A fim de uma melhor compreensão do processo pelo qual o filho adulto passa até
constituir-se como tal, faz-se necessário olhar para a etapa da vida que o antecede: a
juventude. Ao olharmos para os processos biológicos pelos quais as pessoas passam, pode-
se dizer que a adolescência e a juventude sempre existiram. Porém, foi apenas em torno dos
anos 1900 que a “juventude”, então sinônimo de adolescência, começa a aparecer na
Europa como tema literário e como foco de interesse de moralistas, de políticos e de
pesquisas que se preocupavam em sondar o que pensavam esses jovens. Segundo Ariès
(1981), a juventude apareceu como depositária de valores novos e capazes de renovar a
sociedade velha em que viviam.
Nos Estados Unidos, foi na segunda metade do século XIX que ela começou a ser
discernida socialmente. Essa noção de juventude que hoje permeia a sociedade
contemporânea nasceu associada à identificação de uma “cultura adolescente”, relacionada
à princípio com os problemas sociais que dela originavam-se, como por exemplo as atitudes
delinqüentes dos jovens imigrantes. A legislação que definia a idade com que os
adolescentes poderiam trabalhar, o surgimento da família contemporânea e o
correspondente aumento da dependência dos jovens em relação às suas famílias de origem
e as casas de correção para menores, foram contribuindo para esse olhar diferenciado em
relação à juventude (PAIS, 2003).
A partir da década de 1950, tem início nos Estados Unidos um expressivo
movimento de ascensão jovem, principalmente entre as camadas médias e altas da
população. Uma identidade própria é constituída em torno dessa etapa da vida humana e
uma consciência etária é delimitada, marcando a identificação entre os grupos jovens e os
não jovens. No Brasil, a resistência ao golpe de 1964 e os movimentos da época contra a
ditadura militar, eram liderados por jovens, fossem eles estudantes, artistas ou intelectuais.
No que diz respeito aos limites etários da juventude, a Organização Mundial da
Saúde a considera compreendida entre 15 e 24 anos. A partir de então o jovem ingressaria
na vida adulta. No entanto, essa classificação homogeneiza a vivência da juventude, não
levando em consideração as variações segundo localização, cultura, classes sociais, raça,
gênero, entre outras. Foi durante as décadas de 1980 e 1990 que o olhar da diversidade
ganhou destaque e apesar dos limites etários o conceito de diferentes “juventudes” passou a
ser priorizado no lugar daquele que focava nas suas similaridades e supunha a existência de
uma “juventude” no singular.
De acordo com Camarano (2004), o limite inferior da idade da juventude está
relacionado com o desenvolvimento das funções sexuais e reprodutivas. O limite superior
que marca a transição para a vida adulta refere-se ao momento da conclusão do ciclo da
educação formal, da inserção no mercado de trabalho e da saída da casa dos pais. Segundo
Salomoni (2006), “tornar-se adulto é um processo que, seguramente, não pode ser fixado
dentro de uma faixa etária única, por ser gradual e variável” (p.37). Pais (2003) sugere que
o estatuto de adulto que os jovens vão adquirindo está relacionado a uma série de
responsabilidades: ocupacional (trabalho fixo e remunerado), familiar e habitacional.
Porém, o mesmo autor ressalta que ao considerarmos a juventude na sua diversidade, os
caminhos que a levam para a vida adulta também se mostrarão flexíveis e diversificados e
devem levar em conta inclusive os novos arranjos nas composições das famílias. “O
processo tradicional de transição – escolarizar-se, entrar no mercado de trabalho, sair da
casa dos pais, casar-se e ter filhos – não ocorre hoje, necessariamente, nessa ordem”
(CAMARANO, 2004, p.18).
Um exemplo que retrata bem essa realidade de múltiplas transições são as
“trajetórias ioiôs”, como têm sido chamadas, uma vez que assim como o movimento do ioiô
de idas e vindas, assim tem sido a trajetória de muitos jovens que alternam entre o sistema
educativo e o mercado de trabalho, entre viver em casa própria e na casa dos pais ou ainda
entre a conjugalidade e a vida de solteiro (PAIS, 2005).
Em conseqüência dessas diversidades, o período de transição para a vida adulta tem
aumentado em grande parte do mundo. Camarano (2003), conclui em sua pesquisa que, nos
20 anos em que a analisou (de 1981 a 2001), a transição para a vida adulta ficou mais
difícil. O tempo da saída do filho da casa dos pais, um dos aspectos que marca esse período
de transição, tem sido adiado, contribuindo para difundir a idéia do “prolongamento da
juventude” (PAIS, 2005; JABLONSKI; FÉRES-CARNEIRO; HENRIQUES, 2004;
CÂMARA, 1999). De acordo com Pais (2005):
Na verdade, como os jovens tendem a prolongar a estadia na casa dos pais, adiam a assunção plena do estatuto de adulto (estatuto, não identidade), quando ancorados a passagens estatutárias tradicionais (casamento e parentalidade, por exemplo) ou na adoção de comportamentos ‘adultos’ socialmente prescritos (p.112).
Um outro fenômeno ligado ao período do prolongamento da juventude tem sido
conhecido como “adultescência” (JABLONSKI, 2005; OUTEIRAL, 1994). Esse termo faz
a união das palavras adulto e adolescência e caracteriza aquela pessoa adulta, geralmente
com idade superior aos 35 anos, que continua imbuído nos padrões de uma cultura jovem.
O psicanalista Contardo Calligaris em artigo publicado sobre o tema em 20 de setembro de
1998 no caderno Mais! da Folha de São Paulo, afirma que em nossa sociedade moderna a
adolescência tornou-se um ideal da vida adulta.
Maria Rita Kehl, na mesma reportagem, discorre sobre a “teenagização” da cultura
ocidental. De acordo com a escritora e psicanalista:
O adulto que se espelha em ideais “teen” se sente desconfortável ante a responsabilidade de tirar suas conclusões sobre a vida e passá-las a seus descendentes. Isso significa que a vaga de “adulto” , na nossa cultura, está desocupada. Ninguém quer estar “do lado de lá”, o lado careta, do conflito de gerações, de modo que o tal conflito, bem ou mal, se dissipou. Mães e pais dançam rock, funk e reggae como seus filhos, fazem comentários cúmplices sobre sexo e drogas, freqüentemente posicionam-se do lado da transgressão nos conflitos com a escola e com as instituições (p.7).