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2.1. Şiirlerin Yapı, Şekil ve Muhteva Bakımından İncelenmesi

2.1.2. Yapı ve Şekil

2.1.2.3. Kafiye

A Cena 3 se inicia com um som percussivo que interrompe a música cantada por Ceição e pelos primos. Ao findar a modinha que cantavam, primo Argemiro expressa, mais uma vez a sua esperança de ser curado:

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A música polifônica utiliza-se de uma técnica de composição onde várias vozes são sobrepostas, cada uma com um caráter melódico e rítmico individualizado, diferentemente da música monofônica, onde há apenas uma voz ou são desenvolvidas várias vozes em uníssono ou à distâncias de oitavas.

Olhe, Primo, se um dia a gente ainda puder sarar, eu ainda hei de plantar uma roça que trepa pro espigão. Deve de ser bom a gente puder capinar lá em riba de manhã cedinho. E tem uma Noruega lá atrás cheia de samambaia e parasita roxa. Eu havia de fazer uma roça de três quartas, mas com uns cinco camaradas no eito todo mundo puxando e cantando... êeeeeeee Pica-pau, êee êee Pica-Pau (VASCONCELOS, 1992, p. 08).

Entretanto, Ribeiro o corta rispidamente, sempre com ar sisudo, como se estivesse o repreendendo: “Pra quê, primo Argemiro? A gente não tem nem pra quem deixar. Nem vizinhos” (VASCONCELOS, 1992, p. 08). Nesse momento, luz do palco escurece e os focos de Ribeiro, de Argemiro, que agora não se encontra mais no tronco, da cozinha de Ceição e do jardim são reforçados. A iluminação desse momento reforça a ideia de flash- back, e primo Argemiro que antes expressava planos para um futuro onde estaria curado, passa a voltar-se para o seu passado. É quando passa a recordar a chegada da epidemia da malária naquele lugar em que vivem:

Tapera do arraial. Deixaram largado o povoado inteiro. Casa, chalé, capela, três vendinhas, um sobradinho, um cemitério. E a rua sozinha, comprida, que agora nem mais rua é. É uma estrada de tanto que o mato entupiu. Foi um ano de tristeza (VASCONCELOS, 1992, p. 09).

Nesse momento, Ribeiro sai do tronco e caminha de cócoras até o jardim e pega um pequenino jarro de flor. O jardim de flores é o único espaço onde podemos perceber a presença do colorido dentro da cena. De acordo com Chevalier e Gheerbrant (2009, p. 512): “O jardim é um símbolo do paraíso terrestre, do Cosmo de que ele é o centro, do Paraíso celeste, de que é a representação, dos estados espirituais, que correspondem às vivências paradisíacas”. Segundo a Bíblia, no livro do Gênesis, o Paraíso terrestre, cultivado por Adão, era um jardim, o Éden. Dessa forma, indo até ao jardim, Ribeiro parece buscar um passado onde havia felicidade e vida naquele lugarejo, parece querer ir ao encontro do paraíso, onde há a presença da mulher amada. Esse é o único momento do espetáculo em que um dos personagens interage com o espaço do jardim. É como se Ribeiro pegasse no jardim um pouco de vida para ele. Vida esta que está ligada ao passado, às suas memórias, ao amor de Luísa. O jardim está presente, também, nas temáticas amorosas e é compreendido, muitas vezes, como um lugar de repouso idílico. Dessa maneira, a ida de Ribeiro ao jardim pode representar o refúgio para a sua dor ou a busca da mulher amada na forma de uma flor, visto que o jardim também pode representar a expressão de um desejo. Sobre isso, afirmam Chevalier e Gheerbrant (2009, p. 514-515):

“O jardim designa, muitas vezes, para o homem, a parte sexual do corpo feminino”. A expressão de profundo encantamento que Ribeiro tem no momento em que pega o jarrinho de flor, como se tomasse a própria mulher amada em seus braços, confirma essa relação entre o jardim e a expressão do seu desejo mais intenso, que é Luísa.

Logo após o momento em que Ribeiro segura o jarro de flor, Argemiro forma uma pequena fogueira com os gravetinhos que Ceição havia deixado no chão e sopra, como se quisesse criar fogo. Ceição e Ribeiro matam mosquitos no ar com as palmas das mãos. O som do sopro de Argemiro, das palmas das mãos de Ceição e Ribeiro e do pássaro segue um ritmo e forma uma música. Por trás da cena, o Capeta toca o seu marimbau e vocaliza uma melodia triste e funesta, o que traz um aspecto sobrenatural para a música que os outros personagens estavam a construir com os seus movimentos. Sobre o uso desse tipo de recurso sonoro na cena, afirma Coelho Netto (1978, p. 114): “As associações rítmicas ou melódicas ligadas a certos gêneros de música (...) podem servir para evocar a atmosfera, o lugar ou a época da ação”. Nesse momento do espetáculo, essas combinações sonoras surgem criando uma atmosfera sinistra que tem a ver com a relação que há entre o mosquito e o Capeta. De acordo com Chevalier e Gheerbrant (2009, p. 623), o mosquito “procura obstinadamente violar a vida íntima de sua vítima e se alimenta do seu sangue”. É o que parece desejar o Capeta, sempre a atormentar os primos com os seus sons, em diversos momentos do espetáculo: interferir na vida dos primos, causando-lhes sofrimento. O mosquito da malária, especificamente, é associado à Esfinge que previu o destino de Édipo:

Um historiador grego da mitologia acha que a famosa esfinge de Tebas, virgem de unhas curvas, de cantos enigmáticos (Sófocles), esse monstro que propunha enigmas aos passantes e os devorava, não era senão o mosquito da malária. O monstro morreu quando Édipo resolveu o enigma secando os pântanos através de

um sistema de drenagem”. (...) De outro lado, o pântano é um dos símbolos do

Inconsciente. Este não libera as suas águas mortas que fermentam e que

multiplicam os mosquitos a não ser que sejam abertos canais; esses canais do inconsciente são as vias de expressão de si mesmo, os sonhos, a palavra, a poesia, a pintura, a música (CHEVALIER E GHEERBRANT, 2009, p. 623).

Dessa maneira, podem-se entender os sortilégios que aparecem a todo instante no espetáculo, como os ditos dessa Esfinge, que assume a forma do mosquito. Nesse sentido, em Vau da Sarapalha, o mosquito também pode ser associado ao próprio Capeta, e os pântanos, ao inconsciente dos primos, que através de sentimentos de culpa e de mágoas

não liberam as suas próprias águas mortas que atraem o mosquito (o monstro, o Capeta, os seus sofrimentos). As lembranças de Luísa surgem trazidas por essas águas mortas, como um desejo atormentado, como um desatino, como os delírios febris causados pela maleita, como consequência da picada do mosquito e como uma tentação do demônio, afinal, mosquito e Capeta confundem-se em sons e ambos provocam o sofrimento dos primos.