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Este trabalho objetivou estudar e descrever as relações multiespécies envolvidas na existência e diversificação das mandiocas no entorno do Monte Pascoal através de um diálogo com os Pataxó, ou seja, investigar a resiliência do sistema agrícola num contexto atual de precariedade, devido a mudanças fundiárias bem como transformação e “modernização” da agricultura local e desmatamentos. Inspirei-me na ideia de que a diversificação e a manutenção das mandiocas se dão dentro de contextos históricos e de seus envolvimentos contínuos com outros seres e coisas no qual os humanos tem destaque, ou seja, mediante suas ações ambientalmente situadas. A hipótese central levantada é que a mandioca é uma espécie companheira, construída/construtora de/por um emaranhado de relações (que se mantiveram e que se estabeleceram) bem como agentes e participantes em suas coexistências. Isto faz com que sua resiliência ao longo do tempo passe a ser fruto de circunstâncias relacionais, que envolvem tanto sua relação com os humanos como com outros seres e organismos não humanos.

Convido o leitor a pensar nas mandiocas como espécies companheiras de forma que cada qual torna-se quem é num contexto relacional e de interdependência. Assim, torna-se interessante olhar para como a existência das mandiocas fazem coisas acontecerem, criam paisagens e transformam vidas que com elas se encontram, assim como as próprias mandiocas são transformadas nesses encontros.

Dentre as plantas cultivadas no Monte Pascoal escolhi trabalhar com as mandiocas porque além de ser a planta central no cultivo Pataxó esta planta é um bom exemplo de uma espécie companheira2 (HARAWAY, 2008), pois são vidas

intimamente associadas aos povos e grupos “marginais”, aos camponeses, e aos diversos grupos indígenas e tradicionais nas Américas, na África e na Ásia, ao mesmo tempo que adentrou em circuitos mercantis desde tempos coloniais. Estima- 2 Cabe adiantar que o uso do termo espécies companheiras não se refere apenas a companheiros no bom sentido como veremos adiante.

se que, atualmente, pelo menos 500 milhões de pessoas interagem direta e indiretamente com esta planta (FAO, IFAD 2000) – o que suspeito ainda ser um número subestimado. Mas não só: mandiocas são vidas-organismos interligadas à terra, à floresta, à água, ao vento, a animais, a fungos, a lua, a espíritos protetores e a outras plantas, como muitos camponeses e indígenas reconhecem e vem explicitando através de seus conhecimentos. Seu cultivo, processamento e usos vem fascinando arqueólogos, biólogos, agrônomos e antropólogos e, antes deles, os viajantes e naturalistas espanhóis, portugueses, franceses e holandeses que estiveram pelas Américas.

Entretanto na região do Monte Pascoal as condições que permitem a criação e a conservação da diversidade cultivada pelos agricultores locais estão se modificando drasticamente, e esse tema ainda não foi tratado diretamente pelos estudos científicos nem pelas políticas públicas, e a primeira porção de terra avistada por Pedro Alvares Cabral em 1500 e denominada como Monte Pascoal está envolta em séculos de contato e colonização que focaram o estabelecimento de uma economia agropastoril e madeireira na região, resultando na devastação da floresta, na apropriação das suas terras e recursos naturais por fazendeiros e madeireiros e conflitos que resultaram na morte de muitos habitantes locais (CARVALHO, 1977; CARDOSO; MODERCIN; PARRA, 2011) instalado uma condição de vida precária.

Embora se ouça sobre precariedade a todo momento, como nos lembra Tsing (2015 p.20), “seja nas noticias de pessoas perdendo empregos ou de gorilas à beira da extinção”, na maioria das vezes nós imaginamos que a precariedade seja uma exceção na forma de como o mundo funciona. Tsing (2015 p.20) defende que a precariedade é, na verdade, “a condição do nosso tempo, é a condição de seres vulneráveis a outros, ou ainda, vulneráveis a encontros imprevisíveis que nos transformam”. Dessa forma a autora reflete que devido ao fato de estarmos imersos em assembleias que estão em constantes mudanças, pensar através da precariedade muda a análise social porque torna evidente que o 'indeterminado' também torna a vida possível. Segundo coloca Buttler (2015, p. 31) uma condição

de vida precária implica justamente em “viver socialmente, isso é, o fato de que a vida de alguém está sempre, de alguma forma, na mão dos outros”.

No caso da região do Monte Pascoal, a precariedade também se coloca devido ao fato de que, contrapondo ao fato de ter sido o primeiro local da chegada dos colonizadores, o que poderia ter resultado em uma ocupação e destruição total da floresta, essa região abriga um dos maiores fragmentos florestais de Mata Atlântica da região do Sul da Bahia, que sofreu, a partir de meados do século passado, a implantação de unidades de conservação da natureza3sobrepondo-se

aos territórios tradicionalmente ocupados pelo povo Pataxó, gerando impedimento de sua permanecia e de suas plantas cultivadas. A proposta governamental teria sido justamente a proteção desses fragmentos, somada à importância histórica da região por ser considerada o ponto do “descobrimento do Brasil”. Tais eventos resultaram uma proibição da existência da mandioca dentro do Parque e, para os Pataxó, em um longo processo de perda territorial, dispersão, invisibilidade das pessoas (de seus saberes e práticas) e perda de elementos da biodiversidade terrestre, da água doce e agrícola, afetando severamente os sistemas agrícolas (CARDOSO; PARRA, 2010).

Apesar destes fatores, os Pataxó vêm se posicionando diante das questões relacionadas às dimensões socioculturais e ecológicas, que tem na retomada do território, na organização social e na valorização cultural (música, rituais, reconstrução da língua) suas maiores frentes de luta e conquistas visíveis. Os processos culturais ligados à alimentação também foram valorizados, numa perspectiva mais íntima, mais cotidiana, no seio da família e por professores engajados em dar visibilidade e repassar conhecimentos sobre a “cultura dos antigos” para um maior número de crianças e jovens (CARDOSO; PARRA, 2010), bem como na manutenção de espaços considerados “ilhas” de agrobiodiversidade e 3 Unidades de Conservação são, segundo a Lei nº 9.985, de 18 de julho de 2000 (Sistema Nacional de Unidades de Conservação – SNUC), “espaço territorial e seus recursos ambientais, incluindo as águas jurisdicionais, com características naturais relevantes, legalmente instituído pelo Poder Público, com objetivos de conservação e limites definidos, sob regime especial de administração, ao qual se aplicam garantias adequadas de proteção”. O território Pataxó de Barra Velha permanece sobreposto com o Parque Nacional do Monte Pascoal, em fase de revisão de limites e proposta de gestão compartilhada.

de redes sociais de circulação de germoplasma (CARDOSO; MODERCIN; PARRA, 2011; ARRUDA CAMPOS et al., 2012).

Um exemplo atual é o plano de gestão territorial que traz nas ações voltadas à agricultura: a produção de um banco de sementes tradicionais; a busca de sementes dentro do território; a visita e a formação de técnicos agrícolas; a valorização dos saberes tradicionais; a manutenção da roça tradicional diversificada e com agroflorestas (CARDOSO et al., 2012).

Trabalhos como os de Cardoso et al. (2011), realizado com os Pataxó de Barra Velha, e Arruda Campos et al. (2012), realizado com os Pataxó da terra indígena Mata Medonha e Cahy-Pequi, também apontam a manutenção de espaços considerados “ilhas” de agrobiodiversidade e as redes sociais de circulação de sementes como formas locais de manejo e conservação da diversidade agrícola.

Assim, ao pensar em formas de resiliência da mandioca em contextos precários para mim se tornou interessante perguntar: “que tipos de relações são possíveis entre mandiocas e Pataxó em tempo de extinções e condições de vida precárias?”.

Benzer Belgeler