O “ninho cheio” é um fenômeno que tem sido mundialmente percebido e
caracteriza-se pelo aumento do tempo de permanência do filho adulto na casa dos pais.
Pais, Cairns e Pappámikail (2005), pesquisando sobre a transição para a vida adulta
de jovens europeus distribuídos pelo Reino Unido, Alemanha, Portugal, Espanha, Itália,
Holanda, Dinamarca e Bulgária, constataram que apesar das diferenças entre os países, é
notório, quando comparado com as gerações predecessoras, o crescimento do
prolongamento do período de residência e dependência de muitos jovens em relação a suas
famílias de origem.
Nos Estados Unidos e no Canadá muito se tem falado sobre a “geração
bumerangue”, também responsável pelo enchimento do ninho. A socióloga Mitchell (2005)
define o fenômeno como a volta dos filhos para a casa dos pais depois da entrada no mundo
adulto.
Na pesquisa “Ninho Cheio: A permanência do adulto jovem em sua família de
origem”, Silveira (2004), buscando identificar os motivos que levam o adulto jovem
solteiro seguir morando com os pais, constatou, ao entrevistar filhos nas idades de 27 a 35
anos pertencentes a camadas médias populacionais da cidade de Porto Alegre, motivações
explícitas e implícitas. Dentre as explícitas aparece a dificuldade de entrada no mercado de
trabalho e da conquista de salários melhores, aliadas à dificuldade de deixar de desfrutar do
conforto e da segurança que o lar parental oferece. Já as motivações implícitas, dizem
respeito às tarefas familiares não cumpridas ao longo do ciclo vital que se arrastam e
acabam dificultando a emancipação física e emocional do filho em relação à família.
Cerveny e Oliveira (2002), em sua pesquisa sobre o ciclo vital, criaram a categoria
“cuidando de um ninho que não se esvazia”, ao caracterizarem as famílias na fase madura
do ciclo. O termo “ninho cheio” apareceu mais recentemente na literatura em oposição ao
termo utilizado para o estágio do ciclo vital já consolidado nas teorias psicológicas
denominado “ninho vazio”. Esse estágio, também conhecido como “síndrome do ninho
vazio”, conforme referido anteriormente, pressupõe que a saída dos filhos da casa dos pais
seja uma transição bastante negativa, particularmente para as mães, uma vez que são as
cuidadoras primárias (CARTER; MCGOLDRICK, 2001).
Kublikowski (2001), em sua pesquisa intitulada “A meia idade feminina em seus
significados: o olhar da complexidade”, que culminou em tese de doutorado, não encontrou
entre as mulheres pesquisadas o sentimento do “ninho vazio”, uma vez que os papéis
maternos ainda estavam em ação. De acordo com a autora, a “síndrome do ninho vazio” é
uma entidade em extinção, “pela ampliação do âmbito feminino de atuação, por
adolescências prolongadas e por filhos que retornam à família de origem, acompanhados de
netos” (p.220). Ainda segundo a pesquisadora, o “ninho vazio” pode representar para as
mulheres a possibilidade da retomada de um tempo e espaço para si, sendo inclusive
desejado.
O aumento do tempo de escolarização, principalmente no que diz respeito às pós
graduações tão comuns de serem seguidas pelos jovens das camadas populacionais médias
e altas e a difícil inserção no mercado de trabalho nos tempos atuais, sem dúvida têm
contribuído para o crescimento do fenômeno do “ninho cheio”. No entanto, tem sido
avaliada a possibilidade da escolha do próprio filho adulto em continuar morando na casa
dos pais, mesmo com a independência financeira atingida (CAMARANO, 2004;
JABLONSKI; FÉRES-CARNEIRO; HENRIQUES, 2004; SILVEIRA, 2004). Essa escolha
é parte do que caracteriza a “geração canguru”. Nesse caso, as comodidades do lar parental
somadas à liberdade geralmente oferecida pelos pais nessa fase da vida, contribuem para o
prolongamento da convivência familiar, apesar de já possuírem a condição financeira para
saírem de casa.
Além disso, é comum os filhos “cangurus” nessas camadas populacionais buscarem
salários condizentes com seus títulos e especializações, não se contentando com o primeiro
emprego que lhes ofereça independência, mas desejando muitas vezes uma renda que possa
lhes proporcionar um padrão de vida semelhante ao que tinham na casa dos pais. Por outro
lado, podem acomodar-se, tendo em vista o quadro de abundância que desfrutam em suas
casas. Essas situações influenciam em uma manutenção da condição de desemprego ou de
instabilidade profissional, retardando o tempo de encontro de um trabalho satisfatório que
possibilite a saída da casa dos pais.
O fenômeno da “geração canguru” é construído na interação entre as esferas da
família e do contexto social (JABLONSKI; FÉRES-CARNEIRO; HENRIQUES, 2004).
Pesquisando sobre o tema em sua dissertação de mestrado apresentada na PUC-RS,
Henriques (2003) constatou fatores intra-familiares e extra-familiares relacionados à
constituição da geração canguru: as escolhas profissionais não ligadas diretamente às
oportunidades do mercado de trabalho, a permissão para o sexo na casa dos pais, o conforto
desfrutado com o padrão de vida da casa do pais, o adiamento do casamento e a diminuição
das exigências e expectativas nos compromissos afetivos entre os pares, bem como a
dificuldade de separação entre pais e filhos.
Sendo assim, o jovem adulto – diante do quadro de incertezas referente ao mundo do trabalho, das experiências afetivas e do mundo social – estaria optando por permanecer na casa paterna. Com isso evitaria possíveis conflitos ao se confrontar com a dura realidade fora dos domínios da família [...] Existiria no jovem adulto o medo de não encontrar um lugar estável na sociedade e no mundo do trabalho. Com isso, o espaço familiar tempera de alguma forma as dificuldades enfrentadas por esses indivíduos na vida social (JABLONSKI; FÉRES-CARNEIRO; HENRIQUES, 2004, p. 13).
Segundo o artigo intitulado “Geração canguru influencia romance” (COSTA, 2006),
o perfil do filho canguru diz respeito ao jovem na faixa etária entre 25 e 35 anos, com
condições econômicas para ter sua própria vida, mas que prefere prolongar a permanência
na casa dos pais. Namoram ou são noivos há anos e, em certos casos, não planejam
oficializar a relação. Nesse mesmo artigo, a psicóloga Costa (2006) discorre a respeito de
sua pesquisa sobre o filho canguru, na qual, apesar de ter enfocado o público masculino,
afirma não ter encontrado diferenças significativas de gênero ao comparar os seus
resultados com outras pesquisas que levaram em consideração a filha mulher.
No que diz respeito às conseqüências emocionais do fenômeno “canguru” para os
filhos adultos, estudiosos e pesquisadores da área concordam sobre a falta de uma
autonomia adequada que os mesmos possam apresentar, influenciando em um sentimento
de desorientação e de dependência emocional por parte dos filhos (JABLONSKI, 2005;
SILVEIRA, 2004; HENRIQUES, 2003; PAIS, 2003; LOPES, 1999).
É importante ressaltar que a geração canguru desconsidera os filhos adultos que
moram com os pais por falta de condições financeiras ou porque precisam cuidar dos pais
ou familiares. De acordo com o artigo “A doce vida dos cangurus” publicado na revista
Galileu (1999), nem todo jovem que more com os pais pode ser rotulado de filho-canguru,
principalmente se o mesmo ainda não saiu de casa porque está estudando ou porque ainda
não conseguiu um emprego.
Na presente pesquisa consideraremos a geração canguru aquela constituída dos
filhos adultos solteiros, homens e mulheres com idade superior aos 27 anos e inferior aos
36 anos, que ainda residem na casa dos pais apesar de já possuírem a condição financeira
para saírem.
CAPÍTULO 4
Belgede
Sultan II. Abdülhamid Dönemi: Doğu Anadolu toplumsal ve siyasi politikalar
(sayfa 45-49)