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Nas seções anteriores falamos sobre o isolamento dos adolescentes em relação a suas famílias, bem como da desestruturação familiar como características gerais da representação familiar nos teen dramas. Uma terceira característica marcante nos seriados analisados é a importância do apoio e da aceitação entre pais e filhos. Esta é a característica mais valorizada em termos familiares nestes programas. Conforme mencionado no início deste capítulo, é comum a quase todas as séries que uma unidade familiar seja tomada como modelo ou exemplo no núcleo narrativo central. Em geral, é a família da protagonista, e também é nesta família que o apoio é mais valorizado. Convém aqui diferenciar apoio de orientação, embora muitos personagens precisem lutar para conquistar o primeiro, o segundo é ainda mais difícil de ser encontrado em tais séries.

No entanto, os teen dramas possuem alguns casos excepcionais de pais que realmente se mostram “úteis” frente os problemas de seus filhos. Em Glee, o pai de Kurt, Burt Hummel é uma exceção em relação à distância que os pais têm dos jovens na trama. Ele é a figura parental mais presente na narrativa, além de constantemente interceder por seu filho e ajudá-lo a resolver seus problemas. Burt é um mecânico, viúvo e aparentemente simples, mas que mostra seu amor apoiando incondicionalmente o garoto quando este revela ser homossexual. Sempre que pode, ele defende Kurt (personagem mais inerentemente vulnerável do grupo) contra os preconceitos, busca acompanhar os interesses do garoto, mesmo que sejam diferentes dos seus, e tenta guiar o filho – não deixando de apontar seus erros, mesmo em assuntos que o deixam desconfortáveis, como sexo. Em suma, Burt é o exemplo de como um pai deve ser, na perspectiva do seriado, e talvez este seja o motivo pelo qual ele é o único a ter maior relevância na trama255.

Os Walsh, em BH90210, buscam guiar seus filhos gêmeos nas dificuldades da transição entre infância e maturidade e na complicada vida social de Beverly Hills. Além disso, também recorrentemente exercem a função de orientarem os amigos dos filhos, cujos pais não estão presentes para fazê-lo. O mesmo acontece em DC, apesar dos problemas e da imaturidade que seus pais muitas vezes demonstram, Dawson frequentemente aconselha-se com eles. Grams também é constantemente lembrada como avó de todo o grupo e até os pais de Dawson recorrem a ela para aconselharem-se.

255 Burt se casa com a mãe de Finn, Carole Hudson, também viúva, e formam um lar aberto e reconfortante

Obviamente estes não são os únicos personagens capazes de socorrerem seus filhos em seus dilemas e confusões. Outros personagens contam ocasionalmente com a orientação parental, porém, isto é uma exceção no gênero. Tal caracterização mostra uma ideia da “solidão” durante a adolescência. Não importam quais sejam os problemas – vampiros ou desastres amorosos – crescer é uma tarefa pessoal ou, no mínimo, cindida do mundo adulto.

Ainda que, de forma geral, o amadurecimento se dê mais frequentemente sem a ajuda explícita dos pais, muito mais relevante nas séries do que tal orientação é o apoio dos pais. Em Glee, a maior preocupação dos adolescentes em relação à família é a aceitação ou a desaprovação dos pais – e eles se mostram presentes para dar a aprovação quando chamados para isso. Carole é compreensiva com Finn quando descobre que Quinn está grávida (supostamente dele). A mãe de Mike incentiva-o a persistir na dança apesar da objeção do pai. Em PLL, o pai de Emily é retratado com a figura paterna mais positiva entre os protagonistas (ainda que esteja quase sempre ausente mesmo em situações extremadas256), especialmente por ter apoiado e defendido a garota quando esta revela

sua homossexualidade.

É ainda mais comum as histórias de redenção materna e paterna, em que os pais são levados a rever suas expectativas e valores por causa dos filhos, desculpando-se pela incompreensão inicial. Em DC, a relação entre Jen e a avó é um dos mais relevantes retratos familiares. Grams é no princípio uma personagem pouco amável. Ela julga a neta por sua conduta passada e não respeita sua maneira de ser, assim como mostra valores relativamente conservadores em relação aos amigos da neta257. Conforme Jen vai ficando

mais e mais rebelde durante a 2ª temporada, fica explícito que o problema entre as duas não é unilateral, mas uma falta de compreensão mútua – questão que cobrimos no primeiro ponto deste capítulo. Grams não consegue compreender os problemas da neta e a garota rejeita e desdenha dos valores da avó. Tal situação se intensifica até que Grams manda Jen embora de casa. Alguns episódios depois, as duas fazem as pazes e inauguram uma nova fase do relacionamento, admitindo que ambas precisam de mudanças. É quando

256 Um exemplo é quando Emily é resgatada após ter sido raptada por –A. Wayne explica para a menina

por telefone que não pode se ausentar de seu trabalho no exército.

257 Bastante religiosa, o principal atrito entre as duas é o ateísmo de Jen, que Grams não consegue aceitar.

Ainda assim, ela fica do lado de Jen quando esta recrimina um amigo por usar a Bíblia como motivo para descriminar Jack a respeito de sua homossexualidade, demonstrando que seus valores não são tão rígidos quanto a garota pensava e que, antes de tudo, ela tem compaixão pelos outros.

Jen finalmente endereça os reais problemas entre as duas e pede à avó mais compreensão e menos julgamento, e assim a garota termina aceitando a importância da família.

JEN: O que preciso que você entenda, Grams, é que eu não preciso de um guardião legal para sobreviver, e posso lidar com muito mais do que você imagina. Mas o que eu quero é viver aqui com você. Eu quero uma família. Quero que cuidemos uma da outra e não quero mais ficar só258.

Embora as duas ainda passem por alguns atritos, esta relação de fato muda, com ambas sendo tolerantes uma com a outra e mostrando apoio e cuidado incondicional.

A mãe de Buffy, após um momento de choque, estranhamento e rompimento ao descobrir a verdade sobre a filha, reconhece as falhas de comunicação entre as duas, e chama a garota a reconhecer as dela. “Você não me deu tempo, só jogou tudo em cima de mim e esperou que eu compreendesse. Adivinhe só? Mamãe não é perfeita. Eu lidei mal. Mas isso não lhe dá o direito de me punir fugindo.”259 A partir daí, ela gradualmente tenta

redescobrir seu papel como mãe da Caçadora, buscando compreender e participar mais do outro mundo ao qual a filha pertence – apesar de perceber que isto é impossível. Ela negocia o temor e as expectativas que tem a respeito do futuro da filha e eventualmente passa a confiar nela e em sua liderança. Ela continua não podendo ajudar Buffy em sua missão, mas passa a dar todo o apoio à garota e ainda busca exercer um papel materno em outras áreas de sua vida260.

A relação entre Buffy e Joyce, de distanciamento, rompimento, aceitação e reconciliação, faz paralelo a diferentes histórias de aceitação da homossexualidade nos

teen dramas261. Joyce é levada a rever sua percepção a respeito da filha e de si mesma e

a aceitar algo que tem a ver com a própria essência da garota, assim como outros pais são forçados a fazer ao descobrirem a orientação sexual dos filhos (JENKINS; JENKINS, 2006). Em DC, quando Jack toma coragem para assumir a homossexualidade, seu pai o rejeita, culpando o garoto por adicionar problemas à já frágil estrutura da família McPhee. Gradualmente a relação entre os dois passa da rejeição para o respeito às diferenças e, enfim, a aceitação e o orgulho do pai pelo filho, confortando-o com problemas que o garoto passa por ser gay.

258 2x22, Parental Discretion Advised, Greg Berlanti. 259 3x02, Dead Man’s Party, Marti Noxon.

260 No final da 3ª temporada, preocupada com o futuro da garota, Joyce procura Angel e deixa claro que

espera que ele tenha responsabilidade para tomar as decisões que Buffy é imatura demais para tomar. Buffy jamais fica sabendo que Joyce indiretamente pediu a Angel para partir.

Da mesma forma, é mostrado o sofrimento da mãe de Emily quando a menina revela ser lésbica. Ela a recrimina e termina por separá-la da namorada. No entanto, ao ver o quanto isso a afastou dela mesma e ao vê-la passar por situações preconceituosas na escola, Pam, apesar de sua formação tradicional, revê seus valores e passa a apoiar Emily262. Em Glee, a avó de Santana faz este papel, recusando-se a manter um

relacionamento com a neta por causa de sua orientação sexual, apesar das tentativas da garota de reconciliação. Eventualmente ela percebe que sua aprovação não importa e que está perdendo a chance de estar presente na vida da neta, e comparece, enfim, a seu casamento. Todos os familiares acabam tendo na revelação da identidade dos filhos uma oportunidade para melhorarem, tanto como pessoas quanto como pais.

Conforme mencionado no início deste capítulo, tais séries prezam por uma narrativa de aceitação familiar acima de tudo. As mães de Emily, ou Buffy, e mesmo a avó de Santana e o pai de Jack, são mostradas como pessoas imperfeitas que, quando confrontadas com uma reavaliação de valores, reagem mal, ressentem-se pelos filhos os obrigarem a passar por tal mudança de valores. No entanto, seus erros são pontuais e o perdão, de certa forma, é simples – ainda que a solidão e o isolamento (e em alguns casos, também a vergonha) pelos quais os adolescentes passam devido a essa rejeição sejam fonte de grande sofrimento.

Muito mais complexos, contudo, são os grandes arcos de aceitação parental, geralmente reservados a pais e mães extremamente relapsos em relação aos filhos.

BH90210 é particularmente propensa a tais narrativas, em acordo com a perspectiva geral

tradicional da série em relação à família. Conforme mencionado anteriormente, a relação de Kelly com a mãe é marcada por conflitos e acusações, mas, ao final da série, tal relação aparenta uma relativa estabilidade. Jackie parece ter abandonado o vício em drogas e álcool e ter encontrado certa harmonia na vida dando à filha mais nova a atenção e o cuidado que nunca deu a Kelly, ao lado do novo marido. No entanto, no spin-off263 90210,

ambientado oito anos após o término da série original, Kelly e Jackie, após diversas brigas e recriminações, não mantêm mais contato. Ainda mais, Kelly descobre que a mãe voltou aos velhos vícios e negligencia sua irmã, agora uma adolescente – e uma das protagonistas

262 A família de Emily é retratada como muito tradicional: o pai militar e a mãe que se ocupa somente do

lar e controla de perto a vida da filha, julgando pais que não fazem o mesmo. Portanto, embora a reação inicial de Pam seja julgada pelo texto, é também elogiada a evolução da personagem e a adaptação àquilo que de início parecia-lhe uma perda.

263 Programa derivado de outro programa. Com personagens em comum, ou parte do mesmo universo

deste spin-off. Então, Kelly leva a garota para morar com ela. Quando Jackie, recuperada novamente da bebida, adoece, Kelly se recusa a retomar relações apesar da insistência da irmã. Para Kelly, seu problema com a mãe ia além dos vícios, pois, mesmo sóbria, Jackie jamais foi uma boa mãe para ela e constantemente recordava o quanto Kelly a desapontava como filha. Ela eventualmente decide que é importante despedir-se da mãe e fazer as pazes com ela. Em seu leito de morte, escuta-a pedindo perdão por não ter sido uma boa mãe e dizer orgulhar-se dela, e Kelly a desculpa por tudo.

Mais do que uma chance de paz aos pais, arrependidos pela forma que trataram os filhos264, tais histórias mostram a importância da reconciliação com o passado e de aceitar

os pais como pessoas, humanos em seus erros e acertos. Para Birchall (2004), há uma forma reacionária e controlada de rebelião nestas séries, em que os adolescentes tentam ser uma versão um pouco melhor dos antigos valores paternos, centrados na família nuclear.

Embora boa parte dos exemplos citados ao longo deste capítulo generalize nos seriados analisados a negligência e a, francamente, falta de bom senso dos pais, é importante lembrar que os adolescentes destas séries rotineiramente desobedecem, mentem e omitem situações de diferentes níveis de gravidade. Embora incompreendidos, não se esforçam muito em compreender os pais e julgam suas motivações ainda mais rapidamente. Em PLL, um dos programas onde essa displicência é mais evidente, as protagonistas tiveram oportunidades de revelar a verdade aos pais repetidas vezes, porém por diversos motivos preferiram continuar enganando-os, além de muitas vezes desrespeitando-os e colocando-se em franco risco. Embora tais programas tenham um ponto de vista fortemente alinhado aos seus protagonistas adolescentes, e por isso as perspectivas dos pais fiquem em segundo plano, a maioria dos pais em tais seriados, apesar de seus erros e defeitos, amam e buscam o melhor para seus filhos. Poder-se-ia sugerir que uma leitura de tais programas pelo viés dos pais revelaria um temor de que, não importa o que for feito, os jovens irão enfrentarão problemas sérios e perigos que os pais não poderão remediar.

Analisando os cinco seriados selecionados como representativos do gênero teen

drama, algumas características em comum se sobrepõem: o distanciamento e a

264 Dylan e seu pai, e Valerie e sua mãe passam por narrativas semelhantes em BH90210, assim como Pacey

incompreensão geracional; a desestruturação familiar; e a importância da aceitação entre pais e filhos. Tais características não são apresentadas necessariamente da mesma forma nos cinco diferentes programas e são exploradas conforme as temáticas preferenciais de cada seriado individualmente.

Por exemplo, em BTVS, que tem como uma de suas temáticas gerais a distância entre os adolescentes e os adultos, pais e filhos habitam mundos distintos, e as tentativas de misturar tais mundos são em geral catastróficas. PLL se utiliza da hipocrisia como um elemento corruptor da base social, portanto as famílias são o principal espaço elementar para o desenvolvimento desta conduta. Em BH90210 valores e caráter firmes, que iniciam na família, são a única maneira de conter os aspectos problemáticos da juventude metropolitana. Em DC a desestruturação familiar é apenas uma peça das dificuldades de amadurecer frente um mundo confuso. Em Glee, onde a aceitação social é uma conquista, o melhor que os pais podem oferecer é o apoio.

Outra questão que se destaca nesta análise é a evolução dos contextos temporais, ao longo das duas décadas e meia, através dos seriados. Em BH90210 existe uma diferenciação bastante evidente entre os valores familiares tradicionais da família Walsh, dos gêmeos Brenda e Brandon e do resto dos personagens. Em uma sociedade em que a desintegração familiar era a origem de tantos problemas, os bons pais são aqueles que protegem e guiam seus filhos, enquanto permitem a eles certo espaço para crescer e cometer seus próprios erros. Os Walsh não eram a única família tradicional ou não fragmentada do seriado, os pais de Donna eram também casados e mais conservadores do que os Walsh. No entanto, a mãe de Donna não somente era um tanto esnobe (um traço sempre condenado pela narrativa) como também era extremamente controladora, sufocando a garota e, portanto, se aproximando de uma família que, longe de ser “ideal”, buscava, na realidade, um ideal de perfeição. Os Walsh, pelo contrário, equilibravam a cobrança com a compreensão de seus filhos, fórmula ideal de acordo com a narrativa.

O fato de que a composição familiar superior seja aquela imbuída de um modelo e de valores tradicionais e conservadores – ainda que generosos com aqueles que não o são – é simbólica de uma agenda conservadora do início dos anos 1990. Os Walsh são a única família retratada positivamente nas cinco séries observadas, em que há uma distinção de tratamento sutil, mas consistente, entre o gênero dos filhos. Brandon não apenas é o filho “bonzinho” e responsável – e é assim tratado especialmente pelo pai – em oposição à personalidade mais impressionável e rebelde de Brenda. Como existe

também uma normalização da óbvia diferença de tratamento da sexualidade de cada um dos irmãos.

Nos dois programas da segunda metade da década de 1990, qualquer ideal de perfeição é inexistente. Todas as famílias de DC e de BTVS possuem dinâmicas disfuncionais e o isolamento dos adolescentes em relação aos pais é quase generalizado. Tais características entram em acordo com os adolescentes mais responsáveis, mas também mais cínicos e críticos à sociedade, na qual a desestruturação da família nuclear já é dada como um fato, e um fato que é problemático.

Em Glee e PLL, do início da segunda década do século XXI, a fragmentação é apenas um dos problemas enfrentados pelas famílias e o distanciamento dos jovens é inevitável. As diferentes representações sobre família nas duas séries acontecem em razão dos diferentes focos dos programas. No entanto, ambos fazem uma crítica à hipocrisia do modelo patriarcal rígido e mostram que, se os pais pouco podem ajudar seus filhos em seus dilemas, o melhor que podem fazer é apoiá-los incondicionalmente. Se em PLL todos os pais negligenciam ou expõe seus filhos a ambientes problemáticos, os pais mais compreensivos e protetores são também os que são representados mais favoravelmente na narrativa.

Ao observar tal evolução, percebe-se que os teen dramas acompanham o enfraquecimento do modelo familiar patriarcal que entra em declínio nas últimas décadas do século XX, devido a mudanças econômicas, sociais, tecnológicas e culturais. Em 1994, apenas 7% dos lares norte-americanos apresentavam a configuração da “família ideal” de

BH90210 (pai como único provedor do lar, mãe dona de casa e filhos) e apenas 25% dos

lares era constituído por um casal heterossexual com filhos (CASTELLS, 2008).

Se tomarmos, conforme sustentam Beck (2011) e Castells (2008) que a família patriarcal é central para os sistemas econômico e político-social, e a perspectiva de eliminação de tal modelo apresenta a inexorabilidade de uma transformação de todos os aspectos da sociedade como a conhecemos, a defesa de um modelo familiar patriarcal – de forma disfarçada como se percebe em DC ou mais patente como em BH90210 – remete a uma reação conservadora em relação a tais mudanças socioculturais, com um viés político de manutenção do status quo. No entanto, as diversas formas de desestruturação e desequilíbrio familiar que os teen dramas expõem – abandono e negligência, imaturidade, ou simplesmente más decisões ou exemplos por parte dos pais – remetem a um problema recorrente nas sociedades pós-modernas: o enfraquecimento dos papéis tradicionais das famílias e suas consequências. O que acontece com a educação dos jovens

em um mundo em que as obrigações familiares são mais flexíveis, em que os filhos muitas vezes sabem mais do que os pais e em que a satisfação pessoal é um dado que frequentemente se sobrepõe ao coletivo? Castells (2008) propõe que a solução não está na reestruturação da família patriarcal, mas sim na reconstrução de modelos familiares mais igualitários, e na responsabilidade das instituições públicas em assegurar apoio material e psicológico às crianças. De forma parecida, Beck (2011) também propõe a necessidade de soluções institucionais de apoio que aliviem a aparente contradição entre vida profissional e vida familiar, tão marcante a partir do momento em que as mulheres (de classe média) deixam de estar confinadas à vida doméstica. Beck ainda propõe que, embora os conflitos “explodam” sempre na família, na relação entre os sexos, este é apenas o lugar onde eles ocorrem e não o motivo para ocorrerem.

Os teen dramas, longe de apontarem uma solução para tais questões, apontam alternativas de cunho individual – em conformidade com a cultura de seu país. Se o ideal não existe mais, a flexibilização, parece ser desejável. Em geral as famílias que são apresentadas como mais rígidas em tais séries, não apenas próximas a um modelo tradicional, mas que supervalorizam tal modelo tradicional familiar, são as mais frágeis ou mais criticadas. Já as unidades familiares, sejam elas tradicionais ou não, que abrem espaço para imperfeições, ou mesmo para diferentes identidades, são representadas como as mais equilibradas.

O maior conservadorismo em relação à família nuclear que DC e BH90210 apresentam não significa que o restante dos seriados analisados seja necessariamente progressista. Os protagonistas de todas as séries partem de representações familiares de certa forma conservadoras: os filhos são sempre fruto do casamento legítimo entre homem e mulher, as mães obrigatoriamente tomam o sobrenome do marido265, a

maternidade ou paternidade monoparental ainda é vista como um problema e estigma