1 2 ESNEKLİĞİN ÇALIŞMA HAYATINDAKİ YANSIMALAR
1.3. ESNEKLİĞİN ORTAYA ÇIKIŞINDA ETKİLİ OLAN FAKTÖRLER
1.3.1. Ekonomik Faktörler
1.3.1.2. Küreselleşme ve Rekabet
A partir desse diálogo, pode-se notar que os personagens estão provavelmente assistindo a um jogo pela televisão, já que se ouvem, ao fundo, sons de gritos de torcida. A atividade de sentar em frente à televisão e receber passivamente a informação é bastante comum nas sociedades ocidentais. Trata-se de uma cultura de massa, a qual atinge um grande número de pessoas, justamente pela televisão estar presente na maioria das moradias. Por atrair a atenção facilmente, ocupa um espaço significativo na vida das pessoas, levando-as à fácil recepção da informação que geralmente chega até elas de maneira simplificada. Nos programas veiculados por esse meio, a noção da lei do menor esforço é predominante: quanto mais fácil se chega à compreensão, melhor para o telespectador e maior será a audiência. Nesse sentido, muitas vezes as pessoas passam horas em frente à televisão, acomodadas, apenas observando o que se passa nos programas escolhidos aleatoriamente, momento em que o custo do processamento mental é baixo e o benefício, quase nulo. Esse é o argumento sustentado por Petta (2005):
Ligar a TV é um vício quase irracional. Quando a gente menos percebe, puff..., já está de controle remoto na mão. Pense bem: como você escolhe o que ver? Procura alguma coisa interessante na programação? Provavelmente não. Deve fazer como todo mundo: liga a TV e sai procurando algo para ver. E lá se vai a tranqüilidade: nossos pensamentos já não nos pertencem mais.
(PETTA, 2005, p. 22)
Essa afirmação é comprovada ao se observar a posição dos rapazes, sentados inertes em frente à televisão: ‘A’ e ‘B’ parecem estar hipnotizados pelo que está sendo transmitido; seus pensamentos são tomados pelo (falta de) conteúdo ali transmitido. Além disso, a fala reticente de ambos demonstra que estão em um nível alto de distração.
Na primeira parte do diálogo, ‘A’ atende ao telefone e percebe, pela voz, que é um amigo (‘B’). A expressão “What’s up”, pronunciada como “wassup”, “wizaa” e até mesmo “sup”, tem várias interpretações possíveis, todas elas servindo como uma maneira de cumprimentar alguém informalmente. O uso desse elemento é marca lingüística de uma fala que indica proximidade entre interlocutores. Por isso, “sup?”, redução de “wassup?”, é um estímulo ostensivo lançado pelo falante ‘B’ para chamar a atenção e envolver seu ouvinte no
ato comunicativo. Segundo a Teoria da Relevância, um ato ostensivo leva a efeitos cognitivos relevantes, os quais requerem o mínimo de esforço de processamento. Esses são adquiridos a partir de suposições usadas como premissas num cálculo não-trivial, derivando implicações contextuais, fortalecimento ou eliminação de suposições, construídas a partir da união das informações presentes no ambiente cognitivo do ouvinte com aquelas advindas do input recebido. Assim é formado o contexto inicial no filme em questão. Ao ouvir a expressão “wassup” (ou “sup”) de ‘B’, ‘A’ imediatamente acessa as informações estocadas em sua memória enciclopédica para então devolvê-la ao seu interlocutor também sob a forma de cumprimento.
Descrito o ponto de partida dessa interação, verificar-se-ão, nesse momento, as inferências internas do comercial; isto é, serão descritas a situação e as prováveis inferências geradas no ambiente cognitivo de cada indivíduo envolvido na interação. Para facilitar a análise, toda a comunicação dos interlocutores foi dividida em duas partes, indicada no roteiro por (1) e (2). Da primeira, já descrita acima, o interlocutor ‘A’ pode construir em seu ambiente cognitivo as seguintes suposições:
S1 – ‘B’, que é meu amigo, me ligou. S2 – Está passando “o jogo”.
S3 – Provavelmente ‘B’ esteja assistindo ao jogo também. S4 – Ele diz que está assistindo ao jogo.
Essas premissas permitem que ‘A’ chegue à seguinte conclusão implicada: C – Eu e ‘B’ estamos assistindo ao mesmo jogo.
Ao dizer “True, true”, ‘A’ na verdade não quer dizer que algo está certo, mas apenas dar indicações de atenção para a fala de ‘B’. Esse tipo de sinal, demonstrado por Yule (1996, p. 75) como sendo um backchannel, provém uma resposta ao falante de que a mensagem está sendo recebida. Constata-se, pela falta de movimento corporal, pelo olhar parado de ambos os personagens e, principalmente, pelas falas de ‘A’ e ‘B’ poucos esforços de processamento da informação. Os efeitos cognitivos de ‘B’ para ‘A’ são, também, mínimos: não se verifica enfraquecimento de suposições, nem implicação contextual. Há, provavelmente, o fortalecimento da suposição de que o amigo estaria assistindo ao mesmo jogo, já que, em suas falas, utilizam o artigo definido (the), indicando o fato de um jogo específico estar passando naquele momento ser manifesto mutuamente no ambiente cognitivo de ambos. Isso é corroborado pela segunda fala de ‘B’, que praticamente repete o que foi dito pelo seu
interlocutor. Por isso, ao constatar a superficialidade das informações da primeira parte do diálogo, ‘A’ pode formular a seguinte suposição:
S5 – ‘B’ me ligou para ter contato com alguém.
Aqui, para os rapazes não interessa o que foi dito: o benefício afetivo é o único alcançado nessa interação.
Pela evolução das falas, é possível perceber que o sentido da expressão “Wassup?” toma diferentes formas, mas todas elas têm a função de saudar um amigo. Na primeira parte do diálogo, ela tem o sentido de “Oi, o que está fazendo”, o que pode ser inferido pela resposta de ambos. Já na segunda parte, a expressão é utilizada de maneira abusiva, indicando redundância, o que leva à questão de economia do esforço do outro. Segundo a Teoria da Relevância, o falante sempre lança um estímulo que ele acredita levar seu ouvinte a fazer pouco esforço para que ele chegue à intenção comunicativa pretendida. Ao utilizar a mesma expressão num contexto informal, no qual todos têm proximidade, pode-se defini-la como uma forma de transmitir afetividade.
A partir da segunda parte, pode-se notar que o diálogo segue se desenvolvendo da mesma forma, mas com mais interlocutores. O fato do item lexical “wassup?” ser repetido por todos – mesmo que com variações de sentido e de sonoridade – demonstra que ele é usado e compreendido pelos rapazes, sendo essa informação manifesta no ambiente cognitivo mutuamente compartilhado. Isso indica também que o custo de processamento mental é baixo, cada um obtendo apenas o benefício afetivo de interagir com alguém que conhece bem. No entanto, não há nenhum efeito cognitivo do tipo informativo nessa interação, pois não há acréscimo, alteração ou supressão de informações no ambiente cognitivo dos envolvidos na comunicação. Ao final, quando apenas ‘A e ‘B’ continuam na linha, eles repetem suas falas iniciais, denunciando sua busca por um custo de processamento mental baixo, mesmo que o benefício desse diálogo seja quase nulo.
Refletindo sobre essa primeira situação-tipo e considerando-se as avaliações feitas acerca da relação esforço e efeito em comunicação prevista pela Teoria da Relevância, podem-se salientar alguns aspectos referentes às questões de esforço de processamento e de efeitos cognitivos, conforme preconizados nessa teoria. Para Sperber & Wilson (1995), é preciso uma medida comparativa entre esforço e efeitos cognitivos, mesmo que essa seja apenas aproximada. No entanto, os autores não descrevem como isso ocorre. Como o esforço de processamento pode ser determinado pela complexidade lingüística, cada participante da interação acima descrita, partindo do pressuposto de que os outros conhecem a expressão
“Wassup?”, fornece um estímulo que leva os ouvintes a um esforço mínimo, mas ao mesmo tempo com benefício quase zero também. Assim, nesse caso a relevância deve ser mínima, ou nula. No entanto, ao comunicar-se com o outro, sua intenção é apenas a de entrar em contato com alguém. Por esse motivo, mesmo que o custo de repetir a mesma frase tenha sido muito pequeno, o benefício afetivo parece ter sido maior, e, por isso, a interação tornou-se relevante no que diz respeito ao campo emotivo. Aqui, observa-se um ponto crucial para a Teoria da Relevância: se o falante tem uma intenção comunicativa de tornar mutuamente manifesto para sua audiência a sua intenção informativa, ele tem também o propósito de alterar o ambiente cognitivo do ouvinte. O que ocorre no diálogo não é um acréscimo de informações, mas um fortalecimento no grau de afetividade entre os interlocutores. Contudo, se afetividade pode ser considerada benefício cognitivo, da mesma forma que uma informação nova ou um conhecimento que chega ao ambiente cognitivo do ouvinte para alterá-lo, contradizê-lo ou fortalecê-lo, então a noção de efeitos cognitivos é generalizada, o que desafia a noção de relevância, tornando-a trivial. Assim, pensa-se que os seres humanos não buscam só a relevância em suas relações, mas procuram, em primeiro lugar, ter contato uns com os outros37.