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2. KURAMSAL TEMELLER VE İLGİLİ ARAŞTIRMALAR

2.4. Etkili Okulun Boyutları

2.4.2. Etkili Okulda Öğretmen

Recomecemos pela modulação tonal desta tese: o Livro – com a maiúscula mallarmeana deseja-se, sempre, a hipérbole de todos os livros –, a Bíblia, 243 o mundo, a obra e o artifício, ou melhor, a obra artificial, de ficção. Todos aqueles temas – aparecidos desde os românticos teóricos – se reinscrevem em Mallarmé. Ressaltemos, de partida, o seguimento entre Mallarmé e o desvio na mimese operada no tópos do livro no mundo por Fr. Schlegel e Novalis. E a partir daí estaremos em condições de abordar o singular da vindicação do livro na obra mallarmeana.

Veja-se a célebre proposição do Livro antes de qualquer coisa:

Une proposition qui émane de moi – si, diversement, citée à mon éloge ou par blàme – je la revendique avec celles qui se presseront ici – sommaire veut, que tout, au monde, existe pour aboutir à un livre. 244

Traduz Scheibe: Uma proposição que emana de mim – tão, diversamente, citada em meu elogio ou por censura – reivindico-a com aquelas que se comprimirão aqui – sumária quer, que tudo, no mundo, existe para culminar num livro. 245

E tradução de A. Pinheiro: Uma proposição que emana de mim – se, diversamente, citada em meu elogio ou como censura –, reivindico-a com

243 Mallarmé [Divagations, p. 248. Na tradução de F. Scheibe em Divagações, p. 165] retoma o modelo bíblico e logo o lui: ... que, plus ou moins, tous les livres, contiennent la fusion de quelques redites o pt es : e il e se ait u u – au monde, sa loi – bible comme la simulent des nations. La diff e e, d u ou age l aut e, off a t auta t de leçons proposées dans un immense concours pour le texte véridique, entre les ages dits civilisés ou – lettrés./ (...) que, mais ou menos, todos os livros, contêm a fusão de algumas repetições contadas: mesmo não haveria mais que um no mundo, sua lei – bíblia como a simulação das nações. A diferença, de uma obra a outra, oferecendo tantas lições propostas num imenso concurso para o texto verídico, entre as eras ditas civilizadas ou – let as . E out a o asi o, [Le Livre, pp. 8 (A)-9 (A)], ele faz alusão aos a alistas: Banalité! et c'est vous la masse et universal la majorité, autrement que de pauvres Kabbalistes ô confrès tantôt bafoués par une anedocode [sic] maligne: et je me félicite du coup de vent si c'est en en [sic] dernier lieu il décharge mon haussement d'épaules. / Banalidade ! e é vocês, a massa e a maioria, oh confrades, diferentes dos pobres cabalistas outrora subordinados a uma anedota maligna: e agradeço ao vento se é do vosso lado que ele descarrega em último lugar o desdém do meu levantar de o os. Fi a, po , a o de da i o ia, isto , o hega a dis uti a uest o o o algo ue lhe resultasse importante para o projeto do Livro. Arnar [The book as instrument, p. 40] sugere que a influência possível do modelo bíblico em Mallarmé teria vindo de Victor Hugo, dado que este escritor certa ez desig ou a i teg alidade de sua o a e ua to u todo i di isí el, algo p i o o posiç o de u a Bí lia, o u a Bí lia di i a as u a Bí lia hu a a . Ou seja, algo se ula uja i te ç o ada ais vislumbra senão a hipérbole, a unidade da obra literária. Por sua vez, Rancière [Mallarmé. The Politics of the Siren, p. 57] comenta que a concepção de leitura mallarmeana recupera algo da missa cristã e da prática das Escrituras Sagradas ao vislumbrar a encarnação da Palavra no corpo coletivo do leitorado presente nas e i ias de leitu a ealizadas a asa do poeta, daí o te to po ti o passa a se e te dido o o te to e ídi o a uelas i u st ias. Detalhes das e i ias de leitu a alla ea as o artigo de Pascal DURANTE. 89 rue de Rome. Le rituel dês <<Mardis>> mallarméens , pp. 113-126.

244 MALLARMÉ. Le li e, i st u e t spi ituel , p. 273. 245 MALLARMÉ. Divagações, p. 180. Tradução de F. Scheibe.

aquelas que se impresarão aqui – sumária quer, que tudo, no mundo, exista para terminar num livro. 246

O que quer dizer exatamente a formaçao do sintagma pour aboutir à que, além das traduções citadas, pode sugerir que tudo, no mundo, existe “para ir dar num”, “para desembocar num”, “para levar a um” ou “conduzir a um”, “para”, inclusive, “supurar um” livro? Esse Livro, não qualquer livro, mas um livro, é o devir de tudo aquilo que existe no mundo – inclusive do livro ele mesmo. E por isso há de querer-se absoluto. Devir, ao fim e ao cabo, do próprio mundo. Em uma palavra: é a existência do mundo que está em relação de dependência com o Livro. Não mais o contrário. Na cosmogonia absoluta do Livro, o mundo é que passa a existir para chegar até aquele.

Com esse gesto Mallarmé afilia-se à guinada mimológica do romantismo teórico. Consciente ou não, reitera-se ipsis litteris a curvatura no tópos da legibilidade do livro do mundo ao falar com marcado ceticismo da “página dos Céus e da qual a História mesma não é mais que a interpretação, vã, vale dizer um Poema, a Ode”. 247

Algo nesse sentido pode ser apreendido também da codificação metafórica com que o poeta designa o ato de escrever mediante a relação entre o preto e o branco, o claro e o escuro:

Écrire –

L’encrier, cristal comme une conscience, avec sa goutte, au

fond, de ténèbres relative à ce que quelque chose soit: puis, écarté la lampe.

Tu remarquas, on n’écrit pas, lumineusement, sur champ obscur, l’alphabet des astres, seul, ainsi s’indique, ébauché ou interrompu; l’homme poursuit noir sur blanc.

Traduz Scheibe: Escrever –

O tinteiro, cristal como uma consciência, com sua gota, no fundo, de treva relativa a que alguma coisa seja: depois, afasta a lâmpada.

Você notou, não se escreve, luminosamente, sobre campo obscuro, o alfabeto dos astros, só ele, assim se indica, esboçando ou interrompido; o homem prossegue preto sobre branco. 248

Mallarmé – conforme propõe Scherer 249– só considera a escrita a partir do contraste entre preto e branco. A tinta da qual se serve o poeta é trevas, obscuridade. Logo de encontrar

246MALLARMÉ. O li o, i st u e to espi itual , p. . T aduç o de A. Pi hei o. 247

MALLARMÉ. Divagações, p. 106.

248 MALLARMÉ. Divagations, p. 256. E a tradução de F. Scheibe, Divagações, p. 170. 249 SCHERER. Avant-propos: III – Physique du livre , p. .

aquela tonalidade de preto, precisa-se da composição de outro contraste, já na clareza de sua consciência. A mania do poeta o faz usar apenas tinta preta sobre papel claro. Para ele somente essa disposição tem um valor simbólico: a escrita é uma criação invertida do alfabeto dos astros. O poeta é inteligível, mas, se ele assim cria, às avessas, alcança-se algo mais que apenas a inteligibilidade: “a dobra de escura renda que retém o infinito”. Ou ainda, como propõe Paul Valéry: trata-se de “um novo sistema estelar no céu”, “constelação que ao fim significara algo” através do “espetáculo ideográfico”. 250

Derrida (que ignora a emergência da guinada mimológica nos românticos teóricos) atribui a Mallarmé – e somente a ele – uma subversão na tradição da mimese platônica na modernidade. 251 O argumento, para isso, vem da justaposição de um excerto do Filebo (aquela passagem já aludida em nosso capítulo primeiro quando o Sócrates platônico compara a alma humana a um livro, livro pictórico) sobre um dos curtos textos de Mallarmé presentes em Divagações – “Mímica”. 252 A proposta do filósofo franco-argelino consiste em discutir aquilo que acontece ou não “entre” literatura (escrita) e verdade (pensamento). O livro escrito (na acepção platônica) apenas copia, reproduz, imita o discurso vivo, e por isso não tem o mesmo valor que este último. Com o livro pictórico, em contrapartida, a imagem vem a ser formada antes do pensamento, assim não implicando algo da ordem do simulacro. Ou seja: a nomeação escrita excluía a mimese enquanto princípio que determina a codificação e a destribuição das semelhanças de um modelo ou arquétipo com fins definidos, de sorte que a forma da palavra, ao imitar as simples aparências da Ideia platônica, não pode equivaler à forma do pensamento uma vez estando privada do lógos.

250 VALÉRY. F ag e ts su Malla , p. 270-271.

251 DERRIDA. La diseminación, pp. 275-276-279-282-284 passim.

252Nas Notas de leitu a pa a a t aduç o de Malla [Rabiscado no Teatro, pp. 195-199] Tomaz Tadeu esclarece que a crô i a Mimique te po o jeto o libreto de pantomima Pierrot, Assassino de sua Mulher, de Paul Marguerritte, reeditado em 1886. Tadeu também traduz Marguerritte e o anexa em Notas de Leitu a , esp ie de diário da referida tradução. Caberia acrescentar, ainda, que também Deleuze e Guatarri [O que é a filosofia, pp. 86-88- ] e upe a , ais ta de, o te to Mi i ue de Divagações. O Mí i o, ago a, a uele ue o t a-efetua o a o te i e to ; ele o ep oduz o estado de oisas, o o também não imita o vivido, não dá uma imagem, mas o st i u o eito . Pa a o duo f a s, o Mí i o, justa e te po o t a-efetua o a o te i e to , to a-se pe so age o eitual . Na filosofia de Deleuze e Guata i pe so age o eitual desig a a pot ia do o eito o pla o de i a ia pa a o a o te i e to filos fi o. É u a esp ie de hete i o do fil sofo e ua to i age do pe sa e to . Segu do a di is o ue ap ese ta os a i t oduç o, o pe so age o eitual est pa a a filosofia assi o o a figu a est ti a esta pa a a a te, se do, esse último caso, não mais a potência dos conceitos, mas dos afectos e dos perceptos que operam o plano de composição das artes. Trata-se, enfim, de dois recortes possíveis com que a arte e a filosofia, mediante as respectivas especificidades dos planos, viriam a enfrentar o acaso e o caos. Sugerimos a leitura de PACHECO. Personagens conceituais. Filosofia e arte em Deleuze,

A abordagem derridiana enfatiza a autorreferencialidade como gesto transgressor de um utilitarismo da linguagem em Mallarmé. Por outras palavras: está ausente do texto de Mallarmé uma unidade temática ou de sentido total, de modo que o texto não mais se dá à expressão ou à representação de alguma verdade que viria a difratar-se ou reunir-se com a literatura. Nada, ali, se destina a uma transmissão gramatical ou histórica da verdade. Para Derrida, qualquer texto de Mallarmé está organizado de modo que seus pontos mais fortes permaneçam indecidíveis. O significante, desse modo, não se deixa penetrar, perdura, resiste e se faz notar. Daí que a disseminação – espécie de regime de análise com que Derrida pretende escapar à falibilidade hermenêutica e cujo exemplo mais bem acabado ele encontra no jogo sintático mallarmeano – tende a substituir a polissemia. 253

Mas diremos que tal abordagem cria algo questionável ao propor a subversão da mimese platônica em Mallarmé. Isso decorre da pretensão derridiana a respeito do

descentramento da “presença do pai”, a razão atribuída ao fonocentrismo na cultura ocidental emergente da antiguidade clássica sob a forma da “palavra originária” que, apenas proferida, tem de se dissipar. Derrida entende que acontece à palavra escrita algo equivalente ao que acontece à palavra oral – tanto uma quanto a outra são incapazes de assegurar a não dissipação da palavra originária, a revelação da verdade. A análise feita do significante hímen, disposta segundo as peculiaridades da sintaxe mallarmeana, exemplifica, para Derrida, a impossibilidade de regresso à unidade de sentido na cultura fonográfica ocidental. Por isso, logo de partida a disseminação afirma a geração sempre dividida do lógos – e por isso a necessidade de abandoná-lo antecipadamente, visto ser irrecuperável o seu sentido original. 254

Até aqui nada muito grave. Resulta problemático, no entanto, o que vem dito sobre a “subversão mimética” em Mallarmé. A mimese platônica condena a escrita em função da

Ideia – conceito platônico que define a propriedade de uma coisa que não seja outra coisa, isto é, a coisa mesma enquanto estado de pureza. Daí que, para Platão, a Ideia não pode ser convertida em escrita, dado que tal transposição declina em simulacro. A escrita, nesse caso, é uma espécie de pretendente indigno da Ideia. É por isso que Rancière pondera quanto ao tal desvio mimético, e propõe que o poema, em Mallarmé, já não imita mais um modelo, e sim traços perceptíveis a propósito do movimento da Ideia. 255 Tal aclaração é

253

DERRIDA. La diseminación, p. 393. 254 DERRIDA. La diseminación, p. 401. 255 RANCIÈRE. The politics of the siren, p. 52.

crucial para nós; ela permite particularizar a relação entre o pensamento e a oralidade, mais importante aqui, entre a imagem e a escrita, e, por fim, entre o dizível e o visível. 256 Isso fica comprometido na abordagem de Derrida, visto que ele ignora o fato de a escrita mallarmeana (pelo menos em Um lance de dados) ser capaz de uma expressão da Ideia em dimensão também visual, imagética. Acredita-se que agora o nosso leitor entenderá de uma vez por todas a opção por inflexão mimológica em lugar de uma modulação mimética coforme vem sobrescrito desde o capítulo primeiro.

Mallarmé de fato opera um desvio na mimese platônica ao propor que o Mímico leva a cabo um “soliloque muet que, tout du long à son àme tient et du visage et desgestes

le fantôme blanc comme une page pas encore écrite [solilóquio mudo ao longo de todo o qual mantém sua alma, e pelo rosto e pelos gestos, o fantasma branco como uma página ainda não escrita]”. 257

Ele, porém, não quer desvincular a pensamento da palavra, a exemplo do que décadas depois vislumbraria Artaud mediante gesto neoplatônico ao reivindicar o “pensamento da carne”, quer dizer, prévio à palavra e inseparável daquele que já a perdeu. 258 Mallarmé, trata-se do contrário, identifica no Mímico uma espécie de escrita corporal, uma grafia performativa que já diga o pensamento e a si mesma a partir de um sopro único da mimese:

Voice - “La scène n’illustre que l’idée, pas une action affective, dans un hymen (d’où procède le Rêve), vicieux mais sacré, entre le désir

et l’accomplissement, la perpétration et son souvernir : ici devançant, là

remèmorant, au futur, au passe, sous une apparence fausse de présent. Tel opère le Mime, dont le jeu se borne à une allusion perpétuelle sans briser la glacê : il installe, ainsi, un milieu, pur, de fiction.” Moins

qu’un millier de lignes, le ròle, qui le lit, tout de suite comprend le règles

comme placé devant un tréteau, leur dépositaire humble. Surprise,

256 Nossa argumentação aqui toma por base a hipótese apresentada por Rancière em O destino das imagens, pp. 22-28. Segundo o autor, um novo regime estético das artes foi constituído no século XIX, fazendo com que a imagem não seja mais a expressão codificada de um pensamento ou de um sentimento. A imagem deixa de ser um duplo ou uma tradução e passar a ser a maneira como as próprias coisas falam e se calam. O projeto desse novo regime teria assumido, segundo Rancière, duas grandes formas, algumas vezes misturadas uma à outra: a arte pura, concebida como arte cujas perfomances não fariam mais imagens, mas realizariam diretamente a ideia em uma forma sensível autossuficiente; e a arte que se realiza ao suprimir-se, uma arte que extingue o distanciamento da imagem para identificar seus procedimentos às formas de uma vida inteiramente em ato, e que não separa mais a arte do trabalho ou da política. Daí teria decorrido uma mediação cujo sentido seria a realização imediata de identidade entre ato e forma. Mallarmé, portanto, estaria inclinado por essa primeira forma, conforme podemos ver nas ideias de intransitividade do espetáculo do mímico, na figura da bailarina que, já veremos, não é exatamente uma mulher, e sim apenas o traço e a forma de uma ideia.

257 MALLARMÉ. Divagations, p. 186. E a tradução de F. Scheibe, Divagações, Mi o p. . To az Tadeu traduz assim em Mí i a , p. : solil uio udo ue, o te po todo o sua al a suste ta pelo osto e também pelos gestos o fantasma bran o o o u a p gi as ai da o es ita .

accompagnant l’artifice d’une notation de sentiments par phrases point

proférées – que, dans le seul cas, peut-ètre, avec authenticité, entre les feuillets et le regard règne un silence encore, condition et délice de la lectura. 259

Traduz Scheibe: Eis aqui – “A cena não ilustra mais que a ideia, não uma ação efetiva, num hímen (de onde procede o Sonho), vicioso mas sagrado, entre o desejo e a realização, a perpetração e sua lembrança: aqui se adiantando, lá rememorando, no futuro, no passado, sob uma aparência falsa de presente. Tal opera o Mímico, cujo jogo se limita a uma alusão perpétua sem quebrar o espelho: ele instala, assim, um meio, puro, de ficção”. Menos que um milhar de linhas, o papel, quem o lê, logo em seguida compreende as regras como situado diante de um palco, seu depositário humilde. Surpresa, acompanhando o artifício de uma anotação de sentimentos por frases de nenhuma forma proferidas

– que, no único caso, talvez, com autenticidade, entre as folhas e o olhar reine

um silêncio ainda, condição e delícia da leitura.

E traduz Tomaz Tadeu: Eis aqui – “A cena não ilustra senão a ideia, não uma ação efetiva, num hímen (de onde procede o Sonho), vicioso mas sagrado, entre o desejo e a consumação, a perpetração e a sua lembrança: aqui antecipando, ali rememorando, no futuro, no passado, sob uma aparência falsa de presente. Assim opera o Mímico, cuja atuação limita-se a uma alusão perpétua sem quebrar o pespelho: ele instala, assim, um entorno, puro, de ficção”. Menos de um milhar de linhas, o papel, quem o lê, logo compreende as regras como se colocado à frente de um tablado, seu depositário humilde. Surpresa, acompanhando o artifício de uma notação de sentimentos por frases não proferidas – que, no único caso, talvez, com autenticidade, entre as folhas e o olhar reina um silêncio ainda, condição e delícia da leitura. 260

Mallarmé atém-se à particularidade performativa do Mímico, algo capaz de levar a cabo “o artifício de uma anotação de sentimentos por frases de nenhuma forma proferidas”. Resumidamente, portanto: o desvio efetivado por Mallarmé na mimese platônica passa obrigatoriamente pela guinada romântica no tópos do livro do mundo, bem como pela condição de linguagem moderna trazida no “Mónologo” novaliano. Basta levarmos em consideração a noção de poesia-pensamento dos irmãos Schlegel, isto é, a ideia de que a crítica (o pensamento) atua sobre a composição da obra (a poesia). Não é, portanto, uma exclusividade mallarmeana, como subentende Derrida. Aliás, a hipótese derridiana resulta insuficiente ao generalizar a poiésis mallarmeana sem levar em consideração a possibilidade de uma escrita visual, talvez o maior logro daquela obra, como já havia percebido Valéry muito antes...

A abordagem da questão do desvio mimológico efetivado na modernidade torna-se mais produtiva para nós quando levamos em consideração o fato de a mimese platônica ter sido desencaminhada – de forma inclusive sistematizada a ponto de redefinir a linguagem

259 MALLARMÉ. Divagations, p. 187. E a tradução de F. Scheibe, Divagações, p. 130. 260 MALLARMÉ. Rabiscado no teatro, p. 57. Trad. de Tomaz Tadeu.

moderna e, com ela, o conceito de literatura – com os fundadores da revista Athenaeum. Por tudo isso, somos mais simpáticos a interpretá-la como algo constituído no contexto dos Novecentos, quando irrompe a “crise de representação” da episteme moderna de que se ocupou detidamente Foucault. 261

Tanto os irmãos Schlegel e Novalis, quanto Mallarmé, o que todos eles fazem com a escrita consiste em uma revolta contra a tendência secular acerca de como tornar a linguagem objeto objetificável, isto é, algo perpassado pelo saber. Separam, assim, as palavras das coisas, mas não exatamente como a “ordem” e o “quadro” dos demais saberes da modernidade. Eles contribuem de maneira decisiva para a emergência de uma espessura da linguagem então contrária a todos os outros discursos vigentes àquele momento (situado na segunda metade do século XVIII e início do séc. XIX) a partir do qual a representação se liberta da relação de comentário e semelhança entre realidade e significante, daí já podendo a linguagem ser pura apresentação e crítica. Contudo, essa outra formação discursiva – que retira a linguagem para fora do campo do saber e do pensamento – não a exime das condições de conhecimentos intransitivos. 262 Para Foucault é precisamente essa inusitada situação que levará a uma “subjetividade escriturante” assumida pela Palavra, a partir daí encontrando-se dissolvido o campo homogêneo das representações ordenáveis, campo este característico da episteme clássica. E dessa inusual definição de linguagem emergente naquele momento a literatura surge como um lógos que é também pathos. É por isso que Foucault a chamara de “linguagem segunda”. 263

É lamentável, contudo, que Foucault tenha-se ocupado dos românticos teóricos e de Mallarmé com tão notável ligeireza ao discutir a reconstituição da linguagem moderna enquanto literatura. O detalhamento específico dos referidos casos está ausente de sua obra. Mallarmé chega a ser citado reiteradamente quando se fala da literatura enquanto linguagem segunda. Mas permanece apenas como exemplum; nunca vem a ser objeto da discussão. Fr. Schlegel aparece apenas como filólogo. 264 E Novalis, esse sim, é

Benzer Belgeler