1.3. İKTİSADİ KAVRAMLAR
1.3.4. Kapitalizm
Talvez valha a pena mencionar o histórico deste trabalho que marcou uma virada na vida e obra de Lévinas, não somente permitindo que este tenha acesso a Universidade, como também tornando-o conhecido no mundo das letras filosóficas. Este prestígio – pois a fama veio muito mais tarde – não se deu sem percalços e hesitações. Segundo conta seu filho Michael em depoimento a Malka, este livro quase foi rasgado pelo autor, por ter sido recusado pelo editor da Gallimard, Brice Parrain 84. Foi Jean Wahl, mais uma vez, que prestou socorro a Lévinas, aconselhando-o a não publicar, e a apresentá-lo thèse d´État ou exame de Estado, isto é, como tese para poder dar aula na universidade. Na banca, o comparecimento de grandes figuras, tais como Jankelevitch, Gabriel Marcel, Blin, Jean Wahl, Blanchot e Ricoeur. Este último, segundo Lescourret, teria comentado: “De agora em diante, deve-se contar com Lévinas”85. E parece que de fato, Ricoeur não esqueceu Lévinas, passando a convidá-lo freqüentemente: em conferências, nos colóquios Castelli, ou nos encontros com o Papa João Paulo II, em Castel Gandolfo, para dar aulas em Nanterre, etc.
Também foi através de Ricoeur que Derrida conheceu Totalité et Infini86, acontecimento decisivo que não somente contribuiu para a divulgação da obra de Lévinas como também foi essencial na trajetória deste: o artigo “Violence et Métaphysique. Essai sur la pensée d´Emmanuel Lévinas”87 foi resultado de uma leitura atenta e crítica de
Totalité et Infini, e parece ter sido em parte responsável pelo ‘salto’ operado entre esta obra
83 Como indica o título, não se tratará aqui de abordar todos os temas presentes em Totalité et Infini. Deixando
propositadamente de lado as análises fenomenológicas da morada, da interioridade e daquilo que Lévinas denomina “economia”, me concentrarei nos trechos relativos ao Rosto e à Ética (p.173 a 197), os dois conceitos fundamentais inaugurados nesta obra, não sem fazer algumas incursões no trecho intitulado “Metafísica e Transcendência” (p.21a39), na medida em que, como se verá, a metafísica para Lévinas está indissoluvelmente ligada à ética, e a noção de Rosto não pode ser pensada sem a de transcendência.
84 Cf. Salomon Malka. Emmanuel Lévinas. La Vie et la Trace, op.cit., p.271 85 Marie-Anne Lescourret. Emmanuel Lévinas, op.cit., p.218
86 É o próprio Derrida que lembra o acontecido in: François Dosse. Paul Ricoeur. Les sens d´une vie, op.cit.,
p. 256. Dosse lembra também que, na ocasião da morte de Lévinas, Derrida pronunciou um elogio fúnebre, o que o reaproximou de Ricoeur (p.751). Tal elogio foi publicado e traduzido em português: Jacques Derrida. Adieu à Emmanuel Lévinas. Paris: Éditions Galilée, 1997. Tradução brasileira de Fábio Landa e Eva Landa. Adeus a Emmanuel Lévinas. São Paulo: Perspectiva, 2004. Acerca das relações entre Derrida e Ricoeur , ver também o belo artigo de Jacques Derrida. “La Parole. Donner, Nommer, Appeler.” In: Cahiers de L´Herne. Paul Ricoeur. Paris: Éditions de l´Herne, 2004, p.19 a 25.
87 Cf. Jacques Derrida. “Violence et Métaphysique. Essai sur la Pensée d´Emmanuel Lévinas”. In: L´Écriture
de 1962 e a de 1974: Autrement qu´être. Lévinas se referiu a este artigo como um “assassinato sob narcose”88. Vale aqui igualmente evocar seu espirituoso comentário dirigido ao próprio Derrida: “No fundo, você me recrimina por ter tomado o logos grego, como se toma um ônibus, para descer”89.
Mas como é totalmente injusto iniciar a apresentação de uma obra a partir das críticas a ela dirigida, deixo de lado, por ora, o artigo de Derrida para me concentrar no próprio texto de Lévinas, quer dizer, em primeiro lugar pensar acerca de seu elucidativo título: Totalidade e Infinito. Ensaio sobre a Exterioridade.90
Como nota Jacques Rolland, o “e” que liga Totalidade a Infinito, não significa uma conjunção, mas marca uma oposição: à Totalidade, Lévinas opõe o Infinito91, retomando a crítica à noção hegeliana de totalidade, que ele encontra “pela primeira vez” (EI67) em
Stern der Erlösung de Franz Rosenzweig, autor “demasiadas vezes presente neste livro para ser citado” (TI15)92. Já nas primeiras páginas desta obra monumental, escrita no fronte balcânico, na Primeira Guerra Mundial, sob a forma de cartões postais que Franz Rosenzweig enviava à sua mãe, pode-se ler:
“Não queremos uma filosofia que se coloca a reboque da morte e que nos engana acerca de seu reino duradouro graças aos acordos universais e unos de sua dança. Não queremos a ilusão do todo. Se a morte é ‘alguma coisa’, então
88 Cf. Marie Anne Lescourret. Emmanuel Lévinas, op.cit., p.318 a 320.
89 Salomon Malka. Emmanuel Lévinas. La Vie et La Trace, op.cit., p.185. Cf. também p. 181 e 184. 90 É preciso aqui notar, não sem certa surpresa, que a tradução portuguesa simplesmente omitiu o subtítulo! 91 Cf. Jacques Rolland. “L´Ambiguité comme façon de l´Autrement. In: Emmanuel Lévinas. Éthique Comme
Philosophie Première, op.cit., p. 428. E também: “Un chemin de Pensée”. In: Rue Descartes. Emmanuel
Lévinas. Paris: PUF, 1998, p. 41. Me pareceu muito interessante trabalhar um texto a partir de seu título, como o faz J. Rolland nestes dois ensaios, motivo pelo qual “imito” aqui este modus operandi.
92 Lévinas conheceu a obra de Rosenzweig desde 1935, e nela encontrou fonte inesgotável de inspiração:
Sem dúvida, encontra-se neles uma convergência de temas, tais como o rosto do homem e o rosto de Deus, “o pensamento que fala”, o tempo não cronológico, a ruptura da totalidade, a revelação (que se dá na relação entre Deus e o homem), a salvação e a redenção (que não vem de Deus e sim do próprio homem), as relações entre judaísmo e cristianismo, etc... Mas, para além dos temas comuns, pode-se falar de uma intimidade do pensamento. Cf. a este respeito os escritos de Lévinas sobre Rosenzweig , notadamente: “Entre Deux Mondes. La voie de Franz Rosenzweig. In: Difficile Liberté: Paris: Albin Michel. Livre de Poche, 1976, p.253 a 281. Como também: “Franz Rosenzweig. Une Pensée Juive Moderne”. In: Hors Sujet. Paris: Fata Morgana/Poche, 1987. E o Prefácio ao livro de Stéphane Mosès. Système et Révélation. La
Philosophie de Franz Rosenzweig. Paris: Seuil, 1982, p. 7 a 16. Acerca das aproximações entre os dois pensadores, consultar Stéphane Habib. Lévinas et Rosenzweig. Philosophies de la Révélation. Paris: PUF, 2005. Stéphane Mosès. Au-delà de la guerre. Trois études sur Lévinas. Paris-Tel-Aviv: Éditons de l´Éclat, 2004 (especialmente p.19 a 46). Como também Marie Anne Lescourret. Emmanuel Lévinas, op.cit., p. 353 a 358.
nenhuma filosofia deve desviar nosso olhar com sua afirmação de que ela não pressupõe nada.” 93
É assim, para Rosenzweig, o grito da morte que faz explodir a Totalidade. Pela morte, o sujeito se experimenta como sujeito que não pode ser englobado na totalidade. Mas esta também se rompe na “experiência pessoal da Revelação, em que ele descobre o sentimento de alteridade” 94. Se, para Lévinas, a angústia da morte não é ponto de partida, o mesmo não pode ser dito da alteridade. “A experiência irredutível da relação, parece-me, de facto, estar noutra parte: não na síntese, mas no frente e frente dos humanos (...) O não- sintetizável por excelência é, certamente, a relação entre os homens” (EI68/69). A relação “frente a frente” ou, como preferem os tradutores brasileiros, “face a face”, expressão recorrente em Lévinas, designa a relação entre um homem e outro, em sua absoluta separação e alteridade. É pela alteridade que o Infinito quebra a totalidade. Enquanto esta é soma, ainda que dialética, o Infinito vem quebrar o sistema, não cabe, não tem lugar, não totaliza, mas apresenta-se como ruptura da ontologia, como saída de si e do ser, no face a face com Outrem. “Este livro apresenta-se, pois, como uma defesa da subjetividade, mas não a captará ao nível de seu protesto puramente egoísta contra a totalidade, nem na sua angústia perante a morte, mas como fundada na idéia do infinito” (TI13).
É na Terceira Meditação de Descartes que Lévinas se inspira para pensar a idéia de infinito. Este, diz Descartes, não pode ser pensado pelo homem que é finito: “Eu não teria, todavia, a idéia de uma substância infinita, eu que sou um ser finito, se ela não tivesse sido colocada em mim por uma substância que fosse verdadeiramente infinita” 95. Segue-se que eu não posso ter sido o próprio autor da idéia de infinito: esta idéia foi posta em mim por Deus e que, portanto, seja “da natureza do infinito que minha natureza, que é finita e limitada, não possa compreendê-lo”96. Longe de fazer do infinito uma idéia ou um conceito, ou de querer provar a existência de Deus, o que importa a Lévinas é apontar a não coincidência entre noese e noema: “A idéia de infinito tem de excepcional o facto de
93 Franz Rosenzweig. L´Étoile de la Redemption. Traduzido do alemão por Alexandre Derczanski e Jean-
Louis Schlegel. Paris: Seuil, 1982, p. 14: “Nous ne voulons pas d´une philosophie qui se place à la remorque de la mort et qui nous donne le change sur son règne durable grâce aux accords universels et uns de sa danse. Nous ne voulons pas l´illusion du tout. Si la mort est ‘quelque chose’, alors nulle philosophie ne doit désormais en détourner notre regard avec son affirmation qu´elle ne présuppose rien.”
94 Stéphane Mosès. Système et Révélation. La Philosophie de Franz Rosenzweig., op.cit., p.19 95 René Descartes. Meditações, op.cit., p. 289.
seu ideatum ultrapassar a sua idéia” (TI36), isto é, o fato de que o que é pensado não pode caber no pensamento, que o pensamento pensa mais do que pode conter: ele não pode apreender, compreender, prender a idéia de infinito. É assim que se afirma a exterioridade da idéia do infinito: “Na idéia do Infinito pensa-se o que fica sempre exterior ao pensamento” (TI13). É propriamente isto que ensina Descartes: “A noção cartesiana da idéia do Infinito designa a relação com um ser que conserva sua exterioridade total em relação àquele que o pensa” (TI37). O infinito não é um objeto do pensamento, é a ele exterior e transcendente. Trata-se de um transbordar, de uma excedência, de uma transcendência:
“A distância que separa ideatum e idéia constitui aqui o conteúdo do próprio ideatum. O infinito é característica própria de um ser transcendente, o infinito é o absolutamente outro. O transcendente é o único ideatum do qual apenas pode haver uma idéia em nós; está infinitamente afastado de sua idéia – quer dizer: exterior – porque é infinito. Pensar o infinito, o transcendente, o Estrangeiro, não é pois pensar um objeto. Mas pensar o que não tem os traços de objeto é na realidade fazer mais ou melhor do que pensar.”(TI36)
Fazer mais e melhor do que pensar? Esta fórmula levinasiana, freqüentemente repetida, toca num ponto essencial das considerações de Totalité et Infini: “A diferença
entre objetividade e transcendência vai servir de indicação geral a todas as análises deste trabalho” (TI36, em itálico no texto). Vale lembrar aqui a crítica de Lévinas à fenomenologia, na qual, pela intencionalidade da consciência, sujeito e objeto se co- constituem e são correlativos. É o infinito que vem romper esta correlação, uma vez que, nele, o objeto ultrapassa, por assim dizer, o sujeito. O sujeito pensa mais do que pode pensar. Na leitura de André Dartigues, não se trata de negar a intencionalidade, mas por assim dizer, de ampliá-la:
“Se Lévinas rejeita a estrutura noese-noema como ‘estrutura primordial’ é, no seu modo de ver, apenas para melhor extrair o alcance verdadeiro da intencionalidade, sua profundidade que é a ‘de ser desejo de transcendência metafísica em direção ao outro, além de fenômeno do ser’ (TI271)” 97.
97 André Dartigues. Qu´est-ce la phénoménologie? Tradução de Maria José J.G. de Almeida. O que é
Nesse sentido é que “a ‘intencionalidade’ da transcendência é única.” (TI36): é uma intencionalidade que faz mais e melhor do que pensar: é desejo do infinito e de transcendência.
Infinito, exterioridade e transcendência se ecoam assim mutuamente, de modo que o subtítulo: Ensaio sobre a Exterioridade vem ampliar o sentido de ‘Infinito’ no título:
Totalidade e Infinito. Por um lado, Totalidade e Interioridade, e por outro, Infinito, Exterioridade e Transcendência. Três noções que se encontram indissoluvelmente ligadas, como ressaltam Calin e Sebbah: “Para Lévinas, o desenvolvimento rigoroso do conceito de transcendência, ou exterioridade, que reluz no Rosto de Outrem, se expressa pelo termo de infinito” 98.
Se a totalidade tudo explica e engloba, pela interioridade, a realidade externa também é capturada e reduzida, transformada no conhecido, já sabido, no que Lévinas chama de o Mesmo: “A maneira do Eu contra o ‘outro’ do mundo consiste em permanecer, em identificar-se existindo aí em sua casa (chez soi)” (TI25). No mundo do mesmo, estou em minha casa: estar em sua casa significa que as coisas estão à minha disposição e eu posso dispor delas: sobre elas tenho o poder, sobre elas posso poder. Só não posso poder sobre o Outro: “O poder do Eu não percorrerá a distância indicada pela alteridade do Outro” (TI26). O Outro é Absolutamente Outro, isto é, não relativo a mim, não depende de mim, é exterior a mim, não tem medida comum comigo: “O Absolutamente Outro é Outrem; não faz número comigo” (TI26). A alteridade de Outrem, como o infinito, é irredutível a mim, me é exterior, me transcende. Por transcendência, Lévinas entende “uma relação com uma realidade infinitamente distante da minha”, quer dizer: “uma relação metafísica” (TI29), na qual o desejo pelo outro é insaciável, desejo que não pode ser satisfeito e que cresce, por assim dizer, por sua própria insatisfação, desejo do absolutamente outro desejo do invisível, desejo de transcendência, desejo do infinito.
Na esteira de Platão, Lévinas lembra que se deseja o que não se tem: aquele que deseja, “deseja o que não está à mão nem consigo, o que não tem, o que não é ele próprio e o de que é carente” (O Banquete, 200 e) 99 .
98 Rodolphe Calin e François-David Sebbah. Le Vocabulaire de Lévinas, op.cit., p.37
99 Platão. O Banquete ou Do Amor. Tradução, introdução e notas do Prof. J. Cavalcante de Souza. Rio de
“O outro metafisicamente desejado não é ‘outro’ como o pão que como, como o país em que habito, como a paisagem que contemplo, como, por vezes, eu para mim próprio, este ‘eu’, esse ‘outro’. Dessas realidades, posso ‘alimentar-me’ e, em grande medida, satisfazer-me, como se elas simplesmente me tivessem faltado. Por isso mesmo, a sua alteridade incorpora-se na minha identidade de pensante ou de possuidor. O desejo metafísico tende para uma coisa inteiramente diversa, para o absolutamente outro.” (TI21)
Como nota Ilana do Amaral, o desejo pelo outro, erótico em Le Temps et l´Autre, se torna, em Totalité et Infini, desejo metafísico, desejo pela alteridade de Outrem 100. Vê- se que, aqui, Lévinas ultrapassa o sentido clássico ou tradicional de metafísica, definida como um campo do conhecimento filosófico: metafísica não é apenas uma parte da filosofia, ela “não designa portanto simplesmente uma ‘disciplina’, a raiz da árvore da filosofia, mas qualifica a relação com a alteridade enquanto tal”101. No entanto, o próprio uso que Lévinas faz da palavra metafísica permite opô-la à ontologia: esta se ocupa do ser e do Mesmo, enquanto a metafísica não pode ser pensada sem a alteridade que põe em questão o Mesmo, sem o infinito e a transcendência que quebram a totalidade 102. Pode-se assim falar de uma reabilitação da metafísica, em detrimento da ontologia, na contramão do programa heideggeriano:
“A metafísica, a transcendência, o acolhimento do Outro pelo Mesmo, de Outrem por Mim produz-se concretamente como a impugnação do Mesmo pelo Outro, isto é, como a ética que cumpre a essência critica do saber. E tal como a crítica precede o dogmatismo, a metafísica precede a ontologia.” (TI30).
Eis que a metafísica se fusiona com a ética! O desejo metafísico é desejo ético. Novamente pode ser aqui evocado Platão e a relação que estabelece entre Eros103 e Ética: o Amor deseja o Belo, e como o que é bom, é belo, o Amor deseja o bom: “Se portanto o Amor é carente do que é belo, e o que é bom é belo, também do que é bom seria ele carente” (O Banquete, 201 c)104.
100 Cf. Ilana Viana do Amaral. “Do Eros á Ética: caminhos do Desejo nos ditos e no dizer de E. Lévinas.” In:
Kalagatos, op.cit., p. 80 e seguintes.
101 Rodolphe Calin e François-David Sebbah. Le Vocabulaire de Lévinas, op.cit., p.45 102 Cf. Idem, p.45.
103 Embora Blanchot ressalte uma diferença essencial entre o Eros de Platão que seria “desejo nostálgico da
unidade perdida” e o desejo metafísico de Lévinas, “desejo daquilo com o qual jamais se esteve unido (...), o desconhecido, o estrangeiro: outrem”. Cf. L´Entretien Infini, op.cit., p. 76.
Lévinas pensa a ética a partir da perspectiva de Platão: ela é desejo do Bem. Por isso, a ética, assim como a metafísica, não se restringe apenas a um ramo da filosofia, mas designa propriamente a relação com a alteridade de Outrem, ou mais especificamente: “a impugnação de minha espontaneidade pela presença de Outrem.” (TI30), que significa precisamente o Bem.
A própria idéia de que o Bem está além da essência e do ser, Lévinas a encontra em Platão, no fim do livro VI da República: “As coisas inteligíveis não somente devem ao bem sua inteligibilidade, mas também lhe devem seu ser e sua essência, embora o bem não seja a essência, mas esteja muito acima desta em dignidade e potência. (509a)” 105.
“O poder haver um mais que o ser ou um acima do ser traduz-se na idéia de criação que, em Deus, ultrapassa um ser eternamente satisfeito de si. Mas a noção do ser acima do ser não vem da teologia. Se não desempenhou um papel na filosofia ocidental saída de Aristóteles, a idéia platônica do Bem assegura-lhe a dignidade de um pensamento filosófico que, por conseqüência, não há que reduzir a uma qualquer sabedoria oriental” (TI196).
Lévinas não poucas vezes, tanto em Totalité et Infini quanto em Autrement
qu´être106, se refere à idéia platônica do bem para além da essência, embora confesse que nela se inspire de um modo pessoal: “Encontramos assim, à nossa maneira, a idéia platônica do Bem para além do Ser” (TI273). À nossa maneira?107 Isto é: não em direção à
luz ou ao Sol, filho do Bem, mas em direção a Outrem.108
105 Platão. La République. Paris: Garnier Flammarion, 1966, p. 267: “(...) les choses intelligibles ne tiennent
pas seulement du bien leur intelligibilité, mais tiennent encore de lui leur être et leur essence, quoique le bien ne soit point l´essence, mais fort au-dessus de cette dernière en force et en dignité” (509a)
106 Lê-se nas primeiras páginas de Autrement qu´être ou Au-delà de l´Essence: “Entre os cinco ‘gêneros’ do
Sofista, falta o gênero oposto ao ser; embora desde a República, seja questão do para além do ser” (AE13). Ou ainda: “O para além do ser ou o outro do ser ou o outramente que ser – aqui situado na diacronia, aqui enunciado como infinito – foi reconhecido como Bem por Platão. Que Platão tenha dele feito uma idéia e uma fonte de luz – que importa.” (AE36)
107 Este “à nossa maneira” dá o que pensar. Lévinas foi, algumas vezes, criticado por se apropriar do
pensamento alheio para reforçar seu próprio pensamento. A relação de Lévinas com a história da filosofia não é sem arestas, como se pode notar a partir de frases contundentes, para não dizer bombásticas tais como “a filosofia é uma egologia” (TI31). Tal relação é objeto de análise de Jacques Rolland em Parcours de
L´Autrement. Paris: PUF, 2000, no capítulo intitulado: “À quelques instants d´éclair”, meditação acerca deste comentário de Lévinas: “A história da filosofia, em alguns momentos de relampejo, conheceu esta subjetividade rompendo, como que numa juventude extrema, com a essência. Desde o Uno sem o ser de Platão e até o Eu puro de Husserl, transcendente na imanência, ela conheceu o arrancar metafísico do ser, mesmo se imediatamente na traição do Dito, como sob o efeito de um oráculo, a exceção, restituída à essência e ao destino, entrasse na regra e só levasse aos trás-mundos. Sobretudo o homem nietzcheano.”(AE21)
A presença de Outrem põe em questão o Eu em sua tranqüilidade e mesmidade (para usar uma expressão ricoeuriana!), pois Outrem não se apresenta para mim como um objeto que posso prender em minha com-preensão, do qual posso dispor reduzindo-o a meu saber sobre ele: a presença de Outrem me ultrapassa, me transcende, me abre para o Infinito; a partir de sua aproximação, Outrem me põe diante de seu Rosto – metáfora, se assim se pode dizer, absolutamente essencial na obra de Lévinas, notadamente em Totalité
et Infini.
Rosto, face, olhar, visão: metáforas não somente presentes na Bíblia (“a face de Deus”), como também na filosofia: “o amado, no espelho do amante viu-se a si mesmo” (Fedro, 255d)109. Rosenzweig, no final da Estrela da Redenção110, retoma a expressão bíblica da “face de Deus”, face cuja visão só é possível através da aparição da face ou do