2.1. MAX WEBER’E GÖRE DİN, AHLAK VE KAPİTALİZM
2.1.7. Karl Marx ve Max Weber
É somente em Autrement qu´être que a presença do terceiro ao lado do próximo, romperá a, por assim dizer, lisura da relação face a face: Lévinas se refere à diferença entre misericórdia ou caridade e justiça, diferença esta ignorada por Totalité et Infini, como se pode ler no prefácio à edição alemã:
“Não há (...) nenhuma diferença terminológica entre misericórdia ou caridade, fonte de um direito de outrem passando antes do meu, por um lado, e a justiça, por outro, no qual o direito de outrem – mas obtido após inquérito e julgamento – se impõe antes daquele do terceiro. A noção ética geral de justiça é evocada nas duas situações indiferentemente.” (TI II)
Jacques Rolland aponta que o mesmo não acontece em Autrement qu´être, na qual a presença do terceiro ao lado do outro implica em uma “correção de trajetória”, pois a situação real da alteridade não é um face a face entre dois, mas implica sempre um terceiro. A entrada do terceiro, que está ao lado do próximo, e que também é meu próximo, mas também próximo de meu próximo, introduz uma nova situação, conflitante em relação à primeira situação do face a face. Na caridade, devo tudo a outrem e excluo todos os outros; mas a situação real não é dual: devo eu falar do mesmo modo ao terceiro que também é meu próximo? E o que é o próximo em relação ao terceiro? A multiplicidade me conduz da caridade à justiça: a presença do terceiro junto ao outro requer justiça, e portanto, tematização e sincronia, diz Lévinas:
“(...) na provocação anárquica que me ordena para o outro, impõe-se a via que leva à tematização e a uma tomada de consciência: a tomada de consciência é motivada pela presença do terceiro ao lado do próximo aproximado; o terceiro também é aproximado: a relação entre o próximo e o terceiro não pode ser indiferente a mim que me aproximo. É preciso uma justiça entre os incomparáveis (...); é preciso tematização, pensamento, história e escrita. Mas é preciso compreender o ser a partir do outro do ser. Ser, a partir da significação da aproximação, é ser com outrem, para o terceiro ou contra o terceiro; com
outrem e o terceiro contra si (...) Neste desinteressamento – quando, responsabilidade pelo outro, ele é também responsabilidade pelo terceiro – se desenham a justiça que compara, reúne e pensa, a sincronia do ser e a paz.” (AE33)202
Eis nos de volta, com o tema da justiça, ao âmbito do dito e da ontologia. Como entender este retorno do dito ou esta “repetição da ontologia”, para usar uma expressão de Ricoeur (OUT50)?203 Ao lado do próximo também está o distante. Estes dois planos, o da proximidade, da misericórdia ou caridade, e o do terceiro ou da justiça, embora sejam absolutamente diferenciados são, no entanto, contemporâneos, diz Jacques Rolland, este comentador exaustivamente chamado aqui. A gravidade da questão é reconhecida pelo próprio Lévinas que, em determinado momento da entrevista concedida a Philippe Nemo, confessa:“Receava uma objecção muito mais grave: Como é possível haver uma justiça?” (EI81), e responde a uma questão que nem sequer lhe foi colocada:
“Respondo que é o facto da multiplicidade dos homens e a presença do terceiro ao lado de outrem que condicionam as leis e instaura a justiça. Se estou sozinho perante o outro, devo-lhe tudo; mas há o terceiro. Saberei eu o que é o próximo relativamente ao terceiro? Saberei eu se o terceiro está de acordo com ele ou é sua vítima? Quem é meu próximo? Por conseqüência, é necessário pesar, pensar, julgar, comparando o incomparável. A relação interpessoal que estabeleço com outrem, também a devo estabelecer com outros homens; logo, há necessidade de moderar este privilégio de outrem; daí a justiça. Esta, pelas instituições, que são inevitáveis, deve ser sempre controlada pela relação interpessoal inicial.” (EI81)
A gravidade da questão não diz respeito apenas ao fato de que além da caridade, há a justiça, mas de que estas são contemporâneas. É assim que a “correção de trajetória” que complexifica a relação face a face, introduz em seu seio, uma contradição: “O terceiro introduz uma contradição no Dizer cuja significação caminhava em sentido único”
202 “(...) dans la provocation anarchique qui m´ordonne à l´autre, s´impose la voie qui mène à la thématisation
et à une prise de conscience: la prise de conscience est motivée par la présence du tiers à côté du prochain approché; le tiers aussi est approché; la relation entre le prochain et le tiers ne peut être indiferente à moi qui approche. Il faut une justice entre les incomparables (...); il faut thématisation, pensée, histoire et écriture. Mais il faut comprendre l´être à partir de l´autre de l´être. Être, à partir de la signification de l´approche, c´est être avec autrui pour le tiers ou contre le tiers; avec autrui et le tiers contre soi. (...) En ce désintéressement – quand, responsabilité pour l´autre, il est aussi responsabilité pour le tiers – se dessinent la justice qui compare, rassemble et pense, la synchronie de l´être e la paix.”
203 Este é o tema privilegiado de Ricoeur em Outramente. Leitura do livro Autrement qu´être ou Au-delà de
l´Essence de Emmanuel Lévinas. Reservo o exame mais detalhado dos interessantes argumentos de Ricoeur para o capítulo sobre o confronto entre ambos.
(AE245) O que significa dizer que a incomensurabilidade entre Dito e Dizer se torna comensurável. Como compreender tal paradoxo?
O paradoxo não se resolve, mas produz efeitos. Em primeiro lugar, não é sem alívio que se pode acompanhar Lévinas na idéia de que o possível diálogo entre dizer e dito chama uma moderação: “moderar este privilégio de outrem”, ou em termos mais hiperbólicos, parar a sangria desatada da “hemorragia pelo outro” (AE119).
Em segundo lugar, Lévinas assinala que é propriamente esta situação – a necessidade do terceiro e da justiça - que faz nascer a consciência. O saber não é relação primeira, mas nasce na proximidade204.
“Se a proximidade me ordenasse apenas a outrem, ‘não haveria problema’ – em nenhum sentido, mesmo o mais geral, do termo. A questão não teria nascido, nem a consciência nem a consciência de si. A responsabilidade para o outro é uma imediatidade anterior à questão: precisamente proximidade. Ela é perturbada e se faz problema com a entrada do terceiro.” (AE245)205
Em terceiro e último lugar, Lévinas – e esta me parece ser sua contribuição essencial206 - a partir de um comentário acerca de uma página do Talmud (Tratado Nidda, folio 70b), coloca em relação caridade e justiça, a partir do trinômio: caridade-justiça- caridade que, para Jacques Rolland, parece ser, justamente, a seqüência que marca o ritmo de Autrement qu´être:
“‘Antes da sentença’, isto designa o momento no qual se faz a deliberação, no qual se faz justiça, e este momento implica o esquecimento da identidade dos rostos: implica uma norma e o respeito desta norma. ‘Após a sentença’, isto designa a caridade necessária à justiça (e por conseguinte dela distinta), a caridade que só reconhece rostos, uns (unicidades) Mas isto por sua vez
204 Esta questão do “nascimento latente do saber na proximidade” (AE245) é essencial para Ricoeur . Cf.
capítulo sobre o confronto entre ambos.
205 “Si la proximité ne m´ordonnait qu´autrui tout seul, ‘il n´y aurait pas eu de problème’ – dans aucun sens,
même le plus général du terme. La question ne serait pas née, ni la conscience, ni la conscience de soi. La responsabilité pour l´autre est une immédiatité antérieure à la question: précisément proximité. Elle est troublée et se fait problème dès l´entrée du tiers.”
206 Particularmente interessante me parece ser a idéia de que por detrás da excelência do Rosto, uma outra
sabedoria lógica, que nos traz a Grécia, introduz a unidade de gênero, a justiça entre os incomparáveis. Tal justiça, exercida pelo Estado, pode sofrer rupturas. Neste momento, surge a função profética, ou seja, a consciência inspirada pela caridade. É preciso, diz Lévinas, admitir na vida política, esta função profética. E... surpresa: tal função profética nada tem de bíblico, mas se exerce na literatura ou na imprensa: profecia como poética e denúncia! Cf. a entrevista com Catherine Chalier. Disponível em <http//vídeo.google.fr>
significa que a justiça só é justiça – só é justiça humana- se ela provem da caridade, se ela é desde já in-formada de e por caridade.”207
A justiça é freqüentemente representada por uma figura com os olhos vendados, diz-se que ela é cega: isto é, implica precisamente “o esquecimento da identidade dos rostos”, ou a ignorância da presença de Outrem. Momento necessário da convivência entre os homens, que exige a regulação através do nomos, da regra, da lei. Mas tal justiça, diz Lévinas, só é verdadeiramente humana, se ela atravessou a caridade e a misericórdia, isto é, se, em sua necessária cegueira, ela se abre para a santidade. Não se pode evitar a ontologia, mas esta, doravante, não pode ser concebida sem a ética. Daí o título de um dos últimos livros de Lévinas: “Ética como filosofia primeira”: último livro no qual, a exemplo do primeiro, De l´Évasion, o que se põe em questão é o ser. Não mais para buscar uma saída do ser, mas para se perguntar pela justificativa do ser. “Questão do sentido do ser – não a ontologia da compreensão deste verbo extraordinário, mas a ética de sua justiça. Questão por excelência ou a questão da filosofia. Não mais: porque o ser ao invés do nada, mas como o ser se justifica” (EPP109). E precisamente, o ser só se justifica a partir de sua saída, isto é, da presença, ou melhor, da “revelação de outrem”208, este “outrem, o Transcendente”209, pelo qual Deus vem à Idéia.