperativo é boa, o que se distingue é se é boa em si mesma, ou apenas como meio. Trato aqui do último caso, onde mais facilmente podemos situar as escolhas alimentares, tendo em vista a relação direta entre alimento-saúde-bem-estar que faz da escolha pela alimentação saudável um meio de obter saúde e bem-estar.

Os imperativos hipotéticos dizem que a ação é boa em vista de uma intenção que pode ser apenas possível ou real, e se distinguem em dois tipos: de destreza ou pragmáticos. São chamados imperativos de destreza ou habilidade aqueles que representam a ação como meio necessário para atingir qualquer intenção possível, mas, por isso mesmo, tornam-se problemáticos, pois serão infinitamente numerosos os princípios da ação para alcançar qualquer fim apenas possível – esse é o caso de todas as artes ou técnicas que tem uma parte prática que pode ser expressa como regras de destreza. Por exemplo, com a técnica dietética, disciplina cujo conhecimento aborda as modificações que sofrem os alimentos durante os processos

617 FMC, BA 12, p. 29.

618 FMC, B37, p. 51. Segundo o estudo de Rohden (2012, op. cit., p. 29) sobre a relação entre a ética de Cícero no

De officiis (em que a lei moral aparece como fórmula) e o imperativo categórico de Kant (apresentado por meio

de fórmulas), é nessa passagem da Fundamentação que houve, pela primeira vez, o deslocamento do termo

imperativo, de um contexto gramatical para um contexto prático.

619 Sobre a relação entre dever e obrigação, é importante ver os Conceitos preliminares da Metafísica dos

Costumes: enquanto a obrigação é a “necessidade de uma ação livre sob o imperativo categórico da razão”, o dever

é a “ação a que cada um é obrigado”, tratando-se, portanto, da matéria da obrigação (MC, 2013, 222, p. 28-9), por

culinários e de preparação para o consumo, podemos estabelecer regras de manipulação de alimentos, segundo qualquer intenção desejada. Imperativos deste tipo não poderiam ser morais, dado que se fundamentam em princípios empíricos, relacionados àquilo que, na Antropologia, Kant chamou de “disposição técnica” do homem em relação ao alimento.620

É evidente que existe uma disposição técnica alimentar, desenvolvida pelo homem a partir do emprego da razão, algo que o distingue dos outros animais, bem como é inegável seu avanço, e não se trata de um traço instintivo, visto que estas técnicas variam segundo a cultura, porém, o fato de sermos animais racionais, aptos ao emprego da razão com o qual adquirimos capacidade técnica ou habilidade,621 ainda não nos torna morais. Faço uma observação importante sobre este domínio da razão instrumental que se instalou na área da alimentação, durante o processo civilizatório iniciado com a separação entre homem e natureza, na produção de alimentos, seja agrícola, seja industrial, porque isso produziu profundas alterações nos nossos hábitos alimentares, com consequências negativas para a vida e a saúde. Se na agricultura são produzidos alimentos com venenos, cujos efeitos nocivos, em geral, só a longo prazo são percebidos, na indústria, os produtos alimentícios são conhecidos por estimularem fortemente as sensações, na medida em que são coloridos e aromatizados artificialmente, acrescidos de uma gama de substâncias químicas classificadas como “aditivos alimentares” que tem por finalidade, dentre outras coisas, realçar a cor, o aroma, a textura e o sabor, como forma de estimular o consumo. Diante disso, considerando que hoje a técnica consegue até mesmo produzir uma nova natureza, alerto para a necessidade de reflexões éticas sobre a utilização da técnica dietética (e da engenharia de alimentos) no estabelecimento de regras de ação, afinal, as disposições não devem ser analisadas separadamente, assim como os imperativos quando aplicados às escolhas alimentares.

No caso dos imperativos hipotéticos, que representam a necessidade prática de uma ação como meio para se alcançar um fim dado como real e certo a priori para todos, como é o caso do bem-estar e da felicidade própria, diz-se que são imperativos assertórico-práticos ou pragmáticos. Pode-se dizer que a destreza na escolha dos melhores meios tendo em vista a felicidade ou o bem-estar como fim universal constitui a prudência, contudo, tendo em vista que é impossível ter uma ideia exata do que seja a felicidade, estes imperativos mais podem ser considerados conselhos de prudência, no sentido mais restrito, e não mandamentos (leis) propriamente ditos, visto que não podem representar ações de maneira objetiva – neste sentido,

620 Antr., 322, p. 216. 621 Antr., 323, p. 218.

remeto à distinção que Kant faz entre lei e recomendação.622

Sabemos que é possível produzir alimentos saudáveis a partir das técnicas adequadas da dietética e da gastronomia, o que pode levar alguém a mudar seus hábitos tendo em vista os benefícios desta boa alimentação. A pessoa procura orientação de um profissional para saber que regras seguir para alcançar aqueles fins, como saúde e longevidade. Esta pessoa tem uma inclinação imediata para cumprir à risca as prescrições do profissional, dado o seu interesse no fim a ser alcançado. Na verdade, muitas pessoas cuidam da sua alimentação porque reconhecem nela um fator importante para a prevenção de doenças, por exemplo, e para a manutenção da saúde, o que está associado a um bem necessário à felicidade.

Ocorre que o valor moral623 de uma ação não está no efeito que dela se espera, por melhor e desejado que seja tal efeito, como é o caso da saúde, então, também aqui não podemos falar em escolhas morais, já que o cuidado com a alimentação está sendo determinado por inclinações e interesses pessoais. Embora não possam ser consideradas moralmente corretas, tais escolhas são, contudo, tecnicamente corretas, isto é, a razão aqui fornece leis pragmáticas, e são, por isso, escolhas desejadas (e incentivadas) do ponto de vista das políticas de saúde e de segurança alimentar. Estamos diante de um caso típico de uma ação realizada conforme ao dever – contido nas prescrições dietéticas – combinada com uma inclinação imediata, portanto, que não poderia ser caracterizada como ação moral, apesar de ser difícil distinguir, uma vez que a busca pela saúde pode ser um dever de virtude indireto, se o que se quer como fim é a moralidade, conforme exposto no início deste capítulo.

Assim, dieta e moderação visando ao bem-estar e à felicidade própria caracterizam uma disposição alimentar no sentido pragmático, para continuar com a classificação da Antropologia,624 mas não se trata de um imperativo moral. A felicidade não pode constituir uma finalidade para a qual uma regra universal possa ser dada, ou seja, nem mesmo quando hábitos alimentares saudáveis são livremente escolhidos podemos falar em virtude, porque esta caracteriza-se pela força da vontade, não é uma mera propriedade do arbítrio. Por outro lado, precisamos reconhecer que uma dificuldade para distinguir as ações por dever em relação às escolhas alimentares é o fato de que os alimentos podem afetar nossas inclinações. Kant

622 A lei se diferencia da recomendação exatamente porque nesta só se exige conhecer os meios mais adequados para o fim, ao passo que aquela elimina o arbitrário das ações, por estar fundamentada no conceito de fim que é dever (MC, 2013, 389, p. 201).

623 Kant reconhece a impossibilidade de se conhecer completamente este valor, na medida em que depende de princípios íntimos – os móbiles secretos – mas sua preocupação não é saber se ações morais acontecem, mas de que modo elas devem acontecer (FMC, BA 26-28, p. 42-43; BA 48, p. 59).

reconhece essa dificuldade em distinguir se ações para as quais temos inclinação imediata – como é o caso do instinto para o alimento – foram realizadas por dever ou conforme ao dever.625

As condições para o exercício do nosso livre arbítrio, inclusive no que se refere à alimentação, são empíricas, pois, somente pela experiência, posso saber quais inclinações querem ser satisfeitas e quais são as causas naturais que podem operar nessa satisfação. Além do mais, todos os fins dados por estas inclinações, unificados em um fim único, constitui a felicidade, cuja doutrina da prudência só pode fornecer leis pragmáticas. No entanto, não podemos querer, no caso do dever para com a alimentação saudável, afastar completamente os fins sensíveis, dado que isto tornaria impossível o consumo do alimento e, portanto, a própria realização do direito à alimentação, o que leva à necessidade de unir a felicidade com a virtude no campo das escolhas alimentares. Kant não considera isso impossível nem indesejável, como mostro a seguir.

Já no final da primeira crítica, Kant admitia a existência de “leis morais puras que determinam completamente a priori o fazer e o não fazer”,626 isto é, que comandam absolutamente, e assim, na medida em que com isso se podem produzir ações livres, estes princípios da razão pura adquirem uma realidade objetiva em seu uso prático. Vimos que são pragmáticas as leis práticas que tem por motivo a felicidade; como regras de prudência, elas aconselham o que se deve fazer se queremos participar na felicidade.627 Contudo, não devemos pensar que da busca pela felicidade possa resultar a moralidade:

Por muitas que sejam as razões naturais que me impelem a querer e por mais numerosos que sejam os móbiles sensíveis, não poderiam produzir o dever, mas apenas um querer que, longe de ser necessário, é sempre condicionado, ao passo que o dever, que a razão proclama, impõe uma medida e um fim, e até mesmo uma proibição e uma autoridade.628

As leis morais determinam o uso da liberdade, abstraindo de toda inclinação e dos meios naturais de satisfazê-las, isto é, comandam, não de modo empiricamente condicionado, mas de modo absoluto.629 Enquanto nas leis pragmáticas o motivo era a felicidade, nas leis morais o móbil é o merecimento de ser feliz, ou seja, elas nos indicam “como devemos nos comportar para unicamente nos tornarmos dignos da felicidade”.630 Neste último caso, a felicidade viria

625 FMC, BA 9, p. 27. 626 CRP, B 835. 627 CRP, B 834.

628 CRP, B 576, grifos do autor.

629 CRP, B 835. Trata-se aqui do uso prático da razão pura. 630 CRP, B 834.

como recompensa da moralidade e não como motivo.

Podemos estabelecer aqui um paralelo entre a ordem da natureza e a ordem moral, a partir da distinção feita por Kant entre dois tipos de prazer: “É patológico o prazer que precisa preceder a observância da lei para que, assim, se aja em conformidade a esta – tal conduta segue a ordem da natureza. Porém, o prazer que tem de ser precedido pela lei para que seja sentido reside, por sua vez, na ordem moral.”631

Seguir a ordem da natureza no campo alimentar equivaleria a deixar-se levar apenas pelo prazer provocado pelas inclinações e buscar aqueles alimentos que proporcionariam maior satisfação. O chocolate, por exemplo, por favorecer a produção de serotonina, responsável pela sensação de prazer e bem-estar, é motivo para a escolha deste alimento por muitas pessoas. Neste caso, seria mesmo possível a ordem moral, de modo que se pudesse unir a virtude com a felicidade na escolha de uma alimentação saudável?

Para responder a essa questão, a partir de Kant, em primeiro lugar, apesar do que ele afirma sobre a felicidade, é importante ter em mente que ele não desdenha da sua existência, nem a exclui de uma relação com a moralidade; ele é claro ao propor como princípio de determinação da vontade, ao invés do princípio da eudemonia, o princípio da eleuteronomia, princípio da liberdade de legislação interior,632 mas de modo algum isso significa que a felicidade está ausente de uma vida moral.

É neste sentido que proponho adotar uma perspectiva pedagógica, para a educação nutricional que comece propondo o dever quanto à alimentação saudável a partir dos imperativos hipotéticos, como preparação (ascética ética) para uma “virtude alimentar”, considerando que, “para colocar pela primeira vez nos trilhos do moralmente bom um ânimo inculto ou mesmo degradado, precisa-se de algumas instruções preparatórias para atraí-lo por seu próprio proveito ou atemoriza-lo pelo dano”.633 Entre um caminho e outro, o importante é reconhecermos que a trilha da felicidade pode até ser necessária, mas jamais será suficiente para levar à alma o motivo moral puro, pois esta pedagogia deverá ensinar o homem a sentir a sua própria dignidade.

631 MC, 2013, 378, p. 188, grifos do autor. 632 MC, 2013, 378, p. 188.

4.3 Dilemas morais na prática do Nutricionista: o papel da educação na formação para a