BÖLÜM 3. ARAġTIRMANIN YÖNTEM VE TEKNĠKLERĠ ĠLE BULGULARI
3.2 Nicel Saha ÇalıĢmasının Bulguları
3.2.4 Katılımcıların Suriyelilerle Olumsuz Bir Deneyim YaĢama Durumları
Dentro do contínuo em que se inscrevem as diversas concepções de cidadania democrática e as consequentes propostas de educação para a democracia, a formação do cidadão é usualmente vista nos termos do letramento político, ou seja, um processo que envolve conhecimento, práticas e valores da democracia. Essa posição majoritária, que já visitamos no Relatório Crick (QCA, 1998) e no documento Um momento crucial: ensino superior e futuro da democracia (The National, 2011), também se faz presente em um outro documento A Missão Cívica das Escolas (The Civic, 2003), elaborado a partir da contribuição vários estudiosos e profissionais ligados à área, sob os auspícios da Carnegie Corporation de New York e do Centro para Informação e Pesquisa sobre Aprendizagem e Engajamento Cívico - CIRCLE.
Segundo esse último documento, a finalidade da educação cívica consiste em “ajudar os jovens a adquirir e aprender a usar habilidades, conhecimentos e atitudes que os preparem para serem cidadãos competentes e responsáveis ao longo de suas vidas” (The Civic, 2003, p. 10). Essas habilidades, conhecimentos e atitudes a serem ensinadas encontram-se implicitamente dispostas na definição do que seria um cidadão competente e responsável. Em primeiro lugar, o cidadão competente e responsável é
50 Nas palavras de Audigier: “Todos os cidadãos dos estados democráticos são recebedores e provedores de educação para cidadania democrática” (Audigier, 2000, p. 18). O autor também identifica sítios de cidadania como “novas ou inovadoras formas de gerenciar a vida democrática. Os sítios consistem de qualquer iniciativa (centro, instituição, comunidade, vizinhança, bairro, cidade, região, etc) onde há uma tentativa de dar definição para, e implementar os princípios da cidadania democrática moderna (idem, p. 25).
51 A distinção entre formal, informal e não formal é feita por Bîrzea (2000), a partir de La Belle, para a educação permanente ou ao longo da vida. O autor classifica de formal a educação escolar de qualquer natureza; de não-formal, o ensino que é feito fora do sistema escolar; e informal, a aprendizagem espontânea da vida cotidiana.
aquele que é “bem informado e cuidadoso”, ou seja, conhece a história e o processo de construção da democracia americana, tem consciência das questões importantes de sua comunidade, sabe se informar, pensa criticamente, dialoga e sabe se colocar no lugar do outro para entendê-lo, assim como entende que questões complexas não possuem respostas simples. Esse cidadão também “participa de sua comunidade” contribuindo para ou integrando organizações que buscam soluções para problemas da vida pública atuando no universo político, social, cultural e religioso. Outra característica desse cidadão é que ele “age politicamente” para o que precisa desenvolver competências, como falar em público, e possuir compromisso com questões públicas, que podem ser atendidas por mecanismos políticos como o voto, a petição e o protesto. Por fim, é um cidadão que “possui virtudes cívicas e morais” que podem ser traduzidas em termos de preocupação com o bem comum, confiança e contribuição pessoal para a ação política coletiva, respeito à lei, tolerância e respeito do outro como igual, equilíbrio entre o interesse pessoal e o interesse da comunidade. Seguindo a ideia do contínuo, podemos dizer que essa posição sobre o que deve ser ensinado para formar o cidadão democrático encontra-se localizada próxima do centro do lado do polo contemporâneo.
Uma posição mais explícita e mais próxima do extremo contemporâneo é apresentada por outro grupo de estudiosos de vários países liderados por James A. Banks, sob o patrocínio do Centro para Educação Multicultural da Universidade de Washington. Com o título de Democracia e Diversidade, a proposta também defende que a finalidade da educação para cidadania em uma sociedade democrática multicultural, como é a maioria dos países atualmente, deve consistir em “ajudar os estudantes a adquirir conhecimento, atitudes e habilidades necessárias para tomar decisões refletidas e agir para tornar seu estado-nação mais democrático e mais justo” (Banks et al, 2005, p. 8, grifo nosso). Todavia, o caminho que sugere é bem mais amplo e enfático do que aquele proposto pelo documento A Missão Cívica das Escolas, até porque, como bem diz seu subtítulo, são “Princípios e Conceitos para a Educação de Cidadãos em uma Era Global”.
O texto apresenta quatro princípios e dez conceitos sobre educação para a cidadania, seguidos de um checklist para que se avalie a presença desses elementos nos cursos e programas educacionais que objetivam o ensino da democracia52. Os princípios
foram divididos em duas seções, uma com três e outra com um princípio. Os três
52 Estamos reproduzindo aqui a leitura deste texto feita anteriormente em Letramento Político: trilhas abertas em um campo minado (Cosson, 2011a).
princípios da primeira seção tratam da centralidade dos direitos humanos na educação para a democracia, a necessidade de se entender a interdependência derivada da globalização e de se defender o equilíbrio entre unidade e diversidade nas relações sociais em nível local, nacional e mundial. O quarto princípio enfatiza que o ensino sobre a democracia e as instituições políticas deve ser acompanhado de oportunidades que levem à participação e experiência concreta da democracia. Os dez conceitos que que especificam os quatro princípios começam com o de democracia que deve ser entendida não apenas como um regime político – democracia política, mas também um modo de organização social – democracia cultural, seguindo a proposta feita por Dewey ao falar de democracia criativa. Outro conceito é a diversidade que vai das diferenças de classe social à religião, passando por gênero, orientação sexual, etnia, língua e necessidades especiais, que devem ser reconhecidas em uma sociedade democrática multicultural. O terceiro conceito é a globalização definida, para além dos aspectos econômicos, como interconexão e interdependência entre as pessoas e a maneira como elas vivem no mundo. O quarto conceito é o desenvolvimento sustentável que parte da necessidade de desenvolver-se economicamente sem comprometer os recursos futuros, tal como propõe a Unesco, até chegar ao consumismo e às desigualdades da distribuição dos recursos do planeta. O quinto conceito é o imperialismo que abarca também seus correlatos, a exemplo do colonialismo, que devem ser estudados em suas múltiplas formas, tais como imperialismo cultural e colonialismo eletrônico, e outras relações de poder entre as nações para que se compreenda o lugar da democracia nesses contextos. O sexto conceito é a discriminação acompanhada do preconceito e do racismo que se encontram disseminados no nível interpessoal, intergrupal e institucional e ferem o princípio da igualdade que define a democracia. O sétimo conceito é a migração que leva pessoas e grupos a se deslocarem entre países demandando uma nova compreensão de cidadania. O oitavo conceito é a identidade – e seu reverso a diversidade – que aborda as várias formas de se construir o pertencimento em uma comunidade, sendo que o reconhecimento dessa diversidade de identidades é parte essencial da tolerância e do respeito que devem imperar em uma sociedade democrática. O nono conceito são as múltiplas perspectivas com que cada tema ou fenômeno deve ser analisado, promovendo uma visão equilibrada que sustenta o respeito às diferenças ao mesmo tempo que favorece a construção de consensos que permitem a vida em comum. O último conceito é o jogo entre patriotismo e cosmopolitismo que busca romper com o etnocentrismo e o paroquialismo e, sem deixar de valorizar a identidade nacional,
compreende que somos todos habitantes do mesmo planeta. Ao final, os autores explicitam que os princípios e conceitos foram elaborados para ajudar “escolas em nações democráticas multiculturais a refletir a diversidade dentro de suas sociedades, a promover a unidade que é essencial para a sobrevivência de uma política democrática e ajudar estudantes a transformarem-se em cidadãos efetivos em uma comunidade global” (Banks et al., 2005, p. 25).
O predomínio das posições mais alinhadas com o lado contemporâneo na literatura da área não significa que as posições tradicionais estejam descartadas. Estudo realizado por Niemi e Junn (1999) mostra que a educação cívica formal nas escolas, centrada na Constituição e no funcionamento do governo, tem impacto no conhecimento político dos alunos. Segundo os autores, os alunos adquirem bons conhecimentos, por exemplo, sobre direitos dos cidadãos e o governo local e estadual, ainda que apresentem resultados poucos significativos em teoria política e partidos políticos. Também pesquisa feita por Marc Hooghe e Ruth Dassonneville (2011) com adolescentes belgas revela que as práticas escolares voltadas para resultados cognitivos, apesar de negligenciadas pela literatura recente que privilegia as habilidades, são relevantes para o desenvolvimento do conhecimento político. Os autores destacam, porém, que os métodos tradicionais de ensino são bem menos efetivos que outras estratégias, a exemplo dos projetos de grupo.
Da leitura desses e outros estudos e propostas resulta a impressão de que o “conteúdo” da educação para a democracia é mais uma questão de amplitude e ênfase do que exatamente oposição entre os dois polos do contínuo. Um exemplo é o conhecimento sobre o poder legislativo. No polo tradicional, trata-se de conhecer a estrutura do parlamento para saber como ele funciona, enquanto no polo contemporâneo o objetivo é entender o seu funcionamento para poder influenciar as decisões tomadas ali. Em geral, pode-se dizer que o extremo tradicional é mais restrito e menos preocupado com a transformação do conhecimento em ação do que o contemporâneo, conforme apresentamos no quadro abaixo:
Quadro 2O conteúdo da democracia
Polo A Concepções Polo B
Tradicional C1....C2...C3...C4.. Contemporânea
Conhecimento
Polo A Concepções Polo B
Tradicional C1....C2...C3...C4.. Contemporânea
políticas e seu
funcionamento, estrutura do governo, história do país, símbolos nacionais, democracia como sistema político, mecanismos democráticos (como são feitas as leis).
direitos humanos, temas sociais controversos contemporâneos, distribuição do poder e estrutura da sociedade, processos decisórios, movimentos sociais, como influenciar o
governo e a sociedade. Práticas
respeitar as normas de convivência social, fazer doação em campanhas sociais (fazer a sua parte), dar atenção e entender as notícias políticas, respeitar o bem público, votar, participar de campanha político-partidária, respeitar as leis.
...
analisar as relações de poder, agir para a transformação da sociedade, participar ativa e efetivamente das políticas públicas, combater a injustiça, mediar conflitos, discutir e deliberar coletivamente (tomada de decisão coletiva), contextualizar criticamente documentos e informações midiáticas, fazer julgamentos bem informados, fazer-se ouvir politicamente, assumir responsabilidades compartilhadas. Valores obediência à lei, solidariedade, honestidade, liberdade, direito de expressão, compaixão, civilidade, lealdade, ... pertencimento, igualdade, consciência global, interdependência individual e social, comprometimento com a democracia, equidade,
Polo A Concepções Polo B Tradicional C1....C2...C3...C4.. Contemporânea tolerância, autonomia pessoal, patriotismo, coragem cívica. inclusividade, empatia, pensamento crítico, responsabilização.
Fonte: Elaboração do autor