• Sonuç bulunamadı

KARŞILAŞTIRMA VE SONUÇ

KARŞILAŞTIRMASI

Na sociedade liberal e competitiva em que vivemos, faz parte do nosso cotidiano passar por inúmeros processos nos quais temos que demonstrar que somos “melhores” ou “piores” que os outros e, consequentemente, detentores de “maiores” ou “menores” méritos. Assim como faz parte do nosso cotidiano nos deparar com um exército de homens e mulheres que, sem encontrar trabalho e sem acesso aos serviços básicos, necessitando de auxílio para sobreviver, lutam para conseguir o pão, a consulta médica, o meio de subsistência; para tanto, têm, entretanto, de provar todo dia que merecem ser atendidos por deter méritos de necessidade e pobreza suficientes para obtê-los.

Para além da imediaticidade, o que se apresentava e continua a se apresentar, como questão central a ser respondida, é: que fazer com tanta necessidade, com tamanha demanda exposta, se os recursos disponíveis não são suficientes para atender a todos?

O fato de não haver recursos disponíveis para atender a todos é certamente tema do âmbito sócio-político-histórico. Envolve, nada mais, nada menos, que o equacionamento de como se dá a distribuição da riqueza socialmente produzida em uma sociedade.

Na passagem da questão de âmbito sócio-político para outra, a de âmbito instrumental do “tratamento técnico e científico”, ocorre a institucionalização da desigualdade social, na medida em que a seleção socioeconômica é colocada como instrumento que permite operar a inclusão- exclusão de acesso aos serviços e benefícios sociais, diante da escassez de recursos. Na ordem institucional dos serviços e organizações sociais isoladas, não há muito tempo para pensar nisso, uma vez que a cotidianidade exige respostas rápidas e eficientes. As questões políticas menos evidentes, ainda que subentendidas no nível da ação técnica, tendem a passar despercebidas.

Evidentemente, a seleção socioeconômica apresenta-se com essa característica: é uma resposta técnica para um problema político.

Pode ser vista, em primeiro lugar, como uma estratégia para tornar aceitável o acesso restrito aos benefícios e serviços sociais, em conformidade com as dificuldades de extensão de cobertura colocadas pela política social, em sua materialização. Neste espaço, no entanto, as providências mais caras aos planejadores e gestores serão, em geral, 1) colocar ordem no processo seletivo — ou seja, ordem na lista, na fila dos demandantes, criando e definindo regras e critérios passíveis de ser negociados com a população demandante — e 2) garantir legitimidade ao processo com sua organização visível, a fim de lidar com a defasagem existente entre a demanda e a oferta de serviços sociais.

Em seguida, será preciso criar condições para que os “poucos recursos” sejam bem administrados — isto é, que sejam bem gastos com quem realmente precisa ou com quem realmente valha a pena investir.

Historicamente, uma dessas formas de promover a aceitação do resultado das seleções é distribuir de preferência os recursos entre o maior número possível dos demandantes, para que a limitada verba anteriormente disponibilizada “renda”, “multiplique-se” ao máximo possível, procedimento que encontra justificativa no fato de que o processo de atribuição de oportunidades aos demandantes tem a ver com bens de sobrevivência, de mínimos sociais.

Por exemplo, segundo o senso comum, “é melhor que o usuário receba pouco do que nada”, argumento acrescido da ideia de que esse mínimo deve ser concedido “pelo menor tempo possível”, “para que o indivíduo não se acomode numa situação de dependência prolongada dos benefícios”, seguindo inclusive o caráter do modelo da política social atual.

Ao mesmo tempo, a organização do processo de seleção econômica a partir do exame da demanda caso a caso — individualizando, portanto, a resposta e verificando os recursos pessoais ou familiares que cada candidato tem, ou não, para satisfazer a necessidade apresentada — dificulta e embaça a apreensão das necessidades insatisfeitas de uma família como uma questão de muito mais gente.71

Assim, uma questão de âmbito sociopolítico — portanto, de âmbito coletivo — passa, muitas vezes, a ser tratada como questão de foro privado e íntimo. Instaura-se, como pano de fundo, a desconfiança, porque “nem todos precisam” e porque “há muita mentira contada pelos usuários”. Tal movimento significa que já se desfocou a questão política (não há recursos para atender a todos) que motivou a realização de uma seleção por critérios técnicos, pois nem todos poderão ser atendidos. Coloca-se então o foco nos indivíduos-candidatos que deverão provar falta de recursos para satisfazer suas necessidades e corresponder aos critérios e normas colocados.

Finalmente, todos acreditarão que não foram selecionados porque não fizeram bem “a prova de seleção”, quer porque “não souberam se portar direito”, quer porque “não estavam preparados” e ainda, em outras situações, porque “havia outros mais necessitados”.

71 É preciso reconhecer que a seletividade pode ser tratada através da organização do acesso por ordem de

chegada, como vem acontecendo nas áreas da educação e da saúde. Quando, por exemplo, um indivíduo necessita realizar um exame prescrito por médico, mas o número de equipamentos se apresenta como menor que a necessidade, o candidato é colocado em uma lista de espera de atendimento. Ou, quando não há vagas para atender a demanda da educação recorre-se às provas, selecionando os melhores ou referencia-se pela ordem de chegada. A grande imprensa tem sido farta em nos apresentar exemplos dessa prática, quando o indivíduo dorme por dias na porta de uma organização para que possa ser um dos primeiros a ser chamado, portanto, com chances de receber atendimento. Os poucos recursos poderão ser em dinheiro, bens, serviços e também em pessoal, equipamentos, etc.

Nessa direção, a questão pública, política, referente à insuficiência de recursos para atender a todos, torna-se problema de foro íntimo e privado, ao fazer com que o indivíduo se perceba como não merecedor e até acredite que, se não pode usufruir dos serviços e benefícios, foi porque não teve detenção de mérito para tanto. A seleção funciona certamente como controle técnico para permitir o acesso de alguns e o descarte de outros, ocultando sua origem na presença da desigualdade econômica e social de partida. Um dos resultados da seleção socioeconômica é, portanto, a institucionalização da demanda sob a forma de controle. Ou seja, obtêm-se os demandantes controlados.

Do ponto de vista que aqui nos interessa, da atuação do assistente social, é preciso considerar que o profissional, às vezes, sem mesmo perceber, tratará daquela expressão da questão social como questão moral, incriminando os demandantes por sua precária condição de vida, ao desconsiderar os indivíduos como personificação de categorias econômicas que determinam “sua posição no processo produtivo” (IAMAMOTO; CARVALHO, 1985, p. 106).

Quanto à seleção socioeconômica, apesar do significativo acúmulo teórico sobre a natureza do Serviço Social pela profissão, situando-a no plano das relações sociais vigentes, parece haver uma dicotomização na prática dos assistentes sociais brasileiros. Pauta-se esta, ainda, pela ideia de culpabilização do pobre pela sua situação de pobreza. Distinguindo os bons dos maus pobres, pratica-se uma meritocracia.

Essa forma de proceder pauta-se pela falta de reconhecimento, pelo profissional, dos usuários dos serviços sociais como sujeitos portadores de direitos, reforçando a ideia do acesso aos benefícios como favor. Naturaliza-se, no mesmo gesto, tanto a existência da seleção como a falta de recursos para atender a todos.

Ir além das aparências pressupõe perceber sua decisiva utilidade social como instrumento legitimador da desigualdade social e, portanto, do controle social: a ação profissional fornece instrumentalidade e estatuto científico à seletividade dos programas de política social, facilitando sua aceitação pública. A análise que almejamos desenvolver dos processos técnicos vinculados à seleção socioeconômica, como uma das competências e atribuições profissionais do assistente social, tem como referência básica o fato de que o Serviço Social está integrado às relações sociais que se desenvolvem na ordem capitalista.

Embora o assistente social trabalhe a partir da demanda e com a situação de vida trazida pelo trabalhador, não é este, no entanto, quem o contrata e remunera. Estabelece-se uma disjunção entre intervenção e remuneração, estando presente para o profissional, em diferentes níveis, um mandato das classes dominantes junto à classe trabalhadora (IAMAMOTO; CARVALHO, 1985, p. 84).

A profissão do Serviço Social, de caráter eminentemente político, realiza assim suas ações de forma mediada pelos interesses do capital e/ou do trabalho. Situar o Serviço Social na divisão sociotécnica do trabalho é condição fundamental para a apreensão do significado do papel que desempenha nas relações sociais.

A atuação do assistente social

reproduz também, pela mesma atividade; interesses contrapostos que convivem em tensão. Responde tanto a demandas do capital como do trabalho e só pode fortalecer um ou outro polo pela mediação do seu oposto. Participa tanto dos mecanismos de dominação e exploração como, ao mesmo tempo e pela mesma atividade, da resposta às necessidades de sobrevivência da classe trabalhadora e da reprodução do antagonismo nesses interesses sociais, reforçando as contradições que constituem o móvel básico da história (IAMAMOTO; CARVALHO, 1985, p. 75).

Esse modo de ser na sociedade capitalista dá à profissão um caráter contraditório. A ação de seus agentes tanto pode reforçar o polo que se dirige a atender aos interesses do capital quanto o que fortalece os do trabalho. É na verdade a direção estratégica escolhida, referenciada num projeto ético-político que, de fato, dará o sentido à ação profissional (IAMAMOTO; CARVALHO,1985; IAMAMOTO,1992, 1998, 2002; NETTO, 1991b, 1996; YAZBEK,

2009a, 2009b). Esta direção estratégica está presente em todos os níveis de participação do assistente social.

Embora na sua exterioridade as formas de acesso e permanência aos serviços, inclusive triagem, seleção socioeconômica e pareceres, aparentemente só envolvam execução, colocando-se simplesmente como atividades cotidianas do assistente social, implicam processos complexos de estabelecimento, acompanhamento e execução de políticas sociais, públicas e privadas.

Ainda que o assistente social seja conhecido e se reconheça como profissional da prática direta com a população, é preciso destacar que há assistentes sociais que participam da formulação e da gestão de políticas, assim como há os que estudam e avaliam seus impactos sobre a vida da população, entre outras formas.

O exercício das atividades do assistente social nos organismos institucionais estatais, paraestatais e privados explicita que o profissional dedique-se ao planejamento, à operacionalização e à viabilização de serviços sociais dirigidos ao atendimento da população. Na realização dessas atribuições, o assistente social exerce funções de suporte à racionalização do funcionamento dessas organizações, assim como funções técnicas propriamente ditas, apresentando-se, na listagem de tarefas “corriqueiras” realizadas pelo

profissional, a seleção socioeconômica (IAMAMOTO; CARVALHO,1985, p. 113-114). Podemos

perceber então que, em todo nível de trabalho profissional, o assistente social encontra-se comprometido com os objetivos da política geral presente na reprodução das relações sociais na sociedade capitalista, mantendo sempre determinado nível de responsabilidade.

A apreensão da natureza e da utilidade social da seleção e da triagem pressupõe situá- las na totalidade da sociedade onde se realizam e se expressam, de forma a levar sempre em consideração a seguinte pergunta: que política o assistente social faz na seleção socioeconômica, tendo em vista os interesses em jogo e em pauta?

Interessa-nos, sobretudo, a explicitação do caráter contraditório presente no trabalho de seleção socioeconômica do assistente social, em suas múltiplas expressões. Tomando tal seleção como totalidade, procuro caminhar para além do empirismo e do pragmatismo, rompendo com importantes mecanismos de naturalização da desigualdade social nela escondidos e resgatando-a da sua aparência entediante como tema.

3.5. Formas de legitimação do assistente social como operador da seletividade de acesso