A cidade de Osasco, diferentemente das anteriores, não oferta os anos finais do ensino fundamental na EJA, fato que significou um desafio inicial para a implantação do PROEJA FIC, tendo em vista que a carga horária do curso deveria ser contemplada no primeiro segmento da EJA. Contudo, a experiência de implantação dessa etapa do PROEJA FIC, no
A rede municipal de EJA está constituída há pelo menos 16 anos no município. Em 2012, a organização dos ciclos encontrava-se dividida em quatro séries, tendo a 1ª série a duração de um ano e a 2ª, 3ª e 4ª séries, a duração de um semestre cada uma. A grade curricular proposta para a EJA está organizada por áreas do conhecimento: Português, Matemática, Estudos da Sociedade e da Natureza, Linguagens artístico-culturais e tecnológicas, Religião e Educação Física (Osasco, 2009c, p.31).
Além da EJA, o município possui salas do Movimento de Alfabetização (MOVA) e também do programa denominado Orientação Profissional na Educação de Jovens e Adultos (OPEJA). A OPEJA é um programa que busca integrar a EJA a uma orientação profissional; não é seu objetivo formar os alunos para uma ocupação, mas realizar uma aproximação com o mundo do trabalho, tratando das relações que o permeiam. A orientação profissional é realizada por meio de oficinas em diferentes áreas profissionais, que possam se constituir como formas de geração de renda para os alunos. No ano de 2010, a maior parte da oferta foi constituída pela EJA, distribuída em 40 escolas, a OPEJA foi realizada em 10 escolas, com 20 turmas e o PROEJA-FIC desenvolveu-se em uma escola, com uma única turma. Em 2012, existiam 126 turmas de EJA, aproximadamente 100 turmas de OPEJA e duas turmas de PROEJA FIC, sendo uma no início do curso e outra, na conclusão.
Foram implantadas duas turmas de PROEJA FIC na cidade, uma em agosto de 2010 e outra no início de 2012, na EMEIF Colinas do Oeste. Durante a realização da pesquisa de campo, foi possível efetuar contato com a turma de 2012. Na implantação do PROEJA FIC, em 2010, o movimento de Reorientação Curricular da EJA (RECEJA) havia sido realizado na rede municipal, tendo seu início no ano de 2007 e conclusão em 2009, empreendido pelo Instituto Paulo Freire88, instituição contratada pelo município para tal finalidade.
O processo de reorientação curricular produziu três cadernos orientadores do currículo da EJA no município; tais cadernos são o material referencial dos professores, dividindo-se em “Caderno 1 – Reorientação Curricular da EJA em Osasco”, que traz principalmente os resultados de uma pesquisa sobre o perfil dos alunos, dos educadores e dos gestores da EJA; o “Caderno 2 – Princípios Curriculares Orientadores para a EJA”, que aborda o próprio processo de reorientação curricular empreendido a partir dos diferentes contextos da EJA (nacional e local), os princípios e diretrizes para a EJA e a concepção de currículo que se ampara notadamente na questão da cultura, considerando a cultura na escola, o educador
88 O Instituto Paulo Freire é uma associação civil sem fins lucrativos, criada em 1991 e instituída oficialmente
em 1992, com o objetivo de “[...] dar continuidade e reinventar o legado de Paulo Freire”. Constitui-se atualmente como uma rede internacional que integra 90 países. Informações disponíveis em: <http://www.paulofreire.org/institucional/>. Acesso em: 14 fev. 2013.
como criador de cultura e também a cultura trazida pelos alunos; “Caderno 3 – Proposta Curricular para a Educação de Jovens e Adultos do Município de Osasco”, que apresenta a concepção de currículo na EJA, os eixos curriculares que são: a) O currículo intertranscultural; b) O papel das diferentes linguagens no currículo da EJA; c) A dimensão socioambiental no currículo da EJA; d) A diversidade dos sujeitos e currículo; e) Orientação Profissional na EJA (OPEJA) em Osasco. Além dos eixos anunciados, o Caderno 3 também aborda a Estrutura e Funcionamento da EJA em Osasco, referindo-se aos espaços e tempos de aprendizagem, à estrutura curricular e ao sistema de avaliação; o Caderno trata também do Currículo em Ação, com enfoque nas questões metodológicas.
Observa-se que a parte destacada dos Cadernos destinada a tratar da OPEJA na rede municipal não aborda questões conceituais ou de referências curriculares para o município, talvez pelo fato de o programa, ainda nesse período, estar em processo de implantação nas escolas. Seu texto trata do histórico de constituição da OPEJA, da introdução da FIC no município via OPEJA e faz menção à existência, como projeto-piloto, de uma turma de EJA FIC em parceria com o IFSP e à participação da cidade no grupo de municípios reunidos em torno da implantação do PROEJA FIC.
Concomitantemente ao processo de reorientação curricular, a implantação da OPEJA desde 2008 induzia as escolas que atendiam a EJA a uma discussão sobre questões que apresentavam proximidade com o PROEJA. É preciso considerar também que a configuração da OPEJA contou com a participação de uma entidade parceira na sua realização, o Centro de Educação, Estudos e Pesquisas (CEEP), o qual contribuiu na formatação da oferta desses cursos.
No momento de implantação do PROEJA FIC havia o entendimento, expresso nos relatos de G5, de que a concepção presente no Programa se assemelhava à da OPEJA, situando a diferença no caráter dos Programas, uma vez que o PROEJA FIC pretendia se consolidar como política e trazia um elemento de vital importância, que a OPEJA desenvolvida no município não contemplava, qual seja, a certificação profissional. A gestora observa que a expectativa era a de que o PROEJA FIC, como política pública nacional, pudesse atingir amplos segmentos populacionais, dado que a oferta da OPEJA era circunscrita ao município, caracterizada pela intencionalidade de reconhecer, de alguma forma, os conhecimentos que os alunos possuíam no campo do trabalho, mas cujo certificado não auferia reconhecimento oficial.
As salas do PROEJA FIC se implantaram em uma unidade escolar que atendia, além de outras turmas de EJA, também as crianças dos anos iniciais do ensino fundamental. Os
professores da base comum do currículo que acompanhavam as turmas não se dividiam em outras turmas, pois se tratava do primeiro segmento da EJA, com um professor polivalente para cada uma. Estes professores eram concursados pela prefeitura, ou contratados em caráter temporário por meio de seleção pública, como foi o caso da professora que estava naquele momento com a turma. Os professores que acompanharam a formação profissional, contratados pelo CEEP na qualidade de celetistas, poderiam se dividir também entre as salas da OPEJA. Por ocasião da implantação da primeira turma, a entidade teve que buscar um professor que atendesse aos critérios estabelecidos pelo IFSP. Com relação aos materiais de consumo necessários ao curso, a compra também era realizada pelo CEEP.
No caso da turma formada em 2012, a organização do PROEJA FIC seguiu um desenho diferente da organização temporal do curso. Na proposta vigente no município, o aluno que entra para ser alfabetizado, cursará o primeiro segmento do ensino fundamental em dois anos e meio, sendo que as etapas correspondentes à 3ª e 4ª séries se completariam em um ano, um semestre para cada. Nessa condição, essas séries juntas seriam cumpridas em 800 horas anuais. Como a carga horária do PROEJA FIC prevê 1200 horas de formação geral e 200 de formação profissional, na oferta da turma foi comunicado aos alunos que, para atender às especificidades e receber o certificado do Programa, seria necessário cursar o que seria a 4ª série no período de um ano. Caso os estudantes apresentassem condições de aprovação para o segundo ciclo do ensino fundamental, e quisessem dar prosseguimento à nova etapa, não poderiam receber a certificação do curso, sendo que o histórico escolar os habilitaria para a continuidade dos estudos. Segundo VD1, isso não se constituía em problema, posto que devido à baixa oferta do segundo ciclo da EJA na rede estadual de educação, fazia-se comum aos alunos, diante da perspectiva de deixarem de estudar, mesmo em condições de serem aprovados para a etapa seguinte, solicitarem a permanência no curso da EJA. A turma em questão contava, em termos formais de matrícula, com 3 alunos que estavam cursando a 3ª série, além dos que cursavam o que seria o correspondente à 4ª série em um ano. A classe referente à 3ª série aguardava aprovação do IFSP para ser incorporada como PROEJA FIC e caso não fosse possível a permanência do curso, ele se converteria em uma turma de OPEJA.
O acesso dos alunos ao Programa foi promovido no ato da matrícula na 4ª série, quando foram informados sobre as condições para viabilizar sua participação. Dessa forma, as 1200 horas da formação geral foram contabilizadas tendo por base os primeiros anos do ensino fundamental. De acordo com informações levantadas junto aos participantes, as vagas oferecidas já se encontravam formatadas com o curso de pintura. Na implantação da primeira
turma do Programa na unidade escolar, divulgou-se que a formação seria realizada em curso integrado e, ao se matricularem, os alunos estavam cientes dessa condição.
Outra característica particular que o curso assumiu, refere-se à distribuição semanal de aulas das áreas de conhecimento da base comum e da formação profissional, sendo três dias para a primeira e dois dias para a FIC. A princípio, a pesquisadora levantou a hipótese de que tal configuração buscasse oportunizar aos alunos a possibilidade de acesso aos conteúdos próprios da formação profissional, de forma que, ao saírem do curso antes de seu término, pudessem ter se apropriado de boa parte de seu conteúdo. No entanto, foi possível observar pelas informações colhidas, que isso se devia mais a uma questão de adequação dos horários dos professores para o atendimento das turmas.
O PROEJA FIC não possuía um currículo próprio; assim como as demais salas de EJA, as referências para o currículo seriam aquelas proporcionadas pelos Cadernos da RECEJA. Orientados pela ideia do currículo em ação, desenvolvida nas turmas da OPEJA, não existia proposta curricular, construída a priori, com vistas à integração. Os professores de ambas as áreas se reuniam diariamente, por meio do Horário de Trabalho Pedagógico (HTP), das 18h00 às 19h00, e discutiam a integração no desenvolvimento do curso. A responsabilidade pelo acompanhamento dos professores era da vice-diretora, uma vez que a coordenadora pedagógica da escola acompanhava o desenvolvimento do ensino fundamental nos horários da manhã e da tarde. Era sua responsabilidade acompanhar não só os professores do PROEJA FIC, mas também os das demais salas de EJA. Dada a inexperiência da vice- diretora na área, foi destacada uma pessoa da equipe da Divisão de Educação de Jovens e Adultos da Secretaria de Educação para realizar o acompanhamento do Programa, a qual participava das discussões do grupo de municípios do PROEJA FIC junto ao IFSP, para quinzenalmente, no horário do HTP, poder orientar os professores e realizar formação referente às necessidades do Programa na escola. Assim como os professores, a vice-diretora participava das formações a fim de se apropriar das discussões. No caso do CEEP, os seus professores realizavam, além desses encontros, formações específicas organizadas semanalmente pela entidade.
A OPEJA trabalhava, inicialmente, com a dupla docência, ou seja, ambos os professores, da formação profissional e da base comum, atuavam juntos em todas as aulas. Segundo a gestão, essa era a forma pensada para tentar garantir a integração curricular. No caso do PROEJA FIC, isso não ocorreu, tendo em vista que, com a ampliação da OPEJA, não foi possível manter o modelo.
No PROEJA FIC, busca-se a integração por meio da interação entre os professores; de acordo com G5, o professor da formação profissional apresentava os conteúdos técnicos propostos e planejava, juntamente com a professora da base comum, como trabalhá-los em relação ao que fora proposto por ela. De acordo com P10, os planejamentos eram pensados mensalmente. Durante visita à escola, foi solicitado um planejamento no qual pudesse ser observado como os professores estavam construindo essa integração. Apesar de ter indicado a periodicidade mensal do planejamento foi apresentado, a título de exemplo, o planejamento do segundo semestre de 2012, em um formulário cedido pelo CEEP, que segue representado abaixo no Quadro 2:
Quadro 2 - Planejamento semestral do PROEJA FIC – 2º semestre de 2012 – EJA 4ª série
OBJETIVOS CONTEÚDOS ESTRATÉGIAS
Levar os educandos a fazer cálculos sistematizados; Conscientizar e preservar o meio ambiente. Medidas de comprimento; medidas de área; volume; lixo; solo; água; doenças transmitidas através da poluição do lixo, solo, água;
reciclagem; tinta terra; noção sobre a composição da tinta látex. Desenho de plantas arquitetônicas; restauração da maquete;
usar o computador para
pesquisas;
trabalhos manuais com
recicláveis;
formação de grupos em
sala para pesquisas;
trabalhar o texto de
Tinta da Terra, através de texto científico;
confecção de tinta de
terra e fazer um mosaico.
Fonte: Arquivo pessoal da docente (P10) – EMEIEF Colinas do Oeste.
Como se pode observar, há o esforço em relacionar os conteúdos tratados a partir dos conteúdos técnicos, o que se dá no campo da metodologia pedagógica, por meio de estratégias didáticas que convergem os conteúdos.
Quanto à atuação do IFSP junto ao município na supervisão e formação, o professor da profissionalização informou que chegou a participar apenas de um encontro no IFSP. De acordo com G5, as coordenadoras do campus Guarulhos estiveram presentes duas vezes no município, sendo uma delas em visita à escola, na qual conversaram com a vice-diretora, professores e alunos. De acordo com VD1, os contatos com o campus se referem quase que exclusivamente às questões operacionais do curso.
No que concerne à certificação, G5 informou que até aquele momento (dezembro de 2012) a cidade de Osasco ainda não havia recebido os certificados dos alunos da experiência-
piloto, nem da turma de PROEJA FIC, finalizada no primeiro semestre de 2012. A turma de 2012, no mês de outubro, contava com 17 alunos frequentes.