Ainda que existam discordâncias metodológicas, vários estudos confirmaram que as taxas de sobreeducação permaneceram altas em décadas recentes (DALY et al., 2000; GROOT e MAASSEN van den BRINK, 2000), e também que nem todos os trabalhadores são igualmente afetados, pois aspectos demográficos tais como gênero e raça são também importantes para compreender as probabilidades do trabalhador ser classificado como sobreeducado (CLOGG e SHOCHEY, 1984). Além disso, um ponto pacífico é a concordância de que os trabalhadores jovens e menos experientes apresentam maiores probabilidades de serem incluídos na proporção de sobreeducados. Os estudos evidenciaram que trabalhadores com menos de 30 anos possuíam maiores taxas de sobreeducação do que aqueles em faixa etária de 30 anos ou mais (CLOGG e SHOCHEY, 1984; SICHERMAN, 1991).
Para McGoldrick & Robst (1996), a literatura mostra claro discernimento de que existem substanciais diferenças entre homens e mulheres no mercado de trabalho. E uma das diferenças mais investigadas consiste no diferencial de salários entre homens e mulheres. Uma das possíveis razões para o diferencial se baseia na limitada mobilidade geográfica das mulheres casadas, discutida por Frank (1978), em sua teoria do diferencial de sobrequalificação. A mobilidade da família é uma decisão conjunta, na qual as necessidades do marido e da esposa são equilibradas para maximizar o bem estar da família. Realocações motivadas pelo trabalho são geralmente realizadas para beneficiar o indivíduo de maior renda na família, e isto
conduz a uma busca por emprego mais restrita para quem aufere renda menor, o qual deve restringir a sua busca a uma área geográfica limitada. Assim, Frank (1978) teria predito que as mulheres, mais precisamente as casadas, estariam sujeitas a maior incidência de sobreeducação do que os homens. Todavia, esta predição não foi suficientemente comprovada pelas evidências empíricas.
De acordo com a análise de McGoldrick & Robst (1996), de modo geral o diferencial homem-mulher depende da medida da escolaridade requerida. Se utilizada auto-resposta, as mulheres apresentam maior probabilidade de sobreeducação; ou seja, as mulheres precisam de mais escolaridade para exercer as ocupações do que os homens. No caso dos desvios em relação à média, as mulheres apresentaram menos probabilidade de sobreeducação. Isto pode indicar que os homens têm melhores empregos dentro de uma ocupação. Não foram encontradas diferenças significativas com a utilização de Job Analysis. Também não foi validada a suposição de Frank (1978) da existência de diferenciais de sobrequalificação associados ao tamanho do mercado de trabalho. O tamanho do mercado de trabalho não foi importante para os homens. Esse resultado é consistente com a idéia de que a área geográfica da procura por emprego dos homens é mais ampla. Outros resultados são bastante consistentes com estudos prévios. Trabalhadores com mais treinamentos profissionais mostraram menor probabilidade de serem sobreeducados, enquanto aqueles com mais escolaridade foram associados a maiores probabilidades. Na média, tanto homens quanto mulheres apresentaram excedentes de qualificação, ou seja, os anos de estudo dos indivíduos têm superado a escolaridade requerida pelas ocupações (McGOLDRICK & ROBST, 1996).
Büchel & Battu (2002) usaram dados de trabalhadores da Alemanha, com idade entre 16 e 65 anos e educação superior completa, para testar a teoria do diferencial de sobrequalificação, ampliando a abordagem de McGoldrick & Robst (1996), ao introduzir controles dos deslocamentos das pessoas residentes em localidades menores. Constataram que maiores possibilidades de deslocamento tenderiam a reduzir sensivelmente a probabilidade de sobreeducação. Os coeficientes analisados sugeriram diferenças de gênero significativas, sendo que as mulheres casadas apresentaram maiores riscos de sobreeducação relativamente às mulheres solteiras e aos homens (casados ou não), e esse resultado se agravaria para as mulheres casadas residentes em localidades menores. Contudo, este último
resultado não obteve significância estatística suficiente para suportar a teoria do diferencial de sobrequalificação, tal como predito por Frank (1978), assim como diversos estudos europeus também falharam na tentativa de encontrar significância estatística nos relacionamentos entre gênero e sobrequalificação (BATTU & SLOANE, 2002; CHEVALIER, 2000; DOLTON & SILLES, 2001).
Outro tipo de impasse para os estudiosos se refere às diferenças étnicas na incidência da sobreeducação. Uma motivação para esse tipo de análise pode ser o impacto da discriminação racial nas alocações no mercado de trabalho, uma vez que determinados grupos étnicos classicamente apresentam menos qualificações do que outros. As pesquisas indicam que os não brancos apresentam níveis mais altos de desemprego, alocação ocupacional mais baixa, menores rendimentos do trabalho, e proporções mais altas de sobreeducados do que a população branca (BATTU e SLOANE, 2002; RAFFERTY & DALE, 2008).
O relacionamento negativo entre a idade e a probabilidade da sobreeducação também encontra lugar de destaque na literatura e em relatórios de entidades oficiais (CHEVALIER, 2000; GREEN & McINTOSH, 2002; ILO, 2010). No relatório Global Employment Trends for Youth8, de agosto de 2010, a Organização Internacional do Trabalho ressaltou que a informação sobre o mercado de trabalho, assim como a análise da oferta e demanda, pode fornecer um quadro elucidativo das barreiras que afetam as possibilidades de emprego das pessoas mais jovens. Conforme ilustrado na Figura 3, foram identificadas diversas barreiras enfrentadas pelos jovens no mercado de trabalho, dentre as quais figuram as barreiras relacionadas às incompatibilidades entre qualificação e ocupação, que prejudicam a busca por emprego devido à carência de competências adequadas. Segundo o estudo, as qualificações (técnicas ou não) que os empregadores exigem não se compatibilizam com aquelas possuídas pela população potencial de trabalhadores (ILO, 2010).
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Figura 3: Principais Barreiras para Inserção dos Jovens no Mercado de Trabalho
Fonte: Adaptado de ILO (2010).
As outras barreiras indicadas estão ligadas a (ILO, 2010):
(i) mudanças na demanda por trabalho, lembrando que um crescimento econômico insuficiente ou que não resulte em expansão do emprego pode afetar não apenas o desemprego dos jovens pela alta rotatividade e instabilidade, mas também suas expectativas e atitudes em relação ao trabalho e responsabilidades em geral;
(ii) assimetrias de informação entre os trabalhadores que estão na busca por emprego e potenciais empregadores. Combinações inadequadas de trabalhador e ocupação geram alocações sub-ótimas, especialmente entre os trabalhadores menos qualificados que não possuem acesso aos
canais de informação e ao capital social. Outra dificuldade deriva da sinalização deficiente, que limita a capacidade dos candidatos a emprego em informar aos empregadores sobre o seu nível de qualificação. Em muitos países, especialmente nos desenvolvidos, o alcance de novo nível educacional não tem muito sentido no mercado de trabalho se os empregadores não estão atentos ao que isto significa em termos de qualificação para o trabalho;
(iii) deficiências para geração e desenvolvimento de novos negócios, principalmente, pela dificuldade de acesso ao capital financeiro, físico e social. Jovens empreendedores enfrentam diversas barreiras para iniciar um negócio, especialmente quando sua iniciativa se orienta mais pela necessidade do que propriamente pela escolha, dado a falta de oportunidades no setor formal de emprego ou educação.
A análise dessas barreiras faz compreender que a sobreeducação é potencialmente onerosa para a economia, para a firma e para o indivíduo. Em nível macroeconômico, o bem-estar é potencialmente mais baixo do que deveria ser caso as qualificações de todos os trabalhadores sobreeducados fosse inteiramente utilizada. Além disso, pode estar ocorrendo alocação de recursos para formar indivíduos em modelos educacionais não produtivos. Para as firmas, existem evidências de que a sobreeducação pode estar associada com baixa produtividade. Como indivíduos, os trabalhadores sobreeducados possivelmente são remunerados com retornos menores do que os adequados. Podem ainda incorrer em custos não transitórios associados com baixos níveis de satisfação no emprego (COHN e KAHN, 1995; DALY et al., 2000; HARTOG, 2000; McGUINESS, 2006; RUMBERGER, 1987).