1.3. Kalkınma-Hizmet Sektörü İlişkisi ve Tarihsel Gelişim
1.3.2. Kalkınma Sürecinde Hizmet Sektörünün Yeri
Obra de maior repercussão de Cassiano Ricardo, o poema Martim Cererê (O Brasil dos meninos, dos poetas e dos heróis) narra a história de como as três raças – o índio, o negro e o branco – colaboram para a constituição de um menino brasileiro (1928:3-5).199 Martim Cererê é uma síntese, que não dispensa uma certa bricolagem de versos, a expressão
mais acabada do tipo de poética experimentado por Cassiano Ricardo nas duas obras anteriores.200 Aos temas iniciais da fase nacionalista, o autor vai juntar novas lendas e
fragmentos de motivos tidos como folclóricos para reencontrar a construção histórica do processo civilizatório brasileiro.201
Vale assinalar que depois de Martim Cererê Cassiano Ricardo vai publicar duas outras obras poéticas, Canções de Minha Ternura (1930) e Deixa Estar, Jacaré (1931),
199 Cassiano Ricardo enviava suas obras para inúmeras personalidades a cada nova edição. Quando presidente do
Estado do Rio Grande do Sul, Getúlio Vargas, por exemplo, agradece, elogia o livro Martim Cererê e caracteriza Cassiano Ricardo como “forte expressão da mentalidade nova do Brasil” (correspondência pessoal de Getúlio Vargas para Cassiano Ricardo, de 14 de junho de 1928) (Acervo pertencente à Fundação Cassiano Ricardo, em S. J. dos Campos, SP). As ilustrações da obra de 1928 são de Di Cavalcanti.
200 O autor afirmará posteriormente, justificando a sua adesão tardia ao modernismo: “Não poderei omitir,
porém, por falsa modéstia, minha pequena mas leal contribuição ao Modernismo, ligada a 22, mas datada de 28: o poema ‘Martim Cererê’ que é uma síntese das obras por mim escritas na década de 20” (RICARDO, 1973:29).
201 Segundo Jerusa Pires Ferreira “No M. C. (Martim Cererê) dá-se a dimensão poética ao mito, no mesmo
tempo em que se pretende dar a dimensão histórica. Em Palavra Levantamento, lê-se: ‘Cassiano tem uma visão mítica da história anulando-se fronteiras rígidas entre as duas coisas’. Diríamos que ele aproxima duas realidades muito difíceis de serem separadas”. (“Martim Cererê e seus mitos”, O Estado de São Paulo, 23.05.1970, Caderno 2). A obra Palavra Levantamento na Poesia de Cassiano Ricardo é de Mário Chamie.
também resultados de compilações de obras anteriores. De 1931 a 1943, não será levada a público nenhuma outra obra poética de sua autoria. Ou seja, tem-se praticamente um intervalo de doze anos, durante os quais o autor vai reeditar as versões anteriores de Martim Cererê, com algumas modificações. De 1928 a 1945, a obra foi reeditada oito vezes, em edição sempre modificada, apesar de, desde a segunda edição de 1930, anunciar-se que a edição seria definitiva.202
Foi também por volta de 1928, quando Cassiano ingressou no serviço público, que exerceu o cargo de censor teatral e cinematográfico, abandonando o ofício de advogado. Firmou-se mesmo como funcionário público, em constante contato com políticos importantes, como se verificará no decorrer da década de 1930. Nesse período, dedicar-se-á prioritariamente a esse setor. Assumirá uma postura perante a política e o jornalismo de muito maior participação e procura de intervenção, ainda que limitado por suas funções. Em 1929, será requisitado para trabalhar comissionado no Palácio do Governo. Quando veio a Revolução de 30, já atuava como auxiliar de gabinete de Júlio Prestes.
As reflexões sistemáticas que apresentará a partir de 1935 sobre a formação do Estado terão como forma de expressão a prosa. A partir de 1935, como se verá no próximo capítulo, o autor assume como escritor a tarefa de publicar prioritariamente ensaios de cunho político com pretensões sociológicas. A poética desenvolvida na fase nacionalista, no entanto, vai entrar na obra de Cassiano como estrutura e instrumento de retórica, em virtude da necessidade de recuperação dos mitos formadores da brasilidade, sem os quais, a política não sobreviveria, segundo o próprio autor.
Martim Cererê (1928) é a retomada em várias versões do encontro das raças no
Brasil.203 Cassiano Ricardo utilizou, no decorrer do poema, diversos motes para alcançar a
mesma tônica: o encontro nupcial dos índios com os brancos e a aglutinação dos africanos a esse processo. Os navegadores europeus são considerados pelo poema como demiurgos que recebem as boas vidas dos nativos.204
Vale assinalar ainda que Cassiano Ricardo escolheu como epígrafe de Martim
Cererê (O Brasil dos meninos, dos poetas e dos heróis) uma formulação de Plínio Salgado
sobre o menino brasileiro, representação infantil da pátria, segundo Salgado:
202 A edição definitiva só surgirá mesmo com o falecimento do autor, em 1974. Até então, todas as edições
surgiram diferentes das anteriores.
203 O livro foi dedicado “À ALICE, flor de carinho para as minhas horas de inquietação e de procura, graça e
alegria do meu espírito ESTE LIVRO”, a primeira esposa do autor. Em 1929, Cassiano, já viúvo, casou-se pela segunda vez, com a irmã da primeira esposa.
204 A obra está dividida em sete partes com os seguintes subtítulos: Martim Cererê; a indígena formosa chamada
Uiara; chegou o dia português e quis casar com a uiara; a uiara lhe disse: vai buscar a noite; a noite veio... então nasceram os gigantes, heróis das três cores; a marcha dos soldados verdes; a minha xícara de café e o meu jornal.
Si ele foi o curumi das tabas, o moleque das senzalas, deve ser também o italianinho das nossas fazendas de café e o escoteiro das nossas escolas. É a criança travessa. E, como criança, é a própria imagem da Pátria.
O poema tem a narrativa em forma de lenda/fábula. Inicia-se com a descrição da vida de um menino tapuio inserido no ambiente da natureza tropical.205 O autor introduzirá o
poema com a presença dos brancos na terra. Logo em seguida, entra o negro.
Certa vez, depois que os brancos tomaram conta da terra
apareceu no mato um homem preto falando em mandinga e candonga. [...]
pegou o moleque selvagem que brincava no caminho! [...]
E como todo criador que quer fazer a criatura à sua imagem levou a criança travessa
p’ra sua mãe-preta criar. [...] Então o negro da Angola levou o garoto p’ra escola que o primeiro ioiô branco fundara junto ao barranco à borda do campo em flor. [...]
Hoje o Martim Cererê
é aluno do grupo escolar. E anda a jogar futebol
nas ruas cheias de sol (1928:3-5).206
205 A versão de 1932 parece mais carregada em termos de imagens e cores no sentido de descrever uma natureza
tropical exuberante, povoada de animais, plantas e rios.
206 Segundo o poema, o nome Martim Cererê seria uma mistura do martim pescador ou de Martim Afonso com
Aqui, são novamente as cores, os caracteres raciais e o largo processo de mestiçamento que identificam as personagens do poema e procuram construir uma imagem lírica de Brasil: a “indígena formosa” chamada Uiara; o português vindo do mar; o marujo branco; o morubixaba, dono da taba; a noite africana; o branco feiticeiro; a mãe-preta; o zambi; os gigantes, heróis das três cores; o índio; o herói negro; Manuel Preto; os soldados verdes; um grande exército colorido de imigrantes; o bacharel e a cabocla; o matuto; a preta
velha manquitola, dentre outros.207 Em tom de contador de histórias o narrador vai
descrevendo um a um seus personagens:
À noite, em redor da fogueira o pagé conta aos netos pequenos a história da “moça bonita
muito bonita, muito clara [...]” (1928:8).
Metáforas que transmudam animais ou seres humanos em fenômenos da natureza são experimentadas pelo autor, muitas delas certamente decorrentes de operações herdadas da fase parnasiana de Cassiano, reforçando a presença de um nacionalismo panteísta na obra do poeta.
A noite era uma onça mansa
que vinha brincar com a criança selvagem (1928:10).
Ou
Mas no outro dia
Saltavam os dias de papo amarelo De dentro do gravatá (1928:14).
207 Para Luiza Franco Moreira: “O relato da origem de uma nova raça, apresentado nas três primeiras seções
iniciais do livro, busca compor a imagem de uma harmonia de raças no Brasil. Cada grupo de poemas é antecedido de uma epígrafe em prosa que lhe formula o tema: a primeira seção focaliza os índios, a segunda os europeus e a terceira os negros. Nesta metade inicial, a narrativa enfatiza a contribuição das três raças para o Brasil. Para a figura materna, Cassiano aproveita um personagem folclórico: a bela Uiara, apresentada como ‘indígena formosa’. Ela encanta um marinheiro português mas, para se casar, impõe a condição de que ele traga a noite a seu país ‘matinal’. O marinheiro atravessa o mar e volta com a ‘noite africana’ em navios negreiros. Os filhos da Uiara e do marinheiro são a nova raça brasileira – ‘gigantes’, ou ainda ‘heróis das três cores’ que sintetizam as três raças. O relato dessa união mítica estabelece uma origem biológica não só para o povo brasileiro, mas, sobretudo para as relações raciais amorosas que predominariam no país” (2001:36).
Ou ainda
Aquela cruz meio torta de estrelas
que começou a cintilar sobre nossas cabeças dentro da noite fria era o prenúncio
da terra nova, abarrotada de surpresa, pronta a aceitar os foragidos de outras
pátrias,
os degredados que ficassem pela praia [...] (1928:18).
O que a leitura das obras da fase nacionalistas de Cassiano Ricardo mostra em considerável grau é o casamento do panteísmo místico com o imaginário sobre as raças no Brasil, sistematicamente praticado pelo poeta. Ao nosso ver, é exatamente esse panteísmo que permitirá associar, de forma subliminar, a terra-mãe, pela mediação da cor e sensações formais, ao elemento humano autóctone e às respectivas características psicológicas que vão se conectando de forma pautada, assim como ao português e ao negro.208 “Chegou o dia
português e quis casar com a uiara” (1928:15). O português, ou Pedro Álvares Cabral, é apresentado como o homem celeste e corajoso, “acostumado a segurar relâmpagos pela cauda” (1928:16). A raça africana é logo simbolizada como a noite distante a ser transportada pelo marujo branco, por exigência da bela uiara para o casamento: “A noite morava lá longe porque ao começo era só dia” (1928: 20).209
208 Muitas vezes a chamada “raça vermelha”, ou seja, os indígenas surge de forma oculta nos versos, pela alusão
à cor atribuída à terra/raça, cuja presença é subliminar. O autor faz um trocadilho entre gentil (autóctone) e gentil (característica psicológica), tipo de artifício que permitirá a conexão, mediante as identidades lingüísticas (sobretudo pelo uso de rimas), dos adjetivos raciais e, por extensão, de determinadas características com a identidade nacional. Dessa forma, haverá o trânsito de um campo semântico a outro por meio de semelhanças na percepção visual ou lingüística, costurando fragmentos díspares.
“E como a terra fosse de árvores vermelhas E se houvesse mostrado assaz gentil Deram-lhe o nome de Brasil.”
209 De outro lado, o dia será novamente associado aos brancos ou loiros.
Dia alemão porque louro demais saiu do quarto escuro.
E por sinal que ia esquecendo acesa a lâmpada da lua
Figura 7: Ilustração de Di Cavalcanti para o livro Martim
Cererê (1928).
A escravidão dos negros é representada na ilustração. Cassiano Ricardo poeticamente representa a raça africana por meio da analogia dos negros com “a noite”. (Exemplar pertencente ao acervo do IEB – USP)
A idéia de ser o Brasil uma terra pronta a ofertar frutos amarelos (ou “de ouro”) e a servir de abrigo a outros povos está presente no poema desde a primeira edição.
A questão da autoctonia e do enraizamento do homem será discutida por meio das inúmeras comparações poéticas que o autor fará entre os vegetais e o homem que se fixa na terra. No poema “Terra Amorosa” a própria terra reclama aos estrangeiros que partem a sua generosidade:
Quando vieste com fome, tremendo de frio, eu dei-te a carne dos meus frutos,
o conchego das plumas quentes, o mel puro [...] (1928:21).
A mãe-preta é lembrada em versos, assim como Pai João e a morte de Zambi, em diversos poemas que abordam os negros.210
210 O suicídio de Zambi é o desfecho do poema “A Morte do Zambi” (1928:25), em que negro e morte surgem,
Cada criança ainda em botão
chupava ao peito de carvão de uma ama escrava a alva espuma de um luar gostoso tão gostoso que o pequerrucho resmungava
pisca-piscando os olhinhos de topázio cheios de gozo (1928:23,24).
Figura 8: Ilustrações de Di Cavalcanti que retratam o encontro das raças no Brasil para Martim Cererê (1928).
Na representação das três raças, curiosamente, dois rifles são apontados para o índio e o negro, em referência à violência do processo colonial, em meio à impassibilidade dos rostos estampados e dos crucifixos católicos inseridos na imagem. A poética de Cassiano Ricardo procuraria, por sua vez, refletir a beleza e a harmonia da formação racial brasileira. Acervo do IEB – USP.
Os retratos dos heróis que nascem são pintados de diferentes materiais: a lápis vermelho, a carvão e a giz (1928:34).211 No entanto, a violência não está ausente do encontro
entre as raças:
E o luso das glórias marinhas
formando a legião das três raças em cruz, encheu de chumbo e relâmpagos
211 Em um só poema, Cassiano cita “Botafogo, Manuel Preto, Cunha Gago, Anhaguéra, Gato e Raposo”, como
o cano de seu arcabuz! Catapruz! (1928:35).
A árvore fará, novamente, em várias passagens, o papel de mediador entre o céu e a terra. O português e a uiara são comparados a duas “árvores agarradas uma na outra pelas mesmas raízes” (1928:39).
No entanto, note-se que, no plano simbólico, o casamento inaugural entre as raças acontece com a presença da raça negra, mas não por sua participação no cruzamento. Sua presença é apresentada no poema como crucial, porém ocorre à margem do casamento em si e da civilização que será fundada com o evento a partir do casamento inter-racial. Permanece associada ao plano da natureza.212
Metais e pedras preciosas estão presentes nos poemas.
Onde havia diamantes de todas as cores para a coroa de todos os reis.
E onde havia tanto ouro
que dava pra construir uns duzentos castelos ...e onde uma onça faminta
passeava os olhos amarelos... (1928:57).213
212 Cassiano associa à raça africana a “total” negritude.
Pituna é preta: pois cada preto
era mais preto que a Pituna asa de corvo ou de graúna não era mais preta do que preta mina que chegou no navio negreiro
que nem carvão pra oficina das raças (1928:48).
213 Cassiano Ricardo associa aos caboclos o bronze (1928/1932:106). Pedras e metais preciosos são associados
aos bandeirantes.
E o Tietê conta a história dos velhos gigantes, ao tempo em que S. Paulo colocava os sapatões atrás da porta.
e os sapatões amanheciam cheios de ouro... e os sapatões amanheciam cheios de esmeraldas...
e os sapatões amanheciam cheios de diamantes...(1928/1932:133).
Assim como há uma hierarquia entre metais e pedras preciosas mais ou menos valiosos, Cassiano parece sugerir uma hierarquia de valores entre as raças.
Os pés de café são comparados a soldados verdes (1928:61) a avançar em direção aos sertões. A história de Piratininga é especialmente enfocada, quando São Paulo e seus imigrantes são saudados.
Muitas vezes, a analogia entre espécie vegetal/noite/morte é sutil:
Em cada fronde abichornada dormia uma noite fechada
que ao receber a primeira foiçada, se desmanchou num orvalho de estrelas
de todas as cores! (1928:68).
As etapas de amadurecimento e secagem dos grãos de café são associadas às cores verde, amarelo, vermelho e preto (“vestidos de luto”) (1928:81). Campo e cidade encontram- se no comércio de café. Com sua xícara de café e seu jornal, símbolo da modernidade, o poeta especula:
Então eu penso em mil cousas bonitas. [...]
E vejo a primeira missa
num quadro de Victor Meirelles (Árvores apostólicas
erguiam os braços deixando cair em cachos
a manga da túnica verde) (1928:92).
Em “Marcha Final” as raças se encontram em um longo poema que encerra o livro, e toma como motivo inicial o imaginário cristão:
Quatro raças em cruz, Quatro pingos de sangue
feitos de luz. [...]
viu o Brasil que carregava sobre os hombros a cruz do descobrimento:
a cruz do cruzamento, a cruz da crucificação,
a cruz da minha devoção. [...] (1928:111).
Menotti Del Picchia, em comentário elogioso, à época da publicação da obra, esclarece sobre os materiais dos quais são feitas as três raças.
Nesta terceira edição de Martim Cererê, Cassiano Ricardo torna consciente o que a sua intuição de vate entrevira na concepção da formidável alegoria que há no casamento da Uiara (a terra ainda virgem) com o Mareante Branco (a civilização ocidental) precisando da Noite (o braço escravo) para tornar fecundo o simbólico himeneu.
O pensamento é alto e grandiosamente poemático. O Negro entra, assim, no caldeamento racial como carvão de pedra na liga dos metais ilustres. Sem ele não flui o jato de bronze líquido com que se fundem os super-homens e os heróis.
Somente os grandes poetas como Cassiano Ricardo sabem adivinhar e dizer essas coisas grandes em símbolos cegantes de majestade e de beleza (in RICARDO,1932:137).
Muitos anos mais tarde, Cassiano vai reafirmar a associação metafórica entre a noite e a raça africana, firmada em Martim Cererê.214
Os homens que vinham da África tinham a Noite na cor e no símbolo da pele. Provado que a noite havia chegado, a Uiara casa com o luso, cumprindo a promessa feita. Desse casamento racial nascem os “gigantes de
214 Na quarta edição, de 1934, de Martim Cererê, a descida dos Tupi, vindos das cordilheiras para o litoral é
enfocada por Cassiano Ricardo. O poeta se refere ao roteiro “d’oeste” (1934:148), cita trechos de Taunay (História Geral das Bandeiras Paulistas) e registra a presença dos negros em S.Paulo, nos primeiros séculos coloniais (1934:56). Com isso o autor procura fundamentar historicamente o seu poema. Os bandeirantes são aqueles que enfrentam uma natureza selvagem e assustadora de um Brasil virgem; a imagem de um sertão brasileiro vivo combatido por um bandeirante que abre e fixa os caminhos a serem trilhados é recolocada. Além de pesquisar maior número de elementos históricos, elementos “realistas” são incorporados aos poemas, como no caso de “O Navio Negreiro” (1934:43); a cor negra da noite é novamente relacionada aos africanos que chegam cobertos de “sujeira”, “encarvoados”.
Botas” que haviam de conquistar o Brasil, então chamado Pindorama ou “Terra Papagalorum” nos vetustos mapas da época (RICARDO, 1973:30).
Imagens anímicas serão ainda a forma de expressão mais freqüente para recriar o cenário interiorano brasileiro, mesmo nas edições posteriores de Martim Cererê. A presença dos africanos nos poemas também torna-se mais marcante à medida que as novas edições da obra vão surgindo.
O sertão ficava quieto...
Havia qualquer coisa de inenarravelmente humano No grito africano
Que punha alma na solidão do sertão...
E o mato ficava tranqüilo... E a onça preta descia
Pra ouvi-lo...(1928/1932:103)
As associações entre raças, cores e fenômenos naturais permanecerão como um dos principais parâmetros de organização do discurso de Cassiano Ricardo, quando o poeta apresentar a sua visão sobre a formação sócio-racial brasileira, como base e orientação para um projeto de estado, a partir da segunda metade da década de 1930.
Pouco depois da efervescência do movimento Verde-amarelo, em 31 de julho de 1929, tomaram posse na Academia Paulista de Letras: Afonso de d’Escragnolle Taunay, Alfredo Ellis Junior, Alfredo Pujol, Artur Mota, Cassiano Ricardo, Cleomenes Campos, Guilherme de Almeida, Léo Vaz, Lourenço Filho, Menotti Del Picchia, Otoniel Mota, Plínio Salgado, Rubens do Amaral, Sud Menucci e Veiga Miranda. Saudaram os ingressantes os veteranos Amadeu Amaral e Spencer Vampré, uma vez que o presidente honorário da Academia e também presidente do Estado de São Paulo, Júlio Prestes, não pôde comparecer.
Spencer Vampré, em seu discurso de recepção, afirmou ser a Academia uma instituição de culto à beleza e da arte pela arte e os ingressantes, nomes aclamados pela opinião pública. Sem dogmas e preconceitos literários, a Academia seria um lugar de acolhida de poetas, romancistas, historiadores, críticos ou jornalistas, educadores ou filólogos. Os
homens de letras comporiam um mundo de idealismo e de sonhos, jamais submetido ao puro materialismo prático.
Constituímos e devemos constituir sempre um templo em que só viva a Beleza, e em que não penetrem ódios, nem cismas, nem partidos, nem ambições, nem vaidades, nem lutas; templo em que o culto da língua e o culto da pátria, irmanados e identificados, em cada dia cresçam e resplendam (VAMPRÉ in Revista da APL, 12 de setembro de 1941).
Para os ideais acadêmicos defendidos até então, a política estaria oficialmente afastada da instituição, uma vez que a lida com o mundo prático ficaria fora dos horizontes dos letrados, ao menos do ponto de vista do discurso. A partir da década de 1930, esses ideais, mesmo enquanto discursos acadêmicos, tenderão, porém, a ser revistos, pois os políticos e os letrados explicitarão as intenções de aproximar um projeto político nacionalista em consonância com a instituição acadêmica, como se verá nos capítulos seguintes.
Canções de Minha Ternura foram poemas publicados por Cassiano Ricardo em
1930. Apesar de compilar alguns poemas da fase nacionalista, a maioria dos versos dialoga