I. BÖLÜM
2.5. İlgili Araştırmalar
2.5.1. Karakter Eğitimi ile İlgili Araştırmalar
O discurso dos skatistas entrevistados sobre as questões que envolvem o conjunto de regras previstas no Decreto Nº 16.096, de 16 de agosto de 2007, já apresentado no capítulo anterior, bem como o controle estabelecido pela gestão do Parque e pela vigilância da GCM, tende a ser favorável à aceitação, entendidas como algo necessário. “[...] olha, pro
funcionamento do parque é perfeito, pra organização do esporte é perfeito [...] (Ent. Sk. 4: F OS V - 10).
Entretanto, 6 entre 8 voluntários afirmaram em suas falas que houve uma resistência por parte de alguns skatistas: “[...] essa pista passou então por uma terceira reforma, ela virou isso que é hoje, e a revolta dessa galera antiga é que a pista sempre teve livre acesso e hoje em dia ela é controlada com horários de entrada, de saída [...]” (Sk. 4: F OS V). Aqueles a quem a skatista chama de “galera antiga” são os skatistas citados no tópico anterior, os antigos locais, muitos deles responsáveis por impor as regras de uso, chegando a decidir quem poderia ou não usar a Pista. Ou seja, a nova realidade, além de trazer a institucionalização de regras, em um primeiro momento, inverte completamente a concentração de poder: “A galera que era os líderes, assim digamos, aqui na época antiga, quando começou, que tinha guardas e tal, eles estranharam um pouco, mas hoje viram que não tem como mesmo” (Sk. 2: M. NG St.).
Percebemos que as medidas tomadas pela prefeitura para controlar o uso do Parque são reflexo do que foi identificado por Brandão (2011) como disciplinarização dos corpos, que consiste em medidas desenvolvidas pelas várias instâncias do poder público para controlar a prática do skate, principalmente o street skate, nas ruas das cidades. Inicialmente essas medidas consistiam basicamente em atitudes repressivas, tais como abordagens severas da polícia e a proibição da prática do skate nas ruas de algumas cidades do país. Porém, esse tipo de ação não fez com que o skate parasse de ser praticado nas ruas, criando a necessidade de articulações mais efetivas para controlar essa prática, entendida como um vilão para à ordenação das cidades.
Assim, foram forjados, além das pistas, consideradas espaços apropriados para essa atividade (Brandão, 2011), campeonatos, tais como o já citado Circuito Sampa Skate, com o objetivo de influenciar a prática do skate em pistas, incentivar a disputa esportiva e manter os skatistas longe de atividades ilícitas (MACHADO, 2011, 2012b), entre outras estratégias. Sendo assim, acreditamos que o Parque da Juventude, com amparo da CAJUV, foi também uma medida de disciplinarização da prática skatista, aliado à necessidade de retomar o controle social do espaço compreendido pela antiga Pista do Paço Municipal de SBC. Para tanto eles não poderiam apenas revitalizar a Pista, criando-se, pois, um espaço cheio de regras, onde não houvesse mais a possibilidade de perda de poder público e marginalização daquele espaço do centro da cidade.
Como vimos no tópico anterior, as relações de poder são complexas, porém não acreditamos que houve uma inversão estanque do poder, passando das mãos dos skatistas para a iniciativa pública. As representações dos skatistas acerca disso demonstram mais um processo
de negociação, ou seja, para que eles pudessem ter o espaço com todas as qualidades necessárias à prática do skate e com os devidos investimentos públicos imprescindíveis para a manutenção constante da pista, houve a necessidade de acatar determinados códigos de conduta e regras de uso estabelecidos pela gestão pública: “Com as regras, sim, olha a pista perfeita que a gente tem, as reformas, nenhuma sai do nosso bolso, então é pesos equivalentes” (Sk. 2: M NG O).
Um outro skatista, old school e adepto do street, enumera uma série de fatores que justificam a necessidade dessas regras:
[...] Se você quer um parque que tenha um bebedouro hoje aqui, que daí tem que ter um guarda, e aí tem uma prefeitura por trás, então isso envolve uma questão jurídica. Então se você não gosta de usar capacete aqui, você vai ferrar quem? A prefeitura. Porque a prefeitura não pode ceder um espaço desses sem tá lá exigindo um equipamento de proteção. Então essa parte do equipamento de proteção é realmente muito chata, é ruim usar o equipamento, mas ao mesmo tempo em que eu, se eu não tiver o equipamento, se eu não tiver a prefeitura, se eu não tiver uma questão jurídica por trás de tudo isso, eu tenho um parque largado e abandonado aqui (Sk 6: M OS St.).
As falas demonstram que a institucionalização e organização trazida com o surgimento do Parque acarretaram em um conflito de valores entre os skatistas, que se dividem entre a resistência, elemento inerente à prática e a identidade skatista, e a submissão às normas, necessárias à manutenção daquele espaço conquistado.
Sendo assim, alguns discursos entram em contradição. O que parece é que as representações sociais sobre essas questões ou ainda não estão bem formadas ou os skatistas não se sentem à vontade em falar abertamente sobre isso. Um mesmo skatista que em um primeiro momento defendeu a importância das regras para a manutenção do espaço: “[...] então eu me sinto confortável e acho muito bom [...]” (Sk. 2: M NG St.). Em um outro momento da entrevista apresenta uma perspectiva diferente, como no trecho a seguir:
Assim, na verdade, não sei, espero que eles não ouçam, mas assim, eu acho que é tudo uma questão de ponto de vista, as vezes vem alguém lá de longe, já vi gente vindo lá de longe, tipo, de outro estado pra andar de skate aqui, chega aqui não sabia que tinha capacete, por exemplo, não sabia que o filho do cara tinha que fazer a carteirinha pra poder andar. Então assim, eu acho que se eu trabalhasse aqui, eu faria vista grossa. Existe exceções e exceções. (Sk. 2: M. NG. O)
Do mesmo modo, outra skatista inicialmente exalta a importância das regras e critica aqueles que se posicionam contra:
O ser humano precisa de regras, ele precisa de leis, precisa seguir orientações, porque se você deixar livre vira um caos, então as pessoas não aceitaram bem essas mudanças, são resistentes até hoje, reclamam até hoje, mas na sociedade que a gente vive é necessário ter regras pra você poder conviver em paz. (Sk. 4: F OS V)
Mas logo depois faz menção a possíveis flexibilizações: “Se o skatista fosse mais unido, [...] a gente realmente conseguiria muito mais abertura, muito mais flexibilidade nessas regras, então como a gente não é unido então nunca foi mudado” (Sk. 4: F OS V).
As contradições aumentam quando comparamos com alguns eventos assistidos durante as observações, como o presenciado no dia em que a Sessão Feminina havia voltado a funcionar, depois de meses de suspensão:
As skatistas que iam chegando recebiam uma folha contendo as regras da sessão feminina, uma outra folha com o conteúdo que seria ministrado na oficina de skate e um adesivo da AFSK. Enquanto as regras iam sendo distribuídas ouvia-se comentários em tom de ironia: ‘essas são as regras que vamos ter que seguir agora’ (risos) (DC, 06/08/2013).
Essas atitudes demonstram que não é consenso entre os skatistas concordar com todas as regras do parque, deixando transparecer ainda certo ar de desprezo em relação a algumas das quais e uma certa dúvida se estas necessariamente são seguidas. Em outro momento escutamos um skatista old school também se posicionando contra o excesso de regras estabelecido pelo parque: “Não isso, não aquilo [...] tudo que tem muita regra, vira quartel [...]” (DC, 26/08/2013).
Entre os entrevistados, apenas um deixou claro uma posição totalmente contrária ao sistema de regras estabelecido pelo Parque, porém esta merece ser examinada com mais cuidado, pois expressa muito do que estamos discutindo nesse tópico. “[...] não pode andar de skate fora do parque, né, é uma regra que, infelizmente foi estabelecida, e a prática mesmo é só dentro do local que eles fizeram pra andar de skate né, da street park” (Sk. 1: M NG St.).
Essa fala revela um entendimento da área restrita da pista enquanto um local construído artificialmente para ser usado como o único espaço adequado para a prática do skate no Parque da Juventude. Esse entendimento reflete uma tomada de consciência das tentativas de disciplinarização do skate pela gestão do Parque. Esse mesmo skatista segue sua reclamação explicando a contradição das regras com a essência do skate de rua:
Então... eu, eu como skatista streeteiro, de rua, eu num..., essas regrinhas aí pra mim é regrinha de bicha, tá ligado? [...] Ah, eu acho que, com um monte de lei nada a ver, entendeu, tipo, não pode andar aqui fora, é, capacete, RG, os caramba a quatro aí, tem que vir pai e mãe fazer carteirinha. Então... Nunca foi isso, skate é arte de rua.
Entendeu? Skate é... skate é skate meu! Nada desses negócio aí, o bagulho é andar livre, sem capacete, bonezão, sem camiseta [...] (Sk. 1: M NG S).
Essa tentativa de confinamento das práticas de skate em um único espaço condiz com o que Santos (2006) chama de “espaços da racionalidade”. Estes contribuem com a transformação do natural em um mecanismo controlado: “O espaço racional supõe uma resposta pronta e adequada às demandas dos agentes, de modo a permitir que o encontro entre a ação pretendida e o objeto disponível se dê com o máximo de eficácia.” (SANTOS, 2006, p. 204). Dessa forma, cresce o valor dado às normas de ação, que regulam os espaços da racionalidade. Além da crítica expressada no último depoimento, é notável um esforço daquele skatista para explicar porque motivo, mesmo não concordando com elas, há uma aceitação das regras. “[...] mas enfim né, foi estabelecido essas regra e a gente pra andar aqui, infelizmente a gente tem que cumprir.” (Sk 1: M NG S). Dessa forma, o usuário demonstra não estar alheio às tentativas de racionalização espacial presentes no seu espaço de prática, mas aceita os termos estabelecidos pela gestão, pois possui uma série de vantagens que contrabalançam esse controle, por exemplo, o fato da pista ser próximo a sua moradia ou de ser o local onde a maioria de seus amigos também frequenta: “[...] uma galera bacana aí que anda de skate comigo todo dia. Meus amigos mesmo. Eu fiz uns vínculos de amizade tipo da hora aí” (Sk. 1: M NG St.). O que demonstra que a representação que esse skatista possui sobre as regras não está completamente em desacordo com os demais, no geral eles demonstram aceitar as regras como um processo de troca.
Sendo assim, a partir das discussões referentes a essa categoria, vimos que algumas representações sociais se mostraram mais evidentes. Por exemplo, a visão do Parque enquanto um espaço reconhecidamente de grande importância para o skatismo, expressando tanto uma ordem local e uma ordem global, quanto um sentimento de pertencimento e identidade – mais local que nacional. O Parque é representado ainda enquanto um objeto que proporciona a evolução da técnica da prática do skate, além de desenvolver relações de sociabilidade e amizade.
Quanto ao caráter identitário por parte dos skatistas, ficou claro que aqueles que frequentam o espaço há mais tempo e que se envolveram mais na sua produção possuem um grau maior de identidade com o Parque. Os mesmos percebem as regras enquanto processos de negociação e entendem que eles possuem um direito adquirido de se apropriar daquele espaço, já que eles, além de ser maioria, foram os responsáveis pela sua conquista.