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Karzai Döneminde Afganistan İran Kültürel İlişkileri

BÖLÜM 3: KARZAİ DÖNEMİNDE AFGANİSTAN–İRAN İLİŞKİLERİ

3.2 Karzai Döneminde Afganistan –İran İlişkileri

3.2.6. Karzai Döneminde Afganistan İran Kültürel İlişkileri

Em um primeiro momento, conforme já discutimos anteriormente, poderíamos inferir que a insatisfação econômica e a carestia de vida foram o leitmotiv da onda de greves de 1917-1921174. Porém, caso fosse assim, porque o movimento não cedeu ao avanço dos salários e da diminuição abrupta do desemprego a partir de 1919?

Poderia se argumentar, ao contrário, que justamente com a melhoria do desempenho econômico e com altos níveis de ocupação – depois de um longo período de penúria -, cria-se um ambiente em que as insatisfações econômicas se combinam com uma melhor posição de negociação, tanto pelo fato de os patrões terem maiores dificuldades de encontrar mão-de- obra, quanto pelos trabalhadores conseguirem encontrar outro emprego facilmente – ou mesmo empregos temporários que possam os financiar durante as mobilizações. Seguindo este raciocínio, também os patrões estariam menos dispostos a ver sua produção paralisada em um momento de grande atividade e enormes lucros, o que os levaria a aceitar mais facilmente as exigências dos operários.

porque “(...) somente se tratou de demonstrar o espírito de classe em um grandioso ato de solidariedade”, Cf. CMDNT, Ano II, Nº 20, Agosto de 1919, pg. 306.

174Edgardo Bilsky afirma: “(...) A classe operária que suportou a crise e uma importante redução de seu nível de vida sob a justificativa da guerra, vê relegadas ao último plano suas reivindicações no momento em que tudo parecia indicar que devia coletar os frutos do melhoramento geral da situação”, BILSKY, La Semana..., pg. 33.

No entanto, por que o início em 1917 e não em 1918 quando a combinação entre o ponto máximo da pauperização e do crescimento econômico ocorreram? O ano de 1917 é o ápice da crise enfrentada pelo país no período, com o menor desempenho tanto para o PIB agropecuário quanto para o industrial. É também o auge do desemprego, penúltimo degrau antes de atingir o cenotáfio do salário e o zênite dos preços.

Conforme anunciado na introdução deste capítulo, Di Tella e Zymelman confirmam este panorama ao afirmar que “A crise de 1917 foi excepcionalmente aguda, de intensidade comparável à crise de 1929, mesmo que com um caráter totalmente distinto”. Porém - prosseguem - no último trimestre de 1917 “o país já havia passado pela pior parte de sua depressão e se achava definitivamente em uma fase de recuperação (...) A recuperação argentina se produziu como consequência dos melhores preços dos produtos agrícolas e pecuários”175.

Foi a recuperação de fins de 1917 que propiciou imediatamente uma melhor posição para os trabalhadores na negociação por salários com os patrões? Para tanto, teríamos que aceitar que as condições e projeções econômicas fossem informações compartilhadas abertamente pelas partes em pugna. Outra possibilidade seria a de que a maturação dos novos investimentos responsáveis pelo aumento de produção gerasse um efeito imediato, ou fossem anunciados aos quatro ventos pelos patrões. Se assim fosse, no campo de batalha entre salário e lucro - o chamado “conflito distributivo” - porque uma das partes pronunciaria em alto e bom som sua desvantagem momentânea para o conflito?

Se nos debruçarmos sobre a estatística setorial das greves, ou seja, por ramo da indústria e comércio e o respectivo número de greves e grevistas, podemos encontrar um caminho para a resolução dos problemas relativos às greves de 1917. Dos 136.062 trabalhadores que tomaram parte nas 138 greves daquele ano, 100.284 eram trabalhadores do ramo classificado pelo DNT como transportes e foram responsáveis por 27 greves.

A amplitude da categoria transportes traz uma série de problemas. Esta engloba duas categorias muito distintas – ferroviários e trabalhadores marítimos. Os primeiros desempenham majoritariamente funções qualificadas, estavam dispersos pelos mais de 30.000 quilômetros de ferrovias, tem um dos sindicatos mais antigos que nunca se interessou em se filiar às federações operárias – La Fraternidad - e era muito próximo ao Partido Socialista, principal inimigo eleitoral do governo da Unión Cívica Radical em Buenos Aires. Já os marítimos reuniam uma maior heterogeneidade no que diz respeito à qualificação, estavam

muito concentrados em Buenos Aires, sua jovem organização, a Federación Obrera Maritima (FOM), filiada à FORA IXª, era extremamente combativa, além de ser alvo preferido do governo Radical para sua política trabalhista.

Porém, se a classificação apresenta esses problemas, é verdade também que estas são as categorias mais sensíveis ao desempenho econômico do país, visto que os ciclos econômicos se traduzem imediatamente no aumento ou diminuição de horas de trabalho, salários e emprego para estes trabalhadores. Além de possuírem o privilégio de serem ligados à atividade econômica mais dinâmica do país, estes contavam com os ciclos agrários – época das colheitas, por exemplo – como vantagem para se posicionar frente aos patrões.

Foi o que ocorreu na greve dos pilotos de rebocadores em novembro de 1916 e que Bilsky e David Rock apontam como um dos antecedentes da onda de greves que assolou o país a partir de 1917176. A greve, que reivindicava melhores salários, foi declarada na primeira semana dos embarques da colheita, impedindo que os grandes navios transatlânticos pudessem entrar nos portos. Foi o primeiro movimento relevante no porto desde 1912 – ainda sob a influência da repressão desencadeada depois de 1910 – e o primeiro exitoso realizado pela FOM, que na época do início da greve já havia conseguido filiar um quarto dos trabalhadores marítimos qualificados.

Outra novidade relativa a esta greve, e que discutiremos mais detidamente quando analisarmos os sucessos ocorridos entre 1919 e 1921, foi a estratégia do governo de Hipólito Yrigoyen (Unión Cívica Radical) em relação ao movimento grevista. Pela primeira vez, o Estado argentino interviu em uma greve a favor dos trabalhadores. O chefe de polícia formulou os termos do acordo, assim como uma delegação de trabalhadores foi recebida na Casa Rosada pelo presidente. Além de inúmeras reivindicações relativas a salário, horas de trabalho, feriados, etc., o movimento terminou em janeiro de 1917 com uma significativa vitória para os trabalhadores, agora relativa à organização: caberia a FOM. nomear os trabalhadores que formariam as tripulações dos barcos177.

A partir desse movimento da FOM, inúmeras greves começaram a ser declaradas. Também em março daquele ano os lixeiros da cidade de Buenos Aires entraram em greve reivindicando aumento de salários. Cabe lembrar que, com a crise nas finanças do Estado devido à redução das importações, estes trabalhadores tiveram seus salários rebaixados ainda

176BILSKY, La Semana..., pp. 33 e 34 e ROCK, David, El Radicalismo argentino, 1890-1930, Buenos Aires: Amorrortu Editores, 1977, 142-143.

177 CARUSO, Laura G., Los trabajadores marítimos del Puerto de Buenos Aires: condiciones laborales,

organización sindical y cultura politica,1890-1920, Tese (Doutorado em História) – Facultad de Filosofia y Letras Universidad de Buenos Aires, Buenos Aires, 2012, pg. 261.

na administração anterior. A greve foi brutalmente reprimida e apesar de haver demonstrado a “outra face” da política trabalhista do governo Radical, deve-se notar que a intervenção da FORA IXª, que em reunião com o presidente no dia 28 daquele mês ameaçou declarar greve geral caso o governo não solucionasse o conflito, terminou por garantir a reincorporação dos grevistas demitidos, assim como a realocação de muitos trabalhadores nos planos de obras públicas que à época vinham sendo elaborados178.

As companhias ferroviárias também foram enormemente afetadas pela diminuição da atividade econômica. A arrecadação bruta destas empresas reduziu-se de 140 milhões de pesos ouro em 1913 para 118 milhões em 1917. A tonelagem transportada despencou, assim como os dividendos pagos pelas companhias sobre suas ações ordinárias. A redução de pessoal foi acompanhada pela redução de salários já a partir de 1913179. Porém, em junho de 1917, quando já começava a se esboçar a recuperação do país, se iniciaram as greves parciais de ferroviários que em setembro se transformaram em greve geral, englobando também os telegrafistas e os trabalhadores das oficinas mecânicas reunidos na recém criada FOF – Federación Obrera Ferroviaria, de orientação Sindicalista Revolucionária e filiada à FORA IXª.

O crescimento da FOF e a sua aproximação da La Fraternidad durante todo ano possibilitou que em 22 de setembro, também se utilizando da estratégia de declarar greve quando se aproximavam as colheitas, fosse declarada a greve geral que paralisou o sistema ferroviário do país por três semanas. A ameaça do governo de intervir militarmente terminou por empurrar a FOM para a greve e obrigou o governo a negociar com os ferroviários180.

Em novembro foi a vez dos trabalhadores dos frigoríficos de propriedade estadunidenses se lançarem em greve. Brutalmente reprimidos e abandonados pela FORA IXª, estes trabalhadores estavam começando a se organizar, eram em sua grande maioria imigrantes recém-chegados dos Balcãs, sem direitos políticos e com pouca influência sobre as federações sindicais. A partir de 1918 o descontentamento se espalhou por todos os setores da classe operária181:

178 ROCK, op. Cit. pp. 145-146. 179 Ibidem, pp. 147-149.

180 Ibidem, pp. 155-160 e BILSKY, La Semana..., pg. 34. 181 ROCK, pp. 162-163 e BILSKY, La Semana... pp. 36-37.

Tabela 2.9: Greves e grevistas na cidade de Buenos Aires por ramo de atividade, 1916- 1921182.

Indústrias 1916 1917 1918

Greves Grevistas Greves Grevistas Greves Grevistas

Alojamento e Comida 4 2.901 8 1.308 16 3.515 Química Têxtil 3 120 2 368 3 367 Vestido 25 838 17 618 40 33.249 Madeira 17 3.375 13 2.613 30 5.329 Papel e imprensa 3 447 8 634 8 408 Metalúrgica 4 114 15 4.083 23 4.422 Máquinas e aparelhos - - - -

Vidro, gesso e terra 1 18 - - - -

Construção 6 432 9 2.498 18 11.677 Transportes 7 4.527 27 100.284 38 36.704 Couros - - 19 6.139 6 345 Diversas 10 11.549 20 17.517 14 37.026 Total 80 24.321 138 136.062 196 133.042 Industrias 1919 1920 1921

Greves Grevistas Greves Grevistas Greves Grevistas

Alojamento e Comida 46 11.657 37 8.525 17 8.367 Química 13 2.448 3 1.190 - - Têxtil 24 5.788 6 805 1 26 Vestido 78 47.971 51 4.527 20 13.211 Madeira 30 8.016 24 4.476 7 565 Papel e imprensa 18 6.736 5 262 6 411 Metalúrgica 48 19.167 30 5.483 10 710

Máquinas e

aparelhos - - - -

Vidro, gesso e terra - - - - - -

Construção 20 5.818 15 10.473 3 10.581

Transportes 48 36.895 24 46.258 16 55.639

Couros 7 2.078 3 166 - -

Diversas 35 162.393 8 51.850 6 50.304

Total 367 308.967 206 134.015 86 139.814