4. KÜRESELLEŞME SÜRECİ ve ULUS DEVLET
4.5. Küreselleşen Ticaret
Conforme mencionado na introdução do trabalho, Jane F. Fulcher (2005)
coloca o período do entreguerras como o ápice do engajamento político por parte dos compositores franceses. Foi o momento em que a consciência do papel de artista-intelectual apareceu de modo mais claro. Se a postura oficial atuava decisivamente na política cultural, criando representações simbólicas no âmbito da música, Milhaud tomou seu lugar, respondendo com sua atuação às ações culturais que se estabeleciam, posicionando-se em relação à crítica – positiva ou negativa –, assumindo ele próprio o papel de artista-intelectual, politicamente atuante.
Apesar de sua longa carreira como compositor, Milhaud permaneceu sempre associado ao Groupe des Six – mesmo com o curto período de existência do grupo – e, consequentemente, ao Neoclassicismo. Na verdade, Milhaud foi além da postura ideológica associada a esses rótulos. Ele criou seu próprio caminho, seu estilo, sua reinterpretação dos ideais de tradição e de clássico, tão fortemente assimilados como características francesas no entreguerras.
De 1909 a 1914, Milhaud foi aluno no Conservatoire. Ele atribuiu ao fato de ter estudado com Gédalge o seu apego à melodia como elemento mais importante da técnica composicional. Ainda durante esse período, ele se interessou por pesquisar a música dos mais diversos autores, até mesmo a de Schoenberg, que ele estudava por meio das partituras que adquiria. Lembremos que ele foi da primeira geração que estudou sob as novas diretrizes pedagógicas então implantadas por Fauré, com grande ênfase nos estudos históricos. No Conservatoire, Milhaud decidiu largar seus estudos de violino para dedicar-se exclusivamente à atividade de compositor.
54
“Onde já os processos de simultaneidade sonora podem assumir maior caracter nacional é na polifonia” (ANDRADE, 1962, p. 52).
O período que vai até o início da Primeira Guerra Mundial é visto como a época de formação de Milhaud, compositor que praticamente inicia a sua carreira após o choque causado pela estreia d’A Sagração da Primavera.
O tempo em que Milhaud permaneceu no Brasil (de fevereiro de 1917 a novembro de 1918) é considerado central na sua formação. Após a estada no Brasil, ele voltou à França e uniu-se ao Groupe de Six. Foi uma época de intensa produtividade como compositor. Tanto Barbara L. Kelly (2003) quanto Manoel Corrêa do Lago (2010) consideram o período de 1917 a 1922 como o mais importante da carreira de Milhaud, pela relevância, pelo destaque e pelo caráter inovador das obras produzidas.
A partir de 1922, com a desintegração do Groupe des Six, Milhaud assume seu lugar atuante como compositor dos mais importantes em relação à posição político- ideológica, não apenas por meio da sua atuação no campo da produção musical, na composição e na regência, mas como intelectual que se posiciona de forma ativa no cenário da música francesa. Ele atuou, ao longo da sua carreira, em importantes realizações como professor e palestrante, na França e no exterior. É de grande interesse para que se entenda a sua postura, enquanto compositor que assume o seu lugar no âmbito da produção simbólica, durante o auge do nacionalismo na França, a grande quantidade de textos sobre música que passou a escrever. Por meio de tais trabalhos, pode-se compreender a posição assumida por Milhaud no conturbado cenário da música francesa daquele momento.
Na década de 1920, Milhaud alinhou-se com a chamada “geração de 1914” e assumiu uma postura de rebeldia em relação ao nacionalismo exacerbado herdado dos anos da Primeira Guerra Mundial pela política cultural oficial. Apesar da sua ligação com o Groupe des Six, Milhaud nunca compartilhou do radicalismo nacionalista de Jean Cocteau, mantendo uma postura mais associada a Satie, à esquerda, aos universalistas, aos dadaístas, aos surrealistas, menos radical e mais aberta aos compositores estrangeiros.
A subversão da vanguarda dos anos 20 tornou-se a postura oficial na década seguinte, quando então Milhaud passou a ser visto como compositor consagrado na França. Se na década de 1920, grande parte de suas obras foram estreadas no exterior, nos anos 30 ele passa a ter maior espaço no cenário musical francês, tendo suas peças executadas não mais em locais secundários e fora do circuito oficial, como os concertos promovidos por Wiéner, mas nos espaços consagrados e
tradicionais. Inclusive suas óperas passaram a ser encenadas na França. Nos anos 30, seu estilo tornara-se alinhado com a tendência dominante. Não era mais considerado subversivo, revolucionário, agressivo. As reconstruções identitárias da década de 1930 levaram à assimilação da vanguarda dos anos 20 no âmbito da tradição da música francesa. Naquele momento, Milhaud viveu seu período de consagração no cenário musical francês.
Na década de 1930, Milhaud teve importante atuação junto à política cultural oficial, sobretudo durante o governo esquerdista e antifacista da chamada “Frente Popular”, que durou de 1936 a 1938. A Terceira República, de tendência socialista nesse período, deu grande importância à difusão da cultura criando programas e atividades que atingissem as massas. Foi a época da chamada “cultura do espetáculo”, em que apresentações grandiosas para grandes públicos eram idealizadas. As grandes “festas” promovidas visavam à defesa e à divulgação da cultura nacional, associando o governo republicano à imagem de “modernidade, tecnologia e esplendor” (FULCHER, 2005, p. 199).
Darius Milhaud associou-se à política cultural oficial, colaborando com diversos trabalhos. Ele foi o compositor do Groupe des Six que se engajou de maneira mais ativa naquele momento. Tal posicionamento representou o ápice da carreira de Milhaud, permitindo-lhe o suporte oficial, sua atuação de forma mais abrangente e a consagração como compositor francês. Na época, Milhaud escreveu peças para diversos eventos oficiais como, por exemplo, a inauguração do Museu do Homem, ocasião em que apresentou a Cantate pour l’inauguration du Musée de l’Homme, e a Exposição Universal, ambas ocorridas em 1937. Hélène Hoppenot, em comentário deixado em seus diários, comentou sobre a mudança de atitude em relação a Milhaud, por ocasião da apresentação realizada na mencionada inauguração do Museu do Homem:
Henri Monnet e Georges Henri Rivière55 assistem. Eles esqueceram que durante muito tempo esnobaram Darius, omitindo seu nome nos programas oficiais. “É um charlatão da música”, diziam. Atualmente: “é o músico da Frente Popular”. A reviravolta deu-se após a chegada em Paris de Kurt Weil (que eles admiravam). Colocaram-no essa questão: “quem é o melhor músico francês em sua opinião?” Ele os olhou, surpreso: “vejamos! Vocês tem apenas um grande músico: Darius Milhaud” (MILHAUD; HOPPENOT, 2005, p. 148-149, tradução nossa).
55
O papel governamental ativo em relação a programas pedagógicos e artísticos colocados em prática na Alemanha durante a República de Wiemar serviram de referência para Milhaud, aos outros compositores do Groupe de Six e à política cultural oficial do governo da Frente Popular. Durante esse período a música teve um importante papel como instrumento de educação e difusão de valores às massas. Para Milhaud, que se assume como intelectual responsável pelo seu papel político e social, era necessário atuar junto ao governo e alinhar-se com essa postura de democratização da cultura. Foi uma época de explosão de atividades culturais e ao intelectual cabia assumir sua posição de intermediário entre a alta cultura e o povo. Mantendo tal atitude, Milhaud posicionou-se contra o fascismo, assumindo sua origem judaica, e compôs uma peça especialmente para o congresso da “Liga Internacional contra o Antissemitismo”, realizado em 1937 (FULCHER, 2005, p. 231).
Milhaud teve participação ativa também junto ao Loisir Musicaux de la Jeunesse, instituição ligada à educação musical de jovens, que visava à ampliação do ensino de música. Segundo Jane F. Fulcher (loc. cit.), esse grupo tinha uma provável inspiração no modelo educacional da República de Weimar56. Correspondendo aos ideais de resgate do passado, dos estudos de história da música, do apego à tradição, esse grupo de educação musical de jovens possibilitou a criação de um conjunto de “música antiga” e o aparecimento do primeiro quarteto de flautas doce na França do século XX57 (FULCHER, op. cit., p 232).
Essa fase da carreira de Milhaud, de intensa produção e alinhamento com a política cultural oficial, foi bruscamente interrompida pelo crescimento do nazismo e do consequente antissemitismo trazido pela eclosão da Segunda Guerra Mundial, que o obrigou a deixar a França rapidamente rumo aos Estados Unidos em 1940.
56
Analogia pode ser feita também com o trabalho desenvolvido por Villa-Lobos durante o governo de Getúlio Vargas, assunto sobre o qual discorreremos adiante.
57
As reconstituições históricas e a formação de grupos de música antiga são criações do século XX, como uma consequência da visão de resgate do passado e da busca pela autenticidade, ideias trazidas pela ampla valorização dos estudos históricos, atitude reforçada pela estética neoclássica.