4. BULGULAR VE YORUM
4.1. Etkili Okul Boyutları Kapsamında Okulların Değerlendirilmesi
4.1.2. Katılımcıların Okullarındaki Öğretmenlerin Etkili Okula
Aparece na página 35(B) dos manuscritos uma peculiar descrição da persona mallarmeana: “Je suis moi – fidèle au livre.” Eu sou eu – fiel ao livro. A afirmação do eu condicionada pela fidelidade ao livro. Só assim – “fiel ao livro” – ele pode existir. E assim será durante toda uma vida. A partir de 1866, Mallarmé passa a julgar severamente sua obra precedente. Face à decisão angustiante – aceitá-la como alheia, outra e própria a si, e o desejo de retocá-la, retirá-la do passado, da propriedade de si, a partir de critérios do presente – entrevê que a personalidade é um obstáculo no caminho da literatura com que sonha. Aí então começa uma reflexão sobre o Livro. 323
321 Cf. TADEU. Notas de leitu a , pp. -182-183. Ainda segundo Tadeu, foi Kermode, em 1893, que aproxima pela primeira vez Fuller de Mallarmé. Rancière não dá a fonte em questão no texto já mencionado. Em 1893, o crítico de dança André Levison teria flagrado o poeta francês no Folies-Bregère durante uma das apresentações de Fuller.
322 Cf. DELFEL. La estética de S. Mallarmé, p. 141.
De agora em diante Mallarmé não deixa de considerar o Livro em sua correspondência pessoal, mencionando-o como um ideal de literatura com que passaria a trabalhar ao longo da obra vindoura. Os manuscritos porém são publicados somente muitos anos após a morte do poeta. Razão pela qual ele será tomado, não por poucos, como um embusteiro. Scherer diz no prefácio dos manuscritos:
Les critiques n’ont pas cru, en général, à la réalité de cette oeuvre, qu’ils
jugent parfois irréalisable et qu’ils appellent volontiers l’oeuvre rêvée. La voici, devant nous. Le manuscrit apporte la preuve que Mallarmé
avait longuement élaboré cette oeuvre et qu’il avait commencé à la réaliser. Nous avons ici l’esquisse du Livre. [Os críticos não acreditaram, em geral, na realidade dessa obra que eles julgavam às vezes irrealizável e que eles chamavam, alegremente, de obra sonhada. Aqui está ela, diante de nós. O manuscrito traz a prova de que Mallarmé tinha longamente elaborado essa obra e que havia começado a realizá-la. Nós temos aqui o esboço do Livro].324
Scherer tem em mãos uma documentação preciosa. A empolgação ali é humanamente compreensível. Mas não se trata do Livro propriamente dito. Blanchot é quem primeiramente o repreende pela atribuição precipitada. Não são as alusões ao Livro que lhe asseguram uma existência. Há apenas um projeto. Quase todos os escritos teóricos de Mallarmé, datados a partir de 1866, aludem ao Livro. 325 São menos que o Livro. Mas – ao contrário das reservas de Blanchot – são mais que apenas um projeto, uma vez que abre um plano de composição, uma poiésis. Os manuscritos não são apenas a morfologia do Livro; pormenorizam questões de ordem financeira, relativas à publicação, bem como o caráter das sessões e a configuração do espaço das leituras e as posições dos leitores, enfim, a integralidade do espetáculo literário do Livro. Mas nem assim Blanchot anima a tomá-los como algo palpável, dado que, para ele, é da essência do Livro tornar irreal o seu próprio reconhecimento. Este mesmo impete, cabe lembrar, foi aquele que levou Lacoue-Labarthe e Nancy à denegação da obra no fragmento romântico, vendo ali apenas o retorno do mesmo, a eliminação da potência, como foi anotado no capítulo anterior.
Quanto à nossa análise, nem o que determina na abordagem de Scherer, nem tampouco na de Blanchot. O equívoco da primeira é insofismável. Aos manuscritos não cabe uma interpretação da materialidade da literatura pretendida por Mallarmé. São esboços teóricos de algo cuja textualidade aparece apenas com Um lance de dados. Por sua vez, o que diz Blanchot também não é conveniente aqui. Pode ser produtivo para justificar a proposta banchotiana de literatura, denegação tanto de um passado quanto de um tempo
324 SCHERER. Le Li e / Avant-propos , p. . 325 BLANCHOT. O livro por vir, pp. 241-242.
presente, assim como de um futuro impossível em favor de excepcionalidade do devir literário enquanto ação histórica. Ou seja, a literatura não como a condição da existência real, mas a ontologia de algo na ordem do impossível. 326 Essa abordagem, aliás, é bastante fidedigna ao que os manuscritos propõem: “un livre ne commence ni ne finit: tout au plus
fait-il semblant.” [um livro nem começa nem sequer termina: quando muito ele dissimula].
327 Fidedigna, ainda, à concepção de literatura mallarmeana: “(...) je réponds par une
exagération, certes, et vous en prévenant – Oui, que la Littérature existe et, si l'on veut, seule, à l'exclusion de tout.” [Eu respondo mediante uma exageração, certamente, e estejam prevenidos – Sim, a Literatura existe e, se quiserem, sozinha, à exceção de tudo].
328
Então por que o desvio em relação aos seguimentos mencionados? Ou a essência dos manuscritos significou a composição de uma teoria ou um projeto livresco – e Blanchot é capaz de repetir aí a voz de todos aqueles descrentes do Livro desde sempre, apesar de regressar dessa repetição como o primordial apóstolo do Livro, predicando a “nova compreensão do espaço literário” capaz de revelar a tridimensionalidade da escrita e sua solidez tipográfica; ou a essência dos manuscritos significou verdadeiramente uma práxis gráfica do Livro, espécie de vingança apócrifa da literatura que Scherer se orgulha de apresentar tardiamente. Mas é com o passo lateral que gostaríamos deslocar os dois ângulos já abertos: pensamento ou prática, os manuscritos participam de uma poiésis, embora efetivada em outras páginas, outro momento. Assim como o Livro não existe no Livro, o “Lance de dados” não começa (nem muito menos termina) no “Lance de dados”.
ℵ
Quando Mallarmé fala do Livro sua meta é chegar a um limite da escrita – ordenada pela ficção, pela força de uma ação mental deliberada – a partir da qual já nada lhe falhe no intento de vencer o acaso. É por isso que ele tende a negar a obra pregressa. A recusa, por exemplo, dirigida a Divagações – livro cuja aparição está “privada de toda arquite[x]tura”, assim carecendo ser desculpado por nós haja vista ter sido escrito com a “virtude comum”
326
Cf. BLANCHOT. O livro por vir, pp. 241. 327 MALLARMÉ. Te te du a us it , p. 181 (A). 328 MALLARMÉ. La musique et les lettres , p. .
de “todo esse acaso”. 329
É preciso jogar os dados, apostar no jogo para vencer o azar teórico da criação. O poeta se vê desesperado: tudo o que consegue, entre a ficção e o jogo, lhe parece circunstancial. E isso o afasta da obra absoluta. O Livro é a única possibilidade de vencer o caos, de chegar à impessoalidade da obra. Para escrever o Livro será preciso livrar-se completamente da circunstância. Até Um lance de dados será, no entanto, impossível tal livramento.
Mallarmé elabora, nesse sentido, uma oposição entre o livro e o álbum. 330 O juízo desfavorável a respeito deste é rigoroso. Porém, às vezes nem sequer ao álbum pode chegar o poeta: o que há é apenas uma série de cartões de visita, leques escritos para a sua mulher e sogra, enfim, os “mil fragmentos” desprovidos de qualquer valor senão apenas aquele de “entreter a mão” conforme explica em carta enviada a Verlaine em 1885. Mas ao fim esse entretimento da mão terá algum resultado. A escrita dos leques, por exemplo, levará às dobras da página prismática.
O quê pretende Mallarmé a propósito da hierarquia entre o livro e o álbum então? Trata-se de um princípio indispensável à literatura mallameana. As folhas do álbum se deslocam de acordo com o acaso – e Mallarmé usa o título álbum para toda uma série de poemas da sua primeira fase. O livro não, pois ele trata da unidade da literatura, a extinção da circunstancialidade. Eis o que sugere uma das páginas dos manuscritos:
(...) (à savoir ici 2 séries de feuilles album) dont il faut 5. pour former ces 6 parts (I). [Cette Page est entièrement biffée] (...) = 24 auditeurs d'abord commencer par lancer moité de l'edition et venir résumer ainsi -* [*les pages laissées telles ouvertes sur la table - les réintégrer en álbum]
en album - cela Ire lecture; puis 2e lecture, en livre, et 2e moitié
d'edition
(...) C'est le volume et vulgaire
329 Cf. Folha de rosto de Divagações, sem paginação.
330 Segundo Arnar (The book as instrument, pp.35-36-37-38-39), muito da hierarquia com que Mallarmé relaciona o álbum e o livro vem de Baudelaire. Este fez em seu texto Salon 1845 uma reflexão a propósito dos termos: álbum, folhetim, almanaque e dicionário. Isso teria ocorrido, segundo a crítica norte- americana, como uma tentativa de relativizar a depreciação feita anos antes pelo influente crítico francês Sainte-Beuve em relação ao romance de folheti e seu a tigo De la litterature industriélle , publicado em 1839, cuja ideia era demonstrar como a prática da escrita fomentada pela produção industrial levaria a uma degeneração do compromisso artístico com a literatura. Baudelaire não condena a lite atu a i dust ializada , ele a do, i lusi e, as i o aç es g fi as p o e ie tes daí. Po , endossa uma hierarquização dos termos. E, quando da publicação de Le fleurs du mal, lança mão do termo livro como algo capaz de descrever a dimensão de um caráter artístico bem acabado, de uma deliberação poética em detrimento do álbum, do almanaque, etc.
ainsi qu'il se présente au public - ou issu du poème de 480 + 480 (1) - - - partie de cela, lisible en tant que (2) telle, jusqu'à épuisement des 5 – et se déployant (3) en feuillets d'album.
Il y donc 5 lectures en un sens. déploiement du livre vulgaire à l'album - et 5 l'autre manuscrit sens. de l'album ou manuscrit au livre, reploiment. soit 10, doubles lectures. 331
Tradução: (...) (a saber aqui 2 séries de folhas álbum) assim é necessário 5 para formar essas 6 partes (I). [Esta página está inteiramente anulada] (...) = primeiramente, 24 ouvintes começam por lançar metade da edição e depois de fazer um resumo assim [as páginas deixadas como abertas sobre a mesa - reintegrá-las em álbum]
em álbum : ou seja, primeira leitura, segunda leitura, em livro, e a segunda metade da edição.
(...) É o volume, vulgaridade
assim que ele se apresenta ao público - ou vindo do poema de 480 + 480 --- parte disso, legível em tanto qual (2), até o esgotamento dos 5 - e se estendendo (3) em folhetos de álbum.
E quanto ao Livro:
Livre,
Les quatre volumes [volumes en sont un, le même] sont un le même, [même, répété deux fois] présenté deux fois en tant que ses deux moitiés, première de l'un et dernière de l'autre juxtaposées à dernière et première de l'un et de l'autre: et peu à peu l'unité s'en révèle, à l'aide de ce travail de comparaison montrant que cela fait un tout en deux sens différents, en tant qu'une cinquième partie, formée de l'ensemble de ces quatre fragments, apparents ou deux répétés: ceci aura donc lieu 5 fois ou 20 fragments groupés en 2 [2 de] par 10, trouvés identiques (...) 332
Tradução: Livro,
Os quatro volumes [os volumes na verdade são um, o mesmo] são um, o mesmo [mesmo, repetido duas vezes] apresentados duas vezes como sendo duas metades, a primeira de um e a última do outro, justapostas à última e a primeira de um e de outro; e pouco a pouco a unidade se revela, com a ajuda deste trabalho de comparação mostrando que isso faz um todo em dois sentidos diferentes, dando origem a uma quinta parte, formada do conjunto desses quatros fragmentos, aparentes ou dois repetidos: isso dará lugar assim a 5 vezes ou 20 fragmentos, agrupados em 2 [2 de] por 10, achados idênticos.
331 MALLARMÉ. Te te du a us it , pp. 152 (A), 153 (A), 154(A), 155(A). Tenha o leitor em conta que a diagramação aplicada à tradução tipográfica dos manuscritos é algo muito particular, de modo que nos resulta impossível mantê-la durante as citações senão apenas como aproximação do que nos apresenta o original.
A relação entre o “livro” e o “álbum” faz com que o primeiro, em detrimento do segundo, alcance uma estrutura não casual, permitindo, ainda, a cooptação do público durante a leitura pública. São complementares, ainda que eficazmente distintos. O álbum é pessoal no que diz respeito à veracidade da literatura; o livro é objetivo, total, à medida que realiza publicamente a literatura. Daí ser o livro ser uma espécie de medium e, também ele mesmo, o devir da obra absoluta, a impessoalidade. O álbum supostamente vs. o livro: o primeiro implica o mundo como algo inessencial – talvez mais surpreendentemente que o segundo, dado não hierarquizar, e assim sendo simpático a um universo não-uno, disperso, e puro tecido de contingências; já o segundo corteja a literatura como uma fantasia de Civilização das letras, dado que a leitura do livro, como dirá Barthes, guarda algo do “mito coletivo” – origem, guia ou reflexo (sentido) desejante de um universo uniforme. 333
De que maneira, enfim, alcançar o Livro? Através de uma “nova compreensão do espaço literário”. Mas não estritamente à maneira blanchotiana. Quer dizer, de uma revolução tipográfica capaz de negar a forma tradicional do livro, reformulando tudo o que o compõe, reformulação inclusive daquilo que possa transformar a leitura em espetáculo e publicidade. Mallarmé, durante toda sua vida tendo escrito álbuns, a exemplo de Divagações, se aproxima do Livro apenas no final de seus dias, mais precisamente em 1897, quando, pela primeira vez, Um lance de dados é publicado na revista Cosmopolis.
Nos manuscritos há dois temas predominantes conforme a documentação apresentada por Scherer: por um lado, os detalhes da estrutura do volume e a configuração e a profundidade da página, e, por outro, as condições sociais (mercadológicas, seria mais conveniente hoje em dia) a serem cumpridas pelo Livro a fim de existir. Esse último ponto ganha ênfase ao longo da segunda metade dos manuscritos, dedicada à disposição do público durante a leitura [p.141(A)], o valor financeiro (calculado em razão dos lugares oferecidos) a ser cobrado durante as sessões [p.139(B)]; [p.140 (A)], cifras de tiragem [p.132(A); p.133(A)] etc. Não procede que, naquela ocasião, Mallarmé estivesse somente dedicado, quanto ao Livro, a objetivos “metafísicos”. Tudo ali o distancia da criação de um bibelô de papel. São aspectos tangíveis relacionados ao fazer literário moderno o que encontramos naquelas páginas anotadas. É refletida a prática literária que abarca a extensão do mercado editorial à época – para o qual o poeta costumava reservar a expressão “haut commerce de Lettres” [alto comércio das Letras] em que vemos circular a
“mentale denrée” [mercadoria mental], o livro e as ideias. 334
Daí que questões em torno da profissionalização do escritor na modernidade são devidamente abordadas nos manuscritos. Mallarmé problematiza o sistema literário daquele período em sua integridade, relacionando o Livro a toda uma rede entrecruzada de escritores, editores, leitores, modos e práticas de leituras, publicidade e consumo do objeto literário, a crítica de então.
Há um ponto curioso relacionado à leitura e ao público. O leitor (às vezes a reiteração da personificação desprezada por Mallarmé) chega a ser concebido como dispensável para o Livro em algumas situações:
[Le Livre] Impersonnifié, le volume, autant qu’on s’en sépare comme auteur, ne réclame approche de lecteur. Tel, sache, entre les accessoires humains, il a lieu tout seul: fait, étante. Le sens enseveli se meut et dispose, en choeur, des feuillets.” [O Livro (...). Despersonificado, o volume, tanto quanto a gente se separa dele como autor, não reclama a aproximação do leitor. Tal saiba, entre os acessórios humanos, ele tem um lugar totalmente só: feito, sendo. O sentido sepultado se move e dispõe, em coro, das folhas]. 335
Dispensável o leitor, porém nunca a leitura, que despersonifica ambos, autor e leitor. Isso acontece em razão de Mallarmé pensar a construção do Livro a partir do reconhecimento da potência criativa do público. 336 Vem justamente daí a sua crítica à noção de auditório na composição da ópera wagneriana. No lugar do templo, a missa “en commum de l’auditoire”, a comunhão através do livro, da leitura – sendo talvez esta última ainda mais demandante da eucaristia livresca, dado que alguns “contemporains ne savent pas lire” [contemporâneos não sabem ler]. 337 As leituras caraterísticas dos encontros de terça-feira na casa de Mallarmé foram um verdadeiro ritual no centro da moderndiade literária. 338
Anna Arnar propõe que Mallarmé está muito menos preocupado com a forma do livro que com a leitura pública, haja vista escassear nos manuscritos detalhes sobre o que o
334 MALLARMÉ. Divagations, pp. 263-264. E a tradução, Divagações, pp. 174-175. 335 MALLARMÉ. Divagations, p. 261. E a tradução de F. Scheibe, Divagações, p. 173. 336
Cf. MALLARMÉ. Te te du a us it , pp. 64(A)-65(A)-110(A)-111(A)-112(A)-113(A)-119(A). 337 MALLARMÉ. Divagations, p. 290.
338 Há pouco mais de uma década Pascal Durand publicou artigo com dados de uma admirável pesquisa sobre os encontros na casa de Mallarmé. Há uma boa compilação de depoimentos das pessoas envolvidas à época, de modo que podemos recuperar dali algo característico do hábito mental dos leitores recebidos por Mallarmé. Para mais, o crítico em questão avalia o contexto e a significação das leituras mallarmeanas du a te os e o t os, e o o as disposiç es espa iais e out os detalhes do itual e uest o. Veja-se DURAND. ue de Ro a. Le ituel d s <<Ma dis>> alla e s , pp. - . Ta . POLIERI. Le livre de Mallarmé. A Mise em Scène , pp. - 182.
Livro tem de dizer. Segundo ela, a nova experiência de leitura então proposta pelo poeta leva a uma transformação da esfera pública, ou seja, a cooptação do público a fim de efetivar, durante a comunhão do Livro, uma poética capaz de alterar o cotidiano do leitor apesar de sua caracterização idealista. Ou seja:
The book is thus just a standard for the quality of the writer or a disciplined structure; it becomes an important tool – and instrument – for the potential to transform the public sphere.
(…) The audience is therefore envisioned as integral to establishing
meaning in the work, and thus its members abandon their role as passive recipients of spectacle or drama. 339
[O livro é, então, apenas um modelo para a qualidade de um escritor ou um tipo de estrutura disciplinada; ele se torna uma importante ferramenta - e instrumento - com potencial de transformar a esfera pública. (…) O espectador-leitor é assim, de maneira integral, designado como responsável pelo significado da obra, e dessa forma abandona seu papel de recipiente passivo do espetáculo ou do drama.]
Conclui-se da argumentação de Arnar que Mallarmé teria tido um papel de relevância crucial na teoria hermenêutica do modernismo ao propor a leitura como uma forma de autoemancipação do público na modernidade. As sessões de leitura mallarmeana são pensadas como um ritual, mas, ao mesmo tempo, como “espetáculo mental”. 340 Tal ideia vem a ser arremata pelo poeta francês na parte inferior do folio 148 (A) dos manuscritos: “Toute la modernité est fournie par lecteur” [Toda a modernidade é fornecida pelo leitor]. Assim, abole-se o “mal-estar de que tudo esteja feito” oriundo do desdém moderno de imaginar, característica que faz com que o público consinta a tudo.
Mallarmé investiga a técnica específica da Imprensa e do jornal à época do projeto livresco para logo redefinir a leitura na modernidade. O conhecimento daquela técnica torna-se imprescindível à proposição da escrita como “espetáculo tipográfico”. É nesse sentido que se escreve a parte final do texto “Quanto ao livro”. Primeiramente, discorre-se sobre a ideia de “ação restrita”, tudo aquilo já visto sobre a modalidade literária da ação limitada pela representação e assim incapaz de transgredi-la em direção a uma efetivação vicária da ação escriturante. Avança, porém, sobre a questão da circulação da “mercadoria intelectual” na modernidade. E então finaliza com uma reflexão cujo foco consiste em
339 ARNAR. The book as instrument, pp. 45-244. 340 Cf. Mallarmé. Divagations, p. 228.
atacar frontalmente a determinação da Imprensa pela publicidade e pelo comércio. O último ponto é visto como algo que conspira para a omissão de uma arte: a tipografia.
A reprovação de Mallarmé se direciona menos à especificidade do jornal, da Imprensa que à sorte turva de cooptação meramente mercantil daqueles meios. Ao falar do jornal, o poeta o refere com a seguinte expressão: “développé parmi le massif, je le
laisserai, aussi les paroles fleurs à leur mutisme et, techniquement, propose, de noter comment ce lambeau diffère du livre, lui suprême.” [desdobrado em meio ao maciço, o deixarei, também as palavras flores em seu mutismo, e, tecnicamente, propondo, notar como esse farrapo difere do livro, ele supremo]. 341 Isso, porém, não se cristaliza como uma contradição. É, ao revés, a coerência da pesquisa mallarmeana – tal como propõe Scherer na parte de seu prefácio destinada à “Fenomenologia do jornal”:
Il est vrai que le journal est pour lui le parent pauvre du livre. Mais dans
parente pauvre, s’il y a pauvre, il y a aussi parent. Mallarmé, qui n’y était nullement obligé, parle souvent du journal: c’est peut-êntre qu’il
trouvait, à réfléchir sur les conditions matérielles du journalisme et sur
l’aspect du journal, des enseignements sur le livre même. Il reproche au jornal de ne voir que l’instantané (...)