2. KURAMSAL TEMELLER VE İLGİLİ ARAŞTIRMALAR
2.4. Etkili Okulun Boyutları
2.4.1. Etkili Okulda Yönetici
Tudo o que discutimos até aqui teve por propósito apresentar o projeto teórico em literatura levado a cabo pelos irmãos Schlegel e Novalis. Vimos que o projeto mencionado define as particularidades de uma teoria da linguagem, de uma acepção de mimese, de autor, de leitor, de público, e, por fim, a abertura para a possibilidade de o clássico conviver com a vertigem da modernidade. É por tal abrangência e sistematização que o romantismo teórico resulta inaugurativo. Não quer dizer que inventa a literatura, tampouco a crítica estética. Mas traz algo específico: a postulação da teoria mesma como literatura, equivale dizer, a literatura produzindo-se e produzindo, também, a sua própria teoria. Nesse campo, sim, eles desbravam. Entendem – antes que quaisquer outros de seus coetâneos – o limite do literário na modernidade: a criação de um código, de um conjunto de signos capaz de criar sua própria teoria e, logo, escapar da mesma. Daí por diante – conforme Lacoue-Labarthe e Nancy – os românticos teóricos cortejam a noção de absoluto literário. Isso significa entender a literatura, ao mesmo tempo, sob a forma de uma genericidade (généricité) e de uma generatividade (générativité):
Más allá de las participaciones y de toda de-finición, este género se ha programado en el romanticismo como el género de la literatura: la genericidad, si se acepta esta expresión, y la generatividad de la literatura, captándose y produciéndose a sí mismas en una Obra inédita, infinitamente inédita. Lo absoluto, por consiguiente, de la literatura. Pero también lo ab-suelto, su separación en la perfecta clausura sobre sí (sobre su propia organicidad), según la célebre imagen del erizo que se encuentra en el fragmento 206 de Athenaeum. 161
A linguagem romântica, nesse sentido, nasce por partogênese. Nasce, apesar de todo isolamento, de todo solipsismo discursivo, perfeita. Daí que a poiésis romântica é, a bem dizer, uma autopoiésis. Vislumbra penetrar a essência da produção em si mesma. Procura, portanto, a operação literária absoluta conforme os autores citados.
Segundo Giorgio Agamben, termos como absoluto, absolutamente correspondem à expressão grega kath’heautó, “segundo si mesmo”. Pensar algo kath’heautó é pensá-lo absolutamente, quer dizer, segundo seu próprio se, a ação do verbo que afeta o sujeito da frase, aquilo que é próprio e existe de modo autônomo no comum. Haveria aí um paradoxo na ação de pensar algo na ordem do absoluto. Mas o paradoxo é apenas aparente, porque a
filosofia moderna é, precisamente, a tarefa de refletir como pensar “segundo si mesmo” é pensar absolutamente e como sujeito. O verbo solvo, de que deriva o particípio absoluto, se deixa analisar, segundo Agamben, em se-lýo e indica a operação de “desatar”, de “liberar” (lýo) que, por sua vez, conduz ou reconduz algo ao próprio se. Daí que pensar algo absolutamente é pensar “o ser igual a si no ser outro” segundo o caminho refeito na filologia agambeniana. 162 É nesse sentido então que devemos entender a fragmentação do significante ab-solto [“absolu en general, de I 'etre comme ab-solu, parfaitement detache, distinct et clos”] conforme propõem Lacoue-Labarthe e Nancy na citação referida. As categorias gramaticais de voz ativa e passiva, sujeito e objeto, transitivo e intransitivo perdem seu sentido, resultando, daí, que meio e fim, potência e ato, entram em uma zona de absoluta indeterminação.
Tudo isso é fundamental para discutir o significante livro em Fr. Schlegel e Novalis. Aclaremos um pouco mais. A busca por uma operação literária absoluta leva o romantismo teórico a vislumbrar uma re-significação de todo o léxico conceitual àquela época determinante do fazer literário. O projeto de livro romântico não esta à margem disso. Dada a peculiar poiésis romântica, já não dita o livro apenas a busca pela unidade de sentido perdida logo do desmantelamento mundo, tal como quer Blumenberg. O tópos do livro representa em e a partir de F. Schlegel e Novalis algo próprio da dicção com que se evoca o absoluto literário. O livro – e toda a extensão semântica em torno da estrutura da qual este se compõe, seja a página, o prefácio, o capítulo, etc. – passa a ser material da composição literária. Ou seja, o livro, assim como a literatura, tende a ser entendido como algo intransitivo, algo que narra a si mesmo e a literatura em seu exterior na linguagem, e não apenas como instrumento à disposição do fenômeno literário. O romantismo teórico leva o livro à qualidade de materialização do absoluto literário, 163 sendo muitas vezes essa materialização literária o ideal romântico de livro.
Fundamentalmente, o livro romântico aponta para aquilo que já determinava o fragmento: condicionar-se perfeito e acabado em sua circunscrição a partir de algo que nunca se terminar de compor. Antes de chegar a isso, porém, alguns detalhes. Data de 1798 a carta que Novalis escreve a Fr. Schlegel relatando ali uma equivalência entre o projeto do
162
Cf. AGAMBEM. *Se. Lo Absoluto y el Ereignis , pp. -212-216-221-222.
163 Materialização literária se entende aqui como equivalente de performático, ou seja, aquilo projeta ou realiza sua própria ação enunciativa.
amigo e o seu próprio: a Bíblia como ideal de todo e qualquer livro. 164 Nesse momento, portanto, emerge o projeto bíblico do romantismo teórico. 165 Implicação direta da renovação léxica do romantismo teórico, este também entende que a arte de escrever livros demanda algo inédito, capaz de assimilar o conceito de linguagem com que eles operam. É a isto que aponta o fragmento 104 de Novalis:
A arte de escrever livros ainda não foi inventada. Está porém a ponto de ser inventada. Fragmentos desta espécie são sementes literárias. Pode sem dúvida haver muito grão mouco entre eles – mas contanto que alguns brotem. 166
O fragmento, portanto, é a potência do livro vindouro, o livro do inacabamento essencial capaz de assimilar, espacialmente, o pensamento romântico. É esclarecedor, nesse sentido, a indagação que aparece de um trecho que aparece na décima primeira anotação de Novalis nos Estudos sobre Fichte:
164 Cf. NOVALIS. Werke, 1, pp. 672-673.
165 Ambos os autores tendem à harmonia (comunhão) do pensamento, e não à simpatia (padecer igualmente do que padece outrem). A primeira implica a tensão do pensamento, a segunda tende a anulá- la. É o que, segundo eles, corresponde à symphilosophia ou à sympoesia. Nos fragmentos 112 e 125 da revista Athenaeum S hlegel diz, p i ei a e te: O ue ha itual e te i ula os fil sofos ue o se opõem u s aos out os so e te si patia, o filosofia. E p ossegue: U a po a i tei a e te o a das ciências e artes começaria talvez quando symphilosophia e sympoesia tivessem se tornado tão universais e tão interiores, que já não seria nada raro se algumas naturezas que se complementam reciprocamente constituíssem obras em conjunto. Muitas vezes não se pode evitar o pensamento de que dois espíritos poderiam no fundo pertencer a um ao outro, como metades separadas, e só juntos ser tudo o que pudessem ser. Se houvesse uma arte de fundir indivíduos, ou se a crítica desejosa conseguisse algo mais que desejar, para isso encontrando em toda parte muita ocasião, então gostaria de ver combinados Jean Paul e Peter Lebrecht. Tudo aquilo que falta a um, o outro possui: juntos, o talento grotesco de Jean Paul e a formação fantástica de Peter Leberecht produziriam u ot el poeta o ti o. O ue h po t s de tais conceitos é bastante inovador, dado que tende a anular a figura do autor como pai do texto, dando a este uma possibilidade de plenitude textual. Se entendermos a ideia dessa maneira, é possível minimizar o juízo crítico feito por Lacoue-La a the e Na da o epç o o ti a de so iedade dos a tistas , algo que os autores franceses equiparam a Hanse medieval ou ao Bund maçônico. A ideia crucial – e nitidamente elitista – é que cada artista possa ser mediador para todos os demais. E daí, consequentemente, ele mesmo aparece como mediação para a obra romântica. Inegavelmente, há um ideal de educação estético do gênero humano, o qual, como veremos, é recuperado de Lessing. Contudo, a reivindicação da harmonia através dos conceitos de symphilosophia ou sympoesia resulta produtiva pelo fato de a mediação colocar o autor (ou os autores) em direção à obra absoluta. Não percamos de vista, por exemplo, que essa mesma lógica fez com que os românticos teóricos cogitassem a viabilidade de uma harmonia plena entre os filósofos reunidos pela revista Athenaeum. Daí que a revista representou a idealização dessa harmonia a partir da qual se coadunariam os irmãos Schlegel, Novalis e, também, Dorothea Schlegel. Os românticos não chegam a pensar a revista como negatividade do livro, negatividade no sentido que estamos discutindo aqui a propósito de a revista, a contrapelo do livro, pulverizar a noção de autor como pai (unidade de sentido) do texto. Isso começara a aparecer com a oposição feita por Mallarmé entre álbum e livro. Ainda sobre a dissolução da figura do autor no literário, cabe citar o fragmento 32, em que Schlegel se vale da se ti a p p ia uí i a pa a es la e e tal p o esso: A lassifi aç o uí i a da solução pelo ressecamento ou umedecimento também é aplicável, na literatura, à dissolução dos autores, que, depois de ati gi sua altu a i a, t de desapa e e . U s e apo a , out os se li uefaze .
¿Qué es pensar? Un aislar libre y sucesivo fuera del espacio. ¿Hablar y escribir? <Lo mismo, solo que de una forma determinada en el espacio> Exposición determinada del pensamiento en el espacio – por lo tanto –, ya que el espacio y el tiempo se designan mutuamente, retener – determinados signos del pensamiento.
(…) Pero el pensamiento es la condición exterior, el tiempo la condición
interior de la intuición sensible o del sentimiento 167
Assim, a função do livro é cuidar inscrição do pensamento através da escrita, a exposicção [Darstellung] da Ideia mediante uma espacialidade e uma temporalidade que se designam reciprocamente. Daí que o livro romântico seria capaz de assimilar a poesia “universal progressiva” como singularidade da produção do pensamento romântica. Nesse sentido, comenta F. Schlegel na Carta a Amália:
Um romance é um livro romântico. Você pretenderá que isto é uma tautologia que nada diz. Mas, em primeiro lugar, perceba que com um livro já se pensa uma obra, um todo que existe por si mesmo. (...) O contexto dramático da história não faz do romance, de modo algum, um todo, uma obra; isto ele se torna através da relação da composição toda com uma unidade superior àquela unidade das letras – com a qual ele frequentemente não se deve importar - , através da sequência das ideias, através de um centro espiritual. 168
O livro, ali, passa a ser entendido conscientemente como unidade da obra literária somente à medida que é apócrifo em relação a seu contexto histórico e autoral. Está a cargo, portanto, da operação literária absoluta pretendida pela obra romântica. Mas precisamos chamar a atenção para o fato de que o livro não assegura a unidade intelectual do autor. Absolutamente o contrário. O fragmento do romantismo teórico impede isso para ganhar em unidade apenas poética. Dizer que “um romance é um livro romântico” equivale a dizer que tal significante compreende o próprio gênero romântico. Enfim, o tautologismo de que fala Schlegel nada mais vislumbra senão elevar o livro à qualidade de gênero discursivo em detrimento da unidade intelectual. Eis, portanto, a possibilidade de falar em materialização do livro – este deixa de ser um objeto para, então, ser praticado como gênero ele mesmo. É a única possibilidade de o livro romântico tornar-se universal e progressivo, isto é, o absoluto literário. “Tão raramente”, dizia Novalis, “um livro é escrito em vista do livro.” 169 Justamente aí está a tarefa do livro vindouro romântico: transformar o livro, assim como foi feito do fragmento, em algo absoluto a partir da “genericidade” e
167
NOVALIS. Estudios sobre Fichte y otros escritores, pp. 38-39. 168 SCHLEGEL. Conversa sobre a poesia, p. 67.
“generatividade” da literatura, termos estes que, conforme vimos em Lacoue-Labarthe e Nancy, nomeiam a produção de algo inédito, infinitamente inédito como condição da organicidade perfeita.
O projeto de livro romântico, no entanto, não chega de fato à morfologia completa do mesmo enquanto gênero tal qual predica. Sabemos que a maior parte destes textos tem circulação tardia ou mesmo póstuma. Mais agravante ainda, as divergências dentro de Athenaeum, sobretudo entre os irmãos Schlegel a respeito do fim da continuidade da publicação dos fragmentos, impedirá a efetivação do projeto de livro romântico. Pouco acrescenta, portanto, o falecimento prematuro de Novalis em 1801. A agrupação poética em torno da revista já havia sido desfeita bem antes. De fato será vindoura a materialização do livro e sua prática enquanto gênero anunciada por Novalis. Será apenas com Mallarmé que ela se efetivará. Contudo, os românticos teóricos fizeram muito nesse sentido. Mas antes de passar ao poeta francês, tenhamos em consideração algumas singularidades mais no que tange o projeto de livro romântico.
2. 3 O método universal da biblicização no livro novaliano
Novalis diz:
Se o espírito santifica, então todo livro genuíno é Bíblia. Mas só raramente um livro é escrito em vista do livro, e se o espírito compara-se a metal nobre, a maioria dos livros são efraimitas. Sem dúvida todo livro útil tem de ser no mínimo fortemente amalgamado. Puro, o metal nobre não pode ser usado em comércio e tráfico. A muitos verdadeiros livros acontece como com os torrões de ouro da Irlanda. Servem por muitos anos apenas como pesos. 170
A metáfora mercantil diz respeito à amalgamação, ou seja, à mistura e à fusão de elementos diversos. A isso, por exemplo, corresponde o “idealismo mágico” novaliano, quer dizer, uma visão cósmica da permutabilidade que, mediante uma mística gramatical, desencadearia um processo de dissolução da realidade em poesia, da história em romance, de todas as magnitudes em filosofia. No caso do livro, a mistura de gêneros, a conhecida fusão entre poesia e filosofia vislumbrada pelos românticos teóricos, agora acrescida da
170 NOVALIS. Pólen, p. 95
ideia de história enquanto profecia e redenção, exatamente como Benjamin faria mais tarde nas teses sobre o conceito de história. O historiador é uma espécie de apóstolo, ao passo que a história torna-se um evangelho. Deixe-se transcrever tudo isso de Novalis:
Teoría de la história. La Biblia comienza magnificamente con el Paraíso, el símbolo de la juventud y termina con el Reino eterno – con la Ciudad santa. Sus dos componentes principales pertenecen también verdaderamente a la gran historia. (En cada elemento de la gran historia debe residir en cierto modo ésta simbólicamente rejuvenecida.) El comienzo del Nuevo Testamento es el segundo pecado original, el pecado original superior – y el comienzo – (un pecado que debe ser expiado) – de un período nuevo. La historia de cada hombre debe ser una Biblia – va a ser una Biblia. Cristo es el nuevo Adán. Concepto de resurrección. Una Biblia es la tarea suprema de la literatura. 1508 (IV)
(...) En la exposición es a menudo necesario que el historiador se convierta en predicador. – Porque está predicando los Evangelios, ya que toda la historia es evangelio. 1515 (V) 171
Os acréscimos correspondem à metáfora bíblica convocada a revelar a tarefa superior da literatura na modernidade. Por tudo isso, o vil metal no lugar do puro, do metal nobre. O projeto bíblico romântico lança mão desse modelo ideal de livro, retirando-o, porém, do púlpito e o inserindo na historicidade. 172 Mas, agora, teríamos de acrescentar, sem recussar a potência messiânica. É preferível a circularidade comercial ou mesmo o tráfico. Uma Bíblia – porém capaz de circular no mundo em que o sujeito percebe o divino em si mesmo através da inscrição no livro.
Também Schlegel fala da Bíblia no sentido de retirá-la de um contexto sagrado: “De muito monarca se disse: teria sido um homem bem amável como pessoa privada, só não servia para rei. Não ocorre porventura o mesmo com a Bíblia? Não é apenas um
171 NOVALIS. La enciclopedia, pp. 365-367. No o igi al: Histo[o ik]. Die Bi el f gt he li h it de Paradiese, dem Symbol der Jugend an und schließt mit dem ewigen Reiche – mit der heiligen Stadt. Auch ihre 2 Hauptbestandtheile sin ächt Großhistorisch. (In jedem Großhistorischen Gliede muß gleichsam die großb Geschichte symbolisch verjüngt liegen.) Der Anfang des neuen Testaments ist der 2te, höhere Sündenfall – und der
(Eine Sünde, was gesühnt werden muß.)
Anfang der neuen Periode: Jedes Menschen Geschichte soll eine Bible seyn – wird eine Bibel seyn. Xstus ist der neue Ada . Beg [iff] de Wie de ge u t. Ei e Bi el ist die h hste Aufga e de S h iftstelle e . I . : ___. Das Allgemeine Brouillon , p. f . ). Werke, 2.
amável livro de uso privado, que só não deveria ser Bíblia?” 173
Sobre essa secularização da Bíblia romântica de que fala Schlegel vem a calhar uma aclaração de Blanchot:
Não é porque a Bíblia é um livro sagrado que os livros que dela derivam – todo o processo literário - são marcados pelo signo teológico e nos fazem pertencer ao teológico. É, inversamente, porque o testamento – a aliança da fala – enrolou-se em livro, tomou a forma e estrutura de livro que o “sagrado” (o separado da escrita) encontrou seu lugar na teologia. O livro é de essência teológica. Eis por que a primeira manifestação (a única também que não cessa de se desdobrar) do teológico não poderia ser senão em forma de livro. De certa forma Deus não se mantém (não se torna divino) senão falando pelo livro. 174
Entretanto, a aliança dialética a propósito da relação da fala à linguagem tem de ser considerada a partir de uma reformulação ao tratarmos dos românticos teóricos. Linguagem igual a Deus – ou mesmo maior que este. Essa seria a equação pós-queda correspondente à teoria da linguagem romântica. Conscientes da expulsão do paraíso, sabem eles que já não há mais vínculo direto possível com o divino senão através da linguagem absoluta. Não é só Deus que não mais se mantém (não se torna divino) senão falando pelo livro – é a própria linguagem romântica que não se mantém (não se torna divina) senão falando pelo livro, caberia acrescentar à conclusão de Blanchot.
O projeto bíblico romântico – veremos que Novalis bem mais do que Schlegel – parece tergiversar também duas conhecidas passagens do Evangelho segundo São João [1:1-14]: “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava em Deus e o Verbo era Deus. (...). E o Verbo se fez carne e habitou entre nós.” A teoria da linguagem romântica postula algo que equivaleria a isso: a linguagem deve ser feita livro com o fim de encarnar entre nós. O livro, pois, como a carne, corpo da palavra. E no livro romântico o Deus, uno, passa a ser universal, isto é, absoluto, como a linguagem romântica. “Deus”, diz um Novalis místico, “é um conceito misto”. 175
É nesse sentido que Novalis vai então buscar uma síntese cosmológica dos céus e da terra, do texto artificial e do texto prévio da Natureza. Ma não é uma síntese pré- identitária, como, por exemplo, em Agostinho. A Cidade santa deixa de ser condomínio para entrar em conurbação com a cidade dos homens a partir de Novalis. Este as trabalha como uma borda, e não um fosso:
173
SCHLEGEL. O dialeto dos fragmentos, p. 48.
174 BLANCHOT. A conversa infinita - / A aus ia de li o , p. 247. 175 NOVALIS. La enciclopédia, p. 435 (fr. 1764).
(...) El paraíso es el ideal del suelo.
Curiosa pregunta sobre la sede del paraíso – ( sede del alma). (Un conocedor del arte debe ser en relación a las fuerzas de la natureleza, etc. – lo que un jardín botánico e inglés (imitación del paraíso) es en relación al suelo y sus productos – un suelo rejuvenecido, concentrado – potencializado.)
El paraíso está, por así decirlo, disperso por toda la tierra – y por esto es tan difícil de reconocer, etc. – hay que reunir sus rasgos dispersos
– hay que rellenar su esqueleto. Regeneración del paraíso. 176
Enciclopedística. La física transcendental es la primera, pero también la más baja de las ciencias – como la teoría de la ciencia. Eschenmeyer la llama metafísica de la naturaleza. Trata de la naturaleza antes de convertirse en naturaleza – en ese estado en que movimiento y mezcla (matéria y energia) son solamente uno. Su objeto es el caos. Transformación del caos en cielo y tierra armónicos. (Concepto de cielo. Teoría del verdadero cielo, del universo interior.) El cielo es el alma del sistema estelar – y éste, su cuerpo. 177
Cosmología. La atmósfera del universo debe ser inmanente en la
oposición. Sintesis del cielo y la tierra.178
É então na órbita dessa imanência de que fala Novalis que a linguagem romântica vislumbra uma cosmologia capaz de harmonizar o céu e a terra. É aí que linguagem romântica pode enfrentar o caos, preservar o infinito. E a Bíblia é imprescindível – conforme modelo do livro romântico, ela permite reorganizar a dispersão do paraíso na terra. Isso implica uma série de nuances que não podemos ignorar, a Bíblia romântica