3. TÜRKİYE’NİN KIRSAL KALKINMA DENEYİMİ
3.2. Planlı Dönemdeki Kırsal Kalkınma Çalışmaları
3.2.1. Kalkınma Planları
Segundo Prandi (2004, p.07. Grifo nosso), “caboclos, mestres e outras entidades conhecidas nas religiões afro-brasileiras pelo nome genérico de encantados, concebidos como espíritos de homens e mulheres que morreram ou então passaram diretamente deste mundo para um mundo mítico”, são entidades especialmente brasileiras, uma vez que os orixás, voduns e inquices são africanos. Um morador de uma das comunidades investigadas, a quem chamaremos Ezequiel, é médium e, desde criança, é perseguido por encantados. Diferente das dançadeiras e rezadeiras selecionadas, ele nunca participou do louvor de São Gonçalo, mas já assistiu e tem parentes na dança. No entanto, resolvemos falar sobre ele, porque a história de sua vida está muito ligada à religiosidade do Pêga, do Arrojado e do Engenho Novo.
Segundo os nossos informantes, Ezequiel, assim como a curandeira Conceição, chorou na barriga da mãe. Quando criança, sempre sonhava com alguém querendo levá-lo para outro mundo. Na adolescência, durante uma farinhada, ele foi buscar água no açude, para abastecer os tanques na casa de farinha, quando viu pela primeira vez um monstro. Esse monstro quis levá-lo consigo, mas desistiu, porque Ezequiel estava tangendo um animal com água. Chegando à casa de farinha, ele contou o incidente. Os homens da arranca fizeram uma busca no local, mas não encontraram nada. Exatamente um ano depois, transportando uma carga de mandioca, Ezequiel reencontrou o monstro. Outra vez a criatura ameaçou levá-lo, desistindo por causa do jumento que ele conduzia. Passado mais um tempo, Ezequiel reencontrou o monstro, que naquele instante o açoitou e ameaçou que, quando houvesse o quarto encontro, ele não escaparia. Aflito, o pai de Ezequiel, resolveu procurar ajuda. A curandeira Graça, na época muito jovem, disse que não podia auxiliá-lo. A família, então, recorreu a Seu Chagas que estava no Pêga. Segundo Perpétua,
Aí, de noite, Seu Chagas baixou sessão. Aí, os caboclo’ disse’: “Esse menino nasceu com uma sina de desencantar. Ele é médium de nascença. É médium de ciência. Ele nasceu com a sina de desencantar um encanto que tem aqui. Tem duas jovens e um jovem”. Aí, [Lázaro, o pai dele,] disse: “E não tem jeito p’ra cortar essa sina dele”. Disse: “Não. Não tem jeito. Se for p’ra cortar a sina dele, esse sítio aqui vai ficar só de choro e de horror. Ele [o monstro] ‘tá perseguindo ele, porque não quer que ele desencante essas jovem’” […]. Aí, Seu Chagas proibiu ele de descer aqui p’ra baixo: “Enquanto esse menino não completar dezoito ano’, não deixe ele descer. Porque, ele ‘tando com dezoito ano’, ele reage [ao monstro]”. (maio de 2005).
De acordo com os familiares de Ezequiel, após a sessão, Seu Chagas pediu sessenta mil réis para ensiná-lo a desenvolver a capacidade de comunicação com os espíritos. No entanto, a família não dispunha de tamanha quantia e, meses depois da sessão organizada por Seu Chagas, Ezequiel começou a receber espíritos, conforme falou-nos um parente seu:
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Isso era umas quatro da tarde. Era’ uns cinco p’ra pegar esse menino. Eu não ‘tendia nada, não sabia o que era. Aí, dissero’: “Ele ‘tá manifestado”. Ele ficava sentado numa cadeira. Aí, só era olhar p’ra um São Francisco que ‘tava na parede que ele se manifestava […]. Mudava a voz. Mudava tudo. Aí, baixou um caboclo, disse o nome e mandava nós cantar. E eu não sabia e ninguém sabia. [Um rapaz da comunidade] lutou de quatro e meia até doze hora’ da noite. Ele não levou uma queda. Agora, no próprio instante que [Lázaro] chegava perto dele, metia o rasteiro: “Olhe, é p’ra você nunca mais zombar”. Porque [Lázaro] não acreditava. Aí, quando deu dez hora’ da noite, aí, baixou a Princesa da Pedra Fina […]. Aí, baixou a Princesa Esmeralda […], baixava Ribamar […], baixava Tambor de mina […]. Sei que baixou 24 caboclo’. Aí, pronto, quando deu doze hora’ da noite, baixou o derradeiro e disse desse jeito: “De hoje a um mês, nós faz a mesma arrumação”. Aí, depois desse trabalho, Seu Chagas veio aqui de novo. Aí, ele disse que a desgraça [de Ezequiel é] que ele não ficou mais sabido porque nós não deixemo’ [ele entrar no açude]. Ele não ia morrer afogado, não. Ia apenas descarregar o corpo e nós não deixemo’ […]. O caboclo queria que ele fosse
tomar o banho. Se batizar na água. Daí, não tinha quem deixasse. Mas, nós não sabia’ […]. Quando terminou tudo, ele não lembrava de nada […]. Num ‘tava cansado, num sabia o que tinha acontecido […]. Quando foi com um mês bem justinho […], só deu tempo de entrar dentro de casa […], se manifestou de novo. Aí, trabalhou até sete da noite. Só baixando guia”. (Vitória, maio de 2005).
Ezequiel também incorporava o Chiquim’ do Maranhão, Zé Pelintra, o Índio, Cosme e Damião. Nesses momentos, ele assumia a personalidade da entidade que recebia, pedia objetos e curava aqueles que estavam a sua volta. “Ele sentava numa cadeira dessa, acendia uma vela, botava um copo e já contava tudo o que era da sua vida”, acrescenta Vitória.
Sem saber como lidar com Ezequiel, a sua família procurou outra curandeira, que resolveu levá-lo para a sua casa, no município de Olho d’Água dos Borges/RN. Quando voltou dessa estadia, Ezequiel, que antes só recebia “guia de luz”, passou a receber Exus e a tomar cachaça, sob a influência do caboclo Cibamba. Por não ter desenvolvido corretamente a sua capacidade de cura, Ezequiel sofre sob influência dos encantados. E hoje vagueia pelo município.
No seu depoimento sobre Ezequiel, Perpétua conclui: “Sei que esse dito foi perseguido por esse monstro, dizendo que era esse reinado que tinha aqui [...]. Também não sei se é verdade ou se é ilusão”. Ezequiel, diferente das rezadeiras e curandeiras selecionadas, não encontrou apoio nos outros curandeiros. Os familiares mais próximos dele acreditam que
essas pessoas não o ajudaram, porque temeram o seu “poder” de cura. Sentiram que Ezequiel era mais poderoso e, se fosse bem orientado, poderia agir contra eles. Nesse caso, prevaleceu a inveja e não a amizade.
Desse modo, observamos que, através das práticas de cura, a grande família se divide em pequenos grupos. Cada grupo tem a sua curandeira ou rezadeira de preferência, que assegura a ligação com um mundo sobrenatural, por meio das práticas de cura, e também com os santos católicos, através das novenas e da dança de São Gonçalo.