A partir do final da década de 1970, a cotonicultura potiguar começava a esboçar fadiga. Entre 1975 e 1981, algumas usinas de Caicó conheceram o seu fracasso e os seus maquinismos foram completamente eliminados (CLEMENTINO, 1987). Nesse contexto, a cidade, que ficara órfã de sua principal economia, teoricamente estaria condenada ao regresso e talvez a uma involução daqueles aspectos que já anotamos e que se constituem em política, economia, sociedade e território. Mas as outras intencionalidades – aquelas as quais também já nos referimos – foram capazes de instaurar um novo período técnico – o da cidade terciária – que já havia sido inaugurado na transição dos tempos da crise do algodão, 1970-1980.
Essas outras intencionalidades deram vida a alguns importantes e novos eventos que surgem ainda na cidade do algodão, mas que poderiam ter vida própria na cidade, que agora apresentava a desilusão cotonicultora. A esses eventos se juntam novos e todos estão, em sua maioria, ligados ao setor terciário e nascem a partir de uma política de governos que fora demandada pela importância que Caicó havia adquirido nos dois períodos anteriores, principalmente no último, como, também, pela presença forte de agentes [locais] políticos e econômicos. Estamos nos referindo às repartições públicas e lojas comerciais que deflagraram na cidade de Caicó um novo período técnico, como, também, a alguns seridoenses ilustres.
Na cidade de Caicó, que se tornara um importante centro regional para as demais cidades do Seridó Potiguar e algumas do vizinho Estado da Paraíba, constituíam-se, ao longo do século XX, duas elites [políticos e comerciantes] interessantes, as quais foram geradas no seio da cidade da pecuária e do algodão.
Tais elites, por si sós, não seriam capazes de promover a futura sustentação da cidade como centro regional, se não houvesse sido constituído anteriormente, no período técnico, que acabara de fenecer, um lastro de população e de consumo capaz de girar a roda da economia caicoense que se incrementara a partir das condições que as intencionalidades cotonicultoras em suas relações com outras intencionalidades de diversos agentes plasmaram nesta urbe.
Da seara política, é mister destacar a força e a atuação de um caicoense por adoção66. Trata-se de Dinarte de Medeiros Mariz, um homem que figurou como um dos principais agentes de comando, desde o período áureo do algodão e, em se tornando um político de larga influência nas esferas municipal, estadual e federal, trouxe para Caicó algumas instituições, as
66 Dinarte de Medeiros Mariz, nascido na vizinha cidade de Serra Negra do Norte, foi Prefeito de Caicó,
Governador do Rio Grande do Norte e, por duas vezes, Senador, além de ter figurado como um dos grandes empresários da cotonicultura potiguar.
quais estão colocadas, mais adiante, como eventos e que, ao nosso juízo, dinamizaram novos usos de novos territórios, como, também, serviram de extensores urbanos e imprimiram o tom da expansão urbana caicoense.
Dinarte Mariz e outros poucos políticos dispensaram à cidade uma atenção especial e, no espaço urbano desta, contribuíram para um uso territorial que, através da implantação de serviços públicos, serviu como “ponte” entre a transição da crise cotonicultura e as novas bases da economia caicoense.
A Universidade Federal do Rio Grande do Norte, um Batalhão do Exército Brasileiro e uma escola de grande porte foram só alguns dos eventos promovidos por esses políticos que imprimiram na vida urbana caicoense uma dinâmica e um incremento socioeconômico interessantes. “O mundo é grande de se ver e eu já vi tudo. Mas eu vejo tudo, a partir de Caicó”. Essa frase, de autoria do senador biônico Dinarte Mariz, é clara e nos oferece uma análise de como a condição de centro regional referenciada a Caicó ainda no período do algodão, se perpetuaria nos anos que se sucederam às décadas de 1970/80 – início da crise do ouro branco, pois, como político, ele trabalhou no sentido de efetivar, na cidade, alguns eventos importantes. Esses, por sua vez e como veremos a seguir, desencadearam eventos secundários que são, na verdade, mais uma das razões da expansão urbana.
Na seara, comandada pelos altos comerciantes, além dos novos agentes da economia terciária, também se tem o reaparecimento de velhos agentes cotonicultores que, após a crise desse setor, implantam na cidade algumas empresas importantes, as quais estabelecem uma relação do lugar com o mundo e que garantem à cidade de Caicó o status de centro regional. Essas empresas, ao mesmo tempo, estão inseridas no contexto da sustentação dessa posição que a cidade assegura, mesmo depois de assistir à derrocada da economia que comandara o período técnico compreendido, mais especificamente no urbano caicoense, entre os anos de 1930 e 198067.
Na Caicó dos anos de 1970 e 1980, quando se apagam as últimas “luzes brancas” que iluminaram, desde os anos de 1930, a “urbe do algodão”, acendem-se novos focos de um terciário diversificado que se sustenta em um considerável comércio e em uma boa estrutura de prestação de serviços. É justamente neste período de transição entre essa crise e o aparecimento de novos rumos que a cidade apresenta um importante alargamento físico. A urbe cresce e denotam novos eventos, que vão pontuando para além do velho perímetro,
67 A datação refere-se ao período em que as usinas tiveram grande importância para a economia urbana
caicoense, embora saibamos que o período completo da cotonicultura é mais extenso e envolve relações rural- urbanas desde o século XVIII.
novos fixos e, consequentemente, novos fluxos. Todo este processo carrega, em si, estruturas, onde velhas e novas formas agora se encontram para fundar e refuncionalizar novos territórios.