3. KAMUSAL MAL SUNUMU VE KARŞILAŞILAN SORUNLAR
1.1. Küreselleşme ve Küresel Kamusal Mallar
O corpo aparece em debate na obra intitulada Vigiar e punir: história da violência nas
prisões, em que Michel Foucault coloca em exposição o jogo de forças que atravessam o corpo nas instituições e o próprio corpo das instituições. No capítulo denominado “Corpos dóceis”, o filósofo aponta para a postura do guerreiro e para a fabricação dos corpos flexíveis. Ao descrever a postura dos soldados em diferentes períodos da história, o autor cria a possibilidade de comparação entre o corpo do soldado, perpassado pelos valores de um guerreiro, e de um soldado do século XVIII, formatado nos moldes dos micropoderes da instituição. O corpo normatiza as leis em diferentes momentos da história.
Essa comparação revela uma diferença entre o vigor e a submissão automática. Com relação ao soldado do século XVII, a imagem da vida do guerreiro, “a sua força e valentia” faziam desse corpo guerreiro uma “retórica da honra”. Seus pés, conforme descreve o autor, são “firmes, fortes e ágeis”, marcham na cadência dos tambores que são as referências da expressão e gravidade. Os ritmos dos tambores comandam o corpo do soldado; ele é movido pela cadência dos toques.
Ao longo de muitos processos, a “anatomia política” se estabelece e atua em múltiplas direções. Com este “dispositivo” – termo que desenvolveremos a seguir –, abrem-se possibilidades na fabricação do soldado que recebe um adestramento minucioso por meio de regras. Esculpido pelos sistemas disciplinares, o soldado do século XVIII passa a ter em seu corpo um território de investimento na “arte dos detalhes”. De forma cuidadosa, o exercício será utilizado ininterruptamente para se obter os resultados esperados para a dominação.
A genealogia do poder foi o caminho para a análise crítica que fez Foucault ao detalhar a formação do sujeito moderno. O território que se observa nessa discussão é o corpo, a fabricação de um corpo flexível, automatizado e útil. O corpo como “objeto e alvo de poder”, como se observa nas “micropolíticas” do cotidiano. É principalmente em Vigiar e
punir que vemos caracterizada a genealogia a que se propôs: do suplício à punição, das estratégias disciplinares dos corpos dóceis ao olhar “panóptico”.
Propondo-se a realizar uma “ontologia histórica de nós mesmos”, Foucault destituiu o sujeito do lugar privilegiado de fundamento constituinte que ocupava na cultura ocidental, passando a problematizá-lo como objeto a ser constituído, acrescenta Rago (1995: 77).
Essas transformações acerca do sujeito em suas práticas do cotidiano promoveram interesses sobre o que fazemos de nós mesmos35. Neste trabalho conectamos-nos à discussão em busca de novos caminhos e respostas a respeito do corpo. O encontro tratou da seguinte questão: “O que estamos fazendo de nossos corpos?”. O propósito das discussões desenvolvidas no foi construir, a partir dos teóricos citados anteriormente, ferramentas que permitissem pensar novas possibilidades e campos nos quais possamos problematizar sobre nós, nossas dificuldades ao transitar pela contemporaneidade.
Das reflexões resultantes desse Colóquio encontradas em Imagens de Foucault e
Deleuze: ressonâncias nietzschianas, tomamos a fala de Sant’Anna (2000) Transformações do
corpo, controle de si e uso dos prazeres como caminho para discussão deste sujeito que transita pelas metrópoles, que convive corpo a corpo com os paradoxos do mundo contemporâneo. Voltamos a nossa atenção para o corpo de cada um de nós, que é o foco de análise da autora. Na visão da pesquisadora e com as bases teóricas fincadas em especial em Foucault, atualmente comenta que se exige do corpo novas configurações. Em sua opinião, a passagem de uma ordem “político-jurídica” para uma “tecnocientífica empresarial” transformou nossa relação com o corpo. Nessa nova configuração que a autora problematiza
35 Colóquio Foucault-Deleuze, realizado sob a coordenação de Margareth Rago e Luiz B. Lacerda
Orlandi. Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade de Campinas (IFCH/Unicamp), 2000.
está o uso dos prazeres. Marcando esta passagem, a década de 1970 é o momento em que a genética associa-se à informática e à massificação global do consumo e dos bens industrializados. Essa mistura é analisada em dois momentos pela autora: no primeiro, denominado por ela de “expansão externa”, e no segundo, “expansão interna”. O movimento de “expansão externa” é aquele em que acontece uma conexão com o mercado global, e o segundo, a “expansão interna”, é quando o indivíduo volta-se para o seu corpo e toma para si o controle dos seus níveis de prazer. Na “expansão externa”, o corpo, com suas singularidades, tende a desaparecer; na “expansão interna”, o corpo ganha uma importância exagerada porque são multiplicadas as exigências e as sensibilidades que cada indivíduo tem em relação a si mesmo. Temos então, por um lado, o diluir das singularidades do corpo para alimentar as necessidades de uma economia de mercado, enquanto, por outro lado, um aprimoramento tal que causa um isolamento do mundo, por exemplo, o spa.
A “forma homem”, criada no século XIX sob os olhares de cientistas, industriais e políticos, passa por uma transformação acelerada que pode desencadear duas atitudes opostas, segundo a autora, dois lados de uma mesma moeda: “salvar o que resta de humano ou descartar a humanidade em favor de uma nova via de evolução biológica” (Sant’Anna, 2002: 101). Como a sociedade vive sob uma ordem tecno-científica-empresarial, a autora apresenta oito ações sobre os corpos.
Estas oito grandes tendências suscitam a necessidade de relançar questões, na verdade, seculares: como fazer com que o uso dos prazeres fortaleça as potências de cada corpo e o afeto por si sem degradar as potências dos demais corpos ? Ou, ainda, como constituir coletivos destituídos do espírito de rebanho e, ao mesmo tempo, fortificar o afeto por si ? E como cuidar do próprio corpo sem fazer dele um exílio confortável, macio e perfumado, um templo no qual amigos e inimigos são dispensáveis ?. (Sant’Anna, 2002: 108)
A nova ordem na concepção da autora, “aprofunda a antiga necessidade de fazer do corpo um veículo capaz de passar pelo tempo e acessar muitos lugares, ao invés de fazer dele mesmo uma passagem” (Sant’Anna, 2002: 108). Olha-se o corpo como mercadoria, que “reivindica o estatuto das artes”. A juventude é dilatada por meio de inúmeras intervenções, num tempo curto de exposição, pois tem um prazo de validade; na seqüência, vira apenas uma quimera. Na ordem “jurídico-política”, a sociedade precisa de corpos dóceis, flexíveis e humanos; busca a mais-valia da mão-de-obra, porém a nova ordem, segundo a pesquisadora, precisa do humano e não-humano, precisa da carne, das células, do sangue, dos órgãos, dos tecidos, na captura da carne e do espírito. O valor do requinte é substituído pelo da eficácia.
As palavras de ordem são os prazeres ilimitados. E são elaborados, segundo a autora, novas técnicas de conquistas do interior do corpo, possível de codificação, uma “endocolonização”.
A passagem de uma sociedade disciplinar para uma de controle tirou a disciplina que se fixava no interior das instituições, das famílias, dos colégios para o exterior, por meio do controle do trânsito, das pessoas nas ruas. Hoje, o corpo é filmado, é fotografado. As nossas digitais são registradas a cada tentativa de acesso a aeroportos, na compra de serviços aos quais nosso acesso é possível apenas com o toque dos dedos nas registradoras de digitais.
As redes tecidas na sociedade de controle utilizam como amarras os mecanismos do
marketing. O marketing é o instrumento de controle social da atualidade, as redes de conexão, que liberam os corpos nos seus trânsitos de vida, ficando obscurecidos, invisíveis, enquanto as redes constituídas pelos poderes cedem à tecnociência empresarial, com mais eficácia e menos ética.
Na esteira desta discussão, conectamos com Carvalho (2003), que nos apresenta questões referentes à realidade da população que investigamos. O pesquisador direciona uma reflexão a partir do artigo intitulado “As culturas afro-americanas na Ibero-América: o negociável e o inegociável”. Nesse estudo, analisa a realidade das culturas afro-americanas e as possíveis articulações históricas e atuais, as questões teóricas e políticas, entre outros aspectos. Os exemplos destacados nessa discussão esbarram na música, na dança e nos rituais sagrados, o que não impede, segundo o autor, de utilizar essa reflexão no campo do teatro, do cinema, da literatura e das artes plásticas. Destaca, ainda, a ideologia que permeava a década de 1990, que se reveste de uma afirmação “sedutora e simplista”. O discurso volta-se para uma idéia de grandes oportunidades para os países periféricos em processo de globalização. Esta afirmativa estimava que o momento seria uma excelente chance de realizações em diversos âmbitos da sociedade, desde os intercâmbios culturais aos materiais simbólicos. Em contrapartida, deveriam abrir suas economias, enxugar a máquina do Estado.
De acordo com Carvalho, a política de transferência de decisões culturais de alguns Estados para as empresas privadas, com o objetivo de redução de custos, é uma decisão que não visa a sociedade, e sim o capital. Em outras palavras, e afinando-se com a discussão anterior, o critério para validar o projeto de cultura é transformá-lo em uma mercadoria que gere o lucro, e não, como afirma o autor, “seu potencial de emancipação, resistência, reivindicação ou expressão de identidades discriminadas e fragmentadas” (Carvalho, 2003: 103). Acrescenta que o modelo neoliberal inserido no contexto da cultura ou a cultura quando capturada pelo sistema neoliberal tem como princípio “um vazio político, ideológico e histórico”.
A arte perfomática africana foi inscrita, por meio de som e imagem, no centro da forma estética popular ocidental que veio, por mediação da indústria cultural, a caracterizar a juventude branca: o rock-'n’-roll. Associações entre pop stars ocidentais e artistas africanos foram estabelecidas e fixadas em símbolos de cooperação e amizade norte–sul, centro– periferia, brancos–negros.
É o momento em que a arte se dobra às exigências do mercado. Torna-se uma mercadoria vendável. O movimento de despolitização e descaracterização das práticas de tradição acelera na mesma velocidade em que se investe nas estratégias do mercado. Algumas passagens sobre esses mecanismos de mercado são exemplificadas por Carvalho (2003). Uma das figuras de destaque internacional é Paul Simon, que se conectou ao grupo Olodum. Segundo o autor, “provavelmente a canibalização de Simon, estes contatos com a cultura teve resultados mais drásticos para a cultura de afro-baianos que a influência de seu disco na luta contra o aphartheid na África do Sul” (2003: 110).