Carlos Franchi (1991, p. 54) define gramática internalizada ou implícita como sendo o “saber linguístico que o falante de uma língua desenvolve dentro de certos limites impostos pela sua própria dotação genética humana, em condições apropriadas de natureza social e antropológica”. O falante desenvolve e usa essa gramática de modo inconsciente. Esta reflete a competência do usuário para usar a língua para se comunicar; representa o seu nível de domínio da norma culta da língua. Celso Pedro Luft (2002, p. 16) chama este tipo de gramática de natural e esclarece:
Podemos então distinguir entre o sistema de sinais, comum a todos os falantes, e cada ato circunstanciado de comunicação. O sistema é coletivo, mas cada ato de comunicação é absolutamente individual. Assim, em comunicação, há código e mensagem; em linguagem: língua e fala. E, levado em conta o domínio individual do sistema coletivo por parte de cada falante, distingue-se ainda entre competência e desempenho, entre o saber e o atuar linguísticos, o saber-falar e o falar. São as clássicas distinções langue/parole, de Ferdinand de Saussure, e competence/performance, de Noam A. Chomsky.
Conforme Luft afirma acima, a gramática natural ou internalizada ou implícita está ligada à dicotomia competência e desempenho, introduzida por Chomsky nos estudos de Linguística. Nesse contexto, competência é a capacidade inata do ser humano de se comunicar através de um sistema de sinais vocais. Ela possibilita o desenvolvimento da gramática internalizada; desempenho refere-se à performance que cada um tem ao usar a língua; depende, portanto, da competência. Para Canale e Swain (1980, p. 3), a competência “corresponde ao conhecimento da gramática e outros aspectos da língua, enquanto o desempenho diz respeito ao uso real”.
Luft (2002, p. 21) contrapõe a gramática natural à gramática artificial e afirma que “a segunda só vale enquanto reprodução, cópia da primeira”. É o registro da primeira, e esta, a natural, é considerada pelo autor como sendo a verdadeira gramática de uma língua:
A gramática dos falantes é sempre completa: sistema de “todas as regras” necessárias para se poder falar. Mesmo a criança de cinco ou seis anos já fala com desembaraço, e o mais humilde dos analfabetos, necessariamente dominam a gramática completa que preside seus atos da fala. Do contrário, não haveria como falar.
Naturalmente, há variantes de gramática, conforme o grau de cultura ou nível sócio-cultural do falante; mas todas elas, mesmo a de nível mais baixo, são completas em si, dispõem de todos os elementos de que as pessoas necessitam para fazer frases e comunicar-se.
Segundo Luft, a gramática artificial tem duas grandes vertentes: a tradicional e a moderna. A tradicional tem herança greco-latina, e suas duas principais orientações são a gramática normativa e a descritiva. A gramática moderna é, nas palavras de Luft, “fruto dos progressos da ciência linguística”, resultado dos trabalhos de linguistas como Ferdinand de Saussure, Edward Sapir, Leonard Bloomfield e Luís Hjelmslev. O autor afirma que as vertentes principais da gramática moderna são a gramática estrutural e a transformacional.
A gramática descritiva se ocupa, como vimos, de registrar e descrever cientificamente as variações de uma língua, levando em conta o seu uso real pelos falantes. Considerando a dicotomia de que tratamos no início deste tópico, podemos dizer que o foco da gramática descritiva é o desempenho dos falantes de uma dada língua. Mas, de acordo com Luft (2002, p. 21), “até hoje, nenhuma aceitação e codificação (no sentido de documentalizar para tornar oficial) ou reprodução fiel, completa, de nenhuma gramática natural foi conseguida. Isso quer dizer que a pessoa sabe mais da língua do que consegue falar ou escrever sobre ela”.
A existência da gramática implícita pode ser constatada através de alguns fatos, entre os quais destacaremos dois. O primeiro é o fato de crianças que têm o português como língua materna dizerem, por exemplo, fazi (forma agramatical38), em lugar de fiz, e trazi (forma agramatical), em lugar de trouxe, quando estão aprendendo a falar. Elas demonstram que inconscientemente aplicam a regra de conjugação dos verbos regulares — regra esta já
38
O termo agramatical refere-se a uma expressão ou a um enunciado inaceitável em uma determinada língua, por desrespeitar as regras da gramática normativa dessa língua.
internalizada por elas — com verbos irregulares — cuja regra de conjugação desconhecem —, resultando no uso das formas agramaticais fazi e trazi.
O segundo fato é a hipercorreção, que ocorre quando o falante comete um erro ao se expressar verbalmente, por tentar corrigir o que ele supõe estar errado na língua. É quando, por exemplo, alguém diz orinar (forma agramatical) em vez de urinar, ou quando diz adevogado (forma agramatical), ao invés de advogado.
José Carlos de Azeredo (2010, p. 129) chama a gramática que estamos tratando de internalizada ou latente e explica: “A gramática latente corresponde ao conhecimento que cada usuário tem de uma língua específica qualquer — sua língua materna — e que o torna apto a produzir e compreender frases nessa língua”. Porém, a gramática internalizada não diz respeito só à língua materna. Quando começamos a aprender uma língua estrangeira, damos início ao processo de desenvolvimento de uma gramática internalizada dessa língua. Essa gramática implícita aparece quando usamos a língua estrangeira.
Quanto à ideia de erro linguístico, ele só poderá ser considerado como tal se a gramática internalizada, ao se manifestar através do desempenho do falante com a língua materna ou estrangeira, for analisada sob a ótica da gramática normativa.
Tratemos agora da ligação entre a Linguística Contrastiva e a gramática internalizada ou implícita. Como já afirmamos, o modelo de Análise Contrastiva não trabalha com a produção oral e escrita de aprendizes de língua estrangeira. Esse modelo não leva em conta nem a competência linguística desses aprendizes, nem o desempenho deles ao se comunicarem na língua estrangeira. É um modelo teórico por excelência, que busca produzir “em laboratório” uma gramática contrastiva de duas línguas, a materna e a estrangeira, visando a prever as possíveis dificuldades na aprendizagem da língua estrangeira, para saná-las. Logo, se esse modelo não trabalha com a competência dos alunos — pelo menos não diretamente —, então ele não trabalha com a gramática internalizada. Porém, é interessante notar que essa gramática promove o fenômeno da interferência linguística, o qual é apontado pelo modelo de Análise Contrastiva como principal causa dos erros cometidos na língua estrangeira pelos aprendizes. Na verdade, esse primeiro modelo da Linguística Contrastiva trabalha com a possibilidade da ocorrência de interferências linguísticas. Procura formar a gramática internalizada, eliminando essas interferências.
Já os modelos de Análise de Erros e de Interlíngua, que estão centrados no aluno, têm grande ligação com a gramática internalizada. Para conferirmos isso, observemos o seguinte silogismo: Se os modelos de Análise de Erros e de Interlíngua trabalham com o desempenho dos aprendizes de língua estrangeira, e o referido desempenho reflete a gramática internalizada da língua estrangeira, então os dois modelos supracitados trabalham diretamente com essa gramática internalizada. Trata-se de raciocínio lógico.
O modelo de Análise de Erros tenta desvendar a gramática internalizada dos aprendizes através da investigação dos erros sistemáticos cometidos na produção oral e escrita desses estudantes. O objetivo é acompanhar o andamento do processo de ensino-aprendizagem deles. Verificar quais estratégias eles usam consciente e inconscientemente para aprenderem a língua estrangeira. A partir da análise dos erros, os investigadores podem descobrir se as escolhas metodológicas são adequadas e devem continuar a serem seguidas ou se é necessário realizar mudanças ou ajustes metodológicos. Os erros são vistos, portanto, como instrumentos para a avaliação da aprendizagem.
Porém, conforme vimos acima, não é possível obviamente desvendar toda a gramática internalizada da língua estrangeira, porque, como afirmou Luft (2002, p. 21), “a pessoa sabe mais da língua do que consegue falar ou escrever sobre ela”. Mas, assim mesmo, o modelo de Análise de Erros contribuiu para melhorar a metodologia de ensino de línguas.
O modelo de Interlíngua também pode desvendar parte da gramática internalizada da língua estrangeira. Conforme já vimos no tópico 2.4.3, interlíngua é definida como um sistema linguístico não-nativo e temporário, criado e usado por um aprendiz de uma língua estrangeira, quando ele ainda não domina essa língua. Esse sistema fica entre a língua materna do seu usuário e a língua estrangeira que ele estuda. Geralmente tem traços tanto de uma quanto da outra. Marta Baralo (in LOBATO; GARGALLO, 2004, p. 373) conceitua interlíngua da seguinte forma:
[...] sistema independente de conhecimento do aprendiz de uma L2 ou uma LE. Este sistema linguístico interiorizado evolui, tornando-se cada vez mais complexo. O aprendiz possui intuições próprias deste sistema, que é diferente do da LM (embora se encontrem algumas semelhanças) e do da LO [língua oficial]; [...] cada aprendiz ou grupo de aprendizes possui, em um estágio da sua aprendizagem, um sistema específico. (tradução nossa)
A Linguística Contrastiva, através do modelo de Interlíngua, faz investigação sobre a chamada estrutura psicológica latente, buscando identificar as estratégias psicolinguísticas envolvidas no processo de aprendizagem da LE.
É muito variável a frequência com que a interlíngua se manifesta na produção oral e escrita do aprendiz de língua estrangeira. Tanto a interlíngua quanto a gramática internalizada evoluem, mas de modo diferente. À medida que o aprendiz vai avançando no estudo da LE e vai aumentando o seu nível de domínio da mesma, a gramática internalizada desta língua também aumenta, vai se igualando à gramática normativa dessa LE, e os episódios de interlíngua tendem, então, a ser raros e até a desaparecerem.