3. TÜRKİYE’NİN KIRSAL KALKINMA DENEYİMİ
3.2. Planlı Dönemdeki Kırsal Kalkınma Çalışmaları
3.2.3. Kırsal Kalkınmaya Yönelik Hibe ve Kredi Destekleri
Em Portalegre, a dança de São Gonçalo é composta por doze mulheres, as dançadeiras, e dois homens, os tocadores – um tocando viola e o outro, pandeiro. Todos dançam com roupas brancas e com os pés calçados. Os homens vestem calça e camisa. As mulheres usam vestidos,
sendo que seis delas enfeitam as suas roupas com fitas de cor azul e as outras seis, com fitas vermelhas3. Elas se arrumam com bijuterias – colares, pulseiras e brincos – e, em alguns casos, usam maquiagem – batom e pó facial. Os homens recebem o nome de chefes e as duas primeiras mulheres são as guias. Os chefes e as guias determinam o compasso da dança, escolhem e entoam os cânticos de cada jornada.
A distribuição dos participantes ocorre da seguinte forma:
Casa do devoto que fez a promessa
O altar com a imagem de São Gonçalo As dançadeiras
As guias Os tocadores
O altar com a imagem de São Gonçalo é arrumado próximo ou em frente à casa do devoto que fez a promessa ao santo. Para os devotos, uma legítima dança de São Gonçalo deve ser realizada diante da imagem que, há aproximadamente vinte anos, está sob a guarda da dançadeira Aldizes da Conceição, nascida no Pêga e residente na sede do município de Portalegre. É uma imagem esculpida na madeira, com aproximadamente 30cm de altura. Não
3Com relação às cores, a dança de São Gonçalo lembra o pastoril. Dividido em cordão azul e vermelho, Meyer
(1995) realizou uma pesquisa sobre as cavalhadas, cheganças e congadas. Segundo ela, a cor azul, presente nessas danças dramáticas, representa os Cristãos, enquanto o vermelho simboliza os Mouros. Em Portalegre, não conseguimos encontrar uma justificativa para essas cores. Inclusive, atualmente há dançadeiras que enfeitam os seus vestidos com fitas amarelas e verdes. Elas justificam que é apenas para embelezar o vestido.
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sabemos determinar desde quando essa imagem se encontra na comunidade. Segundo Valdete Ferreira, a referida imagem já pertencia a João do Pêga, por volta de 1825:
[João do Pêga] foi quem construiu aquele local de negro ali. Ele já tinha aquilo ali [a imagem]. Porque aquilo ali quem trouxeram foram os portugueses […]. Ela veio de Portugal. Todas as imagens daqui vieram de Portugal. Essas que tem aí [na Igreja], Nossa Senhora da Conceição, São José e São João, elas chegaram aqui, segundo a minha avó [Maria Rocha], no dia 8 de dezembro de 1762 […]. E veio através do porto de Areia Branca. Ela dizia, já dos outros mais velhos dizer a ela […]. Ninguém sabe como foi que eles conseguiram [a imagem de São Gonçalo]. Mas ela veio de Portugal. [Esta imagem] nunca veio p’ra igreja. Toda a vida ela pertenceu ao povo dessa dança de São Gonçalo […]. Antes [de Maria de Pretinha] tinha um guia, Joaquim de Maria Miguel. Era ele quem guardava. (outubro de 2004)4.
Maria de Pretinha – que não possui qualquer grau de consangüinidade com a atual guardiã – foi quem vendeu a imagem a Aldizes da Conceição5, que explica a aquisição do santo do seguinte modo:
uma vez ela [Maria de Pretinha] disse a eu que ‘tava vendo a hora chegar a oportunidade do povo tomar o santo e não devolver mais […]. Aí um dia ela perguntou a eu se eu não queria comprar aquele santo, trocar aquele santo pra mim. Porque eu era dançadeira de São Gonçalo […] e eu comprei o santo. […] Na hora que eu comprei o santo ela ficou muito satisfeita. Porque aquele santo só quem possuía era ela. Porque ele não possuía aqui em canto nenhum […].
Esse São Gonçalo é descendente dos antigos […]. Eu comprei pra depois [não
ter confusão, mas] ela tinha o direito de me dar. Ele não era da turma? Do grupo [que participa da dança]? (maio de 2004. Grifo nosso).
Diante das informações de Valdete e Aldizes, observamos que a imagem de São Gonçalo está associada à origem das comunidades estudadas. E, como os moradores dessas localidades se
4 Como já mencionamos, na imagem guardada por Aldizes, São Gonçalo está representado segurando uma bíblia e
estendendo uma das mãos. Já a dança de São Gonçalo na serra de São Miguel/RN é praticada diante da imagem do santo com a viola. O interessante é que, segundo Alceu Araújo, “os caipiras e caiçaras não concebem e não conhecem a imagem de São Gonçalo sem a viola na mão. Em Portugal, São Gonçalo do Amarante não traz consigo a viola. Só no Brasil! O São Gonçalo com a viola na mão é coisa brasileira! É uma contribuição nossa à religião”. Isso vem reforçar a idéia de que a imagem de São Gonçalo que se encontra em Portalegre veio realmente de Portugal. http://jangadabrasil.com.br/outubro14/fe14100c.htm. Acesso em outubro de 2004.
5 O que sabemos sobre Maria de Pretinha é que ela era da família de Joaquim Miguel, considerado um dos grandes
dançadores de São Gonçalo. Ela morava com Pretinha; daí, a sua alcunha. Pretinha era curandeira e dançadeira de São Gonçalo. A imagem pertencia a ela. Antes de falecer, ela repassou a imagem para Maria, que não dançava o São Gonçalo. Posteriormente, Maria de Pretinha vendeu para Aldizes.
denominam uma grande família, essa imagem pode ser considera como um totem, um ancestral comum, um emblema que caracteriza os habitantes do Pêga, do Arrojado e do Engenho Novo. A referida imagem também legitima as dançadeiras e os tocadores, conferindo-lhes o poder de interagir entre o santo e os seus devotos.
Por toda essa importância, muitas desejam ser a guardiã do santo, objetivando talvez adquirir maior status entre os membros do grupo. Esse desejo fica evidente na confissão de duas dançadeiras, as quais preferimos não identificar. A primeira disse: “toda vida pelejei muito p’ra comprar o São Gonçalo, mas não tinha o dinheiro p’ra comprar. Aí, Aldizes, quando deu fé, comprou”. Outra, com um pouco mais de ciúme, acrescenta: “Aquilo ela não comprou. Maria de Pretinha deu a ela […]. Maria de Pretinha adoeceu, caiu doente, né? Aí, ela chegou e pediu […]. Ela vivia tratando dela, tudo. Aí, pegou, deu. Mas, ela não comprou não. De jeito nenhum. Ela diz que comprou, né?”.
No início da fala, Aldizes menciona que a imagem é de todo o grupo. Sua compra não significou um monopólio e, sim, uma forma de garantir o direito de ser sua guardiã. No entanto, as pessoas referiram-se ao santo como sendo dela. Posteriormente, a própria Aldizes confessou: “eu comprei, por sinal, p’ra amanhã ou depois eu ter o direito daquele santo […]. Ele é meu porque eu comprei. Mas, se […] dissesse assim ‘Ela lhe deu’, todo mundo queria ter parte no santo. Mas é meu”. Ou seja, a compra garantiu-lhe a posse do santo. E essa posse lhe confere a posição de representante mais próxima de São Gonçalo aqui na terra, uma vez que ele mora em sua casa. Além disso, Aldizes deve ser informada de todas as apresentações da dança, pois cabe a ela emprestar a imagem. Diante de tantas responsabilidades, perguntamos se Aldizes já tinha pensado em quem a substituiria como guardiã da imagem, já que não tem filhos. Ela afirmou que era muito cedo para pensar nisso, pois estava muito bem de saúde. Ou seja, ser guardiã da imagem é uma função vitalícia e cabe à zeladora pressentir o momento de repassá-la6.
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Aldizes expõe na sala da sua casa inúmeras figuras do catolicismo. Todavia, a imagem de São Gonçalo não fica exposta. Como forma de protegê-la da cobiça, ela é guardada no fundo de uma estante e escondida por outros santos e jarros. É, sem dúvida, a imagem mais importante da casa. Por isso, tanto zelo e orgulho em guardá-la. Esse cuidado com São Gonçalo é visto também na hora de transportá-lo para apresentações da dança em Portalegre ou fora do município. Não é qualquer pessoa que pode transportá-lo. Geralmente, é Aldizes ou alguém da comunidade. Como Durkheim (1989, p.161) afirma, ao falar do churinga, esse cuidado existe “porque se trata de coisa de alto valor religioso e cuja perda lesaria gravemente a coletividade e os indivíduos”.
Queiroz (1973) e Cavignac (1999) lembram que, no sertão do Nordeste, a imagem do santo é, ao mesmo tempo, natural e sobrenatural. Ela é viva, tem poderes e age sobre os humanos. Conforme Queiroz (1973, p.85),
Relações de tipo familiar se estabelecem entre os devotos e os santos, principalmente entre o padroeiro doméstico e a família que o escolheu para patrono. O caboclo não concebe um santo longínquo, impessoal, habitando o paraíso e inteiramente invisível. Pelo contrário, o santo é muito humano e sua imagem torna-o inteiramente presente ao desenrolar da existência no grupo familiar.
Entendemos que a imagem de São Gonçalo acolhida por Aldizes traz harmonia à comunidade, porque não é o santo brigador e tem vida e sentimento. Por esse motivo, deve ser guardada e transportada com cuidado. Possui também a capacidade de repassar um pouco da sua importância à guardiã, o que justifica o desejo de possuí-la. É uma espécie de ancestral sagrado do grupo. Desse modo, pode ser considerada uma imagem totêmica e “cada pessoa está autorizada a usar como prova da identidade da família a qual pertence” (SCHOOLCRAFT apud DURKHEIM, 1989, p.152-153). E, se apenas os moradores do Pêga, do Arrojado e do Engenho Novo podem dançar o São Gonçalo, é porque “os ritos que se referem a um totem só podem ser realizados por pessoas desse totem”, já que existe uma afinidade e uma solidariedade entre eles (DURKHEIM, 1989, p.157).