• Sonuç bulunamadı

Kavramsal Çerçeve

THE EFFECT OF HOSPITAL EMPLOYEES’ PERCEPTIONS OF TOXIC LEADERSHIP AND ORGANIZATIONAL CYNICISM ON

1.1. Kavramsal Çerçeve

Apesar de estar espalhado pelo país com grande diversidade, o segmento da agricultura familiar apresenta características próprias, vez que a produção agrícola está condicionada às necessidades do grupo familiar, à pequena propriedade, à força de trabalho familiar ou comunitário, entre outras peculiaridades. Equivocadamente, o segmento acaba sendo confundido com a pequena produção, mas são coisas distintas, cabendo observar que a agricultura familiar não possui perfil homogêneo e não se encontra distribuída igualmente pelo país. Neste universo, encontram-se tanto os agricultores economicamente integrados (a redes de distribuição, a agroindústrias, ao setor exportador), e que tiveram acesso a novos padrões tecnológicos, quanto aqueles com baixo nível de integração que produzem para o autoconsumo (CORRÊA; SILVA, 2007, p. 49). Por tais características, os agricultores familiares devem receber do Estado incentivos especiais, de modo a inseri-los na produção agrícola, gerando renda além da mera subsistência, assegurando-lhes preço e mercado consumidor.

A complexidade do universo agrário brasileiro aprofunda o desafio quanto à definição de quem sejam os agricultores familiares. Os diversos tipos de paisagens agrárias, assim como dos tipos de produtores, dificultam a delimitação daqueles que podem ser caracterizados como representantes da mão de obra familiar. Os vários tipos de produtores possuem racionalidades e estratégias de produção e de sobrevivência que se distinguem entre si, comportando-se de maneira diversa quando submetidos às mesmas privações. Extrair o conceito do que seja a agricultura familiar apreciando apenas os aspectos econômicos é, todavia, um equívoco, considerando que esse tipo de análise deixa de lado os inúmeros outros feitios que podem melhor caracterizar esse segmento econômico. Para o Instituto de Colonização e Reforma Agrária (INCRA) e a Food and Agriculture Organitation (FAO), as tipologias de produtores levam em conta múltiplos critérios, metodologias e variáveis que podem ser utilizados para tal fim.

Nenhuma delas é inteiramente satisfatória, em parte porque o comportamento e a racionalidade dos vários tipos de produtores respondem a um conjunto amplo e complexo de variáveis com peso e significado diversos de acordo com o contexto, e em parte devido às dificuldades de aplicação empírica de tipologias conceituais que levam em conta um número grande de variáveis (FAO/INCRA, 2000, p. 17). Desde a década de 1990, ações governamentais positivas são direcionadas para melhor estruturação da agricultura familiar. Todavia, foi somente em 25 de julho de 2006, por intermédio da Lei nº 11.326, que o setor pôde contar com sua regulamentação própria. Esta norma estabelece as diretrizes para a formulação da Política Nacional da Agricultura Familiar e Empreendimentos Familiares Rurais disciplinando os conceitos, princípios e instrumentos destinados à formulação das políticas públicas direcionadas ao segmento, e assim a lei aproxima a agricultura familiar da política agrícola prevista na Constituição Federal.

O dispositivo foi batizado de “Lei da Agricultura Familiar” e seu artigo 3º define agricultor familiar e empreendedor familiar rural como aquele que pratica atividades no meio rural, atendendo, simultaneamente, aos seguintes requisitos:

I - não detenha, a qualquer título, área maior do que 4 (quatro) módulos fiscais; II - utilize predominantemente mão de obra da própria família nas atividades econômicas do seu estabelecimento ou empreendimento;

III - tenha percentual mínimo da renda familiar originada de atividades econômicas do seu estabelecimento ou empreendimento, na forma definida pelo Poder Executivo;

O parágrafo 2º desse artigo 3º considera, também, como beneficiários da Lei da Agricultura Familiar os seguintes produtores:

I - silvicultores que atendam simultaneamente a todos os requisitos de que trata o caput deste artigo, cultivem florestas nativas ou exóticas e que promovam o manejo sustentável daqueles ambientes;

II - aquicultores que atendam simultaneamente a todos os requisitos de que trata o caput deste artigo e explorem reservatórios hídricos com superfície total de até 2ha (dois hectares) ou ocupem até 500m³ (quinhentos metros cúbicos) de água, quando a exploração se efetivar em tanques-rede;

III - extrativistas que atendam simultaneamente aos requisitos previstos nos incisos II, III e IV do caput deste artigo e exerçam essa atividade artesanalmente no meio rural, excluídos os garimpeiros e faiscadores;

IV - pescadores que atendam simultaneamente aos requisitos previstos nos incisos I, II, III e IV do caput deste artigo e exerçam a atividade pesqueira artesanalmente. V - povos indígenas que atendam simultaneamente aos requisitos previstos nos incisos II, III e IV do caput do art. 3º;

VI - integrantes de comunidades remanescentes de quilombos rurais e demais povos e comunidades tradicionais que atendam simultaneamente aos incisos II, III e IV do caput do art. 3º.

Quando da concessão de crédito para esses produtores, o Conselho Monetário Nacional poderá estipular outros requisitos para enquadramento nas diversas linhas de crédito, mas as características acima elencadas são atualmente utilizadas para designar agricultores familiares e diferenciá-los dos demais produtores, conforme a Lei nº 11.326/2006.

A Lei prescreve também os princípios da política para o segmento, quais sejam a descentralização; a sustentabilidade ambiental, social e econômica; a equidade na aplicação das políticas, respeitando os aspectos de gênero, geração e etnia; a participação dos agricultores familiares na formulação e implementação da política nacional da agricultura familiar e empreendimentos familiares rurais. Para atingir esses objetivos, a Política Nacional promoverá o planejamento e a execução das ações, de forma a compatibilizar as seguintes áreas: crédito e fundo de aval; infraestrutura e serviços; assistência técnica e extensão rural; pesquisa; comercialização; seguro; habitação; legislação sanitária, previdenciária, comercial e tributária; cooperativismo e associativismo; educação, capacitação e profissionalização; negócios e serviços rurais não agrícolas; agroindustrialização (artigos 4º e 5º, da Lei nº 11.326/2006).

Cabe ressaltar que grande parte das ações citadas necessitará de regulamentação por parte do Poder Executivo, a quem pertence a responsabilidade de implementar a Política Nacional, por meio do Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA), em conjunto com várias entidades parceiras, tais como bancos, entidades de assistência técnica, secretarias de agricultura estaduais e municipais, sindicatos rurais, entre outros. Por força da legislação, a

agricultura familiar passa a ser um conjunto plural formado pela pequena e média propriedade, assentamentos de reforma agrária e as comunidades tradicionais (extrativistas, pescadores, quilombolas etc.). Para se conhecer melhor esse complexo público de produtores, o Censo Agropecuário do IBGE teve que também se adequar e criar os parâmetros apropriados para mensurar o tipo de produção e o perfil da agricultura familiar brasileira.

Até a publicação da Lei da Agricultura Familiar, os dados disponíveis para caracterização dos agricultores familiares e suas relações sociais de produção eram obtidos do Censo Agropecuário de 1995/1996. Apesar da riqueza de detalhes do formulário para coleta de dados aplicado à época, não havia previamente àquele Censo a delimitação do universo familiar rural, forçando os estudiosos a extraírem as estatísticas da agricultura familiar daquilo que o IBGE caracterizava como “pequena produção”. Posto que sem dados específicos para a agricultura familiar, as informações do Censo de 1995/1996 foram fundamentais para principiar iniciativas mais estruturadas de apoio ao segmento já na década de 1990.

Posteriormente, o estudo realizado por uma equipe de pesquisadores vinculados ao Instituto de Colonização e Reforma Agrária (INCRA) e a Food and Agriculture Organitation (FAO) detalhou ainda mais esse universo. O estudo, publicado no ano de 2000, deu origem ao documento “Novo Retrato da Agricultura Familiar: o Brasil redescoberto” que traz uma série de elementos essenciais para a designação da agricultura familiar brasileira (FAO/INCRA, 2000, p. 14). À época, pela ausência de legislação específica, o estudo demarcou o universo familiar com critérios mais amplos do que os delimitados atualmente pela Lei nº 11.326/2006. O estudo FAO/INCRA considerou como familiares empreendimentos rurais com área e renda superiores ao que atualmente a Lei designa. Todavia, ainda assim a pesquisa teve sua importância para que no período a agricultura familiar fosse mais bem prestigiada pelo poder público e fossem criadas as políticas necessárias para a sua melhor estruturação.

No Censo Agropecuário seguinte, ocorrido no ano de 2006, o IBGE passou a aplicar os critérios adotados pela Lei nº 11.326/2006 na coleta dos dados da agricultura familiar. Pela primeira vez, o IBGE teve condições de divulgar informações sobre a atividade econômica realizada pela agricultura familiar e empreendimentos familiares rurais do país, assim considerados os que atendem simultaneamente aos seguintes critérios: a área do estabelecimento ou empreendimento rural não excede quatro módulos fiscais4; a mão de obra

4 Módulo fiscal é uma unidade de medida agrária expressa em hectares, instituída no Brasil pela Lei nº 6.746, de 10 de dezembro de 1979. O módulo fiscal corresponde à área mínima necessária a uma propriedade rural para que sua exploração seja economicamente viável. A designação da área do módulo fiscal de cada Município é atribuição do Instituto de Colonização e Reforma Agrária (INCRA).

utilizada nas atividades econômicas desenvolvidas é predominantemente da própria família; a renda familiar é predominantemente originada dessas atividades; e o estabelecimento ou empreendimento é dirigido pela família.

O trabalho do IBGE em 2006, somado à atuação do Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA), delimitou conceitualmente o segmento produtivo e trouxe as primeiras estatísticas oficiais, divulgadas no conjunto de tabelas sintetizadas no documento conhecido como “Caderno da Agricultura Familiar”. A pesquisa permitiu conhecer quantos são, onde estão e o que produzem os agricultores familiares brasileiros, atendendo a importante demanda por informações quantitativas, já que até aquele momento tudo que se tinham eram dados históricos, não perfeitamente delimitados para o segmento. O acesso a dados mais detalhados permitiu que aspectos produtivos e qualitativos fossem analisados para melhor direcionar as iniciativas dos gestores de políticas públicas (FRANÇA et al., 2012, p.11).

O período compreendido entre os dois Censos Agropecuários (1995/1996 e 2006) abrangeu grandes transformações na economia brasileira. Trata-se do declínio do Estado Social e da implementação das iniciativas neoliberais, com estabilização da moeda, privatização de empresas estatais, liberação comercial e financeira, e estabelecimento da União Aduaneira no âmbito do Mercosul, entre outras medidas. Nesse período, mesmo com o crescimento das exportações, de 70 a 75% da produção agropecuária do Brasil destinaram-se ao mercado interno. Nos mesmos anos, a população brasileira passou de 154 milhões para 187 milhões de habitantes, porém, a população rural teve redução significativa em termos relativos, passando de 20,5% do total nacional em 1996 para 16,7% em 2006, embora em termos absolutos tenha se mantido estável: 31,6 milhões em 1996 e 31,3 milhões em 2006. Os agentes ocupados nos estabelecimentos agropecuários também diminuíram de 17,9 milhões de pessoas para 16,6 milhões, redução de 7,2%. Com isso, a participação da agropecuária no total de empregos gerados caiu de 26,1% em 1995 para 18,9% em 2006, ano em o Censo apontou que havia 12,3 milhões de pessoas ocupadas na agricultura familiar, tendo 90% destas algum laço de parentesco com o produtor, revelando que a união de esforços em trono do empreendimento comum é característica marcante da agricultura familiar. Dos 11 milhões de pessoas ocupadas na agricultura familiar e que possuíam algum parentesco com o produtor, 81% residiam no próprio estabelecimento, enquanto que os demais se ocupavam no estabelecimento, mas residiam fora deste, em vilas ou centros urbanos próximos (FRANÇA et al., 2012, p. 14, 32). Mostrando que a população rural não tem crescido no mesmo ritmo das

cidades, que a mecanização cada vez mais toma o lugar da força de trabalho humana e que a sucessão dos empreendedores do meio rural é mais rara a cada década.

A despeito do esvaziamento demográfico nas zonas rurais, a agricultura familiar tem contribuição positiva na produção de alimentos agrícolas que fazem parte da base do consumo no Brasil: 87% da mandioca, 70% do feijão, 46% do milho, 34% do arroz e 38% do café. Além de ter também significativa participação na pecuária: 58% do leite, 50% das aves, 59% dos suínos e 30% dos bovinos. Os Censos Agropecuários de 1995/1996 e 2006 revelaram que naqueles anos a participação dos produtos agroalimentares5 no total das exportações brasileiras manteve-se estável, passando de 28,7% em 1995 para 26,8% em 2006. Já as importações destes produtos caíram de 12,5% do total importado em 1995 para 4,9% em 2006. Levando-se em conta que a produção da agricultura familiar é direcionada essencialmente para o suprimento do mercado interno, percebe-se, por esses dados, que o segmento teve seu destaque no saldo positivo da balança comercial, pois ainda que sua produção não seja exportada, a desnecessidade de importações contribuiu para a elevação do superávit (FRANÇA et al., 2012, p. 15 e 26). Resta claro a importância da agricultura familiar para a geração de riquezas e a produção de alimentos no Brasil.

Nos dados levantados pelo Censo Agropecuário de 2006 foram identificados 4.367.902 estabelecimentos rurais de mão de obra familiar, o que representa 84,4% de todos os estabelecimentos rurais do Brasil. Apesar do grande número de estabelecimentos, a agricultura familiar ocupa apenas 24,3% da área produtiva das zonas rurais, concluindo-se que o minifúndio e a pequena propriedade ainda são características marcantes desse tipo de produção. Os empreendimentos rurais não familiares, apesar de ocuparem 75,7% da área, representam apenas 15,6% do total de estabelecimentos. O Censo revelou que a área média dos estabelecimentos familiares é de 18,37 hectares, enquanto que a dos não familiares é de 309,18 hectares. A Região Nordeste contém cerca de metade do número de estabelecimentos de agricultura familiar do Brasil (2.187.295), mas representa apenas 35,3% da área no Brasil, ou seja, o problema do minifúndio é ainda mais grave no Nordeste, onde esses estabelecimentos representam 89% do total de unidades produtivas, mas apenas 37% da área rural da Região. A Região Sul é a segunda com maior número de estabelecimentos rurais familiares (849.997), que representam cerca de 84% dos estabelecimentos rurais sulistas,

5 Produtos agroalimentares são produtos agropecuários de origem animal ou vegetal, cujo fim seja a alimentação

humana. A lista é estipulada pelo Sistema Harmonizado de Designação e Codificação de Mercadorias (SH) utilizado pela Secretaria Geral da Associação Latino Americana de Integração (ALADI) e utilizada pelo Brasil nas relações com o Mercosul e com os demais países da América Latina.

abarcando 37% da área na Região e 16,3% no Brasil. Em seguida vem o Sudeste, com 699.978 estabelecimentos, ou 16% do total no Brasil, que ocupam 15,9% da área rural do país, totalizando 24% da área e 76% do número de estabelecimentos rurais da Região (FRANÇA et al., 2012, p. 20).

Apesar de a Região Nordeste possuir o maior o número de estabelecimentos, ela alcança apenas 26% do Valor Bruto da Produção6, contra 41% da Região Sul. Isso se deve ao fato de que na Região Sul é admissível realizar até três safras anuais em condições normais de clima, o que é impossível no Nordeste em razão do déficit hídrico e da irregularidade das chuvas, vez que grande parte dos estabelecimentos rurais familiares encontrados na Região semiárida. No Sul, há também um maior poder de organização dos produtores, o que facilita o acesso à informação e o fortalecimento das cadeias produtivas (SÁ, 2009, p. 7).

Da análise desses dados percebe-se que a agricultura familiar é um segmento relevante para a área rural brasileira e que, a despeito da má distribuição de terras e da falta de infraestrutura no campo, os agricultores familiares têm relevante participação na produção de alimentos do país. É, portanto, necessária e urgente a implementação de políticas públicas que garantam o fortalecimento desse segmento, promovendo-lhes o acesso a insumos e tecnologias apropriadas ao perfil produtivo do agricultor familiar, assim como a proteção de abusos do mercado em concorrência com os grandes empresários rurais.